A Pirmide Vermelha
OS VOLUNTRIOS......................................................................................................................6


UM
UMA MORTE NA AGULHA...................................................................................................8

DOIS
UMA EXPLOSO PARA O NATAL...................................................................................16

TRS
APRISIONADA COM MINHA GATA.........................................................................22

QUATRO
SEQUESTRADA POR UM NO-TO-ESTRANHO.......................................................27

CINCO
NS CONHECEMOS O MACACO......................................................................................32

SEIS
CAF DA MANH COM UM CROCODILO....................................................................38

SETE
DERRUBO UM HOMENZINHO DE CABEA.................................................................49

OITO
MUFFIN BRINCA COM FACAS..........................................................................................59

NOVE
NS FUGIMOS DE QUATRO CARAS DE SAIA.............................................................64

DEZ
BAST FICA VERDE................................................................................................................68

ONZE
NS CONHECEMOS O LANA-CHAMAS HUMANO.................................................72

DOZE
UM PULO ATRAVS DA AMPULHETA..........................................................................78

TREZE
EU ENCARO O PERU ASSASSINO....................................................................................81
CATORZE
UM FRANCS QUASE NOS MATA...................................................................................87

QUINZE
UMA FESTA DE ANIVERSRIO DOS DEUSES.............................................................93

DEZESSEIS
COMO ZIA PERDEU SUAS SOMBRANCELHAS.........................................................100

DEZESSETE
UMA VIAGEM RUIM A PARIS.........................................................................................109

DEZOITO
QUANDO MORCEGOS FRUGVEROS VO MAL......................................................115

DEZENOVE
UM PIQUENIQUE NO CU................................................................................................125

VINTE
VISITO A DEUSA COBERTA DE ESTRELAS...............................................................131

VINTE E UM
TIA KITTY AO RESGATE...................................................................................................135

VINTE E DOIS
LEROY CONHECE O ARMRIO DA PERDIO........................................................140

VINTE E TRS
O EXAME FINAL DO PROFESSOR THOTH..................................................................145

VINTE E QUATRO
EU EXPLODI ALGUNS SAPATOS DE CAMURA AZUL........................................154

VINTE E CINCO
NS GANHAMOS UMA VIAGEM COM TUDO PAGO PARA A MORTE.............161

VINTE E SEIS
A BORBO DO RAINHA EGPCIA.....................................................................................165

VINTE E SETE
UM DEMNIO COM AMOSTRAS GRTIS...................................................................173

VINTE E OITO
EU TENHO UM ENCONTRO COM O DEUS DO PAPEL HIGINICO....................178

VINTE E NOVE
ZIA MARCA UM ENCONTRO...........................................................................................188
TRINTA
BAST MANTM A PROMESSA........................................................................................193

TRINTA E UM
EU ENTREGO UMA CARTA DE AMOR.........................................................................200

TRINTA E DOIS
O LUGAR DAS CRUZES.....................................................................................................204

TRINTA E TRS
NS ENTRAMOS NOS NEGCIOS DE MOLHOS.......................................................212

TRINTA E QUATRO
DOUGHBOY NOS D UM RUMO....................................................................................218

TRINTA E CINCO
HOMENS PEDEM INFORMAES (E OUTROS SINAIS DO APOCALYPSE)....221

TRINTA E SEIS
NOSSA FAMLIA  VAPORIZADA.................................................................................225

TRINTA E SETE
LEROY CONSEGUE SUA VINGANA...........................................................................231

TRINTA E OITO
A CASA EST NA CASA....................................................................................................235

TRINTA E NOVE
ZIA ME CONTA UM SEGREDO........................................................................................238

QUARENTA
EU ARRUINO UM FEITIO SUPER IMPORTANTE....................................................243

QUARENTA E UM
NS PARAMOS A GRAVAO, POR ENQUANTO...................................................253

NOTA DO AUTOR................................................................................................................264

PROPAGANDAS....................................................................................................................265
OS VOLUNTRIOS

Agradeo  todos aqueles que participaram da traduo, reviso, estruturao, leitura
final, entre outras funcionalidades diversas que desempenhamos para compor este livro
de capa  contra-capa.
Entre estes, destacam-se alguns nomes, aos quais devemos grande respeito e
agradecimentos:

Agradecemos aos nomes citados abaixo, aos voluntrios annimos e aos esquecidos.

Organizao Responsvel: .   mafia dos livros.
Traduo:     Diego                           Reviso dos 16
              Daniel                          primeiros captulos:
              Giovanna
              Mari Trindade                                          Mari Trindade
              Carlos
              Nilton
              Estevo
              Thiago
              Davi
              Carol
              Marcelo
              Taylor
              Belle
                                     ALERTA:

O documento a seguir  uma transcrio de uma gravao. Em algumas partes, a
qualidade do udio estava ruim, ento algumas palavras e frases representam o melhor
palpite do autor. Onde foi possvel, ilustraes de importantes smbolos mencionados na
gravao foram acrescentadas. Barulhos de fundo como arrastar de ps, tapas e
xingamentos ditos pelos dois narradores no foram transcritos. O autor no garante a
autenticidade da gravao. Parece impossvel que os dois jovens narradores estejam
dizendo a verdade, mas voc, o leitor, deve decidir isso sozinho.
                                         UM

                          UMA MORTE NA AGULHA
NS S TEMOS ALGUMAS HORAS, ento oua com ateno.
Se voc est ouvindo esta histria, voc j est em perigo. Sadie e eu podemos ser a sua
nica chance.
V at a escola. Localize o armrio. Eu no vou dizer qual escola ou qual armrio,
porque se voc for a pessoa certa, voc vai encontrar. A combinao  13/32/33.
Quando terminar de ouvir, voc saber o que esses nmeros significam. Apenas se
lembre que a histria que estamos prestes a te contar ainda no est completa.
Como ela vai terminar depender de voc.

A coisa mais importante: quando abrir o pacote e descobrir o que est dentro, no fique
com ele por mais do que uma semana. Claro, vai ser tentador. Quero dizer, ele vai te
conceder poder quase ilimitado. Mas se voc ficar com ele por muito tempo, ele vai
consumir voc. Aprenda seus segredos rapidamente e passe o pacote adiante. Esconda-o
para a prxima pessoa, como Sadie e eu fizemos para voc. Ento se prepare para sua
vida ficar bem mais interessante.

Ok, Sadie est me dizendo para parar de enrolar e continuar com a histria. Certo. Acho
que comea em Londres, na noite em que nosso pai explodiu o Museu Britnico.
Meu nome  Carter Kane. Tenho quatorze anos e minha casa  uma mala.
Voc acha que estou brincando? Desde que tinha oito anos de idade meu pai e eu
viajamos pelo mundo. Eu nasci em Los Angeles, mas meu pai  um arquelogo, ento
seu trabalho o leva pra todo lugar. Na maioria das vezes vamos ao Egito, j que essa 
sua especialidade. V at uma livraria, ache um livro sobre o Egito, h uma grande
chance de ter sido escrito pelo Dr. Julius Kane. Voc quer saber como os egpcios
tiravam os crebros das mmias, ou construam as pirmides, ou amaldioaram a tumba
do rei Tut? Meu pai  a pessoa certa. Claro, existem outras razes para o meu pai viajar
tanto, mas eu no conhecia seus segredos naquela poca.
Eu no fui para escola. Meu pai me ensinou em casa, mesmo se voc considerar que no
tnhamos uma casa. Ele meio que me ensinou tudo que achou importante, ento aprendi
muito sobre o Egito e estatsticas de basquete e os msicos favoritos do meu pai. Eu lia
muito tambm  praticamente qualquer coisa em que colocasse minhas mos, dos livros
de histria do meu pai a romances  porque eu passava muito tempo sentado em hotis
e aeroportos e escavaes em pases estrangeiros onde eu no conhecia ningum. Meu
pai estava sempre me dizendo para guardar o livro e jogar bola um pouco. Voc j
tentou comear um jogo de basquete em Aswan, no Egito? No  fcil.
Em todo caso, meu pai me treinou desde cedo a manter todos os meus pertences em
uma mala que pudesse ser acomodada no compartimento de bagagem de mo de um
avio. Meu pai fazia da mesma forma, exceto que ele podia levar uma bolsa extra para
suas ferramentas de arqueologia. Regra nmero um: eu no tinha permisso para olhar
em sua bolsa de ferramentas.
Essa  uma regra que eu nunca havia quebrado at o dia da exploso.
Aconteceu na vspera de Natal. Estvamos em Londres para o dia de visitao com a
minha irm, Sadie.
Veja bem, meu pai s tinha permisso para passar dois dias por ano com ela  um no
inverno, um no vero  porque nossos avs o odiavam. Depois que nossa me morreu,
os pais dela (nossos avs) tiveram essa grande batalha judicial com o meu pai. Depois
de seis advogados, depois de sarem na mo duas vezes e um quase fatal ataque com
uma esptula (no pergunte), eles ganharam o direito de manter Sadie com eles na
Inglaterra. Ela tinha apenas seis anos, dois anos mais nova que eu, e eles no puderam
ficar com ns dois  pelo menos essa foi a desculpa que deram para no ficarem
comigo. Ento Sadie foi criada como uma estudante inglesa, e eu viajei pelo mundo
com meu pai. S vamos Sadie duas vezes por ano, o que pra mim estava bom.
[Cala a boca, Sadie. Sim  estou chegando naquela parte.]
De qualquer jeito, meu pai e eu tnhamos acabado de pousar em Heathrow depois de
alguns atrasos. Era uma tarde fria e chuvosa. Durante toda a corrida de txi pela cidade,
meu pai parecia um pouco nervoso.
Agora, meu pai  um cara grande. Voc no conseguiria pensar que algo pudesse deix-
lo nervoso. Ele tinha uma pele morena escura como a minha, olhos castanhos
penetrantes, era careca e usava um cavanhaque, ento ele se parecia com um cientista
malvado bem forte. Naquela tarde, ele vestia seu casaco de inverno de casimira e seu
melhor terno marrom, o que ele usava para palestras. Geralmente ele emanava tanta
confiana que dominava qualquer ambiente em que entrasse, mas algumas vezes 
como naquela tarde  eu via outro lado dele que realmente no entendia.
Ele no parava de olhar por sobre o seu ombro como se estivesse sendo caado.
"Pai?" eu disse enquanto estvamos saindo do A-40. "O que est errado?"
"Nenhum sinal deles," ele murmurou. Ento deve ter percebido que disse isso em voz
alta, porque ele me olhou meio assustado. "Nada, Carter. Est tudo bem." O que me
preocupou, porque meu pai mente muito mal. Eu sempre soube que ele escondia alguma
coisa, mas tambm sabia que nem enchendo muito a pacincia dele eu arrancaria a
verdade. Ele provavelmente estava tentando me proteger, mas do que eu no sabia.
Algumas vezes me perguntei se ele tinha algum segredo obscuro em seu passado, algum
antigo inimigo que o seguia, talvez; mas a ideia parecia ridcula. Papai era apenas um
arquelogo.
A outra coisa que me preocupou: meu pai estava agarrado  sua bolsa de ferramentas.
Normalmente quando ele fazia isso significava que estvamos em perigo. Como da vez
em que homens armados invadiram nosso hotel em Cairo. Eu ouvi tiros vindos do
saguo e desci para ver como meu pai estava. Quando cheguei l, ele estava fechando
sua bolsa de ferramentas calmamente enquanto trs homens inconscientes estavam
pendurados pelos ps no candelabro, suas tnicas caindo sobre suas cabeas de forma
que se podia ver suas cuecas. Meu pai alegou que no viu nada, e no fim a polcia
culpou um super esquisito defeito de funcionamento do candelabro.
Em uma outra vez, fomos parar no meio de um tumulto em Paris. Meu pai achou o carro
estacionado mais prximo, me empurrou para o banco de trs, e me mandou ficar
abaixado. Eu me prensei contra o tapete do carro e fechei meus olhos com fora. Podia
ouvir meu pai no banco do motorista, mexendo na sua bolsa, murmurando consigo
mesmo enquanto a multido gritava e destrua coisas do lado de fora. Alguns minutos
depois ele me disse que era seguro para me levantar. Todos os outros carros no
quarteiro tinham sido virados e incendiados. Nosso carro tinha acabado de ser lavado e
polido, e vrias notas de vinte euros tinham sido enfiadas sob os limpadores do vidro da
frente.
De qualquer forma, passei a respeitar a bolsa. Era nosso amuleto da sorte. Mas quando
meu pai a mantinha por perto, significava que iramos precisar de boa sorte.
Dirigimos para o centro da cidade, indo para leste na direo do flat dos meus avs. Ns
passamos pelos portes dourados do Palcio de Buckingham, a grande coluna de pedra
da Trafalgar Square. Londres  um lugar bem legal, mas depois de viajar por tanto
tempo, todas as cidades comeam a se misturar. Algumas crianas que conheci diziam,
"Uau, voc  to sortudo por poder viajar tanto." Mas no  que como se passssemos
nosso tempo dando uma de turistas ou como se tivssemos muito dinheiro para viajar
com estilo. Ns j havamos ficado em lugares bem ruins, e ns quase nunca ficvamos
no mesmo lugar por mais do que alguns dias. Na maior parte do tempo parecia que
ramos fugitivos ao invs de turistas.
Quero dizer, voc no pensaria que o trabalho do meu pai era perigoso. Ele d palestras
sobre tpicos como "Pode a magia egpcia realmente te matar?" e "Punies favoritas
no mundo inferior egpcio" e outras coisas que a maioria das pessoas no daria a
mnima. Mas como eu disse, existe esse outro lado dele. Ele  sempre muito cuidadoso,
checando cada quarto de hotel antes de me deixar entrar. Ele se atiraria para dentro de
um museu para ver alguns artefatos, faria algumas anotaes, e correria para fora como
se estivesse com medo de ser filmado pelas cmeras de segurana.
Certa vez quando eu era criana, ns corremos pelo aeroporto Charles de Gaulle para
pegar um voo de ltima hora, e meu pai no relaxou at o avio sair do cho, eu
perguntei a ele  queima-roupa do que ele estava fugindo, e ele me olhou como se eu
tivesse acabado de puxar o pino de uma granada. Por um segundo fiquei com medo de
que ele realmente me dissesse a verdade. Ento ele disse, "Carter, no  nada." Como se
"nada" fosse a coisa mais terrvel do mundo. Depois disso, decidi que talvez fosse
melhor no fazer perguntas.
Meus avs, os Faust, vivem em um empreendimento imobilirio perto de Canary
Wharf, bem nas margens do rio Tamisa. O txi nos deixou no meio-fio, e meu pai pediu
para o taxista esperar.
Estvamos a meio caminho da entrada quando meu pai congelou. Ele se virou e olhou
para trs.
"O qu?" perguntei.
Ento vi o homem de sobretudo. Ele estava do outro lado da rua, encostado em uma
grande rvore morta. Ele tinha o formato de um barril, com pele da cor de caf torrado.
Seu sobretudo e terno risca-de-giz pareciam caros. Ele tinha cabelo longo e tranado e
usava um chapu fedora abaixado at seus culos escuros redondos. Ele me lembrava
um msico de jazz, do tipo que meu pai me arrastaria para ver o concerto.
Mesmo no conseguindo ver seus olhos, tive a impresso que ele estava nos
observando. Ele poderia ser um velho amigo ou colega do meu pai. No importa aonde
amos, meu pai estava sempre encontrando gente que ele conhecia. Mas realmente era
estranho que o cara estivesse esperando aqui, do lado de fora da casa dos meus avs.
E ele no parecia feliz.
"Carter," meu pai disse, "v na frente."
"Mas "
"Pegue sua irm. Encontro vocs no txi."
Ele cruzou a rua na direo do homem de sobretudo, o que me deixou com duas opes:
seguir meu pai e ver o que estava acontecendo, ou fazer o que ele mandou.
Decidi ir pelo caminho menos perigoso. Fui buscar minha irm.
Antes que eu pudesse sequer bater, Sadie abriu a porta.
"Atrasado como sempre," ela disse.
Ela estava segurando sua gata, Muffin, que havia sido um presente `de despedida' do
nosso pai seis anos atrs. Muffin nunca parecia envelhecer ou crescer. Ela tinha pelo
amarelo-e-preto felpudo como uma miniatura de leopardo, olhos amarelos vigilantes. E
orelhas pontudas que eram muito altas para sua cabea. Um pingente egpcio prata
pendia da sua coleira. Ela no se parecia nem um pouco com um muffin, mas Sadie era
pequena quando deu o nome, ento acho que ela merece um desconto.
Sadie no havia mudado muito desde o ltimo vero.
[Enquanto gravo isso, ela est em p ao meu lado, me encarando, ento  melhor eu
tomar cuidado ao descrev-la.]
Voc nunca acharia que ela  minha irm. Em primeiro lugar, ela viveu em Londres por
tanto tempo, que ela tinha um sotaque britnico. Segundo, ela puxou para nossa me,
que era branca, ento a pele de Sadie  bem mais clara que a minha. Ela tem cabelo liso
da cor de caramelo, que no chega a ser loiro, mas tambm no  castanho, no qual ela
fazia mechas em cores brilhantes. Naquela dia eram mechas vermelhas do lado
esquerdo. Seus olhos so azuis.  srio. Olhos azuis, assim como os da nossa me. Ela
tem apenas doze anos, mas tem a mesma altura que eu, o que  muito irritante.
Ela estava mascando chiclete como sempre, vestida para passar o dia com nosso pai
com jeans surrados, uma jaqueta de couro e botas de combate, como se ela estivesse
indo a um show e esperasse pisotear algumas pessoas.
Ela tinha fones de ouvido pendurados em volta do pescoo para o caso de a
aborrecermos.
[Ok, ela no me bateu, ento acho que fiz um bom trabalho descrevendo-a.]
"Nosso avio atrasou," eu disse a ela.
Ela estourou uma bola, coou a cabea de Muffin, e colocou a gata de lado. "V, t
saindo!"
De algum lugar da casa, v Faust disse algo que eu no entendi, provavelmente, "No
deixe ele entrar!"
Sadie fechou a porta e me analisou como se eu fosse um rato morto que sua gata tivesse
acabado de trazer. "Ento, aqui est voc de novo."
"Certo."
"Anda logo, ento." Ela suspirou. "Vamos logo com isso"
Ela era assim. Nada de "Oi, como voc passou estes ltimos seis meses?  to bom ver
voc!" ou algo do tipo.
Mas pra mim isso estava bem. Como s nos encontrvamos duas vezes por ano, era
mais como se fssemos primos distantes do que irmos. No tnhamos absolutamente
nada em comum exceto nossos pais.
Nos arrastamos escada abaixo. Eu pensava em como ela cheirava a casa de gente velha
e chiclete quando ela parou abruptamente, colidi com ela.
"Quem  aquele?" ela perguntou.
Eu havia quase esquecido do cara de sobretudo. Ele e meu pai estavam em p do outro
lado da rua prximos da grande rvore, tendo o que parecia ser uma discusso sria.
Meu pai estava de costas ento eu no podia ver seu rosto, mas ele gesticulava com as
mos como fazia quando estava agitado. O outro cara franzia o cenho e balanava a
cabea.
"No sei," eu disse. "Ele estava l quando chegamos."
"Ele parece familiar." Sadie franziu a testa como se estivesse tentando se lembrar.
"Vamos."
"Papai quer que a gente espere no txi," falei, apesar de saber que no serviria pra nada.
Sadie j estava a caminho.
Em vez de atravessar a rua direto, ela correu pela calada por meio quarteiro, e se
abaixou atrs dos carros, ento cruzou para o lado oposto e se agachou atrs de um
baixo muro de pedra. Ela comeou a espionar nosso pai. No tive escolha salvo seguir
seu exemplo, mesmo isso me fazendo sentir meio estpido.
"Seis anos na Inglaterra," murmurei, "e ela pensa que  James Bond."
Sadie me deu um tapa sem olhar pra trs e continuou se arrastando para frente.
Mais alguns passos e estvamos bem atrs da grande rvore morta. Eu podia ouvir meu
pai do outro lado falando, " eu tenho que fazer, Amos. Voc sabe que  o certo."
"No," disse o outro homem, que devia ser Amos. Sua voz era grave e constante 
muito insistente.
Seu sotaque era americano. "Se eu no te impedir, Julius, eles vo. O Per Annk est
obscurecendo voc."
Sadie se virou para mim e enunciou as palavras, "Per o qu?"
Balancei a cabea, to mistificado quanto. "Vamos sair daqui," sussurrei, porque
imaginei que seramos flagrados a qualquer minuto e ficaramos em srios problemas.
Sadie, claro, me ignorou.
"Eles no sabem meu plano," meu pai estava dizendo. "At eles descobrirem "
"E as crianas?" Amos perguntou. Os cabelos da minha nuca se arrepiaram. "E quanto a
elas?"
"Tomei providncias para proteg-los," meu pai disse. "Alm do que, se eu no fizer
isso, todos estaremos em perigo. Agora, d meia-volta."
"Eu no posso, Julius."
"Ento  um duelo que voc quer?" O tom do meu pai se tornou mortalmente srio.
"Voc nunca pde me vencer, Amos."
Eu nunca havia visto meu pai ficar violento desde o Grande Incidente da Esptula, e no
estava ansioso para ver uma repetio daquilo, mas os dois homens pareciam estar a
ponto de comear uma briga.
Antes que eu pudesse reagir, Sadie apareceu e gritou, "Pai!"
Ele pareceu surpreso quando Sadie o abraou, mas no to surpreso quanto o outro cara,
Amos. Ele recuou to rapidamente que tropeou em seu prprio sobretudo. Ele havia
tirado seus culos. No pude deixar de pensar que Sadie tinha razo. Ele realmente
parecia familiar  como uma memria muito antiga.
"Eu  eu preciso ir embora," ele disse. Ele ajeitou seu chapu fedora e se arrastou rua
abaixo.
Nosso pai o observou ir. Ele mantinha um brao protetivamente em volta de Sadie e
uma mo dentro da sua bolsa de ferramentas pendurada em seu ombro. Finalmente,
quando Amos desapareceu na esquina, meu pai relaxou. Ele tirou sua mo da bolsa e
sorriu para Sadie. "Ol, querida."
Sadie se afastou dele e cruzou os braos. "Ah, agora  querida, no ? Voc est
atrasado. O dia de visitao est quase acabando! E o que foi aquilo? Quem  Amos, e o
que  Per Ankh?"
Meu pai enrijeceu. Ele me olhou como se estivesse imaginando quanto ns havamos
escutado. "No  nada," ele disse, tentando soar otimista. "Tenho uma tarde
maravilhosa planejada. Quem gostaria de um passeio privado ao Museu Britnico?"
Sadie se afundou no banco traseiro do txi entre meu pai e eu. "No acredito nisso," ela
resmungou. "Uma tarde juntos, e voc quer fazer pesquisa."
Meu pai tentou sorrir. "Querida, ser divertido. O curador da coleo egpcia em pessoa
convidou "
"Certo, grande surpresa." Sadie soprou uma mecha de seu cabelo listrado de vermelho
do rosto. "Vspera de Natal, e estamos indo ver relquias egpcias mofadas e velhas.
Voc alguma vez pensa em qualquer outra coisa?"
Meu pai no ficou zangado. Ele nunca fica zangado com Sadie. Ele apenas olhou pela
janela para o cu que escurecia e para a chuva.
"Sim," ele disse serenamente. "Eu penso."
Sempre que meu pai ficava quieto desse jeito e encarava o nada, eu sabia que ele estava
pensando em nossa me. Nos ltimos meses isso vinha acontecendo muito. Eu entrava
em nosso quarto de hotel e o encontrava com o celular nas mos, a foto de nossa me
sorrindo na tela  seu cabelo comprimido sob uma echarpe, seus olhos surpreendemente
brilhantes contra o pano de fundo do deserto.
Ou estaramos em alguma escavao. E eu via meu pai olhando para o horizonte, e sabia
que ele estava se lembrando de como a conheceu  dois jovens cientistas no Vale dos
Reis, em uma escavao para descobrir uma tumba perdida. Meu pai era um
egiptologista. Minha me uma antroploga buscando DNA antigo. Ele me contara a
histria milhares de vezes.
Nosso txi serpenteou pelo caminho pelas margens do Tamisa. Logo depois da ponte de
Waterloo meu pai ficou tenso.
"Motorista," ele disse. "Pare um pouco aqui."
O taxista encostou no Embankment Victoria.
"O que foi, pai?" perguntei.
Ele saiu do txi como se no tivesse me escutado. Quando Sadie e eu nos juntamos a ele
na calada, ele estava olhando para a Agulha de Clepatra.
No caso de voc nunca ter visto isso antes: a Agulha  um obelisco, no uma agulha, e
no tem ligao alguma com Clepatra. Acho que o Museu Britnico simplesmente
achou que o nome soava bem quando o trouxeram para Londres. Ela tem mais de vinte
metros de altura, o que deve ter sido bem impressionante no antigo Egito, mas no
Tamisa, com todos os prdios altos em volta, parecia pequeno e triste. Voc poderia
passar por ele e sequer notar que acabara de passar por algo que  mil anos mais velho
que a cidade de Londres.
"Deus." Sadie andou em volta frustrada. "Temos que parar em todos os monumentos?"
Meu pai olhou para o cume do obelisco. "Eu precisava v-lo novamente," ele
murmurou. "Onde aconteceu..."
Um vento gelado soprou pelo rio. Eu queria voltar para o txi, mas meu pai estava
comeando mesmo a me preocupar. Eu nunca o vira to distrado.
"O que, pai?" perguntei. "O que aconteceu aqui?"
"O ltimo lugar que a vi."
Sadie parou de andar. Ela franziu a testa pra mim incerta, ento se virou para o nosso
pai. "Espere um pouco. Voc quer dizer a mame?"
Meu pai colocou o cabelo de Sadie atrs de sua orelha, e ela ficou to surpresa que nem
o afastou.
Senti como se o vento tivesse me congelado. A morte da nossa me sempre fora um
assunto proibido. Eu sabia que ela havia morrido em um acidente em Londres. Sabia
que meus avs culparam meu pai. Mas ningum nunca nos contou os detalhes.
"Voc est nos dizendo que ela morreu aqui," falei. "Na Agulha da Clepatra? O que
aconteceu?"
Ele abaixou a cabea.
"Pai!" Sadie protestou. "Eu passo por isso todos os dias, e voc quer dizer  todo esse
tempo  e eu sequer sabia!"
"Voc ainda tem sua gata?" meu pai perguntou a ela, o que parecia uma pergunta bem
estpida.
"Claro que eu ainda tenho a gata!" ela disse. "O que isso tem haver com o que quer que
seja?"
"E o seu amuleto?"
A mo de Sadie foi at seu pescoo. Quando ramos pequenos, pouco antes de Sadie ir
morar com nossos avs, papai nos dera amuletos egpcios. O meu era uma olho de
Hrus, que era um smbolo popular de proteo no antigo Egito.




De fato meu pai diz que o smbolo moderno dos farmacuticos  uma verso
simplificada do olho de Hrus, j que a medicina deve proteger voc.
De qualquer jeito, eu sempre usei meu amuleto embaixo da minha blusa, mas imaginei
que Sadie perdera o dela ou jogara fora.
Para minha surpresa, ela assentiu. "Claro que tenho, pai, mas no mude de assunto.
Vov est sempre falando como voc causou a morte da mame. Isso no  verdade,
certo?"
Ns esperamos. Por pelo menos uma vez, Sadie e eu queramos exatamente a mesma
coisa  a verdade.
"Na noite em que sua me morreu," meu pai comeou, "aqui na Agulha "
Uma luz sbita iluminou o local. Eu me virei, meio cego, e s por um momento pude
ver duas figuras: um plido homem alto com uma barba bifurcada e vestindo uma tnica
cor da pele, e uma garota de pele acobreada em uma tnica azul escura e uma echarpe 
o tipo de roupas que eu vira centena de vezes no Egito. Eles apenas estavam em p l,
lado a lado, a menos de seis metros de distncia, nos observando. Ento a luz sumiu. As
figuras se dissiparam em uma indistinta imagem residual. Quando meus olhos se
reajustaram  escurido, eles haviam desaparecido.
"Hum..." Sadie disse nervosamente. "Voc viu isso?"
"Entrem no txi," meu pai falou, nos empurrando para o meio-fio. "Estamos sem
tempo."
Dali em diante meu pai se fechou.
"Este no  o lugar para falar," ele disse, olhando para trs. Ele havia prometido ao
taxista dez libras extras se ele nos levasse ao museu em menos de cinco minutos, e o
taxista estava fazendo o seu melhor.
"Pai," tentei, "aquelas pessoas no rio "
"E aquele cara, Amos," Sadie disse. "Eles so da policia egpcia ou algo assim?"
"Olhem aqui, vocs dois," meu pai disse, "vou precisar da ajuda de vocs hoje  noite.
Eu sei que  difcil, mas tero que ser pacientes. Vou explicar tudo, prometo, depois que
chegarmos ao museu. Vou fazer tudo ficar bem de novo."
"O que voc quer dizer?" Sadie insistiu. "Fazer o que ficar bem?"
A expresso do nosso pai estava mais do que triste. Era quase culpada. Com um arrepio,
pensei no que Sadie havia dito: sobre nossos avs o culparem pela morte da mame. Ele
no podia estar falando sobre isso, podia?
O taxista mudou de direo na rua Great Russell e cantou pneu parando na frente do
porto principal do museu.
"Apenas me sigam," meu pai nos disse. "Quando encontrarmos o curador, ajam
normalmente."
Estava pensando que Sadie nunca agia normalmente, mas decidi no dizer nada.
Samos do txi. Peguei nossa bagagem enquanto meu pai pagava o motorista com um
grande mao de dinheiro. Ento ele fez algo estranho. Ele jogou um punhado de
pequenos objetos no banco de trs  se pareciam pedras, mas estava escuro demais para
que eu tivesse certeza. "Continue dirigindo," ele disse ao taxista. "Nos leve para
Chelsea."
Isso no fez sentido uma vez que j estvamos fora do txi, mas o motorista acelerou.
Olhei de relance para o meu pai, e de volta para o txi, e antes que ele virasse na
esquina e desaparecesse na escurido, peguei o estranho vislumbre de trs passageiros
no banco de trs: um homem e duas crianas.
Eu pisquei. No tinha como o txi ter pego outra corrida to rpido. "Pai "
"Os txis de Londres no ficam muito tempo vazios," ele disse para constar. "Vamos,
crianas."
Ele saiu marchando e passou pelo porto forjado em ao. Por um segundo Sadie e eu
hesitamos.
"Carter, o que est acontecendo?"
Balancei minha cabea. "No tenho certeza se quero saber."
"Bem, fique aqui fora no frio se quiser, mas eu no vou embora sem uma explicao."
Ela se virou e marchou atrs do nosso pai.
Pensando nisso agora, eu deveria ter corrido. Deveria ter arrastado Sadie de l e ter ido
o mais longe possvel. Em vez disso, eu a segui pelos portes.
                                        DOIS

                     UMA EXPLOSO PARA O NATAL
EU J ESTIVERA NO MUSEU BRITNICO ANTES. Na verdade, eu j estive em
muito mais museus do que gostaria de admitir  isso me faz parecer como um completo
nerd.
[Isso  a Sadie no fundo, gritando que eu sou um nerd completo. Obrigada, mana.]
De qualquer forma, o museu estava fechado e completamente escuro, mas o curador e
dois seguranas estavam esperando por ns nos degraus da frente.
"Dr. Kane!" O curador era um cara baixinho e seboso em um terno barato. Eu j tinha
visto mmias com mais cabelo e dentes melhores. Ele apertou a mo do meu pai como
se estivesse conhecendo uma estrela do rock. "Seu ltimo trabalho sobre Imhotep 
brilhante! No sei como o senhor traduziu aqueles feitios!"
"Im-ho-quem?" Sadie murmurou para mim.
"Imhotep," falei. "Alto sacerdote, arquiteto. Alguns dizem que ele era um mgico. Ele
desenhou a primeira pirmide de degraus. Voc sabe."
"No sei," Sadie disse. "No me importo. Mas obrigada."
Papai expressou sua gratido ao curador por nos receber em um feriado. Ento ele ps
uma mo no meu ombro. "Dr. Martin, gostaria que conhecesse Carter e Sadie."
"Ah! Seu filho, obviamente, e " O curador olhou hesitante para Sadie. "E essa jovem
moa?"
"Minha filha," papai disse.
O olhar do Dr. Martin ficou temporariamente vazio. No importa quo mente aberta ou
educada as pessoas pensem que so, h sempre aquele momento de confuso que
transparece em seus rostos quando eles percebem que Sadie  parte da nossa famlia. Eu
odeio isso, mas com o passar dos anos passei a esperar que acontecesse.
O curador refez seu sorriso. "Sim, sim, claro. Por aqui, Dr. Kane. Ns estamos bem
honrados!"
Os seguranas trancaram as portas atrs de ns. Eles pegaram nossa bagagem, ento um
deles quis levar a bolsa de ferramentas de papai.
"Ah, no," papai disse, com um pequeno sorriso. "Eu vou ficar com essa."
Os seguranas ficaram na ante-sala enquanto ns seguamos o curador pelo Grande
Ptio. Era sinistro de noite. Pelo teto a fraca luz que vinha da cpula de vidro gerava
riscos de sombras nas paredes que pareciam uma teia de aranha gigante. Nossos passos
clicavam no cho de mrmore branco.
"Ento," papai disse, "a pedra."
"Sim!" o curador falou. "Apesar de no conseguir imaginar que informaes novas o
senhor poder obter dela. Ela foi estudada at a morte  nosso artefato mais famoso,
claro."
"Claro," papai disse "Mas voc pode ficar surpreso."
"O que ele est tramando agora?" Sadie sussurrou pra mim.
No respondi. Eu tinha certa suspeita sobre qual pedra eles estavam falando, mas eu no
conseguia entender por que papai nos arrastara na vspera de Natal para v-la.
Eu me perguntava o que ele esteve a ponto de nos contar na Agulha de Clepatra  algo
sobre nossa me e a noite em que ela morreu. E por que ele ficava olhando em volta
como se esperasse que as pessoas estranhas que tnhamos visto na Agulha aparecessem
de novo? Ns estvamos trancados em um museu cercado por guardas e segurana de
alta tecnologia. Ningum poderia nos incomodar aqui  eu esperava.
Ns viramos  esquerda na ala Egpcia. As paredes estavam revestidas de esttuas de
faras e deuses, mas meu pai passou direto por todas elas e foi direto para a atrao no
meio da sala.
"Linda," meu pai murmurou. "E no  uma rplica?"
"No, no," o curador assegurou. "Ns no costumamos manter a verdadeira pedra em
exibio, mas para o senhor  essa  a verdadeira."
Ns estvamos olhando para uma placa de rocha cinza escura de quase um metro de
altura e sessenta centmetros de largura. Estava em um pedestal, envolta por uma caixa
de vidro. A superfcie lisa da pedra havia sido gravada com trs faixas distintas de
escrita. A de cima eram figuras de escrita do antigo Egito: hierglifos. A seo do
meio... Tive que botar meu crebro para funcionar para lembrar o nome que papai tinha
dado para ela: demtica, um tipo de escrita do perodo em que os gregos controlaram o
Egito e um monte de palavras gregas foram mescladas s egpcias. A ltima linha estava
em Grego.
"A Pedra Roseta," eu disse.
"Isso no  um programa de computador?" Sadie perguntou.
Eu queria dizer a ela o quo estpida ela era, mas o curador me cortou com uma risada
nervosa. "Minha jovem, a Pedra Roseta foi a chave para decifrar os hierglifos! Foi
descoberta pelo exrcito de Napoleo em 1799 e "
"Ah, certo," Sadie disse. "Eu lembrei agora."
Eu sabia que ela s estava dizendo isso para cal-lo, mas meu pai no ia deixar pra l.
"Sadie," ele disse, "at esta pedra ser descoberta, mortais normais... er, quero dizer,
ningum foi capaz de ler hierglifos por sculos. A linguagem escrita egpcia foi
completamente esquecida. Ento um ingls chamado Thomas Young provou que as trs
lnguas na Pedra Roseta continham a mesma mensagem. Um francs chamado
Chapollion continuou o trabalho e decifrou o cdigo dos hierglifos."
Sadie mascou seu chiclete, indiferente. "O que diz, ento?"
Papai deu de ombros. "Nada importante.  basicamente uma carta de agradecimento de
uns sacerdotes para o Rei Ptolomeu V. Quando foi esculpida, a pedra no era nada
importante. Mas atravs dos sculos... atravs dos sculos ela foi se tornando um
poderoso smbolo. Talvez a mais importante conexo entre o Antigo Egito e o mundo
moderno. Fui tolo por no perceber seu potencial mais cedo."
Ele me confundiu, e aparentemente, ao curador tambm.
"Dr. Kane?" ele perguntou. "O senhor est bem?"
Papai respirou fundo. "Minhas desculpas, Dr. Martin. Eu estava s... pensando alto.
Posso ter o vidro removido? E se o senhor puder me trazer os papis do seu arquivo que
eu havia pedido?"
Dr. Martin assentiu. Ele pressionou um cdigo num pequeno controle remoto, e a frente
da caixa de vidro se abriu com um clique.
"Vai demorar alguns minutos para pegar as notas," Dr. Martin disse. "Para qualquer
outra pessoa, eu hesitaria em dar livre acesso  pedra como o senhor solicitou. Confio
que o senhor ser cuidadoso."
Ele olhou para ns, crianas, como se fssemos criadores de confuso.
"Ns vamos ter cuidado," papai prometeu.
Assim que os passos do Dr. Martin se afastaram, papai se virou para ns com um olhar
frentico em seus olhos. "Crianas, isso  muito importante. Vocs tm que ficar fora
desta sala."
Ele tirou sua mochila dos ombros e abriu apenas o suficiente para tirar uma corrente de
bicicleta e um cadeado. "Sigam o Dr. Martin. Vocs vo achar seu escritrio no fim do
Grande Ptio  esquerda. S h uma entrada. Uma vez que ele estiver dentro, coloque
isso nas maanetas e fechem bem justo. Precisamos atras-lo."
"Voc quer que a gente o tranque?" Sadie perguntou, de repente interessada.
"Brilhante!"
"Pai," perguntei, "o que est acontecendo?"
"No temos tempo para explicaes," ele disse. "Esta ser nossa nica chance. Eles
esto vindo."
"Quem est vindo?" Sadie perguntou.
Ele pegou Sadie pelos ombros. "Querida, eu te amo. E eu sinto muito... sinto muito por
tantas coisas, mas no temos tempo agora. Se isso funcionar, prometo que vou fazer as
coisas melhorarem para todos ns. Carter, voc  um homem corajoso. Voc tem que
confiar em mim. Lembrem-se, tranquem o Dr. Martin. Ento fiquem fora desta sala!"
Acorrentar a porta do curador foi fcil. Mas assim que terminamos, ns olhamos para o
caminho pelo qual viramos e vimos uma luz azul vindo da galeria egpcia, como se
nosso pai tivesse instalado um aqurio brilhante gigante.
Sadie olhou para mim. "Honestamente, voc tem alguma ideia do que ele est
fazendo?"
"Nenhuma," eu disse. "Mas ele tem agido de forma estranha ultimamente. Pensando
muito na mame. Ele tem a foto dela..."
Eu no quis dizer mais. Felizmente, Sadie assentiu como se tivesse entendido.
"O que tem na bolsa de ferramentas dele?" ela perguntou.
"No sei. Ele me disse para nunca olhar."
Sadie levantou uma sobrancelha. "E voc nunca olhou? Deus, isso  to voc, Carter.
Voc no tem conserto."
Eu queria me defender, mas bem a um tremor sacudiu o cho.
Surpresa, Sadie agarrou meu brao. "Ele disse para ficarmos fora. Suponho que voc v
seguir essa ordem tambm?"
Na verdade, essa ordem parecia muito boa para mim, mas Sadie correu pelo corredor, e
depois de um momento de hesitao, eu fui atrs dela.
Quando alcanamos a entrada da Galeria Egpcia, paramos petrificados em nosso
trajeto. Nosso pai estava na frente da Pedra da Roseta, de costas para ns. Um crculo
azul brilhava no cho em volta dele, como se algum tivesse ligado tubos de neon
escondidos no cho.
Meu pai havia tirado seu sobretudo. Sua bolsa de ferramentas estava aberta aos seus ps,
revelando uma caixa de madeira de uns sessenta centmetros, pintada com imagens
egpcias.
"O que ele est segurando?" Sadie sussurrou pra mim. "Aquilo  um bumerangue?"
Com certeza, quando papai levantou sua mo, ele estava brandindo uma vara branca e
curva. Realmente parecia um bumerangue. Mas em vez de jogar a vareta, ele tocou na
Pedra da Roseta. Sadie prendeu a respirao. Papai estava escrevendo na pedra. Onde
quer que o bumerangue tocasse, linhas azuis brilhantes apareciam no granito.
Hierglifos.
Aquilo no fazia sentido. Como ele podia escrever palavras azuis brilhantes com uma
vara? Mas a imagem era clara e brilhante: chifres de carneiro acima de uma caixa e um
X.




"Abra," Sadie murmurou. Olhei para ela, pois parecia que ela tinha acabado de traduzir
a palavra, mas isso era impossvel. Andei com papai durante anos, e mesmo eu s
conseguia ler alguns hierglifos. Eles so muito difceis de aprender.
Papai levantou seus braos. Ele cantou: "Wo-seer, i-ei." E apareceram mais dois
hierglifos azuis na superfcie da Pedra de Roseta.




Aturdido como estava, eu reconheci o primeiro smbolo. Era o nome do deus Egpcio da
morte.
"Wo-seer," sussurrei. Eu nunca tinha visto ser pronunciado daquele jeito, mas eu sabia o
que significava, "Osris."
"Osris, venha," Sadie disse, como num transe. Ento seus olhos se arregalaram. "No!"
ela gritou. "Papai, no!"
Nosso pai se virou surpreso. Ele comeou a dizer, "Crianas " mas era tarde demais. O
cho estrondou. A luz azul se tornou branca, e a Pedra de Roseta explodiu.
Quando recuperei a conscincia, a primeira coisa que ouvi foi uma risada  horrvel,
uma risada cheia de satisfao misturada com o retinir dos alarmes de segurana do
museu.
Senti como se tivesse sido atropelado por um trator. Eu me sentei, tonto, e cuspi um
pedao da Pedra de Roseta. A galeria estava em runas. Ondas de fogo se agitavam em
poas ao longo do salo. Esttuas tinham virado. Sarcfagos foram arremessados de
seus pedestais. Pedaos da Pedra de Roseta tinham sido lanados com tanta fora que se
prenderam nas colunas, paredes, e nas outras peas.
Sadie estava desmaiada ao meu lado, mas parecia ilesa. Chacoalhei seu ombro, e ela
grunhiu.
"Ugh."
Na nossa frente, onde a Pedra de Roseta estivera, havia um pedestal soltando fumaa e
quebrado. O cho tinha escurecido, exceto pelo crculo azul brilhante em volta do nosso
pai.
Ele estava olhando na nossa direo, mas no parecia estar olhando para ns. Um corte
que sangrava atravessava seu couro cabeludo. Ele segurava o bumerangue com fora.
Eu no entendia para o que ele estava olhando. Ento a terrvel risada ecoou pelo salo
de novo, e percebi que estava vindo bem da minha frente.
Alguma coisa estava entre ns e nosso pai. No comeo, eu mal consegui distinguir  s
uma centelha de calor. Mas conforme eu me concentrava, ele tomou uma forma vaga 
o contorno flamejante de um homem.
Ele era mais alto do que papai, e sua risada me atravessou como uma serra eltrica.
"Muito bem," ele disse para o meu pai. "Muito bem mesmo, Jlio."
"Voc no foi convocado!" a voz do meu pai tremeu. Ele ergueu o bumerangue, mas o
homem flamejante mexeu um dedo, e a vareta saiu voando da mo do papai, batendo
contra a parede.
"Eu nunca sou convocado, Jlio," o homem ronronou. "Mas quando voc abre uma
porta, voc deve estar preparado para que visitantes passem por ela."
"Volte para a Duat!" meu pai grunhiu. "Eu tenho o poder do Grande Rei."
"Ai, que assustador," o homem flamejante disse com divertimento. "E mesmo que voc
soubesse como se usa esse poder, coisa que voc no sabe, ele nunca foi preo pra mim.
Eu sou o mais forte. Agora voc vai compartilhar do destino dele."
Eu no conseguia entender nada, mas sabia que tinha que ajudar meu pai. Tentei pegar o
pedao mais prximo de pedra, mas eu estava to aterrorizado que meus dedos
congelaram e ficaram dormentes. Minhas mos estavam inteis.
Papai me lanou um silencioso olhar de advertncia: Saia daqui. Percebi que ele estava
intencionalmente mantendo o homem flamejante de costas para ns, esperando que eu e
Sadie escapssemos sem sermos notados.
Sadie ainda estava grogue. Consegui arrast-la para trs de uma coluna, para as
sombras. Quando ela comeou a protestar, coloquei minha mo na sua boca. Isso a
acordou. Ela viu o que estava acontecendo e parou de lutar.
Alarmes soavam. Fogo circulava em volta das portas da galeria. Os guardas
provavelmente estavam a caminho, mas eu no tinha certeza se isso era uma coisa boa
para ns.
Papai se agachou, mantendo os olhos no inimigo, e abriu sua caixa de madeira pintada.
Ele tirou uma pequena haste como uma rgua. Ele murmurou alguma coisa e a haste se
alongou at um basto de madeira to alto quanto ele.
Sadie guinchou. Eu no conseguia acreditar nos meus olhos tambm, mas as coisas s
ficaram mais estranhas.
Papai jogou seu basto aos ps do homem flamejante, e ele mudou para uma enorme
serpente  trs metros de comprimento e to larga quanto eu  com escamas cor de
cobre e olhos vermelhos brilhantes. Ela se lanou para o homem flamejante, que sem
esforo agarrou a serpente pelo pescoo. As mos do homem irromperam em chamas
brancas, e a serpente queimou at virar cinzas.
"Um truque velho, Jlio," o homem o repreendeu.
Meu pai olhou para ns, silenciosamente nos instando novamente a correr. Parte de mim
se recusava a acreditar que tudo isso era real. Talvez eu estivesse inconsciente, tendo
um pesadelo. Perto de mim, Sadie pegou um pedao de pedra.
"Quantos?" meu pai perguntou rapidamente, tentando manter a ateno do homem
flamejante. "Quantos eu libertei?"
"Bom, todos os cinco," o homem disse, como se estivesse explicando algo a uma
criana. "Voc deveria saber que somos um pacote, Jlio. Logo eu libertarei ainda mais,
e eles vo ficar bem agradecidos. Eu serei nomeado rei de novo."
"Os Demon Days," meu pai disse. "Ele vo par-lo antes que seja tarde demais."
O homem flamejante riu. "Voc acha que a Casa pode me impedir? Aqueles tolos
velhos no conseguem sequer parar de discutir entre eles. Agora, deixe a histria ser
contada novamente. E desta vez voc no ir ressurgir!"
O homem flamejante acenou com sua mo. O crculo azul aos ps do meu pai
escureceu. Papai tentou pegar sua caixa de ferramentas, mas esta saiu deslizando pelo
salo.
"Adeus, Osris," o homem flamejante disse. Com outro movimento da mo, ele
conjurou um brilhante caixo em volta do nosso pai. No principio ele era transparente,
mas conforme nosso pai lutou e bateu nas laterais, o caixo se tornou mais e mais slido
 um sarcfago egpcio de ouro incrustado com jias. Meu pai encontrou meu olhar
uma ltima vez, e enunciou a palavra, Corra! antes do caixo afundar no cho, como se
o piso tivesse se transformado em gua.
"Pai!" gritei.
Sadie jogou sua pedra, mas ela passou sem causar danos pela cabea do homem.
Ele se virou, e por um terrvel momento, sua face apareceu entre as chamas. O que vi
no fazia o menor sentido. Era como se algum tivesse sobreposto duas faces diferentes
uma em cima da outra  uma quase humana, com a pele plida, cruel, feies angulares
e brilhantes olhos vermelhos, e outra como um animal com pelagem escura e presas
afiadas. Pior do que um co ou um lobo ou um leo  algum animal que eu nunca vira
antes. Aqueles olhos vermelhos me encararam, e eu sabia que ia morrer.
Atrs de mim, passos pesados ecoavam no cho de mrmore do Grande Ptio. Vozes
estavam vociferando ordens. Os guardas de segurana, talvez a polcia  mas eles nunca
chegariam a tempo.
O homem flamejante se lanou para ns. A alguns centmetros do meu rosto, algo o
lanou para trs. O ar faiscou com eletricidade. O amuleto em volta do meu pescoo
ficou desconfortavelmente quente.
O homem flamejante sibilou, analisando-me com mais cuidado. "Ento...  voc."
O prdio tremeu novamente. Na extremidade oposta do salo, parte da parede explodiu
em um claro. Duas pessoas passaram pelo buraco  o homem e a garota que vramos
na Agulha, suas tnicas rodopiando ao seu redor. Ambos seguravam cajados.
O homem flamejante rosnou. Ele olhou para mim uma ltima vez e disse, "Em breve,
garoto."
Toda a sala irrompeu em chamas. Uma exploso de calor sugou todo o ar para fora dos
meus pulmes e eu ca no cho.
A ltima coisa que me lembro foi que o homem com a barba bifurcada e a menina de
azul estavam em p do meu lado. Ouvi os seguranas correndo e gritando, se
aproximando. A garota se agachou sobre mim e puxou uma longa faca curva do cinto.
"Temos que agir rpido," ela disse para o homem.
"Ainda no," ele disse com certa relutncia. Seu forte sotaque parecia francs. "Temos
que ter certeza antes de detru-los."
Fechei meus olhos e mergulhei na inconscincia.
                                        TRS

                    APRISIONADA COM MINHA GATA

[Me d o maldito microfone]
Ol. Aqui  a Sadie. Meu irmo  um pssimo contador de histrias. Desculpe por isso.
Mas agora voc tem a mim, ento est tudo bem.
Deixe-me ver. A exploso. Pedra de Roseta em bilhes de pedaos. Cara flamejante
malvado. Papai preso em um caixo. Francs arrepiante e garota rabe com uma faca.
Ns desmaiando. Certo.
Ento, quando acordei, a polcia estava alvoroada, como seria de esperar. Eles me
separaram do meu irmo. Eu no liguei muito pra essa parte. Ele  um saco de qualquer
modo. Mas eles me trancaram no escritrio do curador por eras. E sim, eles usaram a
nossa corrente de bicicleta para fazer isso. Cretinos.
Eu estava destruda,  claro. Tinha acabado de ser derrubada por um sei-l-o-qu
flamejante. Eu assisti meu pai ser empacotado em um sarcfago e ser atirado atravs do
cho. Tentei contar  polcia sobre isso, mas eles ligaram? No.
Pior de tudo: eu tinha um prolongado calafrio, como se algum estivesse empurrando
agulhas geladas na minha nuca. Isso comeou quando olhei para aquelas palavras azuis
brilhantes que o papai desenhou na Pedra de Roseta e eu sabia o que elas significavam
Uma doena familiar, talvez? Pode o conhecimento de coisas egpcias chatas ser
hereditrio? Com a minha sorte.
Muito tempo depois do meu chiclete perder o gosto, uma policial finalmente me retirou
do escritrio do curador. Ela no fez nenhuma pergunta. Ela simplesmente me empurrou
at uma viatura e me levou pra casa. Mesmo l, no me permitiram explicar para os
meus avs. A policial simplesmente me jogou no meu quarto e eu esperei. E esperei.
Eu no gosto de esperar.
Andei pelo quarto. Meu quarto no era nada elegante, s um sto com uma janela, uma
cama e uma mesa. No havia muita coisa para fazer. Muffin farejou minhas pernas e sua
calda se eriou em tufos como uma esponja de garrafas. Suponho que ela no goste do
cheiro de museus. Ela sibilou e desapareceu debaixo da cama.
"Valeu mesmo," murmurei.
Abri a porta, mas a policial estava de guarda.
"O inspetor estar com voc em um momento," ela me disse. "Por favor, fique l
dentro."
Eu podia ver l embaixo  s um vislumbre do vov andando pelo cmodo, torcendo as
mos, enquanto Carter e um inspetor policial conversavam no sof. Eu no conseguia
escutar o que eles estavam falando.
"Posso apenas usar o banheiro?" perguntei  policial simptica.
"No." Ela fechou a porta na minha cara. Como se eu pudesse arquitetar uma exploso
na privada. Francamente.
Peguei meu iPod e passei pela minha lista de msicas. Nada me chamou ateno. Eu o
joguei na minha cama com desgosto. Quando estou distrada at para msica,  uma
coisa muito triste. Fiquei me perguntando por que o Carter foi falar com a polcia
primeiro. Isso no era justo.
Mexi no colar que papai me dera. Eu nunca tive certeza do que o smbolo significava. O
do Carter era obviamente um olho, mas o meu se parecia um pouco com um anjo, ou
talvez com um rob aliengena assassino.




Por que diabos meu pai perguntara se eu ainda o tinha?  claro que eu ainda tinha. Era o
nico presente que ele j havia me dado. Bem, alm da Muffin, mas com a atitude dessa
gata, eu no tenho certeza se a chamaria de um presente apropriado.
Papai praticamente me abandonou aos seis anos de idade, de qualquer modo. O colar era
minha nica conexo com ele. Em dias bons, eu ficava olhando para o colar me
lembrando dele afetuosamente. Em dias ruins (que eram muito mais frequentes) eu o
arremessava pelo quarto e sapateava nele, amaldioando meu pai por no estar por
perto, o que eu achava bastante teraputico. Mas no fim, eu sempre colocava o colar de
volta.
De qualquer maneira, durante a loucura no museu  e eu no estou inventando isso  o
colar ficou mais quente. Eu quase o tirei, mas no conseguia parar de imaginar se ele
realmente estava me protegendo de alguma forma.
Eu vou consertar as coisas, papai dissera, com aquele olhar culpado que ele
frequentemente me dirige.
Bem, fracasso colossal, pai.
O que ele estava pensando? Eu quis acreditar que tudo fora um pesadelo: os hierglifos
brilhantes, o basto-cobra, o caixo. Coisas assim simplesmente no acontecem. Mas eu
sabia bem. Eu no podia sonhar com algo to horripilante quanto o rosto daquele
homem flamejante quando ele se virou para o nosso lado. "Logo, garoto," ele dissera
para o Carter, como se ele tivesse a inteno de nos procurar. A simples ideia fez
minhas mos tremerem. Eu tambm no conseguia parar de pensar em nossa parada na
Agulha de Clepatra, como o papai insistiu em v-la, como se estivesse criando
coragem, como se o que ele fez no Museu Britnico tivesse algo a ver com a mame.
Meus olhos vagaram pelo quarto e se fixaram na minha mesa.
No, pensei. No vou fazer isto.
Mas fui at l e abri a gaveta. Joguei para o lado algumas revistas velhas, meu estoque
de doces, uma pilha de deveres de casa de matemtica que eu tinha esquecido de
entregar, e algumas fotos minhas com minhas amigas Liz e Emma experimentando
chapus ridculos no mercado de Camden. E l no fundo estava a foto da minha me.
Meus avs possuem vrias fotos. Eles mantm um santurio para Ruby no guarda-
louas do corredor  trabalhos artsticos da infncia, seus resultados do ensino mdio,
sua foto de formatura da faculdade, suas jias favoritas. Era bem maluco. Eu estava
determinada a no ser como eles, vivendo no passado. Eu mal me lembrava dela, afinal,
e nada poderia mudar o fato de que ela estava morta.
Mas mantive essa nica foto. Era da mame e eu em nossa casa em Los Angeles, logo
depois que eu nasci. Ela estava em p na varanda, o Oceano Pacfico atrs dela,
segurando uma beb rechonchuda e enrugada que iria crescer algum dia e se tornar eu.
Eu-beb no era muita coisa, mas minha me era esplndida, mesmo de shorts e
camiseta maltrapilha. Seus olhos eram profundamente azuis. Seu cabelo loiro estava
preso para trs. Sua pele era perfeita. Meio deprimente comparada com a minha. As
pessoas sempre dizem que pareo com ela, mas eu no consigo sequer deixar de ter
espinha no queixo, muito menos parecer to madura e bonita.
 [Para de gargalhar, Carter]
A foto me fascinava porque eu mal me lembrava de nossa vida juntas. Mas a principal
razo pela qual eu mantivera a foto foi o smbolo na camiseta da mame: um daqueles
smbolos da vida  um ankh.




Minha falecida me usando o smbolo da vida. Nada poderia ser mais triste. Mas ela
sorria para a cmera como se soubesse um segredo. Como se meu pai e ela estivessem
compartilhando uma piada particular.
Algo deu um puxo no fundo da minha mente. Aquele homem atracado de sobretudo
que estivera discutindo com o papai do outro lado da rua  ele havia dito algo sobre o
Per Ankh.
Ele quisera dizer o Ankh como no smbolo da vida, e, se sim, o que  um per? Suponho
que ele no quis dizer pera, como a fruta.
Eu tinha uma sensao estranha de que, se visse as palavras Per Ankh escritas em
hierglifos, eu saberia o que elas significavam.
Guardei a foto da minha me. Peguei um lpis e virei um dos meus deveres de casa
antigos. Imaginei o que aconteceria se eu tentasse desenhar as palavras Per Ankh. O
modo certo simplesmente iria me ocorrer?
Quando toquei o lpis no papel, a porta do meu quarto abriu. "Senhorita Kane?"
Eu me virei rapidamente e larguei o lpis.
Um inspetor policial estava parado de cenho franzido no vo da porta. "O que voc est
fazendo?"
"Dever de matemtica," respondi.
Meu teto era bem baixo, ento o inspetor teve que se inclinar para entrar. Ele usava um
terno da cor de algodo que combinava com seus cabelos grisalhos e sua pele plida.
"Ento, Sadie. Eu sou o Inspetor Chefe Williams. Vamos conversar um pouco, que tal?
Sente-se."
Eu no me sentei, nem ele, o que deve t-lo irritado.  difcil parecer estar no comando
quando se est curvado como o Quasmodo.
"Conte-me tudo, por favor," ele disse, "A partir da hora em que seu pai veio te buscar."
"Eu j contei para a polcia no museu."
"Novamente, se no se importa."
Ento contei tudo pra ele. Por que no? Sua sobrancelha esquerda rastejava mais e mais
para o alto enquanto eu contava as partes estranhas como as letras brilhantes e o cajado-
cobra.
"Bem, Sadie," o Inspetor Williams disse. "Voc tem uma imaginao e tanto."
"No estou mentindo, Inspetor. E eu acho que sua sobrancelha est tentando escapar."
Ele tentou olhar para as prprias sobrancelhas, ento fechou a cara. "Agora, Sadie,
tenho certeza que isso  muito difcil para voc. Eu compreendo que voc queira
proteger a reputao de seu pai. Mas ele se foi agora "
"Voc quer dizer atravs do assoalho, em um caixo," insisti. "Ele no est morto."
Inspetor Williams estendeu as mos. "Sadie, eu sinto muito. Mas temos que descobrir o
motivo dele ter praticado esse ato de... bem..."
"Ato de qu?"
Ele pigarreou desconfortavelmente. "Seu pai destruiu artefatos inestimveis e
aparentemente causou sua prpria morte no processo. Ns gostaramos muito de saber o
motivo."
Eu o encarei. "Voc est dizendo que meu pai  um terrorista? Voc  louco?"
"Ns ligamos para algumas pessoas associadas ao seu pai. Entendo que o
comportamento dele tenha se tornado errtico desde a morte de sua me. Ele se tornou
distante e obsessivo em seus estudos, passando cada vez mais tempo no Egito "
"Ele  um maldito egiptlogo! Voc deveria estar procurando por ele, no fazendo
perguntas estpidas!"
"Sadie," ele disse, e eu podia ouvir em sua voz que ele estava resistindo ao impulso de
me estrangular. Estranhamente, eu causo esse tipo de reao com frequncia em adultos.
"H grupos extremistas no Egito que desaprovam objetos egpcios serem mantidos em
museus de outros pases. Essas pessoas podem ter se aproximado do seu pai. Talvez, em
seu estado, seu pai tenha se tornado um alvo fcil para eles. Se voc escutou ele
mencionar qualquer nome "
Passei impetuosamente por ele indo at a janela. Eu estava com tanta raiva que mal
conseguia pensar. Eu me recusava a acreditar que meu pai estava morto. No, no, no.
E terrorista? Por favor. Por que adultos tem que ser to mente fechada? Eles sempre
dizem "diga a verdade," e quando voc diz, eles no acreditam. Qual o objetivo?
Olhei para a rua escura abaixo. De repente aquela sensao de ardncia gelada ficou
mais forte que nunca. Eu me concentrei na rvore morta onde encontrei meu pai mais
cedo. Em p ali agora, na tnue luz do poste, olhando para mim, estava o cara
atarracado de sobretudo preto, culos redondos e chapu fedora  o homem que papai
chamou de Amos.
Creio que eu devia me sentir ameaada por um cara estranho estar me olhando no
escuro da noite. Mas sua expresso estava cheia de preocupao. E ele parecia to
familiar. Estava me deixando louca no me lembrar por qu.
Atrs de mim, o inspetor limpou a garganta. "Sadie, ningum culpa a voc pelo ataque
no museu. Ns entendemos que voc foi arrastada pra isso contra sua vontade."
Eu me virei da janela. "Contra minha vontade? Eu acorrentei o curador no escritrio
dele."
A sobrancelha do inspetor comeou a subir novamente. "Seja como for, com certeza
voc no entendia o que seu pai pretendia fazer. Possivelmente seu irmo estava
envolvido?"
Eu bufei. "Carter? Faa-me o favor."
"Ento voc est determinada a proteg-lo tambm. Voc realmente o considera como
um irmo, no ?"
Eu no conseguia acreditar nisso. Eu quis amassar a cara dele. "O que isso quer dizer?
Por que ele no se parece comigo?"
O inspetor piscou. "Eu s quis dizer "
"Eu sei o que voc quis dizer.  lgico que ele  meu irmo!"
Inspetor Williams levantou as mos em um gesto de desculpas, mas eu ainda estava
fervendo. Por mais que o Carter me irritasse, eu odiava quando as pessoas presumiam
que no ramos parentes, ou olhavam para o meu pai desconfiadamente quando ele
dizia que ns trs ramos uma famlia  como se tivssemos feito algo errado. Estpido
Dr. Martin no museu. Inspetor Williams. Isso acontecia toda vez que papai, Carter e eu
estvamos juntos. Toda maldita vez.
"Me desculpe, Sadie," o inspetor disse. "Eu s quero ter certeza que separamos os
inocentes dos culpados. Ser muito mais fcil para todos se voc cooperar. Qualquer
informao. Qualquer coisa que seu pai disse. Pessoas que ele possa ter mencionado."
"Amos," eu disse abruptamente, apenas para ver sua reao. "Ele encontrou um homem
chamado Amos."
O Inspetor Williams suspirou. "Sadie, ele no poderia ter feito isso. Com certeza voc
sabe disso. Ns conversamos com Amos h menos de uma hora, no telefone de sua casa
em Nova York."
"Ele no est em Nova York!" insisti. "Ele est bem "
Relanceei pela janela e Amos se fora. Tpico.
"No  possvel," falei.
"Exatamente," o inspetor disse.
"Mas ele estava aqui!" exclamei. "Quem  ele? Um dos colegas do meu pai? Como
voc sabia que devia ligar pra ele?"
"Realmente, Sadie. Essa atuao tem que parar."
"Atuao?"
O inspetor me estudou por um momento, ento ele firmou seu maxilar como se tivesse
tomado uma deciso. "Ns j conseguimos a verdade pelo Carter. Eu no quis chatear
voc, mas ele nos contou tudo. Ele compreende que no h motivo para proteger seu pai
agora. Voc tambm pode nos ajudar, e no haver acusaes contra voc."
"Voc no deveria mentir para crianas!" gritei, esperando que minha voz chegasse
escada abaixo. Carter nunca diria uma palavra contra o nosso pai, e eu tambm no!"
O inspetor no teve sequer a decncia de parecer embaraado.
Ele cruzou os braos. "Sinto muito que voc se sinta assim, Sadie. Temo que seja hora
de descermos as escadas... para discutir as consequncias com seus avs."
                                      QUATRO

            SEQUESTRADA POR UM NO-TO-ESTRANHO
EU SIMPLESMENTE AMO ENCONTROS FAMILIARES. Muito aconchegante, com
os enfeites de natal pendurados na lareira e um bom bule de ch e um detetive da
Scotland Yard pronto pra te prender.
Carter se afundou no sof, segurando a bolsa de ferramentas do papai. Fiquei pensando
por que a polcia o deixou ficar com ela. Devia ser evidncia ou coisa assim, mas o
inspetor pareceu no notar aquilo de maneira nenhuma.
Carter parecia horrvel  quero dizer, mais do que o normal. Honestamente, o menino
nunca esteve em uma escola normal, e ele se vestia como um professor substituto, com
suas calas caqui e camisas de boto e sapatos de viagem. Ele no  feio, suponho. Ele 
razoavelmente alto e magro e seu cabelo no  um caso perdido. Ele tem os olhos de
papai, e minhas amigas Liz e Emma j haviam me dito uma vez, olhando fotos dele, que
ele era gato, o que eu devo encarar com ressalvas porque (a) ele  meu irmo, e (b)
minhas amigas so um pouco doidas. Quando se trata de roupas, Carter no saberia o
que te deixa gato nem se isso mordesse sua bunda.
[Ah, no me olhe assim, Carter. Voc sabe que  verdade.]
De qualquer jeito, eu no deveria pegar to pesado com ele. Ele estava levando o
desaparecimento de nosso pai ainda pior que eu.
Vov e Vov sentaram um de cada lado dele, parecendo um pouco nervosos. O bule de
ch e o prato de biscoitos estavam em cima da mesa, mas ningum se servia. Chefe
Inspetor Williams ordenou que eu me sentasse na nica cadeira livre. Ento ele
caminhou na frente da lareira se fazendo de importante. Outros dois policiais estavam
na porta da frente  a mulher de mais cedo e o cara grande que no tirava os olhos dos
biscoitos.
"Sr. e Sra. Faust," falou o Inspetor Williams, "receio que tenhamos duas crianas que
no querem cooperar."
Vov mexeu na barra do seu vestido.  difcil acreditar que ela est relacionada 
mame. Vov  frgil e plida, como uma pessoa que se parece um graveto mesmo,
enquanto mame nas fotos sempre parece to feliz e cheia de vida. "Eles so apenas
crianas," ela conseguiu dizer. "Certamente voc no pode culp-los."
"B!" Vov disse. "Isso  ridculo, Inspetor. Eles no so responsveis!"
Vov  um jogador de rugby aposentado. Ele tem braos largos, uma barriga grande
demais para sua camisa, e olhos afundados no rosto, como se algum os tivesse socado
(bem, na verdade papai tinha socado anos atrs, mas essa  outra histria). Vov tem
uma aparncia um pouco assustadora. Normalmente as pessoas saem do seu caminho,
mas o Inspetor Williams no parecia impressionado.
"Sr. Faust," ele disse, "o que o senhor acha que as manchetes diro amanh? `Museu
Britnico atacado. Pedra de Roseta destruda.' O seu genro "
"Ex-genro!" Vov corrigiu.
" parece ter evaporado na exploso, ou fugiu, em todo caso "
"Ele no fugiu!" gritei.
"Ns precisamos saber onde ele est," o inspetor continuou. "E as nicas testemunhas,
seus netos, se recusam a me dizer a verdade."
"Ns contamos sim a verdade," Carter disse. "Papai no morreu. Ele afundou pelo
piso."
Inspetor Williams olhou para o meu av como se dissesse, A, viram? Ento ele se virou
para Carter. "Jovenzinho, seu pai cometeu um ato criminoso. Ele deixou vocs para trs
para lidarem com as consequncias "
"Isso no  verdade!" vociferei, minha voz tremendo de raiva. Eu no podia acreditar
que papai nos deixaria  merc da policia,  claro. Mas a ideia dele me abandonando 
bem, como devo ter mencionado,  um ponto delicado.
"Querida, por favor," vov me disse, "o Inspetor est apenas fazendo o trabalho dele."
"Muito mal!" falei.
"Vamos todos tomar um pouco de ch," vov sugeriu.
"No!" Carter e eu gritamos juntos, o que me fez ficar mal pela vov, j que ela
praticamente murchou no sof.
"Ns podemos acusar vocs," o inspetor avisou, se virando pra mim. "Ns podemos e
vamos "
Ele congelou. Ento ele piscou vrias vezes, como se tivesse esquecido o que estava
fazendo.
Vov franziu a testa. "H, Inspetor?"
"Sim..." Inspetor Chefe Williams murmurou sonhadoramente. Ele procurou no bolso e
tirou um pequeno livreto azul  um passaporte americano. E o jogou no colo de Carter.
"Voc est sendo deportado," o inspetor anunciou. "Voc deve deixar o pas em vinte
quatro horas. Se ns precisarmos interrog-lo depois, voc ser contatado atravs do
FBI."
A boca de Carter se abriu. Ele olhou pra mim, e sei que eu no estava imaginando o
quo estranho aquilo era. O inspetor havia mudado completamente de direo. Ele
estava prestes a nos prender. Eu tinha certeza disso. E ento, do nada, ele estava
deportando Carter? At mesmo os outros oficiais pareceram confusos.
"Senhor?" a policial perguntou. "Tem certeza "
"Quieta, Linley. Vocs dois podem ir."
Os policiais hesitaram at Williams fazer um movimento de enxotar com a mo. Ento
eles partiram, fechando a porta atrs deles.
"Calma a," Carter disse. "Meu pai desapareceu, e voc quer que eu saia do pas?"
"Seu pai est morto ou foragido, filho," o inspetor disse. "Deportao  a opo mais
gentil. J foi tudo arranjado."
"Com quem?" Vov demandou. "Quem autorizou isso?"
"Com..." O Inspetor ficou com aquela cara engraada de novo. "Com as devidas
autoridades. Acredite em mim,  melhor que a priso."
Carter parecia muito arrasado para falar, mas antes que eu pudesse sentir pena dele, o
Inspetor Williams se virou para mim. "Voc tambm, senhorita."
Ele poderia muito bem ter me atingido com uma marreta.
"Voc est me deportando?" perguntei. "Eu moro aqui!"
"Voc  uma cidad americana. E sob tais circunstncias,  melhor para voc voltar para
casa."
Eu apenas o encarei. No conseguia me lembrar de nenhum lar exceto este flat. Minhas
amigas na escola, meu quarto, tudo que eu conhecia estava aqui. "Para onde devo ir?"
"Inspetor," vov disse, sua voz tremendo. "Isso no  justo. No posso acreditar "
"Eu vou lhes dar algum tempo para se despedirem," o inspetor interrompeu. Ento ele
franziu o cenho como se estivesse perplexo com seus prprios atos. "Eu  eu devo ir."
Isso no fazia sentido, e o inspetor parecia compreender isso, mas ele andou para a porta
da frente de todo jeito. Quando ele a abriu, eu quase pulei da minha cadeira, porque o
homem de preto, Amos, estava parado l. Ele havia deixado o casaco e o chapu em
algum lugar, mas continuava usando o mesmo terno risca de giz e culos redondos. Seu
cabelo tranado brilhava com contas douradas.
Pensei que o inspetor ia dizer alguma coisa, ou mostrar surpresa, mas ele nem mesmo
notou Amos. Ele passou direto por ele e para dentro da noite.
Amos entrou e fechou a porta. Nossos avs se levantaram.
"Voc," vov rugiu. "Eu devia saber. Se eu fosse mais jovem, eu o reduziria a uma
polpa."
"Ol, Sr. e Sra. Faust," Amos disse. Ele olhou para Carter e para mim como se ns
fssemos problemas a serem solucionados. "Est na hora de conversarmos."
Amos se fez em casa. Ele se esparramou no sof e se serviu de ch. Mordiscou um
biscoito, o que era bem perigoso, porque os biscoitos de vov so horrveis.
Achei que a cabea de vov ia explodir. O rosto dele ficou vermelho brilhante. Ele foi
para trs de Amos e levantou sua mo como se estivesse a ponto de soc-lo, mas Amos
continuou mastigando o biscoito.
"Por favor, sentem-se," ele nos disse.
E todos nos sentamos. Foi a coisa mais estranha  como se estivssemos esperando pela
ordem dele. At vov baixou o punho e deu a volta no sof. Ele sentou perto de Amos
com uma cara desgostosa.
Amos tomou um gole do ch e me analisou com um qu de desaprovao. Aquilo no
era justo, pensei. Eu no estava to ruim, considerando pelo que passamos. Ento ele
olhou para Carter e grunhiu.
"Momento terrvel," ele murmurou. "Mas no h outro jeito. Eles tero que vir
comigo."
"Como ?" eu disse. "Eu no vou a lugar algum com um homem estranho com biscoito
no rosto!"
Ele realmente tinha farelo de biscoito no rosto, mas ele aparentemente no se importava,
tanto que no se incomodou em conferir.
"Eu no sou um estranho, Sadie," ele falou. "Voc no se lembra?"
Era estranho ouvi-lo falar comigo de um jeito to familiar. Eu senti que devia conhec-
lo. Olhei para Carter, mas ele parecia to intrigado quanto eu.
"No, Amos," vov disse, tremendo. "Voc no pode levar Sadie. Tnhamos um
acordo."
"Julius quebrou aquele acordo esta noite," Amos disse. "Vocs sabem que no podem
mais tomar conta de Sadie  no depois do que aconteceu. A nica chance deles  virem
comigo."
"Por que deveramos ir a qualquer lugar com voc?" Carter perguntou. "Voc quase
brigou com nosso pai!"
Amos olhou para a bolsa de ferramentas no colo de Carter. "Vejo que voc ficou com a
bolsa do seu pai. Isso  bom. Vocs vo precisar dela. Quanto a entrar em brigas, Julius
e eu fazemos muito isso. Se voc no percebeu, Carter, eu estava tentando impedi-lo de
fazer algo imprudente. Se ele tivesse me dado ouvidos, no estaramos nesta situao."
Eu no tinha ideia do que ele estava falando, mas vov aparentemente entendeu.
"Voc e suas supersties!" ele disse. "Eu disse a voc que no queramos nada disso."
Amos apontou para o ptio de trs. Atravs das portas de vidro, voc podia ver as luzes
brilhando no Tmisa. Era uma vista bem bonita  noite, quando no se pode notar quo
precrios so alguns prdios.
"Supersties, no ?" Amos perguntou. "E ainda assim voc achou um lugar para
morar no lado leste do rio."
Vov ficou ainda mais vermelho. "Isso foi ideia de Ruby. Achou que nos protegeria.
Mas ela estava errada sobre vrias coisas, no estava? Ela confiou em Julius e em voc,
por exemplo!"
Amos no pareceu perturbado. Ele cheirava engraado  como antigas especiarias,
copal e mbar, como as lojas de incenso em Covent Garden.
Ele terminou seu ch e olhou diretamente para vov. "Sra. Faust, a senhora sabe o que
foi iniciado. A polcia  a menor das suas preocupaes."
Vov engoliu em seco. "Voc... voc mudou a mente daquele inspetor. Voc o fez
deportar Sadie."
"Era isso ou ver as crianas presas," disse Amos.
"Espera a," falei. "Voc mudou a mente do inspetor Williams? Como?"
Amos deu de ombros. "No  permanente. Na verdade devemos ir para Nova York na
prxima hora mais ou menos antes do inspetor Williams comear a se perguntar por que
deixou vocs irem."
Carter riu incrdulo. "Voc no pode ir para Nova York de Londres em uma hora. Nem
mesmo o avio mais rpido "
"No," Amos concordou. "Sem avio." Ele se virou de volta para vov como se tudo
tivesse se resolvido. "Sra. Faust, Carter e Sadie tem apenas uma opo segura. Voc
sabe disso. Eles viro para a manso no Brooklyn. Posso proteg-los l."
"Voc tem uma manso," Carter disse. "No Brooklyn."
Amos deu a ele um sorriso divertido. "A manso da famlia. Vocs estaro seguros l."
"Mas nosso pai "
"Est alm da sua ajuda agora," Amos disse tristemente. "Eu sinto muito, Carter.
Explicarei depois, mas Julius ia querer voc a salvo. Para isso, devemos nos mover
rpido. Receio que eu seja tudo que voc tem."
Isso era um pouco duro, eu achei. Carter olhou para vov e vov. Ento ele assentiu
sombriamente. Ele sabia que eles no o queriam por perto. Ele sempre os lembrava do
papai. E sim, era um motivo estpido para no acolher seu neto, mas a est.
"Bom, Carter pode fazer o que ele quiser," eu disse. "Mas eu moro aqui. E no vou
embora com um estranho, vou?"
Eu olhei para vov buscando apoio, mas ela estava olhando para as riscas na mesa como
se de repente elas tivessem se tornado bem interessantes.
"Vov, certamente..."
Mas ele no encontrou meus olhos tambm. Ele se virou para Amos. "Voc pode tir-
los do pas?"
"Espera a!" protestei.
Amos se levantou e limpou as migalhas do seu terno. Ele andou at as portas do ptio e
olhou para o rio. "A polcia voltar logo. Contem a eles o que quiserem. Eles no iro
nos encontrar."
"Voc vai nos sequestrar?" perguntei, abismada. Olhei para Carter. "Voc acredita
nisso?"
Carter colocou a bolsa por sobre o ombro. Ento se levantou como se estivesse pronto
para partir. Possivelmente ele s queria sair do flat de nossos avs. "Como voc planeja
chegar a Nova York em uma hora?" ele perguntou a Amos. "Voc disse, sem avio."
"No," Amos concordou. Ele ps um dedo na janela e tracejou alguma coisa na nvoa 
outro maldito hierglifo.
"Um barco," falei  ento percebi que havia traduzido em voz alta, o que eu no deveria
ser capaz de fazer.
Amos me olhou por cima de seus culos redondos. "Como voc "
"Quero dizer, aquele pedao pelo menos se parece com um barco," falei abruptamente.
"Mas isso no pode ser o que voc quis dizer. Isso  ridculo."
"Olhe!" Carter gritou.
Eu me imprensei ao lado dele nas portas do ptio. Mais a frente no cais, um barco
estava ancorado. Mas no um barco qualquer, imagine voc. Era um barco egpcio
vermelho, com duas tochas queimando a frente, e um grande leme atrs. Uma figura
num sobretudo preto e chapu  possivelmente de Amos  estava em p na beira.
Vou admitir, pela primeira vez, eu estava sem palavras.
"Ns vamos naquilo," disse Carter. "Para o Brooklyn."
" melhor comearmos," Amos falou.
Eu me virei para minha av. "Por favor, v!"
Ela limpou uma lgrima da bochecha. " para o seu bem, minha querida. Voc deve
levar Muffin."
"Ah, sim," Amos disse. "No podemos esquecer a gata."
Ele se virou para a escada. Como se adivinhasse, Muffin desceu correndo e pulou direto
para os meus braos. Ela nunca faz isso.
"Quem  voc?" perguntei a Amos. Estava claro que eu estava ficando sem opes, mas
pelo menos eu queria respostas. "No podemos simplesmente ir embora com um
estranho."
"Eu no sou um estranho." Amos sorriu para mim. "Sou famlia."
E de repente eu me lembrei daquele rosto sorrindo para mim, dizendo. "Feliz
aniversrio, Sadie." Uma memria to distante, que eu havia quase esquecido.
"Tio Amos?" perguntei nebulosamente.
"Isso mesmo, Sadie," ele falou. "Eu sou irmo de Julius. Agora suba a bordo. Temos
um longo caminho pela frente."
                                        CINCO

                      NS CONHECEMOS O MACACO

 O CARTER DE NOVO. SINTO MUITO. Ns tivemos que desligar o gravador por
um tempo porque estvamos sendo seguidos por  bem, voltaremos a isso depois.
Sadie estava contando a voc como deixamos Londres, certo?
De qualquer forma, ns seguimos Amos at o estranho barco ancorado no cais. Eu
carregava a bolsa de ferramentas do meu pai embaixo do brao. Ainda no conseguia
acreditar que ele se fora. Eu me senti culpado por deixar Londres sem ele, mas acreditei
em Amos sobre uma coisa: nesse momento nosso pai estava alm de nossa ajuda. Eu
no confiava em Amos, mas imaginei que se quisesse descobrir o que acontecera com
meu pai, eu teria que acompanh-lo. Ele era a nica pessoa que parecia saber alguma
coisa.
Amos subiu a bordo do barco de junco. Sadie pulou logo depois, mas eu hesitei. Eu j
tinha visto barcos como esse no Nilo antes, mas eles nunca pareceram muito firmes.
Ele era basicamente feito de rolos de fibra de planta tranados juntos  como um tapete
gigante e flutuante. Considerei que as tochas na frente no podiam ser uma boa ideia,
porque se no afundssemos, iramos pegar fogo. Atrs, o leme era manejado por um
pequeno sujeito que vestia o sobretudo preto de Amos e seu chapu. O chapu estava
enfiado em sua cabea, ento no consegui ver o seu rosto. Suas mos e ps estavam
perdidos nas dobras do casaco.
"Como essa coisa se move?" perguntei a Amos. "Voc no tem vela."
"Confie em mim." Amos me ofereceu sua mo.
A noite estava fria, mas quando pisei a bordo de repente me senti aquecido, como se as
luzes das tochas estivessem lanando um calor protetor sobre ns. No meio do barco
havia uma choupana feita de esteiras entrelaadas. Dos braos de Sadie, Muffin a
farejou e rosnou.
"Sente-se ali dentro," Amos sugeriu. "A viagem pode ser um pouco agitada."
"Eu vou ficar em p, obrigada." Sadie acenou com a cabea para o pequeno sujeito na
parte de trs. "Quem  seu piloto?"
Amos agiu como se no tivesse escutado a pergunta. "Segurem-se todos!" Ele assentiu
para o timoneiro e o barco deu uma guinada para a frente.
A sensao era difcil de descrever. Sabe aquele formigamento na boca do estmago
quando voc est em uma montanha-russa e ela entra em queda livre? Era mais ou
menos como aquilo, exceto que no estvamos caindo, e a sensao no passava. O
barco se movia a uma velocidade espantosa. As luzes da cidade eram um borro, e em
seguida foram engolidas por uma espessa neblina. Sons estranhos ecoavam na
escurido: rastejando e sibilando, gritos distantes, vozes sussurrando em lnguas que eu
no entendia.
O formigamento se transformou em nusea. Os sons ficaram mais altos, at eu mesmo
estar a ponto de gritar. Ento, de repente, o barco desacelerou. Os barulhos pararam, e a
nvoa se dissipou. As luzes de cidade retornaram, mais brilhantes do que antes.
Acima de ns assomava uma ponte, mais alta do que qualquer ponte em Londres. Meu
estmago deu um lento giro.  esquerda, vi um horizonte familiar  o edifcio Chrysler,
o edifcio Empire State.
"Impossvel," eu disse. "Esta  Nova York."
Sadie parecia to enjoada quanto eu. Ela ainda embalava Muffin, cujos olhos estavam
fechados. A gata parecia estar ronronando. "No pode ser," Sadie disse. "Ns viajamos
apenas por alguns minutos."
E mesmo assim ali estvamos, velejando pelo rio East, bem embaixo da ponte
Williamsburg. Ns deslizamos para parar perto de uma pequena doca no lado do
Brooklyn do rio.  nossa frente, havia um depsito industrial cheio de pilhas de sucata e
equipamentos velhos de construo. No centro de tudo isso, bem  beira da gua,
erguia-se um enorme armazm completamente coberto por grafite, as janelas tapadas.
"Aquilo no  uma manso," Sadie disse. Seus poderes de percepo eram realmente
incrveis.
"Olhe novamente." Amos apontou para o topo do edifcio.
"Como... como voc..." Minha voz falhou. Eu no sabia por que no tinha visto antes,
mas agora era bvio: uma manso de cinco andares empoleirada no teto do armazm,
como outra camada de um bolo. "Voc no conseguiria construir uma manso ali em
cima!"
"Longa histria," disse Amos. "Mas ns precisvamos de um local privado."
"E esta  a margem leste?" perguntou Sadie. "Voc disse algo sobre isso em Londres 
meus avs vivendo na margem leste."
Amos sorriu. "Sim. Muito bom, Sadie. Nos tempo antigos, a margem leste do Nilo era
sempre o lado dos vivos, o lado em que o sol se erguia. Os mortos eram sepultados a
oeste do rio. Era considerado agourento, at mesmo perigoso, viver ali. A tradio
continua forte entre... o nosso povo."
"Nosso povo?" perguntei, mas Sadie interveio com outra pergunta.
"Ento voc no pode morar em Manhattan?" ela perguntou.
Amos fraziu a testa enquanto olhava para alm do edifcio Empire State. "Manhattan
tem outros problemas. Outros deuses.  melhor permanecermos separados."
"Outros o qu?" Sadie exigiu.
"Nada." Amos passou por ns e foi at o timoneiro. Ele arrancou o chapu e o casaco
do homem  e no havia ningum por baixo. O timoneiro simplesmente no estava l.
Amos colocou seu chapu fedora, dobrou seu casaco sobre seu brao, e ento acenou
para uma escadaria de metal que subia todo o caminho pela lateral do depsito at a
manso no telhado.
"Todos em terra firme," ele disse. "E bem-vindos ao Vigsimo Primeiro Nome."
"Gnomo?" perguntei, enquanto ns o seguamos escada acima. "Como aqueles sujeitos
minsculos?"
"Cus, no," disse Amos. "Eu odeio gnomos. Eles cheiram muito mal."
"Mas voc disse "
"Nome, n-o-m-e. Como em um distrito, uma regio. O termo  dos tempos antigos,
quando o Egito era dividido em quarenta e duas provncias. Hoje, o sistema  um pouco
diferente. Ns nos tornamos globais. O mundo  dividido em trezentos e sessenta
nomes. Egito,  claro,  o Primeiro. A grande Nova York  o Vigsimo Primeiro."
Sadie olhou para mim e girou o dedo em volta de sua tmpora.
"No, Sadie," Amos disse sem olhar para trs. "Eu no sou louco. H muito que voc
precisa aprender."
Ns alcanamos o topo das escadas. Olhando acima para a manso, era difcil entender
o que eu estava vendo. A casa tinha pelo menos quatro metros de altura, feita de
enormes blocos de calcrio e janelas emolduradas em ao. Havia hierglifos gravados
em volta das janelas, e as paredes estavam iluminadas de forma que o lugar parecia algo
entre um museu moderno e um templo antigo. Mas a coisa mais estranha era que se eu
olhasse para outro lugar, o prdio inteiro parecia desaparecer.

Testei isso vrias vezes s para ter certeza. Se eu olhasse para a manso pelo canto do
olho, no estava mais l. Eu tinha que forar meus olhos a foc-la novamente, e mesmo
isso precisou de muita fora de vontade.
Amos parou antes de chegar  entrada, que era do tamanho de um porto de garagem 
um quadrado escuro e pesado de madeira com nenhuma maaneta ou fechadura visvel.
"Carter, depois de voc."
"Hum, como eu "
"Como voc acha?"
timo, outro mistrio. Eu estava a ponto de sugerir que batssemos a cabea de Amos
contra aquilo para ver se isso funcionava. Ento olhei novamente para a porta, e tive a
mais estranha sensao. Estiquei meu brao. Lentamente, sem tocar na porta, levantei
minha mo e a porta seguiu meu movimento  deslizando para cima at desaparecer no
teto.

Sadie parecia atordoada. "Como..."
"Eu no sei," admiti, um pouco envergonhado. "Sensor de movimento, talvez?"
"Interessante." Amos soou um pouco perturbado. "No foi como eu teria feito, mas
muito bem. Extraordinariamente bom."
"Obrigado, eu acho."
Sadie tentou entrar primeiro, mas assim que ela pisou na soleira, Muffin gemeu e quase
forou sua sada dos braos de Sadie a arranhes.
Sadie tropeou para trs. "O que foi, gata?"
"Oh,  claro," disse Amos. "Minhas desculpas." Ele colocou sua mo na cabea da gata
e disse, muito formalmente, "Voc pode entrar."
"A gata precisa de permisso?" perguntei.
"Circunstncias especiais," disse Amos, o que no foi muito uma explicao, mas ele
caminhou para dentro sem dizer outra palavra. Ns o seguimos, e desta vez Muffin
permaneceu quieta.
"Oh, meu deus..." o queixo de Sadie caiu. Ela ergueu o pescoo para olhar para o teto, e
pensei que o chiclete poderia cair de sua boca.
"Sim," disse Amos. "Este  o Grande Salo."
Eu podia ver por que ele o chamava assim. O teto de vigas de cedro tinha quatro andares
de altura, sustentado por pilares esculpidos em pedra gravados com hierglifos. Uma
estranha variedade de instrumentos musicais e armas do Egito Antigo decoravam as
paredes. Trs nveis de varandas rodeavam o cmodo, com fileiras de portas com vista
para a rea principal. A lareira era grande o suficiente para se estacionar um carro
dentro, com uma TV de plasma no aparador e pesados sofs de couro de cada lado. No
cho havia um tapete de pele de cobra, exceto por ter doze metros de comprimento e
quatro metros e meio de largura  maior do que qualquer cobra.

Do lado de fora, atravs das paredes de vidro, eu podia ver o terrao que rodeava a casa.
Tinha uma piscina, uma rea de jantar, e um poo de fogo resplandecente. E na ponta
mais distante do Grande Salo havia um conjunto de portas duplas marcadas com o
Olho de Hrus, e trancadas com meia dzia de cadeados. Eu imaginei o que poderia
haver atrs delas.
Mas a real atrao principal era a esttua no centro do Grande Salo. Tinha nove metros
de altura, feita de mrmore negro. Eu podia dizer que era um deus egpcio porque a
figura tinha corpo humano e cabea de animal  como uma cegonha ou uma gara, com
um pescoo longo e um bico realmente comprido.
O deus estava vestido no estilo antigo com kilt, faixa, e colar. Ele segurava um estilete
de escriba em uma mo, e um pergaminho aberto na outra, como se ele tivesse acabado
de escrever os hierglifos inscritos ali: um ankh  a cruz com ala ovalada egpcia 
com um retngulo traado em torno de seu topo.




" isso!" Sadie exclamou. "Per Ankh."
Eu a encarei com descrena. "Tudo bem, como voc pode ler aquilo?"
"Eu no sei," ela disse. "Mas  bvio, no ? O topo  feito como a planta baixa de uma
casa."
"De onde voc tirou isso?  s uma caixa." O negcio era que ela estava certa. Eu
reconheci o smbolo, e supostamente deveria ser a imagem simplificada de uma casa
com uma porta de entrada, mas isso no seria bvio para a maioria das pessoas,
especialmente pessoas chamadas Sadie. Mesmo assim ela parecia absolutamente segura.
" uma casa," ela insistiu. "E a imagem inferior  o ankh, o smbolo para vida. Per
Ankh  a Casa da Vida."
"Muito bem, Sadie." Amos pareceu impressionado. "E esta  a esttua do nico deus
ainda admitido na Casa da Vida - pelo menos, normalmente. Voc o reconhece,
Carter?"
S ento eu me liguei: o pssaro era um bis, uma ave que vivia nos rios egpcios.
"Thoth," eu disse. "O deus do conhecimento. Ele inventou a escrita."
"De fato," disse Amos.
"Por que as cabeas de animais?" Sadie perguntou. "Todos esses deuses egpcios tm
cabeas de animais. Eles parecem to estpidos."
"Eles normalmente no aparecem assim," disse Amos. "No na vida real."
"Vida real?" perguntei. "Fala srio. Voc fala como se os tivesse conhecido em pessoa."
A expresso de Amos no me tranquilizou. Parecia que ele estava se lembrando de algo
desagradvel. "Os deuses podem aparecer em vrias formas  geralmente
completamente humanos ou completamente animais, mas ocasionalmente em uma
forma hbrida como essa. Eles so foras primordiais, entende, um tipo de ponte entre
humanidade e natureza. Eles so representados com cabeas de animais para mostrar
que eles existem em dois diferentes mundos de uma vez s. Voc compreende?"
"Nem um pouco," disse Sadie.
"Mmm." Amos no soou surpreso. "Sim, teremos muito treinamento pela frente. De
qualquer forma, o deus a sua frente, Thoth, fundou a Casa da Vida, por isso esta manso
 o quartel general regional. Ou pelo menos... costumava ser. Eu sou o nico membro
restante no Vigsimo Primeiro Nome. Ou era, at vocs dois chegarem."
"Espere a." Eu tinha tantas perguntas que mal conseguia pensar por onde comear. "O
que  a Casa da Vida? Por que Thoth  o nico deus admitido aqui, e por que voc "
"Carter, entendo como se sente." Amos sorriu simpaticamente. "Mas essas coisas so
melhores discutidas na luz do dia. Voc precisa dormir um pouco, e eu no quero que
tenha pesadelos."
"Voc acha que consigo dormir?"
"Row." Muffin se esticou nos braos de Sadie e soltou um enorme bocejo.
Amos bateu palmas. "Khufu!"
Pensei que ele tinha espirrado, porque Khufu  um nome estranho, mas ento um
carinha com um metro de altura, pelos dourados e uma camiseta roxa veio balanando
escada abaixo. Levei um segundo para perceber que era um babuno vestindo um
moletom dos Lakers.
O babuno deu um salto e aterrissou  nossa frente. Ele mostrou suas presas e fez um
rudo que era meio rugido e meio arroto. Seu bafo cheirava a doritos sabor nacho.
Tudo o que eu pude pensar em dizer foi, "O Lakers  o time da minha cidade natal!"
O babuno bateu na cabea com as duas mos e arrotou novamente.
"Ah, Khufu gosta de voc," disse Amos. "Vocs vo se dar esplendidamente bem."
"Certo." Sadie parecia atordoada. "Voc tem um macaco mordomo. Por que no?"
Muffin ronronou nos braos de Sadie como se o babuno no a incomodasse nem um
pouco.
"Agh!" Khufu grunhiu pra mim.
Amos riu. "Ele quer um mano-a-mano com voc, Carter. Para, ah, ver o seu jogo."
Eu desloquei meu peso de um p para o outro. "Hum, . Claro. Talvez amanh. Mas
como voc consegue entender "
"Carter, temo que voc ter muito com o que se acostumar," disse Amos. "Mas se vocs
querem sobreviver e salvar o pai de vocs, precisam de algum descanso."
"Desculpe," Sadie disse, "voc disse `sobreviver e salvar nosso pai'? Voc poderia
desenvolver isso?"
"Amanh," disse Amos. "Comearemos sua orientao de manh. Khufu, mostre a eles
seus quartos, por favor."
"Agh-uhh!" o babuno grunhiu. Ele se virou e bamboleou escada acima. Infelizmente, o
moletom do Lakers no cobria completamente seu traseiro multicolor.
Ns estvamos a ponto de segui-lo quando Amos disse, "Carter, a bolsa de ferramentas,
por favor.  melhor que eu a tranque na biblioteca."
Hesitei. Tinha quase esquecido a bolsa em meu ombro, mas era tudo que eu tinha do
meu pai. Eu nem mesmo tinha nossa bagagem porque ela ainda estava trancada no
Museu Britnico. Honestamente, eu tinha ficado surpreso por a polcia no ter pego a
bolsa de ferramentas tambm, mas nenhum deles pareceu not-la.
"Voc vai t-la de volta," prometeu Amos. "No momento certo."
Ele pediu com educao, mas algo em seus olhos me disse que eu realmente no tinha
escolha.
Entreguei a maleta. Amos a tomou cautelosamente, como se estivesse cheia de
explosivos.
"Vejo vocs de manh." Ele se virou e caminhou para as portas trancadas. Elas se auto-
destravaram e abriram apenas o suficiente para que Amos passasse sem nos mostrar
nada do outro lado. Ento as correntes se fecharam novamente atrs dele.
Eu olhei para Sadie, incerto do que fazer. Ficarmos sozinhos no Grande Salo com a
arrepiante esttua de Thoth no parecia muito divertido, ento seguimos Khufu escada
acima.
Sadie e eu recebemos quartos contguos no terceiro andar, e eu tive que admitir, eles
eram mais muito mais legais do que qualquer lugar em que eu estivera antes.
Eu tinha minha prpria kitinete, completamente abastecida com meus lanches favoritos:
ginger ale  [No, Sadie. No  refrigerante de gente velha! Fique quieta]  Twix, e
Skittles. Parecia impossvel. Como Amos sabia do que eu gostava? A TV, o computador
e aparelho de som eram completamente high-tech. O banheiro estava abastecido com
minhas marcas habituais de pasta de dente, desodorante, tudo. A cama king-size era
incrvel tambm, apesar do travesseiro ser um pouco estranho. Em vez de um
travesseiro de tecido, era um encosto de cabea de marfim como eu tinha visto em
tumbas egpcias. Era decorado com lees e ( claro) mais hierglifos.
O quarto tinha at mesmo um deque que dava para o Porto de Nova York, com vistas de
Manhattan e da Esttua da Liberdade ao longe, mas as portas de vidro deslizantes
estavam de algum modo trancadas. Aquele foi meu primeiro sinal de que havia algo
errado.
Eu me virei para procurar por Khufu, mas ele se fora. A porta do meu quarto estava
fechada. Tentei abrir, mas estava trancada.
Uma voz abafada veio do quarto ao lado. "Carter?"
"Sadie." Tentei a porta para o seu quarto contguo, mas tambm estava trancada.
"Ns somos prisioneiros," ela disse. "Voc acha que Amos... quero dizer, podemos
confiar nele?"
Depois de tudo o que eu vira hoje, eu no confiava em nada, mas eu podia ouvir o medo
na voz de Sadie. Isso desencadeou um sentimento desconhecido em mim, como se eu
precisasse tranquiliz-la. A ideia pareceu ridcula. Sadie sempre pareceu muito mais
corajosa do que eu  fazendo o que queria, nunca se importando com as consequncias.
Eu era o que ficava assustado. Mas agora, senti como se precisasse interpretar um papel
que eu no interpretava h muito, muito tempo: o de irmo mais velho.
"Vai ficar tudo bem." Tentei soar confiante. "Olhe, se Amos quisesse nos machucar, ele
j poderia ter feito isso a essa altura. Tente dormir um pouco."
"Carter?"
"Sim?"
"Foi mgica, no foi? O que aconteceu com papai no museu. O barco de Amos. Esta
casa. Tudo isso  mgica."

"Acho que sim."
Eu pude ouvir seu suspiro. "Bom. Pelo menos no estou ficando louca."
"No deixe os percevejos te morderem," falei. E percebi que eu no havia dito isso a
Sadie desde que morvamos em Los Angeles juntos, quando mame ainda estava viva.
"Eu sinto falta do papai," ela disse. "Eu quase nunca o via, eu sei, mas... sinto falta
dele."
Meus olhos ficaram um pouco marejados, mas respirei fundo. Eu no ia dar uma de
fraco. Sadie precisava de mim. Nosso pai precisava de ns.
"Ns vamos encontr-lo," eu disse a ela. "Bons sonhos."
Fiquei escutando, mas a nica coisa que ouvi foi Muffin miando e correndo por ali,
explorando seu novo espao. Pelo menos ela no parecia infeliz.
Eu me preparei para dormir e subi na cama. Os cobertores eram quentes e confortveis,
mas o travesseiro era estranho demais. Ele me deu cibras no pescoo, ento eu o
coloquei no cho e fui dormir sem ele.
Meu primeiro grande erro.
                                         SEIS

                CAF DA MANH COM UM CROCODILO

COMO DESCREVER ISSO? No foi um pesadelo. Era muito mais real e assustador.
Enquanto eu adormecia, senti que estava ficando mais leve. Eu flutuei, virei, e vi minha
prpria forma adormecida abaixo.
Estou morrendo, pensei. Mas no era isso tambm. Eu no era um fantasma. Eu tinha
uma nova forma dourada brilhante com asas no lugar de braos. Eu era uma espcie de
pssaro. [No, Sadie, no era uma galinha. Voc vai me deixar contar a histria, por
favor?]
Eu sabia que no estava sonhando, porque eu no sonho colorido. Eu certamente no
sonho em todos os cinco sentidos. O quarto cheirava levemente a jasmim. Eu podia
ouvir as bolhas sibilando na lata de ginger ale que eu abrira na minha mesa de
cabeceira. Podia sentir um vento frio atravs das minhas penas, e percebi que as janelas
estavam abertas. Eu no queria sair, mas uma corrente forte me puxou para fora do
quarto como uma folha em uma tempestade.
As luzes da manso se extinguiram abaixo de mim. A linha do horizonte de Nova York
ficou borrada e desapareceu. Eu disparei atravs da neblina e da escurido, vozes
estranhas sussurrando ao meu redor. Meu estmago formigou como anteriormente
naquela noite na barca de Amos. Ento a nvoa clareou, e eu estava em um lugar
diferente. Eu flutuei acima de uma montanha rida. Muito abaixo, uma grade de luzes
da cidade se estendia por todo o vale. Definitivamente no era Nova York. Era noite,
mas eu podia dizer que estava no deserto. O vento era to seco que a pele do meu rosto
estava como papel. E eu sei que no faz sentido, mas meu rosto parecia como meu rosto
normal, como se essa parte de mim no tivesse se transformado em um pssaro. [Certo,
Sadie. Pode me chamar de galinha com cabea de Carter. Satisfeita?]
Abaixo de mim, em um cume, duas figuras estavam em p. Eles no pareceram me
notar, e percebi que no estava mais brilhando. Na verdade, eu estava bem invisvel,
flutuando na escurido.
Eu no conseguia distinguir claramente as duas figuras, exceto para reconhecer que no
eram humanas. Encarando com dificuldade, pude ver que um era pequeno, corcunda e
calvo, com uma pele viscosa que brilhava  luz das estrelas  como um anfbio em p
nas patas traseiras. O outro era alto e magro como um espantalho, com garras de galo no
lugar de ps. Eu no podia ver seu rosto muito bem, mas ele parecia vermelho e
purulento e... bem, vamos apenas dizer que fiquei contente por no poder v-lo melhor.
"Onde ele est?" o que se parecia um sapo coaxou nervosamente.
"No tomou um hospedeiro permanente ainda," o cara com ps de galo repreendeu.
"Ele s pode aparecer por um curto perodo de tempo."
"Voc est certo de que este  o lugar?"
"Sim, idiota! Ele estar aqui em breve "
Uma forma flamejante apareceu no cume. As duas criaturas foram ao cho, rastejando
na lama, e rezei como um louco pra que eu realmente estivesse invisvel.
"Meu lorde!" disse o sapo.
Mesmo no escuro, o recm-chegado era difcil de ver  apenas a silhueta de um homem
contornada por chamas.
"Como eles chamam este lugar?" perguntou o homem. E assim que ele falou, eu sabia
com certeza que era o cara que tinha atacado o meu pai no Museu Britnico. Todo o
medo que eu sentira no museu voltou correndo, me paralisando. Eu me lembrei de tentar
pegar a pedra estpida para jogar, mas eu no tinha sido capaz de fazer sequer isso. Eu
tinha falhado completamente com meu pai.
"Meu lorde," P de Galo disse. "A montanha  chamada Camelback. A cidade 
chamada de Phoenix."
O homem flamejante gargalhou  um som crescente como um trovo. "Phoenix. Que
apropriado! E o deserto  como a nossa casa. Tudo o que precisa agora  ter toda vida
expulsa. O deserto deve ser um lugar estril, no acha?"
"Ah sim, meu lorde," o sapo concordou. "Mas e quanto aos outros quatro?"
"Um j est enterrado," disse o homem flamejante. "O segundo  fraco. Ela ser
facilmente manipulada. Isso deixa apenas dois. E lidarei com eles em breve."
"Er... de que forma?" o sapo perguntou.
O homem flamejante resplandeceu ainda mais brilhante. "Voc  um girino curioso, no
?" Ele apontou para o sapo e a pele da pobre criatura comeou a fumegar.
"No!" o sapo implorou. "Noo!"
Eu mal consegui assistir. Eu no quero descrever. Mas se voc ouviu o que acontece
quando as crianas crueis derramam sal em lesmas, voc ter uma boa ideia do que
aconteceu com o sapo. Logo no havia mais nada.
P de Galo deu um nervoso passo para trs. Eu no podia culp-lo.
"Vamos construir o meu templo aqui," disse o homem flamejante, como se nada tivesse
acontecido. "Esta montanha deve servir como meu lugar de adorao. Quando estiver
completo, vou convocar a maior tempestade j vista. Eu vou purificar tudo. Tudo."
"Sim, meu lorde," P de Galo concordou rapidamente. "E, ah, se eu puder sugerir, meu
lorde, para aumentar seu poder..." A criatura se curvou e rastejou se movendo para a
frente, como se quisesse sussurrar no ouvido do homem flamejante.
Bem quando pensei que o P de Galo ia virar galinha frita com certeza, ele disse algo ao
cara flamejante que eu no consegui ouvir, e o cara flamejante queimou mais brilhante.
"Excelente! Se voc puder fazer isso, voc ser recompensado. Se no..."
"Eu compreendo, meu lorde."
"V ento," disse o homem flamejante. "Liberte as nossas foras. Comece com os
pescoos compridos. Isso deve amolec-los. Recolha os jovens e os traga para mim. Eu
os quero vivos, antes que tenham tempo para aprender os seus poderes. No falhe."
"No, lorde."
"Phoenix," meditou o homem flamejante. "Eu gosto muito disso." Ele varreu a mo
pelo horizonte, como se estivesse imaginando a cidade em chamas. "Em breve irei
ressurgir das suas cinzas. Ser um presente de aniversrio adorvel."
Acordei com meu corao batendo forte, de volta ao meu prprio corpo. Eu me sentia
quente, como se o cara flamejante estivesse comeando a me queimar. Ento percebi
que havia um gato no meu peito.
Muffin me encarou, os olhos semicerrados. "Row."
"Como voc entrou?" murmurei.
Eu me sentei, e por um segundo eu no tinha certeza de onde estava. Algum hotel em
outra cidade? Quase chamei por meu pai... e ento me lembrei.
Ontem. O museu. O sarcfago.
Tudo isso me esmagou com tanta fora que eu mal podia respirar.
Pare, eu disse a mim mesmo. Voc no tem tempo para tristeza. E isso vai soar
estranho, mas a voz na minha cabea quase soou como uma pessoa diferente  mais
velho, mais forte. Ou isso era um bom sinal, ou eu estava enlouquecendo.
Lembre-se do que voc viu, disse a voz. Ele est atrs de voc. Voc tem que estar
preparado.
Estremeci. Eu queria acreditar que apenas tivera um sonho ruim, mas eu sabia melhor.
Eu havia passado por muita coisa nos ltimos dias para duvidar do que eu tinha visto.
De alguma forma, eu realmente havia deixado meu corpo enquanto dormia. Eu estivera
em Phoenix  a milhares de quilmetros de distncia. O cara flamejante estava l. Eu
no tinha entendido muito o que ele dissera, mas ele falou sobre enviar suas foras para
capturar os jovens. Puxa, imagina quem poderia ser?
Muffin pulou da cama e cheirou o encosto de cabea feito de marfim, olhando para mim
como se estivesse tentando me dizer algo.
"Voc pode ficar com isso," disse ela. " desconfortvel."
Ela bateu a cabea contra o encosto e me encarou acusadoramente. "Mrow."
"Que seja, gata."
Eu me levantei e tomei banho. Quando tentei me vestir, descobri que minhas roupas
antigas tinham desaparecido durante a noite. Tudo no armrio era do meu tamanho, mas
muito diferente do que eu estava acostumado  calas largas de cordo e camisas soltas,
tudo de linho claramente branco, e vestes para o tempo frio, do tipo que os fellahin,
camponeses no Egito, usavam. No era exatamente o meu estilo.
Sadie gosta de me dizer que eu no tenho um estilo. Ela reclama que me visto como um
homem velho  camisa de boto, calas, sapatos sociais. Ok, talvez. Mas aqui  que
est. Meu pai tinha sempre tentara por na minha cabea que eu tinha de vestir o meu
melhor.
Eu me lembro da primeira vez que ele me explicou isso. Eu tinha dez anos. Estvamos a
caminho do aeroporto de Atenas, e era como 112 graus l fora, e eu estava reclamando
que queria vestir shorts e uma camiseta. Por que no posso ficar confortvel? Ns no
estvamos indo a lugar algum importante naquele dia  s viajando.
Meu pai ps a mo no meu ombro. "Carter, voc est ficando mais velho. Voc  um
homem afro-americano. Pessoas iro julg-lo duramente, e por isso voc deve sempre
estar impecvel."
"Isso no  justo!" insisti.
"Justia no significa que todos recebem o mesmo," meu pai disse. "Justia significa
que todos recebem o que necessitam. E a nica maneira de conseguir o que voc precisa
 voc mesmo fazer com que isso acontea. Voc entende?"
Eu lhe disse que no. Mas ainda assim fiz o que ele pediu  como me importar com o
Egito, e basquete, e msica. Como viajar com apenas uma mala. Eu me vesti da forma
como meu pai queria, porque meu pai estava sempre certo. Na verdade, eu nunca tinha
visto ele estar errado... at a noite no Museu Britnico.
Enfim, coloquei as roupas de linho do armrio. As sapatilhas eram confortveis, embora
eu duvidasse que seriam de alguma utilidade para correr.
A porta do quarto de Sadie estava aberta, mas ela no estava l.
Felizmente a porta do meu quarto no estava mais fechada. Muffin se juntou a mim e
descemos as escadas, passando por vrios quartos desocupados no caminho. A manso
poderia facilmente ter uma centena de pessoas dormindo, mas em vez disso, parecia
vazia e triste.
Abaixo, no Grande Salo, Khufu, o babuno, estava sentado no sof com uma bola de
basquete entre as pernas e um pedao de carne de aparncia estranha em suas mos.
Estava coberto de penas cor de rosa. A televiso estava na ESPN, e Khufu estava
assistindo os destaques dos jogos da noite anterior.
"Ei," eu disse, embora me sentisse um pouco estranho falando com ele. "Os Lakers
ganharam?"
Khufu olhou pra mim e bateu na bola de basquete como se quisesse jogo. "Agh, agh."
Ele tinha uma pena cor-de-rosa pendurada em seu queixo, e a viso fez meu estmago
revirar.
"Hum, ," falei. "Vamos jogar mais tarde, ok?"
Eu podia ver Sadie e Amos no terrao, tomando caf da manha  beira da piscina. Devia
estar congelamento l fora, mas o poo do fogo ardia em chamas, e nem Amos nem
Sadie pareciam estar com frio. Eu me encaminhei para eles, ento hesitei na frente da
esttua de Thoth.  luz do dia, o deus com cabea de ave no parecia to assustador.
Ainda assim, eu poderia jurar que aqueles olhos lustrosos me observavam com
expectativa.
O que o cara flamejante dissera ontem  noite? Algo sobre nos pegar antes de
aprendermos nossos poderes. Isso soava ridculo, mas por um momento eu senti um
surto de fora  como na noite anterior, quando eu abri a porta da frente apenas
erguendo minha mo. Senti como se pudesse erguer qualquer coisa, mesmo esta esttua
de nove metros se eu quisesse. Numa espcie de transe, eu dei um passo a frente.
Muffin miou impaciente e bateu no meu p. A sensao se dissolveu.
"Voc est certa," falei para gata. "Ideia estpida."
Alm disso, eu podia sentir o cheiro do caf da manh agora  torrada, bacon, chocolate
quente  e eu no podia culpar Muffin por estar com pressa. Eu a segui para o terrao.
"Ah, Carter," disse Amos. "Feliz Natal, meu rapaz. Junte-se a ns."
"At que enfim," Sadie resmungou. "Estou acordada h um tempo."
Mas ela sustentou meu olhar por um momento, como se ela estivesse pensando a mesma
coisa que eu: Natal. Ns no havamos passado uma manh de natal juntos desde que
mame morreu. Imaginei se Sadie se lembrava de como costumvamos fazer as
decoraes do olho de deus com fios e palitos de picol.
Amos se serviu de uma xcara de caf. Suas roupas eram semelhantes s que ele usara
na vspera, e eu tinha que admitir que o cara tinha estilo. Seu terno sob medida era feito
de l azul, ele usava um chapu fedora combinando, e seu cabelo foi recentemente
tranado com lapis lazuli azul escuro, uma das pedras que os egpcios costumam usar
como jia. At seus culos combinavam. As lentes redondas eram tingidas de azul. Um
sax tenor repousava sobre uma bancada perto da fogueira, e eu podia perfeitamente
imagin-lo tocando aqui, fazendo serenata para o rio East.
Quanto a Sadie, ela estava vestida em um traje de linho branco tipo pijama como eu,
mas de algum modo ela conseguira manter suas botas de combate. Ela provavelmente
havia dormido com elas. Ela parecia bastante cmica com o cabelo listrado de vermelho
e aquela roupa, mas como eu no estava vestido melhor, eu no poderia zombar dela.
"Hum... Amos?" perguntei. "Voc no tem alguma ave de estimao, tem? Khufu est
comendo alguma coisa com penas cor de rosa."
"Mmm," Amos sorveu um gole do seu caf. "Lamento se isso incomodou voc. Khufu 
muito exigente. Ele s come alimentos que terminam em -o. Doritos, burritos,
flamingos."
Eu pisquei. "Voc disse "
"Carter," Sadie advertiu. Ela parecia um pouco enjoada, como se j tivesse tido esta
conversa. "No pergunte."
"Ok," falei. "No pergunto."
"Por favor, Carter, sirva-se." Amos acenou em direo a uma mesa de buffet com pilhas
altas de comida. "Ento poderemos comear com as explicaes."
Eu no vi nenhum flamingo na mesa do buffet, o que estava bom para mim, mas havia
praticamente tudo mais. Eu peguei panquecas com manteiga e melado, um pouco de
bacon, e um copo de suco de laranja.
Ento notei movimento pelo canto do meu olho. Olhei de relance para a piscina. Algo
longo e plido estava deslizando sob a superfcie da gua.
Quase derrubei meu prato. "Aquilo  "
"Um crocodilo," Amos confirmou. "Para dar boa sorte. Ele  albino, mas, por favor, no
mencione isso. Ele  sensvel."
"Seu nome  Felipe da Macednia," Sadie me informou.
Eu no tinha certeza de como Sadie estava levando isso com tanta calma, mas calculei
que se ela no estava pirando, eu tambm no iria.
" um nome comprido," falei.
"Ele  um crocodilo comprido," disse Sadie. "Ah, e ele gosta de bacon."
Para provar seu ponto, ela jogou um pedao de bacon por cima do ombro. Felipe pulou
para fora d'gua e abocanhou o regalo. Seu couro era todo branco e seus olhos eram cor
de rosa. Sua boca era to grande, que ele poderia ter abocanhado um porco inteiro.
"Ele  bem inofensivo com os meus amigos," Amos me assegurou. "Nos tempos
antigos, nenhum templo estaria completo sem um lago cheio de crocodilos. Eles so
poderosas criaturas mgicas."
"Certo," eu disse. "Ento, um babuno, um crocodilo... mais algum animal de estimao
que eu deveria saber?"
Amos pensou por um momento. "Visvel? No, acho que  isso."
Eu me sentei em uma cadeira o mais distante possvel da piscina. Muffin circulou meus
ps e ronronou. Eu esperava que ela tivesse bom senso suficiente para ficar longe de
crocodilos mgicos chamados Filipe.
"Ento, Amos," eu disse entre mordidas na panqueca. "Explicaes."
"Sim," ele concordou. "Por onde comear..."
"Pelo nosso pai," sugeriu Sadie. "O que aconteceu com ele?"
Amos respirou fundo. "Julius estava tentando convocar um deus. Infelizmente,
funcionou."
Foi meio difcil levar Amos a srio, falando sobre convocar deuses enquanto ele
espalhava manteiga em um bagel.
"Algum deus em particular?" perguntei casualmente. "Ou ele apenas pediu por um deus
genrico?"
Sadie me chutou por baixo da mesa. Ela estava carrancuda, como se realmente
acreditasse no que Amos estava dizendo.
Amos deu uma mordida no bagel. "H muitos deuses egpcios, Carter. Mas seu pai foi
atrs de um em particular."
Ele olhou pra mim significativamente.
"Osris," eu me lembrei. "Quando meu pai estava de p em frente  Pedra de Roseta ele
disse, `Osiris, venha.' Mas Osris  uma lenda. Ele  faz-de-conta."
"Eu gostaria que isso fosse verdade." Amos olhou atravs do rio East para a linha do
horizonte de Manhattan, brilhando ao sol da manh. "Os egpcios antigos no eram
tolos, Carter. Eles construram as pirmides. Eles criaram o primeiro grande Estado-
Nao. Sua civilizao durou milhares de anos."
"," falei. "E agora eles se foram."
Amos sacudiu a cabea. "Um legado to poderoso no desaparece. Comparado aos
egpcios, gregos e romanos eram bebs. Nossas naes modernas, como a Gr-Bretanha
e a Amrica? Um piscar de olhos. A raiz mais antiga da civilizao, pelo menos da
civilizao ocidental,  o Egito. Olhe para a pirmide na nota de um dlar. Olhe para o
Monumento de Washington  o maior obelisco egpcio do mundo. O Egito est muito
vivo. E assim, infelizmente, esto seus deuses."
"Qual ?" argumentei. "Quero dizer... mesmo que eu acredite que h realmente algo
chamado magia. Acreditar em deuses antigos  totalmente diferente. Voc est
brincando, no ?"
Mas enquanto eu dizia isso, pensei sobre o cara flamejante no museu, no modo como
seu rosto havia mudado entre humano e animal. E a esttua de Thot  como seus olhos
tinham me seguido.
"Carter," disse Amos, "os egpcios no teriam sido estpidos o suficiente para acreditar
em deuses imaginrios. Os seres que eles descreveram em seus mitos so muito, muito
reais. Nos velhos tempos, os sacerdotes do Egito podiam chamar esses deuses para
canalizar o seu poder e realizar grandes feitos. Essa  a origem do que hoje chamamos
de magia. Como muitas outras coisas, a magia foi inventada pelos egpcios. Cada
templo tinha um ramo de magos chamado de Casa da Vida. Seus magos eram famosos
por todo mundo antigo."
"E voc  um mago egpcio."
Amos assentiu. "Assim como seu pai. Voc mesmo viu isso noite passada."
Eu hesitei. Era difcil negar que meu pai tinha feito algumas coisas estranhas no museu
 algumas coisas que pareciam mgica.
"Mas ele  um arquelogo," eu disse teimosamente.
"Este era o seu disfarce. Voc vai lembrar que ele se especializou em traduzir feitios
antigos, que so muito difceis de entender a menos que voc mesmo realize mgica.
Nossa famlia, a famlia Kane, tem sido parte da Casa da vida quase desde o incio. E a
famlia da sua me  quase to antiga."
"Os Faust?" Tentei imaginar vov e vov Faust fazendo mgica, mas a menos que
assistir rugby na TV e queimar cookies seja mgico, eu no via como.
"Eles no tem praticado mgica por muitas geraes," Amos admitiu. "No at a
chegada da sua me. Mas sim, uma linhagem muito antiga."
Sadie balanou a cabea em descrena. "Agora minha me era mgica, tambm. Voc
est brincando?"
"Sem brincadeiras," prometeu Amos. "Vocs dois... vocs combinam o sangue de duas
famlias antigas, sendo que ambas tm uma histria longa, complicada com os deuses.
Vocs so as crianas Kane mais poderosas a nascer em muitos sculos."
Tentei absorver isso por um instante. No momento, eu no me sentia poderoso. Eu me
sentia enjoado. "Voc est me dizendo que nossos pais secretamente adoravam deuses
com cabeas de animais?" perguntei.
"No adoravam," Amos corrigiu. "L pelo fim dos tempos antigos, os egpcios tinham
aprendido que seus deuses no eram para ser adorados. Eles so seres poderosos, foras
primordiais, mas no so divinos no sentido de que se poderia pensar de Deus. Eles so
criados entidades, como os mortais, s que muito mais poderosos. Ns podemos
respeit-los, tem-los, usar o seu poder, ou mesmo lutar contra eles para mant-los sob
controle "
"Lutar contra deuses?" Sadie interrompeu.
"Constantemente," Amos lhe assegurou. "Mas no os adoramos. Thot nos ensinou
isso."
Olhei para Sadie procurando por apoio. O velho tinha que ser louco. Mas a expresso de
Sadie era a de quem acreditava em cada palavra.
"Ento..." eu disse. "Por que meu pai quebrou a Pedra Roseta?
"Oh, tenho certeza que ele no queria quebr-la," disse Amos. "Isso o teria horrorizado.
Na verdade, eu imagino que meus irmos em Londres j tenham reparado o dano. Os
curadores logo verificaro seus cofres e descobriro que a pedra de Roseta
milagrosamente sobreviveu  exploso."
"Mas ela explodiu em um milho de pedaos!" falei. "Como poderiam repar-la?"
Amos pegou um pires e o jogou no cho de pedra. O pires se despedaou
imediatamente.
"Isso foi para destruir," disse Amos. "Eu poderia ter feito isso por mgica  ha-di  mas
 mais simples apenas quebr-lo. E agora..." Amos estendeu a mo. "Junte-se. Hi-
nehm."
Um smbolo azul hieroglfico queimou no ar acima da palma da sua mo.




Os pedaos do pires voaram para sua mo e se reagruparam como um quebra-cabeas,
at os menores pedaos de poeira colando-se no devido lugar. Amos colocou o pires de
volta perfeito sobre a mesa.
"Algum truque," consegui falar. Tentei soar calmo sobre isso, mas eu estava pensando
em todas as coisas estranhas que tinham acontecido com meu pai e comigo ao longo dos
anos, como aqueles homens armados no hotel em Cairo que tinham acabado pendurados
pelos ps em um candelabro. Seria possvel que meu pai fizera isso acontecer com
algum tipo de feitio?
Amos colocou leite no pires, e o ps no cho. Muffin veio correndo. "De qualquer
forma, seu pai nunca danificaria intencionalmente uma relquia. Ele simplesmente no
percebeu o quanto de poder a Pedra de Roseta continha. Voc v, como o Egito
desapareceu, a sua magia se reuniu e se concentrou em suas relquias remanescentes. A
maioria delas,  claro, ainda esto no Egito. Mas voc pode encontrar algumas em quase
todos os grandes museus. Um mago pode usar esses artefatos como pontos focais para
trabalhar feitios mais poderosos."
"No entendi," falei.
Amos estendeu as mos. "Sinto muito, Carter.  preciso anos de estudo para
compreender a mgica, e estou tentando explicar a voc em uma nica manh. O
importante  que durante os ltimos seis anos seu pai esteve procurando uma maneira
de convocar Osris, e ontem  noite ele pensou que tinha encontrado o artefato certo
para fazer isso."
"Espere, por que ele queria Osris?"
Sadie me deu um olhar perturbado. "Carter, Osris era o senhor dos mortos. Papai estava
falando sobre consertar as coisas. Ele estava falando da mame."
De repente a manh parecia mais fria. A fogueira crepitou no vento vindo do rio.
"Ele queria trazer nossa me de volta dos mortos?" eu disse. "Mas isso  loucura!"
Amos hesitou. "Teria sido perigoso. Desaconselhvel. Tolo. Mas no loucura. Seu pai 
um mago poderoso. Se, de fato, era disso que ele estava atrs, poderia ter conseguido
usando o poder de Osris."
Encarei Sadie. "Voc est realmente acreditando nisso?"
"Voc viu a magia no museu. O cara flamejante. Nosso pai convocou alguma coisa da
pedra."
"," eu disse, pensando no meu sonho. "Mas no foi Osris, foi?"
"No," disse Amos. "Seu pai teve mais do que ele esperava. Ele libertou o esprito de
Osris. Na verdade, eu acho que ele se uniu ao deus com sucesso "
"Se uniu?"
Amos ergueu sua mo. "Outra conversa longa. Por enquanto, vamos apenas dizer que
ele extraiu o poder de Osris para si. Mas ele nunca teve a chance de us-lo porque, de
acordo com o que Sadie me contou, parece que Julius libertou cinco deuses da Pedra de
Roseta. Cinco deuses que foram presos juntos."
Olhei para Sadie. "Voc contou tudo a ele?"
"Ele vai nos ajudar, Carter."
Eu no estava pronto para confiar nesse cara, mesmo se ele fosse nosso tio, mas decidi
que no tinha muita escolha.
"Ok, certo," eu disse. "O cara flamejante disse algo como `Voc libertou todos os
cinco.' O que ele quis dizer?"
Amos bebeu um gole de caf. O olhar distante em seu rosto me lembrou do meu pai.
"Eu no quero assustar vocs."
"Tarde demais."
"Os deuses do Egito so muito perigosos. Durante os ltimos dois mil anos ou algo
assim, ns, mgicos, gastamos muito do nosso tempo prendendo e banindo-os sempre
que apareciam. Na verdade, a nossa lei mais importante, emitida pelo Chefe Lector
Iskandar no tempo dos romanos, probe libertar os deuses ou usar o poder deles. Seu pai
quebrou essa lei uma vez antes."
O rosto de Sadie empalideceu. "Isso tem algo a ver com a morte da mame? Com a
Agulha de Clepatra em Londres?"
"Tem tudo a ver com isso, Sadie. Seus pais... bem, eles acharam que estavam fazendo
algo bom. Eles assumiram um risco terrvel, e isso custou a sua me a vida dela. Seu pai
levou a culpa. Pode-se dizer que ele foi exilado. Banido. Ele foi forado a se deslocar
constantemente porque a Casa monitorava suas atividades. Eles temiam que ele
continuasse com sua... pesquisa. Como de fato ele fez."
Pensei nas vezes em que meu pai olhava sobre seu ombro enquanto copiava algumas
inscries antigas, ou me acordar s trs ou quatro da manh e insistir que era hora de
mudar de hotel, ou me alertar para no olhar em sua bolsa de ferramentas ou copiar
certas figuras de paredes de antigos templos  como se nossas vidas dependessem disso.
" por isso que voc nunca aparecia?" Sadie perguntou a Amos. "Porque nosso pai foi
banido?"
"A Casa me proibiu de v-lo. Eu amei Julius. Doeu em mim ficar longe do meu irmo, e
de vocs, crianas. Mas eu no podia v-los  at a noite passada, quando eu
simplesmente no tive escolha salvo tentar ajudar. Julius tem sido obcecado por
encontrar Osris durante anos. Ele foi consumido pela tristeza por causa do que
aconteceu com sua me. Quando eu soube que Julius estava prestes a quebrar a lei
novamente, para tentar acertar as coisas, eu tive que impedi-lo. Uma segunda ofensa
teria significado uma sentena de morte. Infelizmente, falhei. Eu deveria saber que ele
era teimoso demais."
Olhei para meu prato. Minha comida havia ficado fria. Muffin saltou para cima da mesa
e se esfregou na minha mo. Quando eu no objetei, ela comeou a comer o meu bacon.
"Ontem  noite no museu," falei, "a menina com a faca, o homem com a barba
bifurcada  eles eram mgicos tambm? Da Casa da Vida?"
"Sim," disse Amos. "Mantendo um olho no seu pai. Vocs tm sorte que deixaram voc
ir."
"A menina queria nos matar," lembrei. "Mas o cara com a barba disse, ainda no."
"Eles no matam a menos que seja absolutamente necessrio," disse Amos. "Eles vo
esperar para ver se vocs so uma ameaa."
"Por que seramos uma ameaa?" Sadie exigiu. "Ns somos crianas! A convocao
no foi ideia nossa."
Amos afastou seu prato. "H uma razo para que vocs fossem criados separadamente."
"Porque os Fausts levaram nosso pai ao tribunal," falei. "E ele perdeu."
"Foi muito mais do que isso," disse Amos. "A Casa insistiu para que vocs fossem
separados. Seu pai queria ficar com os dois, mesmo sabendo o quo perigoso era."
Sadie parecia que ela tinha sido acertada entre os olhos. "Ele sabia?"
"Claro que sim. Mas a Casa interveio e fez com que seus avs tivessem a sua custdia,
Sadie."
"Se voc e Carter fossem criados juntos, vocs poderiam ter se tornado muito
poderosos. Talvez vocs j tenham percebido mudanas ao longo do dia anterior."
Pensei sobre os picos de fora que eu sentira, e na forma como Sadie de repente parecia
saber ler Egpcio Antigo. Ento pensei em algo ainda mais antigo.
"O seu sexto aniversrio," falei para Sadie.
"O bolo," ela disse imediatamente, a memria passando entre ns como uma fasca de
eletricidade.
Na festa de aniversrio de seis anos de Sadie, a ltima que tnhamos partilhado como
uma famlia, Sadie e eu tivemos uma grande discusso.
Eu no me lembro sobre o que era. Acho que quis soprar as velas pra ela. Comeamos a
gritar. Ela agarrou minha camisa. Eu a empurrei. Eu me lembro do meu pai correndo em
nossa direo, tentando intervir, mas antes que ele pudesse, o bolo de aniversrio de
Sadie explodiu. Glac respingou nas paredes, nos nossos pais, nos rostos dos amigos de
seis anos de Sadie. Papai e mame nos separaram. Eles me mandaram para o meu
quarto. Mais tarde, eles disseram que ns devamos ter atingido o bolo por acidente
enquanto estvamos lutando, mas eu sabia que no. Algo muito mais estranho tinha
feito o bolo explodir, como se tivesse respondido a nossa raiva. Eu me lembrei de Sadie
chorando com um pedao de bolo na testa, uma vela de cabea pra baixo presa ao teto
com seu pavio ainda queimando, e um visitante adulto, um dos amigos dos meus pais,
os culos salpicados com glac branco.
Eu me virei para Amos. "Era voc. Voc estava na festa de Sadie."
"Glac de baunilha," ele se lembrou. "Muito saboroso. Mas mesmo naquela poca ficou
claro que seria difcil criar vocs dois na mesma casa."
"Ento..." hesitei. "O que acontece conosco agora?"
Eu no queria admitir, mas no podia suportar a ideia de ser separado de Sadie
novamente. Ela no era muito, mas era tudo que eu tinha.
"Vocs devem ser treinados adequadamente," disse Amos, "a Casa aprovando ou no."
"Por que no iriam aprovar?" perguntei.
"Vou explicar tudo, no se preocupe. Mas temos que comear suas aulas se queremos
ter qualquer chance de encontrar seu pai e consertar as coisas. Caso contrrio, o mundo
inteiro est em perigo. Se pelo menos soubssemos onde "
"Phoenix," disparei.
Amos me encarou. "O qu?"
"Noite passada eu tive... bem, no um sonho, exatamente..." Eu me senti estpido, mas
contei a ele o que tinha acontecido enquanto eu dormia.
A julgar pela expresso de Amos, a notcia foi ainda pior do que eu pensava.
"Voc tem certeza que ele disse `presente de aniversrio'?" ele perguntou.
", mas o que isso significa?"
"E um hospedeiro permanente," Amos disse. "Ele ainda no tem um?"
"Bem, foi isso que o cara com p de galo falou "
"Esse era um demnio," disse Amos. "Um servo do caos. E se os demnios esto vindo
atravs do mundo mortal, no temos muito tempo. Isto  ruim, muito ruim."
"Se voc mora em Phoenix," falei.
"Carter, nosso inimigo no vai parar em Phoenix. Se ele ficou to poderoso to
rapidamente assim... O que ele disse sobre a tempestade, exatamente?"
"Ele disse: `Vou convocar a maior tempestade j vista.'"
Amos franziu o cenho. "Da ltima vez que ele disse isso, ele criou o Saara. Uma
tempestade daquele porte poderia destruir a Amrica do Norte, gerando um caos
energtico suficiente para dar a ele uma forma quase invencvel."
"Do que voc est falando? Quem  esse cara?"
Amos acenou a questo para longe. "O mais importante agora: por que voc no dormiu
com o apoio para cabea?"
Dei de ombros. "Era desconfortvel." Olhei para Sadie em busca de apoio. "Voc no
usou, usou?"
Sadie revirou os olhos. "Bem,  claro que usei. Obviamente estava l por uma razo."
s vezes eu realmente odeio minha irm. [Ei! Esse  o meu p!]
"Carter," disse Amos, "dormir  perigoso.  uma porta aberta para o Duat."
"Adorvel," Sadie resmungou. "Outra palavra estranha."
"Ah... sim, me desculpe," disse Amos. "O Duat  o mundo de espritos e magia. Ele
existe abaixo do mundo vigilante como um vasto oceano, com muitas camadas e
regies. Ns submergirmos bem sob a sua superfcie noite passada para chegar a Nova
York, porque viajar atravs do Duat  muito mais rpido.
Carter, a sua conscincia tambm passou atravs das correntes mais rasas enquanto voc
dormia, e foi assim que voc presenciou o que aconteceu em Phoenix. Felizmente, voc
sobreviveu a essa experincia. Mas quanto mais fundo voc for no Duat, mais coisas
horrveis voc encontrar, mais difcil ser retornar. H reinos inteiros cheios de
demnios, palcios onde os deuses existem em suas formas verdadeiras, to poderosos
que a mera presena queimaria um ser humano at as cinzas. H prises que contm
seres de uma perversidade indescritvel, e alguns abismos to profundos e caticos que
nem mesmo os deuses se atrevem a explor-los. Agora que seus poderes esto se
agitando, voc no deve dormir sem proteo, ou voc se deixa vulnervel a ataques do
Duat ou... a viagens no intencionais atravs dele. O encosto de cabea  encantado para
manter sua conscincia ancorada ao seu corpo."
"Voc quer dizer que eu realmente fiz..." minha boca tinha gosto de metal. "Ele poderia
ter me matado?"
A expresso de Amos era grave. "O fato de que a sua alma pode viajar dessa forma
significa que voc est progredindo mais rpido do que eu pensava. Mais rpido do que
deveria ser possvel. Se o Lorde Vermelho tivesse notado voc "
"O Lorde Vermelho?" Sadie disse. "Esse  o cara flamejante?"
Amos se levantou. "Eu devo descobrir mais. No podemos simplesmente esperar por
ele para descobrir. E se ele liberar a tempestade no seu aniversrio, no auge dos seus
poderes "
"Voc quer dizer que est indo para Phoenix?" Eu mal consegui botar as palavras para
fora. "Amos, aquele homem flamejante derrotou nosso pai como se a magia dele fosse
uma piada! Agora ele tem demnios, e est ficando mais forte, e  voc ser morto!"
Amos me deu um sorriso seco, como se ele j tivesse pesado o perigo e no precisasse
de um lembrete. Sua expresso me lembrou dolorosamente do meu pai. "No conte com
seu tio fora do jogo to rapidamente, Carter. Eu tenho um pouco de magia minha. Alm
disso, eu preciso ver o que est acontecendo por mim mesmo se vamos ter alguma
chance de salvar seu pai e parar o Lorde Vermelho. Vou ser rpido e cuidadoso. Apenas
fique aqui. Muffin vai proteg-los."
Pisquei. "A gata vai nos proteger? Voc no pode simplesmente nos deixar aqui! E
quanto ao nosso treinamento?"
"Quando eu retornar," Amos prometeu. "No se preocupem, a manso  protegida.
Apenas no saiam. No sejam enganados a abrir a porta para algum. E, acontea o que
acontecer, no entrem na biblioteca. Eu probo absolutamente. Estarei de volta ao pr do
sol."
Antes que pudssemos protestar, Amos andou calmamente at a borda do terrao e
pulou.
"No!" Sadie gritou. Corremos para o parapeito e olhamos para baixo. Era uma queda
de trinta metros para dentro do rio East. No havia nenhum sinal de Amos. Ele
simplesmente desaparecera.
Filipe da Macednia chapinhou em sua piscina. Muffin pulou na grade e insistiu que
fizssemos carinho nela.
Estvamos sozinhos em uma manso estranha com um babuno, um crocodilo e uma
gata estranha. E aparentemente, o mundo inteiro estava em perigo.
Olhei para Sadie. "O que fazemos agora?"
Ela cruzou os braos. "Bem, isso  bvio, no ? Ns exploramos a biblioteca."
                                        SETE

               DERRUBO UM HOMENZINHO DE CABEA

HONESTAMENTE, CARTER  TO ESTPIDO s vezes que no consigo acreditar
que somos irmos. Quero dizer, quando algum diz que proibiu algo,  um bom sinal de
que vale a pena faz-lo. Eu me dirigi  biblioteca imediatamente.
"Espere!" gritou Carter. "Voc no pode simplesmente --"
"Irmo querido," falei, "sua alma deixou o seu corpo de novo enquanto Amos estava
falando, ou voc realmente o ouviu? Deuses egpcios de verdade. O maligno Lorde
Vermelho. O aniversrio do Lorde Vermelho: muito em breve, muito ruim. Casa da
Vida: velhos magos nervosinhos que odeiam a nossa famlia porque papai foi um pouco
rebelde, de quem,  propsito, voc poderia tirar uma lio. O que nos deixa -- somente
a ns -- com nosso pai desaparecido, um deus maligno prestes a destruir o mundo, e
um tio que acabou de pular de um prdio -- e eu realmente no posso culp-lo." Tomei
flego. [Sim, Carter, tenho que respirar de vez em quando.]
"Estou me esquecendo de alguma coisa? Ah, sim, tambm tenho um irmo que
supostamente  muito poderoso graas  uma antiga linhagem sangunea, bl, bl, bl
etc, mas  medroso demais para visitar uma biblioteca. Agora, voc vem ou no?"
Carter piscou como se eu tivesse acabado de bater nele, o que acho que fiz de algum
modo.
"Apenas..." ele vacilou. "Apenas acho que devemos ser cuidadosos."
Percebi que o pobre garoto estava bastante assustado, o que eu no podia usar contra
ele, mas aquilo me sobressaltou. Carter era meu irmo mais velho, no fim das contas --
mais velho, mais sofisticado, o que tinha viajado pelo mundo com nosso pai. Supe-se
que irmos mais velhos so aqueles que devem aguentar o tranco. Irms caulas --
bem, supostamente ns podemos bater to forte quanto desejarmos, no? Mas notei que
possivelmente, apenas possivelmente, eu tivesse sido um pouco dura com ele.
"Olha," eu disse. "Precisamos ajudar papai, sim? Deve haver algo poderoso naquela
biblioteca, seno Amos no a manteria trancada. Voc quer ajudar nosso pai?"
Carter deslocou seu peso desconfortavelmente. "Sim... claro."
Bem, esse era um problema resolvido, ento seguimos para a biblioteca. Mas assim que
Khufu viu o que estvamos tramando, ele saiu atropelado do sof e pulou  frente das
portas da biblioteca. Quem diria que os babunos eram to velozes? Ele vociferou para
ns, e tenho que dizer, babunos possuem presas enormes. E elas no ficam nem um
pouco mais bonitas depois de mastigarem exticos pssaros cor de rosa.
Carter tentou argumentar com ele. "Khufu, no vamos roubar nada. Apenas queremos
--"
"Agh!" Khufu driblou com sua bola de basquete raivosamente.
"Carter," eu disse. "voc no esta ajudando. Olhe aqui, Khufu. Eu tenho... tch-ram!"
Segurei no alto uma pequena caixa amarela de cereais que eu pegara na mesa de buf.
"Cheerios! Termina com `o'. Deliciosos!"
"Aghhh!" grunhiu Khufu, agora mais animado do que bravo.
"Voc quer?" persuadi. "Apenas leve isso para o sof e finja que no nos viu, sim?"
Joguei o cereal na direo do sof, e o babuno se jogou para peg-lo. Ele agarrou a
caixa no ar e estava to animado que correu parede acima e sentou-se no aparador da
lareira, onde comeou animadamente a pegar Cheerios e com-los um de cada vez.
Carter olhou para mim com relutante admirao. "Como voc --"
"Alguns de ns pensam alm. Agora, vamos abrir estas portas."
Aquilo no era to fcil de ser feito. Elas eram feitas de madeira espessa, atadas por
correntes gigantes de ao e fechadas com cadeado.
Completamente exagerado.
Carter deu um passo a frente. Tentou levantar as portas erguendo sua mo, o que foi
bastante impressionante na noite passada, s que agora no conseguiu nada.
Ele sacudiu as correntes da maneira antiga, ento puxou os cadeados.
"Nada bom," ele disse.
Agulhas de gelo picavam a parte de trs do meu pescoo. Era quase como se algum --
ou algo -- estivesse sussurrando uma ideia em minha cabea.
"Qual foi aquela palavra que Amos usou no caf da manh com o pires?"
"Para `juntar'?" disse Carter. "Hi-nehm ou algo assim."
"No, a outra, para `destruir'."
"Hum, ha-di. Mas voc precisaria conhecer magia e hierglifos, no? E mesmo assim
--"
Ergui minha mo em direo a porta. Apontei com dois dedos e meu polegar -- um
gesto estranho que jamais fizera antes, como uma arma de mentira, exceto que o polegar
estava paralelo ao cho.
"Ha-di!"
Hierglifos dourados e brilhantes queimaram sobre o maior cadeado.




E as portas explodiram. Carter caiu ao cho quando correntes se quebraram e estilhaos
voaram por todo Grande Salo. Quando a poeira baixou, Carter se levantou, coberto por
lascas de madeira. Eu parecia estar bem. Muffin rodeava os meus ps, miando contente,
como se tudo isto fosse muito normal.
Carter me fitou. "Como exatamente --"
"No sei," admiti. "Mas a biblioteca est aberta."
"No acha que exagerou um pouco? Ns vamos nos meter numa tremenda encrenca --"
"Ns s teremos que encontrar um jeito de reintegrar as portas, no?"
"Sem mais destruies, por favor," disse Carter. "Aquela exploso poderia ter nos
matado."
"Oh, voc acha que se voc tentasse esse feitio em uma pessoa --"
"No!" ele deu um passo atrs nervosamente.
Fiquei satisfeita por poder faz-lo se contorcer, mas tentei no sorrir. "Vamos apenas
explorar a biblioteca, ok?"
A verdade era que eu no podia ter usado o `ha-di' em ningum. Assim que dei um
passo  frente, eu me senti to fraca que quase desmaiei.
Carter me segurou quando cambaleei. "Voc est bem?"
"tima," consegui dizer, apesar de no me sentir tima. "Estou cansada" -- meu
estmago roncou -- "e faminta."
"Voc acabou de comer um tremendo caf da manh."
Era verdade, mas eu me sentia como se no comesse h semanas.
"Deixa pra l," disse a ele. "Eu vou ficar bem."
Carter me estudou, ctico. "Aqueles hierglifos que voc criou eram dourados. Papai e
Amos, ambos usaram azuis. Por qu?"
"Talvez cada um tenha sua prpria cor," sugeri. "Talvez o seu seja rosa choque."
"Muito engraado."
"Vamos l, bruxo rosa," disse. "Para dentro vamos ns."

A biblioteca era to maravilhosa, que quase esqueci minha tontura. Era maior do que eu
imaginara, uma cmara redonda profundamente afundada em rocha slida, como um
poo gigante. Isso no fazia sentido, uma vez que a manso ficava situada acima de um
armazm, mas ento nada sobre aquele lugar era exatamente normal.
Da plataforma onde estvamos uma escadaria descia trs andares at o cho. As
paredes, o piso, e o teto em forma de cpula eram todos decorados com pinturas
multicoloridas de pessoas, deuses e monstros. J vira ilustraes como aquelas nos
livros de papai (, tudo bem, s vezes quando estava na livraria Piccadilly eu vagava
pela seo egpcia e olhava sorrateiramente os livros dele , apenas para sentir alguma
conexo com ele, no porque eu quisesse l-los) mas as figuras nos livros eram sempre
desbotadas e borradas. Essas na biblioteca pareciam recm-pintadas, fazendo do lugar
inteiro uma obra de arte.
" lindo," eu disse.
Um cu azul estrelado cintilava no teto, mas no era um campo slido de azul. Pelo
contrrio, o cu estava pintado em um estranho padro em espiral. Percebi que tinha a
forma de uma mulher. Ela estava deitada enroscada de lado -- seu corpo, braos, e
pernas eram azul-escuros e pontilhados de estrelas. Abaixo, o cho da biblioteca era
feito de uma maneira similar, a terra verde-e-marrom no feitio de um corpo masculino,
pontilhado com florestas, morros e cidades. Um rio serpenteava atravs de seu peito.
A biblioteca no tinha livros. Nem mesmo prateleiras. Em vez disso, as paredes eram
furadas como uma colmia, com cubculos arredondados, cada um contendo uma
espcie de cilindro plstico.
Em cada um dos pontos cardeais, uma esttua de cermica erguia-se em um pedestal. As
esttuas eram metade humanas vestindo saiotes e sandlias, com lustrosos cabelos
pretos em forma de cunha e delineador preto ao redor de seus olhos.
[Carter diz que o tal delineador se chama Kohl, como se isso importasse.]
De qualquer modo, uma esttua segurava um estilete e pergaminho. Outro segurava uma
caixa. Outro segurava um pequeno basto em forma de gancho. O ltimo estava com as
mos vazias.
"Sadie." Carter apontou para o centro do lugar. Sobre uma longa mesa de pedra estava a
bolsa de ferramentas de papai.
Carter comeou a descer as escadas, mas eu agarrei seu brao. "Calma a. E as
armadilhas?"
Ele franziu as sobrancelhas. "Armadilhas?"
"As tumbas egpcias no tinham armadilhas?"
"Bem... s vezes. Mas isto no  uma tumba. Alm disso, era mais comum que tivessem
maldies, como a maldio de fogo, a maldio do asno --"
"Ah, que adorvel. Isto soa bem melhor."
Ele trotou pelos degraus abaixo, o que me fez sentir um tanto quanto ridcula, j que sou
eu a que costuma ir na frente. Mas supus que se algum tivesse que ser amaldioado
com erupes queimando a pele ou atacado por um jumento mgico, seria melhor Carter
do que eu.
Fomos para o meio da biblioteca sem nimo algum. Carter abriu a bolsa. Ainda sem
armadilhas ou maldies. Ele tirou a caixa estranha que papai usara no Museu
Britnico. Era feita de madeira, e do tamanho certo para guardar um po francs. A
tampa era decorada bem similar  biblioteca, com deuses e monstros e pessoas andando
de lado.
"Como os egpcios se moviam assim?" abstrai. "Totalmente de lado com suas mos e
ps de fora. Parece bem idiota."
Carter me deu aquele seu olhar Deus, como voc  idiota. "Eles no andavam assim na
vida real, Sadie."
"Bem, por que eles so pintados assim, ento?"
"Eles pensavam que pinturas eram como mgica. Se voc pintasse a voc mesmo, voc
tinha que mostrar todos os seus braos e pernas. Caso contrrio, no alm-vida voc
poderia renascer sem todos os seus pedaos."
"Ento por que esses rostos de lado? Eles nunca olham diretamente pra voc. Isso no
significa que eles vo perder o outro lado do rosto?"
Carter hesitou. "Acho que eles tinham medo de que a pintura ficasse humana demais se
estivesse olhando diretamente para voc. Poderia tentar vir a ser voc."
"Ento h algo de que eles no tinham medo?"
"Irms mais novas," disse Carter. "Se elas falassem demais, os egpcios as jogavam para
os crocodilos."
Ele me pegou por um segundo. No estava acostumada com ele exibindo senso de
humor. Ento dei um soco nele.
"Apenas abra a porcaria da caixa."
A primeira coisa que ele tirou foi um bocado de gosma branca.
"Cera," declarou Carter.
"Fascinante." Peguei um estilete de madeira e uma paleta com pequenos entalhes em
sua superfcie para colocar tinta, ento alguns frascos de vidro com tinta -- azul,
vermelha e dourada. "E um pr-histrico conjunto de pintura."
Carter tirou vrios voltas de um comprido fio marrom, uma pequena esttua de gato
feita de bano, e um grosso rolo de papel.
No, no papel. Papiro. Eu me lembrei de papai explicando como os egpcios o faziam
de uma planta de rio porque eles jamais inventaram o papel. O negcio era to grosso e
spero, que me fez imaginar se os coitados dos egpcios tiveram que usar um papiro
higinico. Se sim, no precisa imaginar o porqu de andarem de lado.
Finalmente tirei uma estatueta de cera.
"Uh," eu disse.
Era um homem minsculo, grosseiramente moldado, como se quem o fizera estivesse
com pressa. Seus braos estavam cruzados sobre seu peito, sua boca estava aberta, e
suas pernas foram cortadas na altura do joelho. Um anel de cabelo humano envolvia sua
cintura.
Muffin pulou sobre a mesa e farejou o homenzinho. Ela parecia ach-lo bem
interessante.
"No h nada aqui," disse Carter.
"O que voc quer?" perguntei. "Ns temos cera, alguns papiros higinicos, uma
estatueta feia --"
"Algo que explique o que aconteceu com papai. Como conseguimos traz-lo de volta?
Quem era aquele homem flamejante que ele invocou?"
Eu ergui o homem de cera. "Voc o ouviu, seu verrugoso sobrenatural. Diga-nos o que
sabe."
Eu estava apenas brincando. Mas o homem de cera se tornou macio e quente como um
corpo. Ele disse, "Eu respondo ao chamado."
Eu gritei e o derrubei sobre sua cabea minscula. Bem, voc pode me culpar?
"Ai!" disse ele.
Muffin se aproximou para farejar, e o homenzinho comeou a amaldioar em outra
lngua, possivelmente egpcio antigo. Como aquilo no funcionou, ele guinchou em
ingls: "V embora! Eu no sou um rato!"
Eu peguei Muffin e a pus no cho.
O rosto de Carter ficara to macio e ceroso quanto a do homenzinho. "O que  voc?"
ele perguntou.
"Sou um shabti,  claro!" A estatueta esfregou sua cabea denteada. Ele ainda parecia
um amontoado, s que agora ele era uma massa viva. "O mestre me chama de Massinha
garoto macilento, apesar de eu achar tal nome um insulto. Vocs podem me chamar de
Suprema-Fora-Que-Esmaga-Seus-Inimigos!"
"Ok, Massinha," eu disse.
Ele franziu o cenho para mim, acho, era difcil dizer com sua cara deformada.
"Vocs no deveriam poder me ativar! Apenas o mestre faz isso."
"O mestre, voc quer dizer nosso pai," adivinhei. "Er, Julius Kane?"
" ele," resmungou Massinha. "J acabamos? Completei o meu servio?"
Carter me fitou inexpressivamente, mas achei que estava comeando a entender.
"Ento, Massinha," disse para a massa. "Voc foi ativado quando eu te peguei e lhe dei
uma ordem direta: nos dizer o que sabe. Isso est correto?"
Massinha cruzou seus braos atarracados. "Voc s est brincando comigo agora. 
claro que est correto. Somente o mestre poderia me ativar, a propsito. No sei como
voc conseguiu, mas ele vai te explodir em pedacinhos quando descobrir."
Carter pigarreou. "Massinha, o mestre  nosso pai, e ele est desaparecido. Ele foi
magicamente mandado para longe de alguma forma e precisamos da sua ajuda--"
"O mestre se foi?" Massinha deu um sorriso to largo que pensei que seu rosto de cera
racharia. "Livre finalmente! At mais, otrios!"
Ele se lanou para a beira da mesa, mas esqueceu que no tinha ps. Ele caiu de cara no
tampo, ento comeou a rastejar em direo  borda, arrastando-se com as mos.
"Livre! Livre!"
Ele caiu da mesa e atingiu o cho com um baque, mas isso no pareceu desencoraj-lo.
"Livre! Livre!"
Ele continuou por mais um centmetro ou dois antes que eu o pegasse e jogasse dentro
da caixa mgica do papai. Massinha tentou sair, mas a caixa era alta o suficiente para
que ele no pudesse alcanar a borda. Imaginei se fora projetada para isso.
"Preso!" ele se lamuriou. "Preso!"
"Ah, cale a boca," eu disse a ele. "Sou a mestra agora. E voc responder s minhas
perguntas."
Carter levantou uma sobrancelha. "Como foi que voc ficou no comando?"
"Porque fui esperta o bastante para ativ-lo."
"Voc estava s brincando!"
Ignorei meu irmo, o que  um dos meus diversos talentos. "Agora, Massinha, em
primeiro lugar, o que  um shabti?"
"Voc me deixar sair da caixa se eu contar?"
"Voc deve me contar," apontei. "E no, no deixarei."
Ele suspirou. "Shabti significa o que responde, como o escravo mais estpido poderia
lhe dizer."
Carter estalou seus dedos. "Eu me lembro agora! Os egpcios faziam modelos de cera
ou argila -- serventes que fizessem todo tipo de servio que pudessem imaginar na vida
aps a morte. Eles deveriam vir  vida quando seu mestre chamasse, ento a pessoa
morta poderia, assim, descontrair e relaxar, e deixar o shabti fazer todo o trabalho por
toda eternidade."
"Primeiro," interrompeu Massinha, "isso  tpico dos humanos! Relaxando por a
enquanto fazemos todo o servio. Segundo, servios na vida aps a morte so apenas
uma das funes de um shabti. Ns tambm somos usados por magos para inmeras
coisas nesta vida, porque os magos seriam totalmente incompetentes sem ns.Terceiro,
se vocs sabem tanto, por que esto perguntando a mim?"
"Por que nosso pai cortou suas pernas fora," questionei, "e o deixou com uma boca?"
"Eu--" Massinha cobriu sua boca com suas pequenas mos. "Oh, muito engraado.
Ameaando a esttua de cera. Grande valentona! Ele cortou minhas pernas fora para que
eu no fugisse ou viesse  vida em perfeita forma e tentasse mat-lo, naturalmente.
Magos so muito malvados. Aleijam esttuas para control-las. Tm medo de ns!"
"Voc viria  vida e tentaria mat-lo se ele o tivesse feito perfeitamente?"
"Provavelmente," admitiu Massinha. "Terminamos aqui?"
"No chegamos nem na metade," falei. "O que aconteceu com nosso pai?"
Massinha deu de ombros. "Como eu vou saber? Mas vejo que sua varinha e basto no
esto na caixa."
"No," disse Carter. "O basto -- a coisa que se transformou em uma serpente-- foi
incinerada. E a varinha...  aquela coisa que se parece um bumerangue?"
"Coisa que se parece com um bumerangue?" disse Massinha. "Deuses do Egito Eterno,
voc  estpido. Claro que  a varinha dele."
"Foi despedaada," falei.
"Conte-me como," demandou Massinha.
Carter contou a histria a ele. No estava certa de que fosse a melhor ideia, mas presumi
que uma esttua de dez centmetros no nos causaria muito dano.
"Isto  maravilhoso!" gritou Massinha.
"Por qu?" perguntei. "Papai ainda est vivo?"
"No!" disse Massinha. "Ele provavelmente est morto. Os cinco deuses dos Dias
Demonacos? Libertos? Maravilha! E qualquer um que duelar com o Lorde Vermelho
--"
"Espere," falei. "Ordeno que voc me diga o que aconteceu."
"R!" disse Massinha. "Somente tenho que dizer a vocs o que sei. Dar palpites
instrutivos  uma tarefa completamente diferente. Declaro meu servio cumprido!"
Com isto, ele voltou a ser cera sem vida.
"Espere!" Eu o peguei de novo e o chacoalhei. "Me diga seus palpites instrutivos!"
Nada aconteceu.
"Talvez ele tenha um cronmetro," disse Carter. "Como somente uma vez ao dia. Ou
talvez voc tenha quebrado ele."
"Carter, faa uma sugesto til! O que fazemos agora?"
Ele olhou para as quatro esttuas de cermica em seus pedestais. "Talvez--"
"Outro shabti?"
"Vale a pena tentar."
Se as esttuas eram respondentes, elas no eram muito boas nisso. Tentamos segur-las
enquanto dvamos ordens, mesmo elas sendo bem pesadas. Tentamos apontar pra elas e
gritar. Tentamos perguntando gentilmente. Elas no deram resposta alguma.
Fiquei to frustrada que queria `ha-di' as esttuas em um milho de pedaos, mas eu
ainda estava com tanta fome e cansada, que tive a sensao de que enfeitiar no seria
bom para minha sade.
Finalmente decidimos checar os cubculos ao redor das paredes. Os cilindros plsticos
eram do mesmo tipo que voc encontraria em um drive-thru de banco -- o tipo que
disparava pra cima e pra baixo os tubos pneumticos. Dentro de cada estojo havia um
pergaminho de papiro. Alguns pareciam novos. Alguns pareciam ter milhares de anos.
Cada recipiente era etiquetado em hierglifos e (felizmente) em ingls.
"O Livro da Vaca Celestial," Carter leu em um. "Que tipo de nome  esse? O que voc
tem a, O Texugo Divino?"
"No," disse. "O Livro de Apophis."
Muffin miou no canto. Quando olhei, sua cauda estava arrepiada.
"O que h de errado com ela?" perguntei.
"Apophis era um monstro-serpente gigantesco," murmurou Carter. "Ele era m notcia."
Muffin se virou e correu escada acima, de volta ao Grande Salo. Gatos. No conte com
eles.
Carter abriu outro pergaminho. "Sadie, olhe isto."
Ele encontrou um pergaminho que era bem longo, e a maioria do texto ali parecia ser
linhas de hierglifos.
"Voc consegue ler algum destes?" perguntou Carter.
Franzi a testa para a escrita, e o estranho foi que eu no conseguia ler aquilo -- exceto
pela linha no topo.
"S esse pedao onde deveria estar o ttulo. Diz... Sangue da Grande Casa. O que isso
significa?"
"Grande Casa," Carter meditou. "Como soam essas palavras em egpcio?"
"Per-roh. Oh,  fara, no ? Mas eu pensei que o fara fosse um rei?"
"E ," disse Carter. "A palavra significa literalmente `casa grande,' como a manso de
um rei. Como se fizesse referncia ao presidente como `a Casa Branca.' Ento aqui
significa provavelmente algo como Sangue dos Faras, de todos eles, a linhagem
completa de todas as dinastias, no apenas de um cara."
"Ento por que me importaria sobre o sangue dos faras, e por que no consigo ler o
resto?"
Carter fitou as linhas. De repentes seus olhos se arregalaram. "So nomes. Olhe, esto
todos escritos dentro de crtulas."
"Como assim?" perguntei, porque crtula soou como uma palavra bem ofensiva, e eu
me orgulho em conhec-las.
"Os crculos," explicou Carter. "Simbolizam cordas mgicas. Elas supostamente
protegiam o detentor do nome contra magia maligna." Ele me olhou. "E possivelmente
tambm contra outros magos que quisessem ler os seus nomes."
"Oh, voc tem problemas," eu disse. Mas percorri as linhas com os olhos e vi o que ele
quis dizer. Todas as palavras eram protegidas por crtulas, e eu no conseguia ver
sentido nelas.
"Sadie," disse Carter, sua voz era urgente. Ele apontou para uma crtula bem no fim da
lista -- a ltima inscrio no que parecia ser um catlogo de milhares. Dentro do crculo
havia dois smbolos simples, uma cesta e uma onda.
"KN," declarou Carter. "Eu conheo este.  o nosso nome, KANE."




"Faltam algumas letras, no?"
Carter balanou a cabea. "Egpcios geralmente no escrevem vogais. Somente
consoantes. Voc tem que descobrir a vogal de acordo com o contexto."
"Eles eram realmente pirados. Ento poderia ser KON ou KNEE ou AKNE."
"Poderia ser," concordou Carter. "Mas  o nosso nome, Kane. Eu pedi para papai
escrev-los em hierglifos pra mim uma vez, e foi assim que ele fez. Mas por que
estamos nesta lista? E o que  o `sangue dos faras'?"
Aquele formigamento gelado comeou na minha nuca. Eu me lembrei do que Amos
dissera, sobre os dois lados de nossa famlia serem muito antigos. Os olhos de Carter
encontraram os meus, e julgando por sua expresso, ele estava tendo o mesmo
pensamento.
"No h como," protestei.
"Deve ser algum tipo de piada," concordou ele. "Ningum possui um registro de famlia
to antigo assim."
Engoli em seco, minha garganta estava muito seca. Tantas coisas estranhas aconteceram
conosco no ltimo dia, mas foi somente quando vi nosso nome naquele livro que me dei
conta de que toda aquelas coisas do Egito eram reais. Deuses, magos, monstros... e
nossa famlia estava metida naquilo.
Desde o caf da manh, quando me ocorreu que papai estivera tentando trazer nossa
me de volta dos mortos, uma emoo horrvel tentava tomar conta de mim.
E no era medo. Sim, a ideia toda era arrepiante, muito mais arrepiante do que o
santurio que meus avs mantinham no armrio da sala para a minha falecida me. E,
sim, eu disse que tento no viver no passado e que nada poderia mudar o fato de que
minha me se foi. Mas eu sou uma mentirosa. A verdade era que tivera um sonho desde
que tinha seis anos de idade: ver minha me de novo. Para realmente conhec-la,
conversar com ela, ir s compras, fazer qualquer coisa. Apenas estar com ela uma vez,
para poder ter uma lembrana melhor  qual eu pudesse me agarrar. O sentimento que
eu estava tentando espantar era esperana. Eu sabia que estava me candidatando a uma
dor colossal. Mas se fosse realmente possvel traz-la de volta, ento eu teria explodido
inmeras Pedras de Roseta para fazer com que isso acontecesse.
"Vamos continuar olhando," eu disse.
Depois de mais alguns minutos, encontrei uma pintura de alguns deuses com cabeas de
animais, cinco na sequncia, com a figura de uma mulher, cintilante como uma estrela,
formando um arco sobre eles, protegendo-os como um guarda-chuva. Papai tinha
libertado cinco deuses. Humm.
"Carter," chamei. "O que  isto, ento?"
Ele veio dar uma olhada e seus olhos se acenderam.
" isso!" ele anunciou. "Esses cinco... e aqui em cima, a me deles, Nut."
Ri. "Uma deusa chamada Nut? O sobrenome dela  Case?"*
"Muito engraado," disse Carter. "Ela era a deusa do cu."
Ele apontou para o teto pintado -- a dama com a pele salpicada de estrelas, assim como
no pergaminho.
"O que  que tem ela?" perguntei.
Carter uniu suas sobrancelhas. "Algo sobre os Dias Demniacos. Tinha algo haver com
o nascimento desses cinco deuses, mas j faz muito tempo desde que papai me contou a
histria. Este pergaminho inteiro est escrito em hiertico, acho.  como hierglifo
cursivo. Voc consegue ler isso?"
Balancei minha cabea. Aparentemente, meu tipo particular de insanidade se aplicava
somente a hierglifos normais.
"Queria encontrar a histria em ingls," disse Carter.
Bem a houve um estalo atrs de ns. A esttua de argila com as mos vazias saltou de
seu pedestal e marchou em nossa direo. Carter e eu nos atropelamos para sair de seu
caminho, mas ela passou direto por ns, agarrou um cilindro de seu cubculo e o trouxe
para Carter.
" um shabti de recuperao," disse. "Um bibliotecrio de argila!"
Carter engoliu em seco nervosamente e pegou o cilindro. "H... obrigado."
A esttua marchou de volta para seu pedestal, pulou sobre ele, e enrijeceu-se novamente
como uma argila normal.
"Ser que..." encarei o shabti. "Sanduche e batatas fritas, por favor!"
Tristemente, nenhuma das esttuas desceu para me servir. Talvez comida no fosse
permitida na biblioteca. Carter destampou o cilindro e desenrolou o papiro. Ele suspirou
de alvio. "Esta verso  em ingls."
Enquanto ele examinava o texto, suas sobrancelhas ficaram ainda mais franzidas.
"Voc no parece feliz," notei.
"Porque me lembro da histria agora. Os cinco deuses... se papai realmente os libertou,
no so boas notcias."
"Pera," eu disse. "Comece do incio."
Carter tomou flego, trmulo. "O.k.. A deusa do cu, Nut, era casada com o deus da
terra, Geb."
"Que deve ser o companheiro aqui no cho?" Bati meu p sobre o grande homem verde
com rio e morros e florestas por todo seu corpo.
"Correto," disse Carter. "De qualquer maneira, Geb e Nut queriam ter filhos, mas o rei
dos deuses, R -- ele era o deus do sol -- ouviu essa profecia ruim de que um filho de
Nut --"
"Filho de Nut," ri em silncio. "Desculpe, prossiga."
"-- um filho de Geb e Nut um dia substituiria R como rei. Ento quando ficou sabendo
que Nut estava grvida, R se apavorou. Ele proibiu Nut de dar luz aos seus filhos em
qualquer dia ou noite do ano."
Cruzei meus braos. "Ento o qu, ela teve que ficar grvida para sempre? Isso 
tremendamente cruel."
Carter balanou a cabea. "Nut encontrou um jeito. Ela armou um jogo de dados com o
deus da lua, Khons. Toda vez que Khons perdia, ele tinha que dar a Nut um pouco de
luar. Ele perdeu tantas vezes, que Nut ganhou luar suficiente para criar cinco novos dias
e acrescent-los ao fim do ano."
"Oh, por favor," falei. "Pra comear, como se pode apostar luar? E se pudesse, como se
pode fazer dias extras com eles?"
" uma estria!" protestou Carter. "De qualquer jeito, o calendrio egpcio tinha
trezentos e sessenta dias no ano, justamente como os trezentos e sessenta graus em um
crculo. Nut criou cinco dias e os adicionou ao fim do ano -- dias que no faziam parte
do calendrio regular."
"Os Dias Demonacos," adivinhei. "Ento o mito explica porque um ano tem trezentos e
sessenta e cinco dias. E suponho que ela teve seus filhos--"
"Durante esses cinco dias," concordou Carter. "Uma criana por dia."
"Vamos l: como voc tem cinco filhos em seguida, cada um em um dia diferente?"
"Eles so deuses," disse Carter. "Eles podem fazer coisas assim."
"Faz tanto sentido quanto o nome Nut. Mas, por favor, continue."
"Ento quando R descobriu, ficou furioso, mas j era tarde demais. As crianas j
haviam nascido. Seus nomes eram Osris--"
"O que papai estava procurando."
"Ento Hrus, Set, Isis, e, h..." Carter consultou seu pergaminho. "Nftis. Sempre me
esqueo desse."
"E o homem flamejante no museu disse: voc libertou todos os cinco."
"Exatamente. E se eles estavam aprisionados juntos e papai no percebeu isto? Eles
nasceram juntos, ento talvez eles tenham que ser invocados de volta ao mundo juntos.
A questo  que um desses caras, Set, era um cara realmente mal. Tipo, o vilo da
mitologia egpcia. O deus do mal, do caos e das tempestades no deserto."
Tive um calafrio. "Ele por algum acaso tinha alguma coisa a ver com o fogo?"
Carter apontou para uma das figuras na pintura. O deus tinha uma cabea de animal,
mas eu no conseguia identificar que tipo de animal era: Cachorro? Tamandu?
Coelhinho maligno? Seja qual for, seus cabelos e suas roupas eram de um vermelho
brilhante.
"O Lorde Vermelho," falei.
"Sadie, tem mais," disse Carter. "Aqueles cinco dias -- os Dias Demonacos --eram
mau agouro no Antigo Egito. Voc precisava ser cauteloso, usar amuletos de boa sorte,
e no fazer nada importante ou perigoso durante esses dias. E no Museu Britnico, papai
disse a Set: Eles iro det-lo antes que os Dias Demonacos terminem."
"Com certeza voc no acha que ele se referiu a ns," falei. "Ns devemos impedir esse
Set?"
Carter assentiu. "E se os ltimos cinco dias de nosso calendrio ainda contarem como os
Dias Demonacos egpcios -- eles comearo no dia 27 de dezembro, o dia depois de
amanh."
O shabti parecia estar me fitando com expectativa, mas eu no tinha a menor ideia do
que fazer. Dias Demonacos e deuses coelhinhos malvados -- se ouvisse mais uma
coisa impossvel, minha cabea explodiria. E o pior de tudo? A vozinha insistente no
fundo da minha cabea dizendo: No  impossvel. Para salvar papai, precisamos
derrotar Set.
Como se estivesse em minha lista de afazeres para os feriados natalinos. Ver papai --
certo. Desenvolver poderes estranhos -- certo. Derrotar um deus maligno do caos --
certo. A ideia toda era maluca!
De repente houve um estampido alto, como se algo tivesse quebrado no Grande Salo.
Khufu comeou a vociferar em alarme.
Carter e eu nos entreolhamos. Ento corremos pelas escadas.
                                        OITO

                       MUFFIN BRINCA COM FACAS
NOSSO BABUNO ESTAVA completamente desvairado - o que quer dizer, louco.
Ele se balanou de coluna para coluna, saltando pelas varandas, derrubando vasos e
esttuas. Ento ele correu de volta para as janelas do terrao, olhou para fora por um
momento, e voltou a ficar frentico.
Muffin tambm estava na janela. Ela se agachou nas quatro patas com seu rabo se
contorcendo como se ela estivesse espreitando um pssaro.
"Talvez seja apenas um flamingo passando," sugeri esperanosamente, mas no tinha
certeza de que Carter podia me ouvir acima da gritaria do babuno.
Ns corremos para as portas de vidro. A princpio eu no vi problema algum. Ento
gua explodiu da piscina, e meu corao quase pulou do meu peito. Duas enormes
criaturas, definitivamente no flamingos, estavam batendo em nosso crocodilo, Filipe da
Macednia.
Eu no consegui decifrar o que eles eram, apenas que eles estavam lutando com Filipe a
dois contra um. Eles desapareceram sob a gua agitada, e Khufu correu gritando pelo
Grande Salo novamente, batendo em sua prpria cabea com sua caixa vazia de
Cheerios, o que eu devo dizer que no era muito prestativo.
"Pescoos-longos," Carter disse incrdulo. "Sadie, voc viu aquelas coisas?"
No pude encontrar uma resposta. Ento uma das criaturas foi atirada da piscina. Ela
bateu nas portas bem  nossa frente, e eu pulei para trs em alerta. Do outro lado do
vidro estava o animal mais aterrorizante que eu j vira. Seu corpo era como o de um
leopardo  esguio e forte, com pelo dourado e manchado  mas seu pescoo era
completamente errado. Era verde e escamoso e no mnimo to longo quanto o resto do
corpo. Tinha uma cabea de gato, mas no um gato normal. Quando ele virou seus
brilhantes olhos vermelhos em nossa direo, ele rugiu, mostrando uma lngua bifurcada
e presas pingando veneno verde.
Percebi que minhas pernas estavam tremendo e eu estava fazendo um som de choro bem
vergonhoso.
O gato-serpente pulou de volta para a piscina para unir-se ao seu companheiro para
bater em Filipe, que girava e abocanhava, mas parecia incapaz de ferir seus atacantes.
"Ns temos que ajudar Filipe!" gritei. "Ele vai ser morto!"
Eu peguei a maaneta, mas Muffin rosnou para mim.
Carter disse, "Sadie, no! Voc ouviu Amos. No podemos abrir as portas por nenhum
motivo. A casa  protegida por mgica. Filipe vai ter que acabar com eles sozinho."
"Mas e se ele no conseguir? Filipe!"
O velho crocodilo se virou. Por um segundo seu reptiliano olho escarlate se focou em
mim como se ele pudesse sentir minha preocupao. Ento os gatos-serpente morderam
seu baixo-ventre e Filipe se ergueu de forma que somente a ponta de sua cauda
continuava tocando a gua. Seu corpo comeou a brilhar. Um zumbido baixo encheu o
ar, como o motor de um avio decolando. Quando Filipe desceu, ele bateu no terrao
com toda sua fora.
A casa inteira sacudiu. Rachaduras apareceram no terrao de concreto l fora, e a
piscina se dividiu bem ao meio com o extremo se desintegrando no espao vazio.
"No!" gritei.
Mas a beirada do terrao se desprendeu, mergulhando Filipe e os monstros no rio East.
Meu corpo inteiro comeou a tremer. "Ele se sacrificou. Ele matou os monstros."
"Sadie..." a voz de Carter estava fraca. "E se ele no conseguiu? E se eles voltarem?"
"No diga isso!"
"Eu  eu os reconheci, Sadie. Aquelas criaturas. Venha."
"Onde?" demandei, mas ele correu diretamente de volta para biblioteca.
Carter marchou at o shabti que nos ajudara antes. "Me traga o...gah, como se chama?"
"O qu?" perguntei.
"Algo que papai me mostrou.  uma grande placa de pedra ou algo assim. Tinha a
imagem do primeiro fara, o cara que uniu o Alto e o Baixo Egito em um reino. Seu
nome..." Seus olhos se iluminaram. "Narmer. Me traga a Placa de Narmer!"
Nada aconteceu.
"No," Carter decidiu. "No uma placa. Era... uma daquelas coisas que contm tinta.
Uma paleta. Me traga a Paleta de Narmer."
O shabti de mos vazias no se moveu, mas do outro lado do cmodo, a esttua com a
pequena foice veio  vida. Ele pulou de seu pedestal e desapareceu numa nuvem de
poeira. Uma batida de corao depois, ele reapareceu na mesa. A seus ps havia um
pedao de pedra cinza plana, talhada na forma de escudo e to longo quanto meu
antebrao.
"No!" Carter protestou. "Eu quis dizer uma foto dela! Ah, timo, eu acho que esse  o
artefato verdadeiro. O shabti deve ter roubado isso do Museu de Cairo. Ns temos que
devolver "
"Espera a," eu disse. "Ns poderamos muito bem dar uma olhada."
A superfcie da pedra era esculpida com a imagem de um homem acertando outro
homem no rosto com o que parecia uma colher.




" Narmer com a colher," eu supus. "Bravo porque o outro sujeito roubou seu cereal
matinal?"
Carter balanou a cabea. "Ele est conquistando os seus inimigos e unificando o Egito.
V seu chapu?  a coroa do Baixo Egito, antes dos dois pases se unirem."
"O pedao que se parece com um pino de boliche?"
"Voc  impossvel," Carter resmungou.
"Ele se parece com o papai, no parece?"
"Sadie, fala srio!"
"Estou falando srio. Olhe o perfil dele."
Carter decidiu me ignorar. Ele examinou a pedra como se estivesse com medo de toc-
la. "Eu preciso ver a parte de trs, mas no quero vir-la. Ns podemos danificar "
Eu agarrei a pedra e virei.
"Sadie! Voc poderia ter quebrado."
" para isso que feitios para remendar servem, no ?"
Ns examinamos a parte de trs da pedra, e eu tive que admitir que estava
impressionada com a memria de Carter. Dois gatos-serpente estavam em p no centro
da paleta, seus pescoos entrelaados. No outro lado, homens egpcios com cordas
tentavam capturar as criaturas.




"Eles so chamados serpopardos," disse Carter. "Serpentes leopardo."
"Fascinante," falei. "Mas o que so serpopardos?"
"Ningum sabe exatamente. Papai achava que eram criaturas do caos  notcias
realmente ruins, e eles esto por a desde sempre. Esta pedra  um dos artefatos mais
antigos do Egito. Essas imagens foram esculpidas cinco mil anos atrs."
"Ento por que monstros de cinco mil anos de idade esto atacando nossa casa?"
"Noite passada, em Phoenix, o homem flamejante ordenou a seus servos que nos
capturassem. Ele disse para mandarem os pescoos-longos primeiro."
Eu estava com um gosto metlico na boca, e desejei no ter mascado o meu ltimo
chiclete. "Bem...  bom eles estarem no fundo do rio East."
Bem a Khufu se lanou para dentro da biblioteca, gritando e batendo em sua cabea.
"Imagino que eu no deveria ter dito isso," murmurei.
Carter disse para o shabti que devolvesse a Paleta de Narmer, e esttua e paleta
desapareceram. Ento ns seguimos o babuno escada acima.
Os serpopardos estavam de volta, seu pelo molhado e viscoso por causa do rio, e eles
no estavam felizes. Eles rodearam a borda quebrada do terrao, seus pescoos de cobra
chicoteando enquanto eles farejavam as portas, procurando um jeito de entrar. Eles
cuspiram veneno que fumegou e borbulhou no vidro. Suas lnguas bifurcadas
dardejavam para dentro e para fora.
"Agh, agh!" Khufu apanhou Muffin, que estava sentada no sof, e me ofereceu a gata.
"Eu realmente no acho que isso v ajudar," eu disse a ele.
"AGH!" Khufu insistiu.
Nem Muffin nem gata terminavam em `o', ento presumi que Khufu no estava
tentando me oferecer um lanche, mas eu no sabia o que era. Eu peguei a gata apenas
para faz-lo ficar quieto.
"Mrow?" Muffin olhou pra mim.
"Vai ficar tudo bem," prometi, tentando no soar assustada. "A casa  protegida por
mgica."
"Sadie," disse Carter. "Eles encontraram alguma coisa."
Os serpopardos tinham convergido para a porta da esquerda e estavam farejando a
maaneta atentamente.
"No est trancada?" perguntei.
Ambos os monstros esmagaram suas caras feias contra o vidro. A porta estremeceu.
Hierglifos azuis brilharam na moldura da porta, mas sua luz era plida.
"Eu no gosto disso," Carter murmurou.
Rezei para que os monstros desistissem. Ou que talvez Filipe da Macednia escalasse
de volta para o terrao (crocodilos escalam?) e retomasse a luta.
Em vez disso, os monstros bateram suas cabeas contra o vidro novamente. Desta vez
uma teia de rachaduras apareceu. Os hierglifos azuis piscaram e desapareceram.
"AGH!" Khufu gritou. Ele agitou sua mo vagamente para a gata.
"Talvez se eu tentar o encanto ha-di," eu disse.
Carter balanou a cabea. "Voc quase desmaiou depois de explodir aquelas portas. Eu
no quero voc desmaiando, ou pior."
Carter me surpreendeu mais uma vez. Ele puxou uma estranha espada de uma das
exposies de Amos. A lmina tinha uma curvatura em forma de lua crescente e parecia
horrivelmente no prtica.
"Voc no pode estar falando srio," eu disse.
"A no ser  a no ser que voc tenha uma ideia melhor," ele gaguejou, seu rosto
gotejado de suor. "Somos eu, voc e o babuno contra aquelas coisas."
Tenho certeza de que Carter estava tentando ser corajoso do seu prprio jeito
extremamente no-corajoso, mas ele estava tremendo mais do que eu. Se algum ia
desmaiar, eu temia que fosse ele, e eu no gostaria que ele fizesse isso enquanto
segurava um objeto afiado.
Ento os serpopardos golpearam uma terceira vez, e a porta se despedaou. Ns
recuamos para o p da esttua de Thoth enquanto as criaturas espreitaram para dentro do
Grande Salo. Khufu atirou sua bola de basquete, que quicou inofensivamente na
cabea do primeiro monstro. Ento ele se lanou para o serpopardo.
"Khufu, no!" Carter gritou.
Mas o babuno afundou suas presas no pescoo do monstro. O serpopardo chicoteou ao
redor, tentando mord-lo. Khufu saltou, mas o monstro era rpido. Ele usou a cabea
como um basto e atingiu Khufu no ar, mandando-o direto pela porta destruda, sobre o
terrao quebrado, e para o vazio.
Eu quis soluar, mas no havia tempo. Os serpopardos vieram na nossa direo. Ns
no poderamos correr mais depressa do que eles. Carter ergueu sua espada. Eu apontei
minha mo para o primeiro monstro e tentei dizer o encanto ha-di, mas minha voz ficou
presa na minha garganta.
"Mrow!" Muffin disse, mais insistentemente. Por que a gata continuava aninhada em
meu brao e no fugindo de medo?
Ento me lembrei de algo que Amos dissera: Muffin vai proteger vocs. Era isso que
Khufu estava tentando me lembrar? Parecia impossvel, mas eu gaguejei, "M-muffin, eu
ordeno que nos proteja."
Eu a lancei no cho. Apenas por um momento, o pingente prateado em seu colar
pareceu brilhar. Ento a gata arqueou suas costas vagarosamente, sentou, e comeou a
lamber uma de suas patas. Bem, realmente, o que eu estava esperando  atos hericos?
Os dois monstros de olhos vermelhos arreganharam suas presas. Eles levantaram suas
cabeas e se prepararam para atacar  e uma exploso de ar seco se espalhou pelo
cmodo. Foi to poderosa que arremessou Carter e a mim no cho. Os serpopardos
cambalearam e recuaram.
Eu me levantei com dificuldade e percebi que o centro da exploso tinha sido Muffin.
Minha gata no estava mais l. Em seu lugar havia uma mulher  pequena e flexvel
como uma ginasta. Seu cabelo negro como azeviche estava preso em um rabo de cavalo.
Ela usava um macaco colante de pele de leopardo e o pingente de Muffin em volta do
pescoo.
Ela se virou e sorriu pra mim, e seus olhos ainda eram os de Muffin  amarelos com
pupilas felinas pretas. "J era hora," ela repreendeu.
Os serpopardos se recuperaram do choque e investiram contra a mulher gato. Suas
cabeas golpeavam na velocidade da luz. Eles deviam t-la dilacerado ao meio, mas a
dama-gato saltou para cima, girando trs vezes, e aterrissou acima deles, empoleirada na
parte de cima da lareira.
Ela flexionou seus punhos, e duas facas enormes dispararam de suas mangas para suas
mos. "A-a-ah, diverso!"
Os monstros atacaram. Ela se lanou entre eles, danando e se esquivando com incrvel
graa, deixando-os chicoteando para ela inutilmente enquanto ela enroscava seus
pescoos um no outro. Quando ela se afastou, os serpopardos estavam
irremediavelmente entrelaados. Quanto mais eles se debatiam, mais apertados os ns
se tornavam. Eles andaram pesadamente para frente e para trs, derrubando moblia e
rugindo de frustrao.
"Pobres criaturas," a mulher gato ronronou. "Deixem-me ajudar."
Suas facas cintilaram, e as cabeas dos dois monstros bateram no cho estrondosamente
aos ps dela. Seus corpos desmoronaram e se dissolveram em pilhas de areia.
"Tanto para os meus brinquedos," disse a mulher tristemente. "Da areia vieram, e para a
areia eles retornam."
Ela se virou para ns, e as facas dispararam para dentro de suas mangas. "Carter, Sadie,
ns devemos ir. Coisas piores viro."
Carter fez um som asfixiado. "Piores? Quem  como  o qu "
"Tudo a seu tempo." A mulher esticou seus braos sobre sua cabea com grande
satisfao. "To bom estar na forma humana novamente! Agora, Sadie, voc pode abrir
uma porta para ns atravs do Duat, por favor?"
Eu pisquei. "Humm, no. Quero dizer  eu no sei como."
A mulher estreitou os olhos, claramente desapontada. "Que vergonha. Ns vamos
precisar de mais poder, ento. Um obelisco."
"Mas isso fica em Londres," protestei. "Ns no podemos "
"H um mais prximo no Central Park. Eu tento evitar Manhattan, mas esta  uma
emergncia. Vamos s passar por l e abrir um portal."
"Um portal para onde?" demandei. "Quem  voc, e por que voc  minha gata?"
A mulher sorriu. "Por agora, ns queremos apenas um portal para longe do perigo. E
com relao ao meu nome, no  Muffin, muito obrigada.  "
"Bast," Carter interrompeu. "Seu pingente   o smbolo de Bast, deusa dos gatos. Eu
achei que fosse apenas um enfeite, mas...  voc, no ?"
"Muito bem, Carter," disse Bast. "Agora venham, enquanto ns ainda podemos sair
daqui vivos."
                                       NOVE

             NS FUGIMOS DE QUATRO CARAS DE SAIA
ENTO  ISSO. NOSSA GATA ERA UMA DEUSA. O que h de novo?
Ela no nos deu muito tempo para conversar sobre isso. Ela ordenou que eu fosse para
biblioteca pegar o kit de mgica do meu pai, e quando voltei ela estava argumentando
com Sadie sobre Khufu e Filipe.
"Ns precisamos procur-los!" Sadie insistiu.
"Eles ficaro bem," disse Bast. "De qualquer modo, ns no ficaremos, a menos que
partamos agora."
Levantei minha mo. "Hum, desculpe, Senhorita Lady Deusa? Amos nos disse que a
casa era --"
"Segura?" Bast bufou. "Carter, as defesas foram facilmente violadas. Algum as
sabotou."
"O que voc quer dizer? Quem --"
"Somente um mgico da Casa poderia ter feito aquilo."
"Outro mgico?" perguntei. "Por que outro mgico iria querer sabotar a casa de Amos?
"Oh, Carter," Bast suspirou. "To jovem, to inocente. Mgicos so criaturas desleais.
Pode ter milhes de motivos porque um iria sabotar outro, mas no temos tempo para
discutir isso. Agora, vamos!"
Ela agarrou nossos braos e nos levou pela porta da frente. Ela embainhou suas facas,
mas ela ainda tinha umas garras afiadas cruis no lugar de unhas que feriam quando
cavavam minha pele. Assim que pisamos do lado de fora, o vento frio picou meus
olhos. Descemos por uma longa escadaria de metal at o ptio industrial que cercava a
fbrica.
A bolsa de ferramentas do meu pai pesava no meu ombro. A espada curva que eu tinha
amarrado nas minhas costas estava fria contra minha roupa de linho fina. Eu comeara a
suar durante o ataque dos serpopardos, e agora minha transpirao parecia estar se
tornando gelo.
Procurei em volta por mais monstros, mas o ptio parecia abandonado. Equipamentos
antigos de construo enferrujados foram deixados ali -- uma escavadeira, um
guindaste com uma bola de demolio, alguns misturadores de cimento. Pilhas de
chapas de ao e muitos engradados formavam um labirinto de obstculos entre a casa e
a estrada a umas centenas de metros dali.
Estvamos a meio caminho do ptio quando um velho gato vira-lata cinza pisou em
nosso caminho. Uma de suas orelhas estava rasgada. Seu olho esquerdo estava fechado
e inchado. Julgando pelas suas cicatrizes, ele tinha gasto a maior parte da sua vida
lutando.
Bast se abaixou e olhou para o gato. Ele olhou para ela calmamente.
"Obrigada," Bast disse.
O velho gato vira-lata se afastou na direo do rio.
"O que foi aquilo?" Sadie perguntou.
"Um dos meus vassalos, oferecendo ajuda. Ele vai espalhar a notcia sobre nosso
predicamento. Em breve todos os gatos em Nova York estaro em alerta."
"Ele est to maltratado," Sadie disse. "Se ele  um vassalo seu, voc no poderia cur-
lo?"
"E retirar suas marcas de honra? As cicatrizes de batalha de um gato fazem parte de sua
identidade. Eu no posso --" Repentinamente Bast enrijeceu. Ela nos arrastou para trs
de uma pilha de engradados.
"O que foi?" sussurrei.
Ela flexionou os pulsos e as suas facas deslizaram para suas mos. Ela espiou por sobre
os engradados, todos os msculos do seu corpo tremendo. Tentei ver o que ela estava
observando, mas no havia nada exceto o velho guindaste com a bola de demolio
pendurada.
A boca de Bast se contorceu com excitao. Seus olhos estavam fixos na imensa bola de
metal. Eu tinha visto gatinhos desse jeito quando eles espreitavam ratinhos de
brinquedo, ou pedaos de corda, ou bolas de borracha... Bolas? No. Bast era uma
antiga deusa. Certamente ela no iria--
"Esse poderia ser ele." Ela mudou seu peso. "Fiquem bem, bem quietos."
"No h ningum l," Sadie chiou.
Eu comecei a dizer, "Hum..."
Bast pulou sobre os engradados. Ela voou nove metros no ar, facas faiscando, e
aterrissou na grande bola de metal com tanta fora que quebrou a corrente. A deusa-gato
e a imensa esfera de metal caram no cho e saram rolando pelo ptio.
"Rowww!" Bast gemeu. A bola de demolio rolou diretamente sobre ela, mas ela no
parecia ferida. Ela saltou e atacou novamente. Suas facas fatiaram por completo o metal
como se fosse argila molhada. Em poucos segundos, a bola de demolio foi reduzida a
um monte de sucata.
Bast embainhou suas lminas. "Esto seguros agora!"
Sadie e eu olhamos um para o outro.
"Voc nos salvou de uma bola de metal," Sadie disse.
"Nunca se sabe," Bast falou. "Aquilo poderia ter sido hostil."
Bem a um grande "BOOM!" fez o cho tremer. Olhei de volta para a manso. Fogo
azul ondulava das janelas superiores.
"Vamos," Bast disse. "Nosso tempo  curto!"
Eu pensei que talvez ela fosse nos tirar de l com mgica, ou ao menos chamar um txi.
Em vez disso, Bast pegou um Lexus conversvel prata emprestado.
"Oh, sim," ela ronronou. "Gostei desse! Entrem, crianas."
"Mas esse carro no  seu," observei.
"Meu querido, eu sou uma gata. Tudo que vejo  meu." Ela tocou a ignio, que
faiscou. O motor comeou a ronronar. [No, Sadie. No como um gato, como um
motor.]
"Bast," eu disse, "voc no pode simplesmente --"
Sadie meu deu uma cotovelada. "Vamos pensar em como devolv-lo depois, Carter.
Agora temos uma emergncia."
Ela apontou para trs em direo  manso. Chamas azuis e fumaa agora surgiam de
todas as janelas. Mas aquela no era a parte mais assustadora -- descendo as escadas
estavam quatro homens carregando uma caixa larga, como um caixo de tamanho fora
do normal com longas alas fincadas em ambas as extremidades. A caixa estava coberta
por uma mortalha preta e parecia grande o suficiente para dois corpos. Os quatro
homens vestiam somente kilts e sandlias.
A pele cor de bronze deles brilhava no sol como se fosse feita de metal.
"Oh, isso  mau," Bast disse. "No carro, por favor."
Decidi no fazer perguntas. Sadie chegou antes de mim no banco do passageiro ento
tive que ir atrs. Os quatro caras metlicos com a caixa estavam correndo pelo ptio,
vindo direto na nossa direo numa velocidade inacreditvel. Antes que eu sequer
conseguisse colocar o cinto, Bast acelerou.
Ns rasgamos pelas ruas do Brooklyn, tranando insanamente pelo trfego, subindo
caladas, por pouco deixando de acertar pedestres.
Bast dirigia com reflexos que eram... bem, felinos. Qualquer ser humano que tentasse
dirigir to rpido j teria batido uma dzia de vezes, mas ela conseguiu nos levar em
segurana at a Ponte Williamsburg.
Tive certeza que havamos despistado nossos perseguidores, mas quando olhei para trs,
os quatro homens acobreados com a caixa preta estavam tranando para dentro e para
fora do trfego. Eles pareciam estar correndo com uma passada regular, mas eles
passavam carros que estavam a 80km/h. Os seus corpos estavam desfocados como
imagens agitadas num filme antigo, como se eles estivessem fora de sincronia com o
fluxo regular de tempo.
"O que so eles?" perguntei. "Shabti?"
"No, carregadores." Bast olhou pelo retrovisor. "Convocados direto do Duat. Eles no
vo parar por nada at capturar suas vtimas, jog-las no sedan--"
"No qu?" Sadie interrompeu.
"A caixa grande," Bast explicou. " um tipo de carruagem. Os carregadores te
capturam, te deixam desacordado, te jogam dentro do sedan, e te transportam at o
mestre deles. Eles nunca perdem sua vtima, e eles nunca desistem."
"Mas para que eles nos querem?
"Acredite em mim," Bast resmungou, "voc no quer saber."
Pensei no homem flamejante ontem  noite em Phoenix -- como ele tinha fritado um
dos seus servos at virar uma mancha de graxa. Eu estava certo que no queria
encontr-lo cara a cara novamente.
"Bast," eu disse, "se voc  uma deusa, voc no pode simplesmente estalar os dedos e
desintegrar aqueles caras? Ou acenar e nos teletransportar para longe daqui?"
"Isso no seria maravilhoso? Mas meu poder neste hospedeiro  limitado."
"Voc quer dizer Muffin?" Sadie perguntou. "Mas voc no  mais um gato."
"Ela ainda  minha hospedeira, Sadie, minha ncora deste lado do Duat -- uma muito
imperfeita. Seu pedido de ajuda me permitiu assumir a forma humana, mas s isso j
exige uma grande quantidade de poder. Alm disso, mesmo quando estou em um
hospedeiro poderoso, a magia de Set  mais forte que a minha."
"Voc poderia dizer algo que eu consiga entender?" implorei.
"Carter, no temos tempo para uma discusso completa sobre deuses e hospedeiros e os
limites da magia! Ns temos que deixar vocs em segurana."
Bast pisou no acelerador e disparou no meio da ponte. Os quatro carregadores com o
sedan correram atrs de ns, obscurecendo o ar enquanto se moviam, mas nenhum carro
se desviou para evit-los. Ningum se apavorou ou ao menos olhou para eles.
"Como as pessoas no os veem?" falei. "Elas no percebem quatro homens de cobre
usando saias correndo ponte acima com uma caixa preta estranha?"
Bast deu de ombros. "Gatos podem ouvir vrios sons que vocs no podem. Alguns
animais veem coisas no espectro ultravioleta que so invisveis para os humanos. Magia
 similar. Voc notou a manso de primeira?"
"Bem... no."
"E voc nasceu da magia," Bast falou. "Imagine o quo difcil seria para um mortal
normal."
"Nascido da magia?" Ento me lembrei do que Amos dissera sobre nossa famlia estar
na Casa da Vida h um longo tempo. "Se a magia, tipo, corre na famlia, por que nunca
pude fazer isso antes?"
Bast sorriu no espelho. "Sua irm entende."
As orelhas de Sadie ficaram vermelhas. "No, eu no entendo! Eu ainda no consigo
acreditar que voc  uma deusa. Todos esses anos, voc vem comendo iscas crocantes,
dormindo na minha cabeceira --"
"Eu fiz um acordo com seu pai," Bast disse. "Ele me deixou permanecer no mundo
desde que eu assumisse uma forma secundria, um gato domstico normal, assim eu
poderia proteger e vigiar voc. Era o mnimo que eu podia fazer depois de --" Ela
parou abruptamente.
Um pensamento horrvel me ocorreu. Meu estmago se agitou, e no tinha nada a ver
com a velocidade que estvamos indo. "Depois da morte de nossa me?" Supus. Bast
olhou fixamente para a frente atravs do pra brisa.
" isso, no ?" insisti. "Papai e mame fizeram algum tipo de ritual mgico na Agulha
de Clepatra. Algo deu errado. Nossa me morreu e... e eles libertaram voc?"
"Isso no tem importncia agora," Bast disse. "O ponto  que eu concordei em cuidar de
Sadie. E farei isso."
Ela estava escondendo alguma coisa. Eu estava certo disso, mas o tom dela deixou claro
que a discusso estava encerrada.
"Se vocs deuses so to poderosos e dispostos a ajudar," falei, "por que a Casa da Vida
probe os magos de convocar vocs?
Bast se desviou para a pista rpida. "Magos so paranicos. Sua melhor esperana 
ficar comigo. Vamos o mais longe possvel de Nova York. Depois vamos conseguir
ajuda e desafiar Set."
"Que ajuda?" Sadie perguntou.
Bast arqueou uma sobrancelha. "Ora, vamos convocar mais deuses,  claro."
                                         DEZ

                               BAST FICA VERDE

[Sadie, pare! Sim, j estou chegando naquela parte.] Desculpe, ela continua tentando me
distrair colocando fogo na minha -- no tem importncia. Onde eu estava?
Ns samos da ponte Williamsburg em Manhattan e seguimos para o norte na rua
Clinton.
"Eles ainda esto nos seguindo," Sadie advertiu.
Certamente os carregadores estavam apenas um quarteiro atrs de ns, tranando em
volta dos carros e atropelando barracas nas caladas com porcarias para turistas.
"Vamos ganhar algum tempo." Bast rosnou no fundo da garganta -- um som to baixo
e poderoso que fez meus dentes zumbirem. Ela guinou a direo e desviou  direita para
East Houston.
Olhei para trs. Assim que os carregadores viraram a esquina, uma horda de gatos se
materializou ao redor deles. Alguns pularam de janelas. Outros saram de caladas e
becos. Alguns saram de bueiros. Todos pularam nos carregadores numa onda de pelos e
garras -- subindo as pernas de cobre, arranhando suas costas, agarrando as suas faces e
tentando derrubar a caixa sedan. Os carregadores tropearam, derrubando a caixa. Eles
comearam a golpear os gatos cegamente. Dois carros se desviaram para evitar os
animais e bateram, bloqueando completamente a rua, e os carregadores caram sob a
massa irritada de felinos. Viramos na direo da FDR Drive, e a cena desapareceu de
vista.
"Legal," admiti.
"Aquilo no vai segur-los por muito tempo," Bast disse. "Agora -- Central Park!"
Bast deixou o Lexus no Museu Metropolitano de Arte.
"Vamos correr daqui," ela disse. " bem atrs do museu."
Quando ela disse correr, ela pretendia isso mesmo. Sadie e eu tvemos que correr a toda
velocidade, mas Bast no estava nem suando. Ela no parou por coisinhas como
barracas de cachorro-quente ou carros estacionados. Qualquer coisa abaixo de trs
metros ela pulava por cima facilmente, deixando que a gente se atropelasse em volta dos
obstculos do melhor jeito que pudssemos.
Ns corremos at o parque no East Drive. Assim que viramos para o norte, o obelisco
apareceu acima de ns. Com pouco mais de vinte metros de altura, parecia uma cpia
exata da agulha em Londres. Foi colocado em cima de uma colina coberta de grama,
passando a sensao de isolamento, o que  difcil de conseguir no centro de Nova
York. No havia ningum em volta, exceto um par de corredores mais pra baixo da
trilha. Eu podia ouvir o trfego atrs de ns na Quinta Avenida, mas mesmo aquilo
parecia bem distante.
Paramos na base do obelisco. Bast aspirou o ar como se estivesse farejando problemas.
Uma vez que eu estava parado, percebi o quo frio eu estava. O sol estava a pino, mas o
vento rasgava atravs da minha roupa de linho emprestada.
"Eu gostaria de ter vestido algo mais quente," murmurei. "Um casaco de l seria bom."
"No, no seria," Bast disse, observando o horizonte. "Voc est vestido para magia."
Sadie tremeu. "Temos que congelar para sermos mgicos?"
"Mgicos evitam produtos de animais," Bast disse distrada. "Pelo, couro, l, qualquer
coisa assim. A aura de vida residual pode interferir com feitios."
"Minhas botas parecem bem," Sadie notou.
"Couro," Bast disse com repugnncia. "Voc pode ter uma maior tolerncia, ento um
pouco de couro no vai atrapalhar sua magia. Eu no sei. Mas roupas de linho so
sempre melhores, ou algodo -- material vegetal. De qualquer modo, Sadie, parece que
estamos livres no momento. H uma janela de tempo favorvel comeando agora, s
onze e meia, mas no vai durar muito. Comece."
Sadie pestanejou. "Eu? Por que eu? Voc  a deusa!"
"Eu no sou boa com portais," Bast disse. "Gatos so protetores. Basta voc controlar
suas emoes. Pnico ou medo matam um encanto. Precisamos sair daqui antes que Set
convoque os outros deuses para a sua causa."
Franzi o cenho. "Voc quer dizer que Set tem, tipo, outros deuses do mal na discagem
rpida?"
Bast olhou de relance nervosamente na direo das rvores. "Bem e mal talvez no seja
a melhor forma para se colocar isso, Carter. Como um mgico, voc precisa pensar em
caos e ordem. Essas so as duas foras que controlam o universo. Set  totalmente
caos."
"Mas e quanto aos outros deuses que o meu pai libertou?" persisti. "Eles no so do
bem? sis, Osris, Hrus, Nftis -- onde eles esto?"
Bast fixou seus olhos em mim. "Essa  uma boa pergunta, Carter."
Um gato siams rompeu por entre os arbustos e correu para Bast. Eles se entreolharam
por um momento. Ento o siams correu e desapareceu.
"Os carregadores esto perto," Bast anunciou. "E algo mais... algo muito mais forte, se
aproximando pelo leste. Parece que o mestre dos carregadores ficou impaciente."
Meu corao deu um pulo. "Set est vindo?"
"No," Bast disse. "Possivelmente um servo. Ou um aliado. Meus gatos esto com
dificuldade para descrever o que eles esto vendo, e eu no quero descobrir. Sadie, a
hora  agora. Apenas se concentre em abrir um portal para o Duat. Vou manter os
agressores afastados. Combate mgico  minha especialidade."
"Como o que voc fez na manso?" perguntei.
Bast mostrou seus dentes pontudos. "No, aquilo era apenas combate."
A floresta zuniu, e os carregadores surgiram. A capa da cadeira do sedan tinha sido
rasgada pelas garras dos gatos. Os prprios carregadores foram arranhados e mordidos.
Um andava mancando, a sua perna torcida para trs na altura do joelho. Outro tinha um
pra-choque de carro enrolado no pescoo.
 Os quatro homens de metal cuidadosamente desceram o sedan. Eles olharam para ns e
tiraram porretes dourados dos seus cintos.
"Sadie, comece a trabalhar," Bast ordenou. "Carter, voc  bem vindo a me ajudar."
A deusa gato sacou suas facas. Seu corpo comeou a brilhar numa tonalidade verde.
Uma aura a envolveu, crescendo cada vez mais, como uma bolha de energia, e a
erguendo do cho. A aura tomou forma at Bast ficar numa projeo hologrfica cerca
de quatro vezes o seu tamanho normal. Era uma imagem da deusa em sua forma antiga
-- uma mulher de seis metros de altura com uma cabea de gato. Flutuando em pleno ar
no centro do holograma, Bast deu um passo  frente. A gigante deusa gato se moveu
com ela. No parecia possvel que uma imagem translcida pudesse ter substncia, mas
o seu p sacudiu o cho. Bast levantou sua mo. A guerreira verde-brilhante fez o
mesmo, mostrando suas garras mais compridas e afiadas que uma espada. Bast bateu na
calada a sua frente e despedaou o pavimento em tiras de concreto. Ela se virou e
sorriu para mim. A grande cabea de gato fez o mesmo, mostrando presas horrveis que
podiam me abocanhar pela metade.
"Isto," Bast disse, " combate mgico."
No comeo eu estava atordoado demais para fazer qualquer coisa que no fosse assistir
quando Bast lanou a sua mquina de guerra verde no meio dos carregadores.
Ela cortou um carregador em pedaos com um nico golpe, depois foi para outro e o
achatou em uma panqueca de metal. Os outros dois carregadores atacaram suas pernas
hologrficas, mas seus porretes de metal bateram sem causar danos na luz
fantasmagrica em uma chuva de fascas.
Enquanto isso Sadie estava em p em frente ao obelisco com seus braos levantados,
gritando: "Abra, seu pedao de pedra estpido!"
Eu finalmente saquei minha espada. Minhas mos estavam tremendo. Eu no queria
entrar na batalha, mas sentia que devia ajudar. E se eu tinha que lutar, imaginei que ter
uma gata guerreira brilhante de seis metros de altura do meu lado era a maneira de fazer
isso.
"Sadie, eu -- eu vou ajudar Bast. Continue tentando!"
"Eu estou tentando!"
Corri para frente na hora em que Bast retalhou os outros dois carregadores restantes
como fatias de po. Aliviado, pensei: Bem,  isso.
Ento todos os quatro carregadores comearam a se reformar. O que fora amassado se
desgrudou do pavimento. Os pedaos dos fatiados se uniram como ms, e os
carregadores se levantaram melhores do que nunca.
"Carter, me ajude a retalh-los!" Bast gritou. "Eles precisam ficar em pedaos
menores!"
Tentei ficar fora do caminho de Bast enquanto ela cortava e pisoteava. Ento assim que
ela mutilava um carregador, eu ia e cortava os destroos em pedaos menores. Eles
pareciam mais com Play-Doh do que com metal, porque minha lmina os triturava com
bastante facilidade.
Mais alguns minutos depois e eu estava rodeado por pilhas de cobre fatiado. Bast fez
um punho brilhante e reduziu o sedan a gravetos.
"Aquilo no foi to difcil," eu disse. "Do que estvamos fugindo mesmo?"
Dentro de sua casca brilhante, a face de Bast estava coberta de suor. No havia me
ocorrido que uma deusa poderia ficar cansada, mas o seu avatar mgico deve ter exigido
muito esforo.
"No estamos seguros ainda," ela alertou. "Sadie, como est indo?"
"No est," Sadie reclamou. "No tem outro jeito?"
Antes que Bast pudesse responder, os arbustos zuniram com um novo som -- como
chuva, s que mais rastejante.
Um calafrio subiu pelas minhas costas. "O qu... o que  isso?"
"No," Bast murmurou. "No pode ser. No ela."
Ento os arbustos explodiram. Centenas de rastejadores-assustadores surgiram da
floresta num tapete nojento -- todo pinas e ferres.
Eu queria gritar, "Escorpies!" Mas minha voz no saia. Minhas pernas comearam a
tremer. Eu odeio escorpies. Eles esto por toda parte no Egito. Muitas vezes eu os
havia encontrado na cama ou no chuveiro do hotel. Uma vez eu tinha at achado um na
minha meia.
"Sadie!" Bast gritou com urgncia.
"Nada!" Sadie gemeu.
Os escorpies continuaram vindo -- milhares sobre milhares. Fora da floresta uma
mulher apareceu, andando destemidamente entre os aracndeos. Ela usava vestes
marrons com jias de ouro brilhando ao redor do seu pescoo e braos. O seu grande
cabelo preto estava arrumado como no Antigo Egito -- elegante, com uma coroa
estranha no topo. Ento percebi que no era uma coroa -- ela tinha um escorpio vivo e
grande aninhado em sua cabea. Milhes dos pequenos repugnantes giravam ao seu
redor como se ela fosse o centro daquela tempestade.
"Serqet," Bast rosnou.
"A deusa dos escorpies," adivinhei. Talvez aquilo devesse ter me amedrontado, mas eu
j estava bem no meu mximo. "Voc pode com ela?"
A expresso de Bast no me tranquilizou.
"Carter, Sadie," ela disse, "isso vai ficar feio. Vo para o museu. Achem o templo. Isso
pode proteg-los."
"Qual templo?" perguntei.
"E quanto a voc?" Sadie adicionou.
"Eu vou ficar bem. Alcano vocs depois." Mas quando Bast olhou para mim, pude ver
que ela no tinha certeza. Ela apenas estava ganhando tempo para ns.
"Vo!" ela ordenou. Ela virou o seu grande guerreiro gato para encarar a massa de
escorpies.
Verdade vergonhosa? Em frente queles escorpies, eu sequer pretendia ser corajoso.
Agarrei o brao de Sadie e ns corremos.
                                       ONZE

          NS CONHECEMOS O LANA-CHAMAS HUMANO

CERTO, ESTOU TOMANDO O MICROFONE. Sem chance do Carter contar essa
parte direito, j que  sobre Zia. [Cala boca, Carter. Voc sabe que  verdade.]

Oh, quem  Zia? Desculpem, estou me antecipando.
Ns corremos para a entrada do Museu, e eu no tinha ideia do porqu, exceto que uma
mulher-gato gigante e reluzente nos disse para fazer. Agora, voc deve ter em mente
que eu j estava arrasada com tudo que acontecera. Primeiro, eu havia perdido meu pai.
Segundo, meus amados avs me chutaram pra fora de casa. Ento descobri que eu era,
aparentemente, "sangue dos faras", nascida em uma famlia mgica, e toda sorte de
baboseira que parece muito impressionante, mas que s me trouxe toneladas de
problemas. E logo que achei um novo lar  uma manso com caf da manh decente e
animais de estimao amigveis e um quarto legal pra mim, alis  tio Amos
desapareceu, meus queridos novos crocodilo e babuno foram jogados em um rio, e a
manso foi incendiada. E como se no fosse o bastante, minha leal gata Muffin decidira
entrar numa batalha perdida com um enxame de escorpies.

Se fala "enxame" de escorpies? Uma manada? Uma gangue? Ah, deixa pra l.
A questo  que eu no podia acreditar que me pediram pra abrir um portal mgico
quando, claramente, eu no possua tal habilidade, e agora meu irmo estava me
arrastando pra longe. Eu me senti como uma absoluta fracassada. [E sem comentrios
seus, Carter. Pelo que eu me lembro, voc tambm no foi de grande ajuda na hora.]
"No podemos simplesmente deixar Bast!" gritei. "Olhe!"
Carter continuou correndo, me arrastando pra longe, mas eu podia ver claramente o que
estava acontecendo l no obelisco. Uma massa de escorpies tinha escalado as pernas
verdes e brilhantes de Bast e estavam penetrando no holograma como se fosse gelatina.
Bast esmagou centenas deles com seus ps e punhos, mas eles simplesmente eram
muitos. Logo eles chegaram  cintura dela, e sua couraa fantasmagrica comeou a
tremeluzir. Enquanto isso, a deusa de tnica marrom avanava devagar, e eu tinha a
sensao de que ela seria pior que qualquer nmero de escorpies.
Carter me puxou atravs de um arbusto e eu perdi Bast de vista. Ns entramos na
Quinta Avenida, a qual parecia ridiculamente normal depois da batalha mgica. Ns
descemos correndo pela calada, empurrando atravs de um amontoado de pedestres, e
subimos os degraus do Met.
Uma faixa sobre a entrada anunciava algum tipo de evento especial de natal, suponho
que era por isso que o museu estava aberto em um feriado, mas no me interessei em ler
os detalhes. Ns nos lanamos direto pra dentro.
Como era o interior? Bom, era um museu: hall de entrada enorme, inmeras colunas e
assim vai. No posso dizer que passei a maior parte do tempo admirando a decorao.
Eu me lembro que tinham filas para as janelas de ticket, porque ns corremos bem
atravs delas. Havia tambm guardas de segurana, porque eles gritaram conosco
enquanto entrvamos nas exposies. Por sorte, ns acabamos na seo Egpcia, de
frente para um tipo de tumba reconstruda com corredores estreitos. Carter
provavelmente poderia ter dito a vocs o que a estrutura era, mas, honestamente, eu no
me importava.
"Vamos," eu disse.
Ns deslizamos para dentro da galeria, o que se provou suficiente para despistar os
guardas, ou talvez eles tivessem coisas melhores pra fazer do que perseguir crianas
desobedientes.
Quando ns aparecemos de novo, ns nos esgueiramos ao redor at termos certeza que
no estvamos sendo seguidos. A rea Egpcia no estava lotada  s uns poucos
velhinhos e um grupo de estrangeiros com um guia explicando um sarcfago em
Francs. "Et voici la momie!"
Estranhamente, ningum pareceu notar a espada enorme nas costas de Carter, que
certamente teria sido uma questo de segurana (e muito mais interessante que as
exposies). Alguns idosos deram uma olhada curiosa em ns, mas suspeitei que fosse
porque estvamos vestidos em pijamas de linho, encharcados de suor, e cobertos de
grama e folhas. Meu cabelo tambm devia estar um pesadelo.
Eu achei uma sala vazia e empurrei Carter pra dentro. Os jarros de vidro estavam cheios
de shabtis. Alguns dias antes eu no teria dado ateno. Agora, fiquei encarando as
esttuas, certa de que elas viriam a vida a qualquer minuto e tentariam me bater na
cabea.
"O que foi agora?" perguntei a Carter. "Voc viu algum templo?"
"No." Ele juntou suas sobrancelhas como se estivesse tentando se lembrar. "Eu acho
que h um templo reconstrudo l embaixo, no hall... ou isso  no Museu do Brooklin?
Talvez aquele em Munique? Desculpe, eu estive em tantos museus com papai que eles
acabam se misturando."
Eu suspirei exasperada. "Pobre garoto, forado a viajar pelo mundo, escapar da escola, e
passar o tempo com papai enquanto eu tinha dois dias inteiros no ano com ele!"
"Ei!" Carter me segurou com uma fora surpreendente. "Voc tinha um lar! Voc tinha
amigos e uma vida normal e no acordava cada manh imaginando em que pas voc
estava! Voc no "
O jarro de vidro perto de ns se despedaou, espalhando vidro aos nossos ps.

Carter olhou para mim, alarmado. "Ser que ns "
"Como meu bolo de aniversrio explosivo," resmunguei, tentando no mostrar o quanto
eu estava assustada. "Voc precisa controlar seu temperamento."
"Eu?"
Alarmes comearam a soar. Luzes vermelhas pulsaram ao longo do corredor. Uma voz
deturpada surgiu dos auto-falantes e disse alguma coisa sobre ir calmamente para as
sadas. O grupo de turismo francs passou correndo por ns, gritando de pnico,
seguido por uma multido de velhinhos incrivelmente rpidos com bengalas e
andadores.
"Vamos terminar de discutir mais tarde, certo?" eu disse a Carter. "Vamos!"
Ns corremos por outro corredor, e as sirenes morreram to subitamente quanto
comearam. As luzes vermelho-sangue continuaram a pulsar em um silncio estranho.
Ento eu ouvi: o rastejante, ritmado som de escorpies.
"E quanto a Bast?" Minha voz engasgou. "Ela est "
"No pense nisso," Carter disse, mas, a julgar pelo rosto dele, era exatamente no que ele
estava pensando. "Continue andando!"
Logo ns estvamos perdidos. At onde eu conseguia dizer, a parte egpcia do museu
fora desenhada para ser a mais confusa possvel, com becos sem sadas e corredores que
saam neles mesmos. Ns passamos por pergaminhos com hierglifos, jias douradas,
sarcfagos, esttuas de faras, e enormes pedras calcrias. Por que algum exibiria uma
pedra? J no existe o suficiente delas no mundo?
No vimos ningum, mas o som rastejante foi ficando mais alto no importando para
onde corrssemos. Finalmente eu dobrei em um canto e me choquei direto com algum.
Eu gritei e tropecei para trs, apenas para topar com Carter. Ns dois camos sentados
de bunda de um jeito nada bonito. Foi um milagre Carter no ter se empalado com a
prpria espada.
A princpio eu no reconheci a garota parada na nossa frente, o que parece estranho,
refletindo sobre isso. Talvez ela estivesse usando algum tipo de aura mgica, ou talvez
eu s no quisesse acreditar que era ela.
Ela parecia ser um pouco mais alta que eu. Provavelmente mais velha, tambm, mas no
muito. Seu cabelo negro era aparado na altura do queixo e mais longo na frente ento
ele caia sobre seus olhos. Ela tinha uma pele cor de caramelo e bonitos, vagos traos
rabes. Seus olhos  delineados de kohl preto, no melhor estilo egpcio  de uma cor
mbar estranha, eram muito bonitos e ao mesmo tempo um pouco assustadores; eu no
conseguia decidir qual. Ela tinha uma mochila nas costas, e usava sandlias e roupas de
linho soltas como as nossas. Ela passava a impresso de que estivera a caminho de uma
aula de artes marciais. Deus, agora que eu estou pensando nisso, ns provavelmente
passvamos a mesma impresso. Que constrangedor.
Lentamente comecei a perceber que eu j a havia visto antes. Ela era a garota com a
faca no Museu Britnico. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, Carter ficou de p.
Ele se ps na minha frente e brandiu sua espada como se tentasse me proteger. D pra
acreditar nisso?
"Para  para trs!" ele gaguejou.
A garota procurou dentro da manga e produziu um pedao curvo e branco de marfim --
uma varinha Egpcia.
Ela sacudiu para um lado, e a espada de Carter voou de suas mos e retiniu no cho.
"No se envergonhe," a garota disse severamente. "Onde est Amos?"
Carter parecia muito atordoado para falar. A garota se virou para mim. Seus olhos
dourados eram bonitos e assustadores, decidi, e no gostei dela nem um pouco.
"Ento?" ela insistiu.
Eu no via por que eu precisava dizer qualquer coisa a ela, mas uma inconfortvel
presso comeou a surgir no meu peito, como um arroto tentando sair. Eu me ouvi
dizer, "Amos se foi. Ele partiu hoje de manh."
"E o gato demnio?"
" a minha gata," falei. "E ela  uma deusa, no um demnio. Ela nos salvou dos
escorpies!"
Carter descongelou. Ele apanhou sua espada e apontou para a garota de novo. Todos os
crditos por persistncia, suponho.
"Quem  voc?" ele exigiu. "O que voc quer?"
"Meu nome  Zia Rashid." Ela inclinou a cabea como se tentando escutar.
Bem na deixa, o prdio inteiro tremeu. Poeira caiu do teto, e o som rastejante dos
escorpies dobrou de volume atrs de ns.
"E agora," Zia continuou, soando um pouco desapontada, "eu devo salvar suas vidas
miserveis. Vamos logo."
Suponho que ns poderamos ter recusado, mas nossas escolhas pareciam ser Zia ou os
escorpies, ento corremos atrs dela.
Ela passou por uma sala cheia de esttuas e casualmente bateu no vidro com sua
varinha. Pequenos faras de granito e deuses de calcrio despertaram ao seu comando.
Eles deixaram seus pedestais e quebraram o vidro, passando por ele. Alguns
empunhavam armas. Outros simplesmente estralavam suas juntas de pedra. Eles nos
deixaram passar, mas ficaram  espreita no corredor atrs de ns como se esperassem
pelo inimigo.
"Rpido," Zia nos disse. "Eles vo apenas "
"Conseguir algum tempo pra ns," adivinhei. "Pois , ns ouvimos isso antes."
"Voc fala demais," Zia disse sem parar.
Eu estava para dar uma resposta  altura. Srio, eu a teria colocado no lugar dela
rapidinho. Mas bem a ns entramos num enorme salo e minha voz me abandonou.
"Uau," Carter disse.
Eu no pude deixar de concordar com ele. O lugar era extremamente uau.
O salo era do tamanho de um estdio de futebol. Uma parede era completamente feita
de vidro e tinha vista para o parque. No meio do salo, numa plataforma alta, um prdio
antigo tinha sido reconstrudo. Havia um porto de pedra independente de uns oito
metros de altura, e atrs dele um ptio aberto e uma estrutura quadrangular feita de
blocos de pedra desiguais totalmente esculpidas com imagens de deuses e faras e
hierglifos. Flanqueando a entrada do prdio havia duas colunas banhadas por uma luz
estranha.
"Um templo Egpcio," adivinhei
"O Templo de Dendur," disse Zia, "Na verdade, foi construdo pelos romanos "
"Quando eles ocuparam o Egito," Carter falou, como se esta fosse uma informao
encantadora. "Augustus autorizou sua construo."
"Sim," disse Zia.
"Fascinante," murmurei. "Vocs gostariam de serem deixados sozinhos com um livro
de histria?"
Zia me encarou. "De qualquer forma, o templo foi dedicado a sis, ento ter poder
suficiente para abrir um portal."
"Para invocar mais deuses?" perguntei.
Os olhos de Zia faiscaram de raiva. "Acuse-me disso outra vez, e eu cortarei fora sua
lngua. Eu quis dizer um portal para tirar vocs daqui."
Eu me senti completamente perdida, mas j estava me acostumando com isso. Ns
seguimos Zia degraus acima e atravs da entrada de pedra do templo.
O ptio estava vazio, abandonado pelos visitantes fugitivos do museu, o que o fez
parecer bem assustador. Deuses gigantes esculpidos me encaravam do alto. Inscries
hieroglficas estavam por todo lado, e eu temia que, se me concentrasse bastante, eu
talvez fosse capaz de l-las.
Zia parou nos degraus da frente do templo. Ela ergueu sua varinha e escreveu no ar. Um
hierglifo familiar queimou entre as colunas.




Abra  o mesmo smbolo que papai usara na pedra de Roseta. Esperei que alguma coisa
surgisse, mas o hierglifo simplesmente desapareceu.

Zia abriu sua mochila. "Ns vamos fixar nossa posio aqui at que o portal possa ser
aberto."
"Por que simplesmente no o abre agora?" Carter perguntou.

"Portais s podem aparecer em momentos propcios," disse Zia. "Nascer do sol, pr do
sol, meia-noite, eclipses, alinhamentos planetrios, o momento exato do nascimento de
um deus "
"Ah, qual ," falei. "Como  possvel que voc saiba disso tudo?"
"Leva anos para memorizar o calendrio completo," Zia disse. "Mas o prximo
momento propcio  fcil: meio-dia. Dez minutos e meio contando de agora."
Ela no consultou nenhum relgio. Fiquei pensando em como ela poderia saber as horas
com tanta preciso, mas decidi que essa no era a pergunta mais importante.
"Por que deveramos confiar em voc?" perguntei. "At onde me lembro, no Museu
Britnico, voc queria nos esfolar com uma faca."
"Isso teria sido mais simples," Zia sibilou, "infelizmente, meus superiores acham que
vocs podem ser inocentes. Ento, por enquanto, no posso mat-los. Mas tambm no
posso deixar vocs carem nas mos do Lorde Vermelho. E por isso... vocs podem
confiar em mim."
"Ah, estou convencida," falei. "Eu me sinto animadssima."
Zia mexeu na mochila e pegou quatro pequenas esttuas  homens com cabeas de
animais, cada um com cerca de cinco centmetros de altura. Ela os passou para mim.
"Coloque os Filhos de Hrus ao nosso redor nos pontos cardeais."
"Como ?"
"Norte, sul, leste, oeste." Ela falou devagar, como se eu fosse uma idiota.
"Eu sei as direes da bssola! Mas "
"Aquele  o norte." Zia apontou para a parede de vidro. "Descubra o resto."
Fiz o que ela pediu, mesmo no sabendo como os pequenos homenzinhos poderiam
ajudar. Enquanto isso, Zia deu a Carter um pedao de giz e disse para ele desenhar um
crculo ao nosso redor, conectando as esttuas.
"Proteo mgica," Carter disse. "Como a que papai fez no Museu Britnico."
"Sim," resmunguei. "E ns vimos como aquilo funcionou super bem."
Carter me ignorou. Mais alguma novidade? Ele estava to ansioso para agradar Zia que
correu logo para cumprir sua tarefa e desenhar sua arte de calada.
Ento Zia tirou mais alguma coisa de sua mochila  uma haste de madeira plana como a
que nosso pai tinha usado em Londres. Ela sussurrou uma palavra, e a vara se expandiu
num longo cajado preto de dois metros com uma cabea de leo talhada no topo. Ela o
girou com uma mo como um basto  apenas se exibindo, aposto  enquanto segurava
a varinha na outra mo.
Carter terminou de rabiscar o crculo assim que os primeiros escorpies apareceram na
entrada da galeria.
"Quando mais para o portal?" perguntei, esperando no parecer to aterrorizada quanto
me sentia.
"Fiquem dentro do crculo no importa o que acontea," disse Zia. "Quando o portal
abrir, pulem nele. E fiquem atrs de mim!"
Ela tocou a varinha no crculo de giz, falou outra palavra, e o crculo comeou a brilhar
vermelho escuro.
Centenas de escorpies pulularam na direo do templo, transformando o cho numa
massa viva de garras e ferres. Ento a mulher de marrom, Serqet, entrou na galeria. Ela
sorriu para ns friamente.
"Zia," eu disse, "aquilo  uma deusa. Ela derrotou Bast. Que chances voc tem?"
Zia levantou seu cajado e a cabea esculpida de leo explodiu em chamas  uma
pequena bola de fogo to brilhante, que iluminou todo o salo. "Eu sou uma escriba da
Casa da Vida, Sadie Kane. Eu sou treinada para lutar contra deuses."
                                         DOZE

                  UM PULO ATRAVS DA AMPULHETA

BEM, FOI TUDO MUITO IMPRESSIONANTE, eu suponho. Voc devia ter visto a
cara do Carter -- ele parecia um cachorrinho animado. [Oh, pare de me cutucar. Voc
parecia!]
Mas eu no botei muita f na Srta. Zia "eu-sou-to-mgica" Rashid quando o exrcito
de escorpies correu na nossa direo. Eu no teria pensando que fosse possvel tantos
escorpies existirem no mundo, muito menos em Manhattan. O crculo brilhante que
nos rodeava parecia uma proteo insignificante contra os milhes de aracndeos
rastejando uns sobre os outros, vrias camadas profundas, e a mulher em marrom, que
era ainda mais horrvel.
De longe ela parecia normal, mas enquanto ela se aproximava, vi que a pele plida de
Serqet brilhava como uma couraa de inseto. Seus olhos eram negros lustrosos. Seu
longo, escuro cabelo era artificialmente espesso, como se fosse feito de milhes de
antenas eriadas de percevejos. E quando ela abriu a boca, mandbulas laterais estalaram
e se retraram para fora de seus dentes humanos.
A deusa parou a vinte metros de distncia, nos estudando. Seus detestveis olhos negros
fixos em Zia.
"Entregue-me os jovens."
Sua voz era spera e grossa, como se ele no falasse h sculos.
Zia cruzou sua varinha e seu basto. "Eu sou mestra dos elementos, Escriba do Primeiro
Nome. Parta ou ser destruda."
Serqet estalou suas mandbulas num horrvel e espumante sorriso. Alguns de seus
escorpies avanaram, mas quando o primeiro tocou nas linhas brilhantes do nosso
crculo de proteo, ele queimou e se transformou em cinzas. Guarde minhas palavras,
nada cheira pior que escorpio queimado.
O resto das coisas medonhas recuou, rodeando a deusa e subindo em suas pernas. Com
um arrepio, percebi que eles estavam se contorcendo para dentro do vestido da deusa.
Depois de alguns segundos, todos os escorpies tinham desaparecido nas dobras
marrons das suas roupas.
O ar parecia escurecer atrs de Serqet, como se ela estivesse lanando uma sombra
enorme. Ento a escurido se ergueu e formou um enorme rabo de escorpio, fazendo
um arco acima da cabea de Serqet. Aquilo chicoteou na nossa direo a uma
velocidade inflamante, mas Zia levantou sua varinha e o ferro caiu com um som de
assobio. Vapor saiu da varinha de Zia, cheirando a enxofre.
Zia apontou seu basto para a deusa, engolfando seu corpo em fogo. Serqet gritou e
cambaleou para trs, mas o fogo morreu quase que instantaneamente. Aquilo deixou as
roupas de Serqet queimadas e soltando fumaa, mas a deusa parecia mais enfurecida do
que ferida.
"Seus dias so passado, feiticeira. A Casa est fraca. Lorde Set vai assolar esta terra."
Zia jogou sua varinha como um bumerangue. Ela bateu na cauda sombria do escorpio e
explodiu em um cegante claro de luz. Serqet se lanou para trs e desviou o olhar, e
quando ela fez isso, Zia pegou algo de sua manga, algo pequeno -- algo apertado dentro
de seu punho.
A varinha foi uma distrao, pensei. Um truque mgico.
Ento Zia fez algo imprudente: ela saiu do crculo mgico -- bem o que ela nos alertou
para no fazer.
"Zia!" Carter chamou. "O portal!"
Eu olhei atrs de mim, e meu corao quase parou. O espao entre as duas colunas da
entrada do templo era agora um tnel de areia vertical, como se eu estivesse olhando
para o funil de uma enorme ampulheta de lado. Eu pude sentir aquilo me arrastando, me
puxando com uma gravidade mgica.
"Eu no vou entrar a," insisti, mas outro claro levou minha ateno a Zia.
Ela e a deusa estavam envolvidas numa dana perigosa. Zia rodopiou e girou com seu
basto flamejante, e em todo o lugar que ela passava, ela deixava um rastro de chamas
queimando no ar. Eu tive que admitir: Zia era quase to graciosa e impressionante
quanto Bast.
Tive a mais estranha vontade de ajudar. Eu queria -- muito mesmo, na verdade -- sair
do crculo e entrar no combate. Era um desejo completamente louco,  claro. O que eu
poderia ter feito? Mas ainda assim eu sentia que no deveria -- ou no podia -- pular
atravs do portal sem ajudar Zia.
"Sadie!" Carter me agarrou e me puxou de volta. Sem que eu sequer percebesse, meu p
havia quase pisado fora da linha de giz. "O que voc est pensando?"
Eu no tinha uma resposta, mas olhei para Zia e murmurei numa espcie de transe, "Ela
vai usar as fitas. Elas no vo funcionar."
"O qu?" Carter perguntou. "Vamos, ns temos que passar pelo portal!"
Bem a Zia abriu seu punho e pequenos pedaos de pano vermelho flutuaram no ar.
Fitas. Como eu soube? Elas flutuavam como se fossem seres vivos -- como enguias na
gua -- e comearam a ficar mais largas.
Serqet ainda estava concentrada no fogo, tentando evitar que Zia a enjaulasse. No incio
ela pareceu no perceber as fitas, as quais cresceram at estarem com vrios metros de
comprimento.
Eu contei cinco, seis, sete delas no total. Elas flutuaram, orbitando ao redor de Serqet,
rasgando sua sombra de escorpio como se fosse uma iluso inofensiva. Finalmente elas
se enroscaram em volta do corpo de Serqet, prendendo seus braos e pernas. Ela gritou
como se as fitas a queimassem. Ela caiu de joelhos, e a sombra de escorpio se
desintegrou numa nvoa escura. Zia rodopiou e parou. Ela apontou seu basto para a
face da deusa. As fitas comearam a brilhar, e a deusa sibilou de dor, amaldioando
numa lngua que eu no conhecia.
"Eu te prendo s Sete Fitas de Hathor," Zia disse. "Liberte seu hospedeiro ou sua
essncia queimar para sempre."
"Sua morte vai durar para sempre!" Serqet rosnou. "Voc se tornou uma inimiga de
Set!"
Zia torceu seu basto, e Serqet caiu de lado, contorcendo-se e soltando fumaa.
"Eu no... vou..." a deusa sibilou. Mas ento seus olhos negros se tornaram brancos e
leitosos, e ela se deitou.
"O portal!" Carter alertou. "Zia, venha! Parece que ele est fechando!"
Ele estava certo. O tnel de areia parecia estar se movendo mais devagar. O puxo da
sua magia no parecia mais to forte.
Zia se aproximou da deusa cada. Ela tocou a testa de Serqet, e fumaa negra ondeou da
boca da deusa. Serqet se transformou e encolheu at que estvamos olhando para uma
mulher completamente diferente envolta em fitas vermelhas. Ela tinha pele plida e
cabelo preto, mas, entretanto ela no se parecia nada com Serqet. Ela parecia, bem,
humana.
"Quem  ela?" perguntei.
"A hospedeira," Zia disse. "Alguma pobre mortal que --"
Ela olhou para cima com um sobressalto. A nvoa negra j no estava se dissipando. Foi
ficando mais escura e grossa novamente, rodopiando para uma forma mais slida.
"Impossvel," Zia disse. "As fitas so poderosas demais. Serqet no pode se reformar a
menos que --"
"Bem, ela est se reformando," Carter gritou, "e nossa sada est se fechando! Vamos!"
Eu no podia acreditar que ele estava disposto a pular em uma parede de areia que se
agitava, mas, enquanto eu olhava, a nuvem negra tomou a forma de um escorpio de
dois andares de altura -- um escorpio muito zangado -- e eu tomei minha deciso.
"T indo!" gritei.
"Zia!" Carter berrou. "Agora!"
"Talvez voc esteja certo," a feiticeira decidiu. Ela se virou, e juntos corremos e
mergulhamos direto para dentro do rodopiante vrtice.
                                      TREZE

                     EU ENCARO O PERU ASSASSINO

MINHA VEZ.
Em primeiro lugar, o comentrio da Sadie sobre "cachorrinho" foi totalmente
desnecessrio. Eu no estava com os olhos brilhando por Zia.  s que eu no conheo
muitas pessoas que podem atirar bolas de fogo e lutar contra deuses. [Pare de fazer
caretas pra mim, Sadie. Voc parece o Khufu.]
Em todo caso, ns mergulhamos no tnel de areia.
Tudo ficou escuro. Meu estmago formigou com aquela leveza de topo-da-montanha-
russa quando fui arremessado para frente. Ventos quentes aoitaram ao meu redor, e
minha pele ardia. Ento eu cai em um cho frio e azulejado, e Sadie e Zia caram em
cima de mim.
"Ai!" resmunguei.
A primeira coisa que notei foi a fina camada de areia cobrindo meu corpo como acar
polvilhado. Ento meus olhos se adaptaram  luz forte. Ns estvamos em um grande
edifcio como um shopping, com uma multido se movimentando ao nosso redor.
No... no um shopping. Era o saguo de um aeroporto de dois andares, com lojas, um
monte de janelas, e colunas de ao polido. L fora estava escuro, ento eu sabia que
estvamos em um fuso horrio diferente. Anncios ecoavam pelo alto-falante em uma
lngua que soava como rabe.
Sadie cuspiu areia. "Eca!"
"Venham," disse Zia. "No podemos ficar aqui."
Eu me esforcei para ficar de p. Pessoas fluam rapidamente  algumas em roupas
ocidentais, outras em burcas e vus. Uma famlia discutindo em alemo passou
apressadamente e quase me atropelou com suas malas.
Ento eu me virei e vi algo que reconheci. No meio do saguo estava uma rplica em
tamanho natural de um antigo barco egpcio feito de brilhantes caixas de exposio 
um balco de um vendedor de perfumes e joias.
"Este  o aeroporto de Cairo," falei.
"Sim," disse Zia. "Agora, vamos!"
"Por que a pressa? Serqet pode... ela pode nos seguir pelo portal de areia?"
Zia sacudiu a cabea. "Um artefato superaquece sempre que cria um portal. 
necessrio esperar doze horas para que ele esfrie e possa ser usado novamente. Mas
ainda temos que nos preocupar com a segurana do aeroporto. A no ser que vocs
queiram conhecer a polcia egpcia, vocs vo vir comigo agora."
Ela agarrou nossos braos e nos guiou pela multido. Ns devamos parecer mendigos
com nossas roupas antiquadas, cobertos dos ps  cabea com areia. As pessoas se
mantiveram afastadas, mas ningum tentou nos parar.
"Por que estamos aqui?" Sadie exigiu.
"Para ver as runas de Helipolis," disse Zia.
"Dentro de um aeroporto?" perguntou Sadie.
Eu me lembrei de algo que papai me contara anos atrs, e minha nuca se arrepiou.
"Sadie, as runas esto abaixo de ns." Eu olhei para Zia. " isso, no ?"
Ela assentiu. "A antiga cidade foi pilhada sculos atrs. Alguns de seus monumentos
foram levados, como as duas agulhas de Clepatra. A maioria dos templos foi destruda
para a construo de novos edifcios. O que sobrou desapareceu sob as periferias do
Cairo. A maior seo est embaixo deste aeroporto."
"E como isso nos ajuda?" Sadie perguntou.
Zia abriu uma porta de manuteno com um chute. Do outro lado havia um armrio de
vassouras. Zia murmurou um comando  Sahad  e a imagem do armrio tremulou e
desapareceu, revelando uma srie de degraus de pedra que conduziam para baixo.
"Por que nem toda Helipolis est em runas," disse Zia. "Sigam-me de perto. E no
toquem em nada."
A escada deve ter nos levado para baixo por uns doze milhes de quilmetros, porque
ns descemos por uma eternidade. A passagem fora feita para pessoas em miniatura,
tambm. Ns tivemos que nos agachar e engatinhar na maior parte do caminho, e,
mesmo assim, eu bati minha cabea no teto vrias vezes. A nica luz vinha de uma bola
de fogo na mo de Zia, que fazia com que sombras danassem nas paredes.
Eu j estivera em lugares como este antes  tneis dentro de pirmides, tumbas que meu
pai escavara  mas eu nunca havia gostado deles. Milhes de toneladas de pedra acima
de mim pareciam forar o ar para fora de meus pulmes.
Finalmente ns chegamos ao fundo. O tnel se abriu, e Zia parou abruptamente. Depois
que meus olhos se adaptaram, eu vi por qu. Ns estvamos na beira de um abismo.
Uma nica prancha de madeira se estendia pelo vazio. Do outro lado, dois guerreiros de
granito com cabeas de chacal flanqueavam uma porta, suas lanas cruzadas acima da
entrada.
Sadie suspirou. "Por favor, sem mais esttuas psicticas."
"No brinque," Zia avisou. "Esta  uma entrada para o Primeiro Nome, a mais antiga
ramificao da Casa da Vida, sede de todos os mgicos. Meu trabalho era trazer vocs
aqui em segurana, mas no posso ajud-los a atravessar. Cada mgico deve abrir o
caminho por si mesmo, e o desafio  diferente para cada suplicante."
Ela olhou para Sadie com expectativa, o que me incomodou. Primeiro Bast, agora Zia 
as duas trataram Sadie como se ela tivesse algum tipo de superpoder. Quero dizer, ok,
ento ela fora capaz de explodir as portas da biblioteca, mas por que ningum olhava
pra mim esperando truques legais?
Alm do mais, eu ainda estava aborrecido com Sadie por causa dos comentrios que ela
tinha feito no Museu de Nova York  como eu tinha me dado bem viajando ao redor do
mundo com nosso pai. Ela no tinha ideia de quantas vezes eu quis reclamar das
constantes viagens, de quantos dias eu desejei no ter que entrar em um avio e poder
ser somente um garoto normal indo pra escola e fazendo amigos. Mas eu no podia
reclamar. Voc tem que sempre aparentar estar impecvel, papai me dissera. E ele no
queria dizer apenas nas roupas. Ele quis dizer na minha atitude. Desde que mame se
fora, eu era tudo que ele tinha. Ele precisava que eu fosse forte. Na maioria dos dias, eu
no me importava. Eu amava meu pai. Mas tambm era difcil.
Sadie no entendia isso. Pra ela foi fcil. E agora ela parecia estar ganhando toda a
ateno, como se ela fosse a especial. No era justo. Ento eu ouvi a voz de meu pai em
minha cabea: "Justia significa todos ganharem o que precisam. E o nico meio de
conseguir o que precisa  fazer acontecer voc mesmo."
Eu no sei o que deu em mim, mas eu desembainhei minha espada e marchei pela
prancha. Era como se as minhas pernas estivessem funcionando sozinhas, sem esperar
pelo meu crebro. Parte de mim pensou: Esta  uma pssima ideia. Mas parte de mim
respondeu: No, ns no temos medo disso. E a voz no soava como a minha.
"Carter!" Sadie gritou.
Eu continuei andando. Tentei no olhar para o cavernoso vazio abaixo dos meus ps,
mas o simples tamanho do abismo me deixou tonto. Eu me senti como um desses
giroscpios de brinquedo, girando e cambaleando enquanto eu atravessava a estreita
prancha.
Quando cheguei mais perto do lado oposto, a porta entre as duas esttuas comeou a
brilhar, como uma cortina de luz vermelha.
Eu inspirei profundamente. Talvez a luz vermelha fosse um portal, como a passagem de
areia. Se eu apenas investisse atravs dela rpido o suficiente...
Ento o primeiro punhal foi lanado do tnel.
Minha espada estava em movimento antes que eu percebesse. O punhal deveria ter me
cravado no peito, mas de algum modo eu o desviei com minha lmina e o mandei direto
para o precipcio. Mais dois punhais vieram do tnel. Eu nunca tivera os melhores
reflexos, mas agora eles aceleraram. Eu evitei um punhal e enganchei o outro com a
lmina curva da minha espada, virei o punhal e arremessei-o de volta para o tnel.
Como foi que eu fiz aquilo?
Avancei para o fim da prancha e golpeei a luz vermelha, a qual tremeluziu e se apagou.
Esperei que as esttuas acordassem, mas nada aconteceu. O nico som foi o do punhal
se chocando contra as rochas no abismo muito abaixo.
A porta comeou a brilhar novamente. A luz vermelha se fundiu em uma estranha
forma: um pssaro com um metro e meio de altura e cabea do homem. Ergui minha
espada, mas Zia gritou, "Carter, no!"
A criatura pssaro dobrou suas asas. Seus olhos, delineados com kohl, se estreitaram
enquanto ele me estudava. Uma peruca ornamental preta reluziu em sua cabea, e seu
rosto ficou marcado por rugas. Uma dessas barbas falsas de fara tranadas estava presa
em seu queixo como um rabo de cavalo ao contrrio. Ele no parecia hostil, exceto pela
luz vermelha tremeluzindo ao seu redor, e o fato de, do seu pescoo pra baixo, ele ser o
maior peru assassino do mundo.
Ento um pensamento enregelante me ocorreu: Este era um pssaro com cabea
humana, a mesma forma que eu imaginara ter quando dormi na casa de Amos, quando
minha alma deixou meu corpo e voou para Phoenix. Eu no fazia ideia do que isso
significava, mas me assustou.
A criatura-pssaro arranhou o cho de pedra. Ento, inesperadamente, ele sorriu.
"Pari, niswa nafeer," ele me disse, ou pelo menos foi o que me pareceu.
Zia arfou. Ela e Sadie estavam bem atrs de mim agora, seus rostos plidos.
Aparentemente elas haviam dado um jeito de cruzar o abismo sem que eu percebesse.
Finalmente Zia pareceu se recuperar. Ela se curvou para a criatura-pssaro. Sadie seguiu
seu exemplo.
A criatura piscou pra mim, como se ns tivssemos acabado de compartilhar uma piada.
Ento ela desapareceu. A luz vermelha se extinguiu. As esttuas recolheram seus
braos, descruzando as lanas da entrada.
" isso?" perguntei. "O que o peru disse?"
Zia olhou para mim com algo como medo. "No era um peru, Carter. Era um ba."
Eu j ouvira meu pai usar aquela palavra antes, mas no conseguia situ-la. "Outro
monstro?"
"Uma alma humana," disse Zia. "Neste caso, o esprito de um morto. Um mgico dos
tempos antigos, que volta para servir de guardio. Eles vigiam as entradas da Casa."
Ela estudou meu rosto como se eu tivesse acabado de desenvolver uma terrvel brotoeja.
"O qu?" demandei. "Por que voc est olhando pra mim desse jeito?"
"Nada," ela disse. "Ns devemos nos apressar."
Ela me espremeu na salincia e desapareceu dentro do tnel. Sadie tambm estava me
encarando.
"Tudo bem," eu disse. "O que o cara pssaro disse? Voc entendeu?"
Ela assentiu desconfortavelmente. "Ele confundiu voc com outra pessoa. Ele deve ter
uma pssima viso."
"Por qu?"
"Porque ele disse, `V adiante, bom rei.'"
Eu fiquei em torpor da em diante. Ns passamos pelo tnel e entramos em uma vasta
cidade subterrnea de corredores e cmaras, mas eu s me lembro de pedaos e trechos
dela.
O teto subia a seis ou nove metros, ento eu no me sentia como se estivssemos no
subterrneo. Cada cmara era alinhada com colunas de pedra macia, como aquelas que
eu vira nas runas egpcias, mas essas estavam em perfeita condio, pintadas com cores
vivas para se parecerem com palmeiras, com folhas verdes esculpidas no topo, ento eu
me senti como se estivesse andando por uma floresta petrificada. Fogueiras queimavam
em braseiros de cobre. Eles no pareciam produzir nenhuma fumaa, mas o ar cheirava
bem, como uma loja de especiarias  canela, cravo, noz moscada, e outras que eu no
consegui identificar. A cidade cheirava como Zia. Eu percebi que aquele era o seu lar.
Ns vimos algumas outras pessoas  a maioria homens e mulheres mais velhos.
Algumas vestiam tnicas de linho, algumas roupas modernas. Um cara em um terno de
executivo passou com um leopardo negro em uma coleira, como se isso fosse
completamente normal. Outro cara berrava ordens para um pequeno exrcito de
vassouras, esfreges e baldes que se apressavam por ali, limpando a cidade.
"Como aquele desenho animado," Sadie disse. "Onde o Mickey Mouse tenta fazer
mgica e as vassouras ficam se dividindo e jogando gua em tudo."
"O Aprendiz de Feiticeiro," disse Zia. "Voc sabe que foi baseada em uma histria
egpcia, no sabe?"
Sadie apenas retribuiu o olhar. Eu sabia como ela se sentia. Era muito para se processar.
Ns andamos por um corredor de esttuas com cabea de chacal, e eu podia jurar que
seus olhos nos vigiaram enquanto passvamos. Alguns minutos depois, Zia nos guiou
por um mercado a cu aberto  se voc pode chamar qualquer coisa de "a cu aberto"
no subterrneo  com dzias de barracas vendendo coisas estranhas como varinhas
bumerangue, bonecos de barro animados, papagaios, cobras, rolos de papiro, e centenas
de amuletos reluzentes diferentes.
Depois ns cruzamos um caminho de pedras sobre um rio negro cheio de peixes. Eu
pensei que eram percas at ver seus dentes afiados.
"Essas so piranhas?" perguntei.
"Peixes-tigre do Nilo," disse Zia. "Como piranhas, exceto pelo fato de que estes podem
pesar acima de oito quilos."
Eu prestei mais ateno onde pisava depois daquilo.
Ns viramos uma esquina e passamos por um ornamentado edifcio esculpido em pedra
preta. Faras sentados estavam gravados nas paredes, e a porta tinha o formato de uma
serpente enrolada.
"O que tem ali?" Sadie perguntou.
Ns espreitamos l dentro e vimos filas de crianas  talvez duas dzias ao todo, entre
seis e dez anos de idade ou algo assim  sentadas com as pernas cruzadas em almofadas.
Elas estavam debruadas sobre bacias de bronze, examinando atentamente algum tipo
de lquido e murmurando. Primeiro eu pensei que fosse uma sala de aula, mas no havia
sinal de um professor, e a sala era iluminada por apenas algumas velas. Julgando pelo
nmero de lugares vazios, o aposento poderia conter o dobro de crianas.
"Nossos iniciantes," disse Zia, "aprendendo a vidncia. O Primeiro Nome deve manter
contato com nossos irmos ao redor do mundo. Ns usamos nossos mais jovens como...
operadores, pode-se dizer."
"Ento vocs tem bases como esta ao redor do mundo todo?"
"A maioria  muito menor, mas sim."
Eu me lembrei do que Amos nos contara sobre os nomes. "O Egito  o Primeiro Nome.
Nova York  o Vigsimo Primeiro. Qual  o ltimo, o Tricentsimo Sexagsimo?"
"Seria a Antrtica," disse Zia. "Uma nomeao punitiva. No h nada l alm de alguns
magos gelados e pinguins mgicos."
"Pinguins mgicos?"
"No pergunte."
Sadie apontou para as crianas l dentro. "Como funciona? Elas veem imagens na
gua?"
" leo," Zia disse. "Mas sim."
"To poucos," disse Sadie." Esses so os nicos iniciantes na cidade toda?"
"No mundo todo," Zia corrigiu. "Havia mais antes " Ela se interrompeu.
"Antes do qu?" perguntei.
"Nada," respondeu Zia sombriamente. "Iniciantes fazem nossa vidncia porque mentes
jovens so mais receptivas. Mgicos comeam o treinamento com no mais do que dez
anos... com algumas perigosas excees."
"Voc quer dizer ns," falei.
Ela olhou pra mim apreensivamente, e eu sabia que ela ainda pensava no que o esprito
pssaro havia me chamado: um bom rei. Parecia to irreal, como o nosso sobrenome
naquele pergaminho do Sangue dos Faras. Como eu poderia ser parente de reis
antigos? E mesmo que eu fosse, eu certamente no era um rei. Eu no tinha um reino.
Eu nem tinha mais a minha nica maleta.
"Eles estaro esperando por vocs," disse Zia. "Venham."
Ns andamos tanto que meus ps comearam a doer.
Finalmente chegamos a um cruzamento.  direita havia um conjunto macio de portas
de bronze com chamas queimando em cada um dos lados;  esquerda, uma esfinge com
seis metros de altura esculpida na parede. Uma porta estava abrigada entre suas patas,
mas ela estava fechada com tijolos e coberta de teias de aranha.
"Aquela parece a Esfinge de Giz," eu disse.
" porque estamos exatamente abaixo da Esfinge real," disse Zia. "Aquele tnel leva
diretamente para ela. Ou costumava levar, antes de ser lacrado."
"Mas..." eu fiz alguns clculos na minha cabea. "A Esfinge fica, mais ou menos, a
trinta e dois quilmetros do Aeroporto do Cairo."
"Aproximadamente."
"De jeito nenhum ns andamos tanto."
Zia chegou a sorrir, e eu no pude deixar de notar como seus olhos eram bonitos. "A
distncia muda em lugares mgicos, Carter. Certamente voc aprendeu isso a esta
altura."
Sadie pigarreou. "Ento por que o tnel est fechado?"
"A Esfinge era muito popular entre os arqueologistas," disse Zia. "Eles ficavam
cavando por l. Finalmente, na dcada de 80, eles descobriram a primeira parte do tnel
sob a Esfinge."
"Papai me falou sobre isso!" eu disse. "Mas ele disse que o tnel terminava em um beco
sem sada."
"Foi quando ns intervimos. No podamos deixar que os arqueologistas soubessem o
quanto eles estavam deixando escapar. Os principais arqueologistas do Egito
recentemente especularam que eles haviam descoberto apenas trinta por cento das
runas antigas no Egito. Na verdade, eles apenas descobriram dez por cento, e nem ao
menos os dez por cento interessantes."
"E a tumba do Rei Tut?" protestei.
"O rei menino?" Zia rolou os olhos. "Chata. Voc devia ver algumas das tumbas boas."
Eu me senti um pouco magoado. Papai me nomeara em homenagem  Howard Carter, o
cara que tinha descoberto a tumba do Rei Tut, ento eu sempre sentira uma ligao
pessoal com isso. Se aquela no era uma "boa" tumba, me perguntei qual seria.
Zia se virou para as portas de bronze.
"Este  o Hall das Eras." Ela colocou a palma da mo contra o selo, que fora soldado
com o smbolo da Casa da Vida.




Os hierglifos comearam a brilhar, e as portas se abriram.
Zia se virou para ns, sua expresso mortalmente sria. "Vocs esto prestes a conhecer
o Chefe Lector. Comportem-se, a no ser que queiram ser transformados em insetos."
                                     CATORZE

                     UM FRANCS QUASE NOS MATA

NOS LTIMOS DIAS eu havia visto muitas coisas loucas, mas o Hall das Eras levou o
prmio.
Fileiras duplas de pilares de pedra apoiavam um teto to alto, que voc poderia
estacionar um dirigvel embaixo dele sem nenhum problema. Um brilhante tapete azul
que parecia gua corria pelo centro do corredor, que de to longo eu no conseguia ver
o final, apesar de estar to iluminado. Bolas de fogo flutuavam em volta como bolas de
basquete com hlio, mudando de cor sempre que esbarravam umas nas outras. Milhes
de minsculos smbolos hieroglficos tambm flutuavam pelo ar combinando-se
aleatoriamente em palavras, e depois se desfaziam.
Eu peguei um par de brilhantes pernas vermelhas.




Elas andaram pela palma de minha mo antes de saltarem e se dissolverem.
Mas as coisas mais estranhas eram as exposies. Eu no sei do que mais cham-las.
Entre as colunas, em ambos os lados, imagens mudavam, entrando em foco e depois
borrando novamente como hologramas em uma tempestade de areia.
"Vamos," disse Zia para ns. "E no fiquem olhando por muito tempo."
Era impossvel no olhar. Nos primeiros seis metros ou mais, as cenas mgicas
lanavam uma luz dourada atravs do corredor. Um sol escaldante se erguia sobre um
oceano. Uma montanha emergia da gua, e eu tive a sensao de que assistia ao comeo
do mundo. Gigantes caminhavam atravs do vale do Nilo: Um homem com pele negra e
a cabea de um chacal, uma leoa com presas ensanguentadas, uma linda mulher com
asas de luz.
Sadie saiu do tapete. Em um transe, ela foi em direo s imagens.
"Fique no tapete!" Zia pegou a mo de Sadie e a puxou de volta para o centro do
corredor.
"Vocs esto vendo a Era dos Deuses. Nenhum mortal deve demorar nessas imagens."
"Mas..." Sadie piscou. "Elas so apenas imagens, no so?"
"Memrias," disse Zia, "to poderosas que poderiam destruir sua mente."
"Oh," Sadie disse em voz baixa.
Ns continuamos andando. As imagens mudaram para prateado. Vi exrcitos lutando
entre si  egpcios em saiotes e sandlias e armaduras de couro, lutando com lanas. Um
homem alto e de pele escura em uma armadura vermelha e branca colocava uma coroa
dupla em sua cabea: Narmer, o rei que o uniu o Alto e o Baixo Egito. Sadie estava
certa: ele realmente parecia um pouco com o papai.
"Esse  o Antigo Reino," adivinhei. "A primeira grande era do Egito."
Zia assentiu. Conforme andvamos pelo corredor, vimos trabalhadores construindo a
primeira pirmide de pedra. Mais alguns passos, e a maior pirmide de todas se ergueu
do deserto em Giza. Sua camada de pedras de revestimento liso e branco brilhava  luz
do sol. Dez mil trabalhadores reuniam-se em sua base e se ajoelhavam perante o fara, o
qual levantou suas mos para o sol, consagrando sua prpria tumba.
"Khufu," falei.
"O babuno?" Perguntou Sadie, de repente interessada.
"No, o fara que construiu a Grande Pirmide," falei. "Essa foi a estrutura mais alta do
mundo por quase quatro mil anos"
Mais alguns passos, e imagens se transformaram de prata para cobre.
"O Mdio Reino," Zia anunciou. "Uma poca sangrenta e catica. Mas mesmo assim foi
quando a Casa da Vida alcanou a plenitude."
As cenas mudavam com mais rapidez. Vimos exrcitos lutando, templos sendo
construdos, navios navegando no Nilo, magos lanando fogo. Cada passo cobria
centenas de anos, e ainda assim o corredor no acabava nunca. Pela primeira vez eu
entendi o quanto o Egito era antigo.
Ns atravessamos outro limiar, e a luz se tornou bronze
"O Novo Reino," adivinhei. "A ltima vez que o Egito foi governado por egpcios."
Zia no disse nada, mas eu assisti cenas passando que meu pai havia descrito pra mim:
Hatshepsut, a maior fara mulher da histria, colocando uma barba falsa e governando o
Egito como um homem; Ramss, o Grande, liderando suas carruagens para a batalha.
Vi magos duelando em um palcio. Um homem em roupas esfarrapadas, com uma
barba preta desgrenhada e olhos selvagens, jogava seu cajado, que se transformou em
uma serpente e devorou uma dzia de outras cobras.
Senti um n em minha garganta. "Esse  "
"Musa," Zia disse. "Ou Moshe, como seu prprio povo o conhecia. Vocs o chamam de
Moiss. O nico forasteiro que j derrotou a Casa em um duelo mgico."
Eu olhei para ela. "Voc est brincando, n?"
"Ns no brincaramos a respeito de algo assim."
A cena mudou novamente. Eu vi um homem olhando sobre uma mesa de estratgias de
batalha: navios de brinquedo feitos de madeira, soldados e carruagens. O homem estava
vestido como um fara, mas seu rosto parecia estranhamente familiar. Ele olhou para
cima e pareceu sorrir direto pra mim. Com um calafrio, percebi que ele tinha o mesmo
rosto do ba, o esprito com cara de pssaro que havia me desafiado na ponte.
"Quem  aquele?" perguntei.
"Nectanebo II," disse Zia. "O ltimo rei egpcio nativo, e o ltimo fara feiticeiro. Ele
podia mover exrcitos inteiros, criar ou destruir esquadras s movendo as peas em seu
tabuleiro, mas no final, isso no foi suficiente."
Ns passamos por outra linha e as imagens brilharam em azul. "Esses so os tempos
Ptolomaicos," Zia falou. "Alexandre, o Grande, conquistou o mundo conhecido,
incluindo o Egito. Ele nomeou seu general Ptolomeu como novo fara, e encontrou uma
linhagem de reis gregos para governar o Egito."
A sesso Ptolomaica do Hall era a mais curta, e parecia triste comparada s outras. Os
templos eram menores. Os reis e rainhas pareciam desesperados, ou preguiosos, ou
simplesmente apticos. No havia grandes batalhas... exceto no final. Eu vi romanos
marchando para a cidade de Alexandria. Vi uma mulher com cabelo preto e vestido
branco deixar cair uma cobra em sua blusa.
"Clepatra," Zia falou, "a stima rainha com esse nome. Ela tentou resistir contra o
poder de Roma, e perdeu. Quando ela se matou, a ltima linhagem de faras acabou.
Egito, a grande nao, desvaneceu. Nosso idioma foi esquecido. Os antigos ritos foram
suprimidos. A Casa da Vida sobreviveu, mas fomos forados a nos esconder."
Ns passamos por uma rea de luz vermelha, e a histria comeou a parecer familiar.
Eu vi exrcitos rabes invadindo o Egito, e depois os turcos. Napoleo marchava com
seu exrcito sob as sombras das pirmides. Os Britnicos vieram e construram o Canal
de Suez. Pouco a pouco Cairo foi se transformando em uma cidade moderna. E as
antigas runas foram desaparecendo mais e mais sob a areia do deserto.
"A cada ano," disse Zia, "o Hall das Eras cresce, ficando mais longo para englobar
nossa histria. At chegar ao presente."
Eu estava to atordoado que nem mesmo reparei que tnhamos chegado ao fim do Hall,
at que Sadie agarrou meu brao.
Na nossa frente estava um estrado e sobre ele um trono vazio, uma cadeira de madeira
dourada com um malho e um cajado de pastor esculpido atrs  o antigo smbolo do
fara.
No degrau abaixo do trono sentava-se o homem mais velho que eu j tinha visto. Sua
pele era como papel de saco de po  marrom, fina e enrugada. Vestes de linho branco
pendiam de seu corpo frgil. Uma pele de leopardo cobria seus ombros, e sua mo
segurava tremulamente um grande cajado de madeira, que eu tinha certeza que ele
deixaria cair a qualquer minuto. Mas o mais estranho de tudo, os hierglifos brilhantes
no ar pareciam estar vindo dele. Smbolos multicoloridos surgiam em torno dele e
flutuavam para longe como se ele fosse uma espcie de mquina mgica de bolhas.
No comeo no tive certeza se ele estava mesmo vivo. Seus olhos leitosos encaravam o
espao. Ento ele focou em mim, e eletricidade correu pelo meu corpo. Ele no estava
apenas olhando para mim. Ele estava me escaneando  lendo todo o meu ser.
Esconda, algo disse dentro de mim.
Eu no sabia de onde vinha a voz, mas meu estmago se firmou. Todo o meu corpo
ficou tenso como se eu estivesse esperando por uma pancada, e a sensao de
eletricidade diminuiu.
O velho homem levantou uma sobrancelha como se eu o tivesse surpreendido. Ele
olhou para trs e disse algo em uma lngua que no reconheci.
Um segundo homem saiu das sombras. Eu quis gritar. Ele era o cara que estivera com
Zia no Museu Britnico  aquele com roupas cor de creme e barba bifurcada.
O homem barbudo encarou Sadie e a mim.
"Eu sou Desjardins," ele disse com um sotaque francs. "Meu mestre, Chefe Lector
Iskandar, lhes d as boas-vindas  Casa da Vida."
Eu no conseguia pensar no que dizer em resposta, ento,  claro, fiz uma pergunta
estpida. "Ele  bem velho. Por que ele no est sentado no trono?"
As narinas de Desjardins chamejaram, mas o velho homem, Iskandar, apenas riu, e disse
alguma outra coisa naquela outra lngua.
Desjardins traduziu duramente: "O mestre diz obrigado por voc ter notado: ele  de
fato muito velho. Mas o trono  para o fara. Est vago desde a queda do Egito para
Roma. Ele ... comment diton? Simblico. O dever do Chefe Lector  servir e proteger o
fara. Sendo assim ele se senta aos ps do trono."
Olhei para Iskandar um pouco nervoso. Eu me perguntei h quantos anos ele estava
sentado naquele degrau. "Se voc... se ele pode entender ingls... que idioma ele est
falando?"
Desjardins bufou. "O Chefe Lector entende muitas coisas. Mas ele prefere falar grego
alexandrino, sua lngua de nascena."
Sadie limpou sua garganta. "Desculpa, lngua de nascena? No estava Alexandre, o
Grande, bem l trs na sesso azul, milhares de anos atrs? Voc faz parecer como se
Lorde Salamandra fosse "
"Lorde Iskandar," Desjardins sibilou. "Demonstre respeito!"
Algo disparou em minha mente: no Brooklyn, Amos falara sobre a lei dos mgicos
contra a invocao de deuses  uma lei feita nos tempos romanos pelo Chefe Lector...
Iskandar. Com certeza tinha que ser um cara diferente. Talvez estivssemos falando
com Iskandar XXVII ou algo do tipo. O velho homem me olhou nos olhos. Ele sorriu,
como se soubesse exatamente o que eu estava pensando. Ele disse algo mais em grego,
e Desjardins traduziu.
"O mestre disse para no se preocuparem. Vocs no sero responsabilizados pelos
crimes passados de sua famlia. Pelo menos, no at ns os investigarmos mais a fundo.
"Nossa... obrigado," falei.
"No zombe de nossa generosidade, garoto," Desjardins avisou. "Seu pai quebrou nossa
lei mais importante duas vezes: uma na Agulha de Clepatra, quando ele tentou invocar
os deuses e sua me morreu ajudando-o. E novamente no Museu Britnico, quando seu
pai foi tolo o suficiente para usar a prpria Pedra de Roseta. Agora seu tio tambm est
desaparecido "
"Voc sabe o aconteceu com Amos?" disparou Sadie.
Desjardins franziu a testa. "No ainda," ele admitiu.
"Vocs tm que encontr-lo," Sadie gritou. "Vocs no tm algum tipo de GPS mgico
ou "
"Ns estamos procurando," disse Desjardins. "Mas vocs no podem se preocupar com
Amos. Devem ficar aqui. Devem ser... treinados."
Eu tive a impresso de que ele ia dizer uma palavra diferente, algo que no soava to
bem quanto treinar.
Iskandar falou diretamente comigo. Seu tom soou gentil.
"O mestre avisa que o os Dias demonacos comeam amanh ao pr-do-sol," Desjardins
traduziu. "Vocs devem ser mantidos a salvo."
"Mas ns temos que encontrar nosso pai!" falei. "Deuses perigosos esto  solta. Ns
vimos Serqet. E Set!"
Ao ouvir esses nomes, a expresso de Iskandar endureceu. Ele se virou e deu a
Desjardins o que parecia ser uma ordem. Desjardins protestou. Iskandar repetiu sua
afirmao. Desjardins claramente no gostou disso, mas ele se curvou para o seu mestre.
Ento ele se virou para mim. "O Chefe Lector deseja ouvir sua histria."
Ento contei a ele, com Sadie me ajudando toda vez que eu parava para respirar. O
engraado foi que, ns dois deixamos certas partes de fora sem combinar fazer isso. Ns
no mencionamos as habilidades mgicas de Sadie, ou o encontro com o ba que tinha
me chamado de rei. Era como se eu literalmente no pudesse mencionar esses fatos.
Toda vez que eu tentava, a voz dentro de minha cabea sussurrava, Essa parte no.
Fique em silncio. Quando terminei, olhei de relance para Zia. Ela no disse nada, mas
estava me estudando com uma expresso preocupada.
Iskandar traou um crculo no degrau com a extremidade de seu cajado. Mais
hierglifos apareceram no ar e flutuaram para longe. Depois de vrios segundos,
Desjardins parecia estar ficando impaciente. Ele deu um passo a frente e nos encarou.
"Vocs esto mentindo. Aquele no poderia ser Set. Ele precisaria de um hospedeiro
poderoso para permanecer neste mundo. Muito poderoso."
"Olha aqui, voc," disse Sadie. "Eu no sei o que  toda essa baboseira sobre
hospedeiros, mas eu vi Set com meus prprios olhos. Voc estava no Museu Britnico 
voc deve ter visto tambm. E se Carter o viu em Phoenix, Arizona, ento..." Ela olhou
para mim com incerteza. "Ento ele provavelmente no est louco."
"Obrigado, mana," murmurei, mas Sadie estava apenas comeando.
"E quanto a Serqet, ela  real tambm! Nossa amiga, minha gata, Bast, morreu nos
protegendo!"
"Ento," Desjardins disse friamente, "voc admite ter ligao com os deuses. Isso torna
nossa investigao muito mais fcil. Bast no  sua amiga. Os deuses causaram a queda
do Egito.  proibido invocar seus poderes. Mgicos fazem juramento de impedirem os
deuses de interferir no mundo mortal. Ns devemos usar todo o nosso poder para lutar
contra eles."
"Bast disse que voc era paranico," Sadie acrescentou.
O mago cerrou seus punhos, e o ar vibrou com o estranho cheiro de oznio, como
durante uma tempestade de raios. Os cabelos em minha nuca se arrepiaram. Antes que
qualquer coisa ruim pudesse acontecer, Zia entrou na nossa frente.
"Lorde Desjardins," ela pediu, "havia algo estranho. Quando enredei a deusa escorpio,
ela se reformou quase imediatamente. Eu no pude mand-la de volta para o Duat,
mesmo com as Sete Faixas. Eu pude apenas quebrar seu controle sobre seu hospedeiro
por um momento. Talvez os rumores de outras fugas  "
"Que outras fugas?" perguntei.
Ela olhou pra mim com relutncia. "Outros deuses, muitos deles, se libertaram na
ltima noite de artefatos espalhados pelo mundo todo. Como uma reao em cadeia  "
"Zia!" Desjardins cortou. "Esta informao no  para ser compartilhada."
"Olha," falei, "lorde, senhor, ou o que quer que seja  Bast nos avisou que isso iria
acontecer. Ela disse que Set libertaria mais deuses."
"Mestre," Zia pediu, "se Ma'at est enfraquecendo, e Set est aumentando o caos, talvez
seja por isso que eu no consegui banir Serqet."
"Ridculo," disse Desjardins. "Voc  habilidosa, Zia, mas talvez no fosse habilidosa o
bastante para esse encontro. E quanto a esses dois, a contaminao deve ser contida."
Zia corou. Ela virou sua ateno para Iskandar. "Mestre, por favor. D-me uma chance
com eles."
"Voc se esquece do seu lugar," cortou Desjardins. "Estes dois so culpados e devem
ser destrudos."
Minha garganta comeou a se fechar. Eu olhei para Sadie. Se tivssemos que fugir por
aquele longo corredor, eu no gostava de nossas chances...
O velho homem finalmente olhou para cima. Ele sorriu para Zia com uma verdadeira
afeio. Por um momento me perguntei se ela era sua tatara-tatara-tatara-neta ou algo
assim. Ele falou em grego, e Zia se curvou profundamente.
Desjardins parecia pronto para explodir. Ele varreu suas vestes pra longe de seus ps e
marchou para trs do trono.
"O Chefe Lector permitir que Zia teste vocs," ele resmungou. "Enquanto isso, irei
procurar a verdade  ou as mentiras  em sua histria. Vocs sero punidos pelas
mentiras."
Eu me virei para Iskandar e copiei o gesto de Zia. Sadie fez o mesmo.
"Obrigado, mestre," falei.
O velho homem me estudou por um bom tempo. Novamente senti como se ele estivesse
tentando atingir a minha alma  no de um jeito ameaador. Mais para preocupado.
Ento ele murmurou alguma coisa, e eu entendi duas palavras: Nectanebo e ba.
Ele abriu sua mo e um fluxo de hierglifos brilhantes brotou, rodopiando ao redor do
estrado. Houve um flash de luz cegante, e quando pude ver novamente, o estrado estava
vazio. Os dois homens haviam sumido.
Zia se virou para ns, sua expresso severa. "Vou mostrar a vocs seus alojamentos.
Seus testes comeam pela manh. Ns veremos que mgica vocs sabem, e como vocs
sabem."
Eu no estava certo do que ela quis dizer com isso, mas troquei um olhar preocupado
com Sadie.
"Parece divertido," Sadie se aventurou. "E se falharmos nesse teste?"
Zia a encarou friamente. "Este no  o tipo de teste em que se falha, Sadie Kane. Ou
voc passa, ou morre."
                                       QUINZE

              UMA FESTA DE ANIVERSRIO DOS DEUSES
ELES LEVARAM CARTER PARA UM DORMITRIO diferente, ento no sei como
ele dormiu. Mas eu no pude fechar o olho.
J teria sido bem difcil com os comentrios de Zia sobre passar em nossos testes ou
morrer, mas o dormitrio das meninas no era to elegante quanto a manso de Amos.
As paredes de pedra transpiravam umidade. Figuras sombrias de monstros egpcios
danavam pelo teto na luz da tocha. Eu fiquei em um chal flutuante para dormir, e as
outras garotas em treinamento -- iniciantes, Zia dissera -- eram muito mais novas que
eu, ento quando a supervisora do dormitrio as mandou direto pra cama, elas realmente
obedeceram. A supervisora acenou com a mo e as tochas se apagaram. Ela fechou a
porta, e eu pude ouvir o som de cadeados sendo trancados.
Adorvel. Presa no quarto de crianas/masmorra de uma escola.
Eu olhei para o escuro at que ouvi as outras garotas roncando. Um pensamento
continuou me incomodando: uma urgncia que eu no pude deixar de lado. Finalmente
me arrastei para fora da cama e calcei minhas botas.
Tateei meu caminho at a porta. Tentei a maaneta. Trancada, como suspeitei. Estava
tentada a chut-la at que me lembrei do que Zia fizera no armrio de vassouras no
Aeroporto do Cairo.
Pressionei minha palma contra a porta e sussurrei, "Sahad."
Os cadeados estalaram. A porta se abriu. Truque til.
Do lado de fora, os corredores estavam escuros e vazios. Aparentemente, no havia
muita vida noturna no Primeiro Nome. Eu me esgueirei pela cidade de volta pelo
caminho que tnhamos vindo e no vi nada, salvo uma cobra casual rastejando pelo
cho. Depois dos ltimos dias, aquilo sequer me perturbou. Pensei em tentar achar
Carter, mas no tinha certeza para onde ele fora levado, e honestamente, eu queria fazer
isso sozinha.
Depois de nossa ltima discusso em Nova York, eu no tinha certeza de como me
sentia sobre meu irmo. A ideia de que ele podia sentir cimes da minha vida enquanto
viajava pelo mundo com papai -- por favor! E ele teve a coragem de chamar minha
vida de normal? Tudo bem, eu tinha algumas amigas na escola, como Liz e Emma, mas
minha vida dificilmente era fcil. Se Carter cometesse uma gafe social ou conhecesse
pessoas que ele no gostasse, bastaria seguir em frente! Eu tinha que ficar l. Eu no
podia responder perguntas simples como "Onde esto seus pais?" ou "O que sua famlia
faz?" ou mesmo "Voc  de onde?" sem expor o quo estranha era a minha situao.

Eu sempre era a menina diferente. A garota mestia, a americana que no era
americana, a menina cuja me morrera, a menina com o pai ausente, a menina que
causou problema em classe, a garota que no se concentrava nas aulas. Depois de um
tempo a gente percebe que se misturar simplesmente no funciona. Se as pessoas vo
me destacar, eu podia muito bem dar algo para elas olharem. Faixas vermelhas no meu
cabelo? Por que no! Botas de combate com o uniforme escolar? Absolutamente. A
diretora diz, "Terei que chamar seus pais, mocinha." Eu digo, "Boa sorte." Carter no
sabia nada sobre a minha vida.
Mas chega disso. O ponto era, eu decidi fazer aquela explorao sozinha, e depois de
alguns contornos errados, eu achei meu caminho de volta ao Hall das Eras.
O que eu estava aprontando, voc pode se perguntar? Eu certamente no queria
encontrar o Monsieur Maligno novamente ou o velho assustador Lorde Salamandra.
Mas eu queria ver aquelas imagens -- memrias, Zia as havia chamado. Abri as portas
de bronze. Dentro, o corredor parecia deserto. Sem bolas de fogo flutuando no teto. Sem
hierglifos brilhantes. Mas as imagens ainda tremeluziam entre as colunas, iluminando
o corredor com uma luz estranha e multicolorida.
Eu dei alguns passos nervosos.
Eu queria dar outra olhada na Era dos Deuses. Na nossa primeira viagem pelo corredor,
algo naquelas imagens tinha me abalado. Eu sabia que Carter pensara que eu estava em
um perigoso transe, e Zia tinha alertado que as cenas iam dissolver meu crebro; mas eu
sentia que ela s estava tentando me assustar. Eu senti uma conexo com aquelas
imagens, como se tivesse uma resposta nelas -- um pedao vital de informao que eu
precisava.
Pisei fora do tapete e me aproximei da cortina de luz dourada. Eu vi dunas de areia
deslocando-se no vento, nuvens de tempestade se formando, crocodilos deslizando pelo
Nilo. Vi um corredor cheio de folies. Eu toquei a imagem.
E eu estava no palcio dos deuses.
Seres enormes giravam ao meu redor, mudando a forma de humano para animal e para
pura energia. Num trono no centro da sala estava um homem africano musculoso em
roupas negras. Ele tinha um rosto bonito e olhos castanhos calorosos. Suas mos
pareciam fortes o suficiente para esmagar pedras.
Os outros deuses celebravam ao redor dele. Msica tocava -- um som to poderoso que
o ar queimava. Ao lado do homem havia uma linda mulher vestida de branco, sua
barriga inchada como se estivesse grvida de alguns meses. Sua forma tremeluzia; s
vezes ela parecia ter asas multicoloridas. Ento ela virou na minha direo e eu ofeguei.
Ela tinha a face da minha me.
Ela no pareceu me notar. Na verdade, nenhum dos deuses notou, at que uma voz atrs
de mim disse, "Voc  um fantasma?"
Eu me virei e vi um menino bonito, com aproximadamente dezesseis anos, vestindo
tnicas pretas. Sua pele era plida, mas ele tinha lindos olhos castanhos como o homem
no trono. Seu cabelo preto era longo e desgrenhado -- um pouco selvagem, mas
funcionava pra mim. Ele inclinou a cabea, e finalmente percebi que ele tinha me feito
uma pergunta.
Tentei pensar em algo para falar. Desculpe? Ol? Casa comigo? Qualquer coisa teria
servido. Mas tudo que consegui fazer foi balanar a cabea.
"No  um fantasma, hein?" ele meditou. "Um ba ento?" Ele gesticulou para o trono.
"Assista, mas no interfira."
De alguma forma eu no estava interessada em assistir o trono tanto assim, mas o
menino de preto se dissolveu em uma sombra e desapareceu, no me deixando nenhuma
distrao.
"sis," disse o homem no trono.
A mulher grvida se virou para ele e sorriu. "Meu lorde Osris. Feliz aniversrio."
"Obrigado, meu amor. E em breve vamos marcar o nascimento do nosso filho -- Hrus,
o grande! Sua nova encarnao ser sua maior at ento. Ele trar paz e prosperidade
para o mundo."
sis pegou a mo do marido. Msica continuou tocando ao redor deles, deuses
celebrando, o prprio ar girando numa dana de criao.
Repentinamente os portes do palcio abriram com estrondo. Um vento quente fez as
tochas crepitarem.
Um homem entrou na sala. Ele era alto e forte, quase um gmeo de Osris, mas com a
pele vermelha escura, vestes cor de sangue, e uma barba pontiaguda. Ele parecia
humano, exceto quando sorria. Ento seus dentes se transformavam em presas. Sua face
tremeluzia -- s vezes humano, s vezes estranhamente como um lobo. Eu tive que
abafar um grito, pois eu j tinha visto aquela cara de lobo antes.
A dana parou. A msica morreu.
Osris levantou de seu trono. "Set," ele disse num tom perigoso. "Por que voc veio?"
Set riu, e a tenso na sala se esvaiu. Apesar dos olhos cruis, ele tinha uma risada
maravilhosa -- nada como o guincho que ele produzira no Museu Britnico. Era
despreocupada e amigvel, como se ele no pudesse fazer nenhum mal.
"Eu vim para celebrar o aniversrio do meu irmo,  claro!" ele exclamou. "E eu trago
entretenimento!"
Ele gesticulou para trs dele. Quatro grandalhes com cabea de lobo marcharam para
dentro da sala, carregando um caixo de ouro incrustado com pedras preciosas.
Meu corao comeou a acelerar. Era a mesma caixa que Set usou para aprisionar meu
pai no Museu Britnico.
No! Eu quis gritar. No confie nele!
Mas os deuses reunidos deliraram, admirando a caixa, que fora pintada com hierglifos
dourados e vermelhos, enfeitada com opalas e jade. Os homens-lobo desceram a caixa, e
vi que ela no tinha tampa. O interior era forrado com linho preto.
"Esse caixo de dormir," Set anunciou, "foi feito pelos meus melhores artesos, usando
os materiais mais caros. Seu valor  incalculvel. O deus que dormir nele, mesmo que
por uma noite, ver seus poderes aumentarem dez vezes! Sua sabedoria nunca hesitar.
Sua fora nunca falhar.  um presente" -- ele sorriu maliciosamente para Osris --
"para o nico deus que se encaixe dentro perfeitamente!"
Eu no teria entrado na fila primeiro, mas os deuses se lanaram para frente. Eles se
empurraram para ver o caixo dourado. Alguns subiram, mas eram muito pequenos.
Outros eram demasiado grandes. Mesmo quando eles tentaram mudar suas formas, os
deuses no tiveram sorte, como se a magia da caixa os estivesse impedindo. Nenhum se
encaixou perfeitamente. Deuses resmungaram e se queixaram enquanto outros, ansiosos
para experimentar, empurraram-nos para o cho.
Set se virou para Osris com uma risada natural. "Bem, irmo, no temos um vencedor
ainda. Voc vai tentar? Somente o melhor dos deuses ter xito."
Os olhos de Osris brilharam. Aparentemente, ele no era o deus dos crebros, porque
ele parecia completamente tomado pela beleza da caixa. Todos os outros deuses
olharam para ele com expectativa, e eu pude ver o que ele estava pensando: se ele se
encaixasse na caixa, que brilhante presente de aniversrio! Mesmo Set, o seu irmo
maligno, teria que admitir que ele era o legtimo rei dos deuses.
Apenas sis parecia incomodada. Ela colocou sua mo no ombro do marido. "Meu
lorde, no. Set no traz presentes."
"Estou ofendido!" Set pareceu genuinamente ferido. "Eu no posso celebrar o
aniversrio do meu irmo? Ser que estamos to afastados que eu no posso sequer me
desculpar com o rei?"
Osris sorriu para sis. "Minha querida,  s uma brincadeira. No tenha medo."
Ele levantou do seu trono. Os deuses aplaudiram quando ele se aproximou do caixo.
"Todos salvem Osris!" Set exclamou.
O rei dos deuses se abaixou no caixo, e quando ele olhou para mim, por um momento,
ele tinha o rosto do meu pai.
No! Eu pensei novamente. No faa isso!
Mas Osris se deitou. Ele cabia exatamente.
Vivas vieram dos deuses, mas antes que Osris pudesse se levantar, Set bateu palmas.
Uma tampa dourada se materializou acima da caixa e bateu nela com fora.
Osris gritou de raiva, mas seus berros foram abafados.
Trincos dourados se fixaram ao redor da tampa. Os deuses se lanaram  frente para
intervir -- at mesmo o menino de preto que eu tinha visto mais cedo reapareceu --
mas Set foi mais rpido. Ele bateu o p to forte, que o cho de pedra tremeu. Os deuses
caram uns sobre os outros como domins. Os homens-lobo sacaram suas lanas, e os
deuses se atropelaram fugindo aterrorizados.
Set disse uma palavra mgica, e um caldeiro fervente apareceu no ar rarefeito. Ele
virou seu contedo sobre o caixo -- chumbo fundido, cobrindo a caixa, lacrando-a,
provavelmente aquecendo o interior a mil graus.
"Seu desprezvel!" sis gemeu. Ela avanou em Set e comeou a falar um feitio, mas
Set levantou sua mo. sis se ergueu do cho, arranhando sua boca, seus lbios
pressionados como se uma fora invisvel a estivesse sufocando.
"No hoje, adorvel sis," Set ronronou. "Hoje, eu sou rei. E sua criana nunca
nascer!"
Repentinamente, outra deusa -- uma mulher esbelta num vestido azul -- investiu da
multido. "Marido, no!"
Ela se atracou com Set, que momentaneamente perdeu a concentrao. sis caiu no
cho, ofegando. A outra deusa gritou, "Fuja!"
sis se virou e correu.
Set se levantou. Achei que ele ia golpear a deusa de azul, mas ele s rosnou. "Esposa
insensata! De que lado voc est?"
Ele bateu o p novamente, e o caixo dourado afundou no cho.
Set correu atrs de sis. No fim do palcio, sis se transformou num pequeno pssaro e
disparou no ar. Set fez crescer asas de demnio e se lanou  perseguio.
Ento, de repente eu era o pssaro. Eu era sis, voando desesperada ao longo do Nilo.
Eu podia sentir Set atrs de mim -- mais perto. Mais perto.
Voc precisa escapar, a voz de sis disse na minha mente. Vingue Osris. Coroe Hrus
rei!
Bem quando pensei que meu corao ia explodir, senti uma mo no meu ombro.
As imagens evaporaram. O velho mestre, Iskandar, estava em p ao meu lado, sua face
comprimida com preocupao. Hierglifos brilhantes rodopiavam ao seu redor.
"Perdoe a interrupo," ele disse num ingls perfeito. "Mas voc estava quase morta."
Foi a que meus joelhos viraram gua, e eu perdi a conscincia.
Quando acordei, eu estava enrolada aos ps de Iskandar sobre os degraus abaixo do
trono vazio. Estvamos sozinhos no corredor, que estava quase escuro, exceto pela luz
dos hierglifos que sempre pareciam brilhar ao redor dele.
"Bem-vinda de volta," ele disse. "Voc tem sorte por ter sobrevivido."
Eu no tinha certeza. Minha cabea parecia ter sido fervida em leo.
"Me desculpe," falei. "Eu no queria --"
"Ver as imagens? E mesmo assim voc o fez. Seu ba deixou o seu corpo e foi para o
passado. Voc no foi alertada?"
"Sim," admiti. "Mas... eu fui atrada pelas imagens."
"Mmm." Iskandar olhou para o espao, como se estivesse lembrando algo de muito
tempo atrs. "Elas so difceis de resistir."
"Voc fala um ingls perfeito," notei.
Iskandar sorriu. "Como voc sabe que estou falando ingls? Talvez voc esteja falando
grego."
Eu esperava que ele estivesse brincando, mas eu no podia dizer. Ele parecia to frgil e
caloroso, e mesmo assim... era como sentar ao lado de um reator nuclear. Eu tinha a
sensao que ele mais perigoso do que eu queria saber.
"Voc no  realmente to velho, ?" perguntei. "Quero dizer, velho o suficiente para
lembrar dos tempos de Ptolomeu?"
"Eu sou exatamente velho assim, minha querida. Eu nasci no reino de Clepatra VII."
"Oh, por favor."
"Eu lhe asseguro,  verdade. Foi minha tristeza testemunhar os ltimos dias do Egito,
antes daquela imprudente rainha perder seu reino para os romanos. Eu fui o ltimo
mgico a ser treinado antes da Casa vir para o subterrneo. Vrios dos nossos mais
poderosos segredos foram perdidos, incluindo os encantos que meu mestre usava para
estender minha vida. Os mgicos de hoje ainda vivem muito -- s vezes sculos -- mas
eu estou vivo h dois milnios."
"Ento voc  imortal?"
Sua risada se transformou numa tosse seca. Ele se dobrou e colocou suas mos em
concha sobre sua boca. Quis ajudar, mas no sabia como. Os hierglifos brilhantes
tremeluziram e obscureceram ao redor dele.
Finalmente a tosse parou.
Ele respirou tremulamente. "Dificilmente imortal, minha querida. Na verdade..." A sua
voz morreu. "Mas no se preocupe. O que voc viu na sua viso?"
Eu provavelmente deveria ter ficado quieta. Eu no queria ser transformada num inseto
por quebrar qualquer regra, e a viso tinha me aterrorizado -- especialmente quando me
transformei no pequeno pssaro. Mas a expresso gentil de Iskandar tornou difcil no
falar. Acabei contando tudo. Bem, quase tudo. Deixei de fora a parte sobre o garoto
bonito, e sim, eu sei que foi bobo, mas eu estava embaraada. Conclui que aquela parte
podia ter sido minha imaginao maluca funcionando, como se antigos deuses egpcios
no pudessem ter sido to lindos.
Iskandar sentou por um momento, batendo levemente seu cajado contra os degraus.
"Voc viu um evento muito antigo, Sadie -- Set tomando o trono do Egito pela fora.
Ele escondeu o caixo de Osris, voc sabe, e sis procurou pelo mundo todo para ach-
lo."
"Ento no fim ela o encontrou?"
"No exatamente. Osris foi ressuscitado -- mas s no Mundo Inferior. Ele se tornou o
rei dos mortos. Quando o filho deles, Hrus, cresceu, Hrus desafiou Set pelo trono do
Egito e ganhou depois de vrias batalhas rduas.  por isso que Hrus  chamado de
Vingador. Como eu disse -- uma histria antiga, mas que os deuses tm repetido muitas
vezes em nossa histria."
"Repetido?"
"Os deuses seguem padres. Em alguns aspectos eles so bastante previsveis: atuando
nas mesmas disputas, a mesma inveja atravs das eras. S as circunstncias mudam, e
os hospedeiros."
L estava aquela palavra de novo: hospedeiros. Eu pensei sobre a pobre mulher no
Museu de Nova York que se transformara na deusa Serqet.
"Na minha viso," falei, "sis e Osris eram casados. Hrus estava para nascer como o
filho deles. Mas em outra histria que Carter me contou, os trs eram irmos, filhos da
deusa do cu."
"Sim," Iskandar concordou. "Isso pode ser confuso para aqueles que no conhecem a
natureza dos deuses. Eles no podem andar pela terra na sua forma pura -- pelo menos,
no por mais que alguns momentos. Eles precisam ter hospedeiros."
"Humanos, voc quer dizer."
"Ou objetos poderosos, como esttuas, amuletos, monumentos, certos modelos de carro.
Mas eles preferem a forma humana. Veja, os deuses tm grande poder, mas s os
humanos tm criatividade, o poder de mudar a histria em vez de simplesmente repeti-
la. Humanos podem... como vocs modernos dizem... pensar fora da xcara."
"Da caixa," sugeri.
"Sim. A combinao da criatividade humana e do poder dos deuses pode ser
formidvel. De qualquer maneira, quando Osris e sis andaram pela terra pela primeira
vez, seus hospedeiros eram irmo e irm. Mas hospedeiros mortais no so
permanentes. Eles morrem, eles se esgotam. Posteriormente, Osris e sis tomaram
novas formas -- humanos que eram marido e mulher. Hrus, que em uma vida anterior
era irmo deles, nasceu em uma nova vida como filho deles."
" confuso," eu disse. "E um pouco nojento."
Iskandar encolheu os ombros. "Os deuses no pensam em relacionamentos do jeito que
ns humanos fazemos. Seus hospedeiros so meramente como uma mudana de roupa.
 por isso que as histrias antigas parecem ser to confusas. s vezes os deuses so
descritos como casados, ou irmos, ou pai e filho, dependendo dos seus hospedeiros. O
prprio fara era chamado de deus vivo, sabe. Egiptlogos acreditam que isso era s
propaganda, mas na verdade era frequentemente verdade. Os maiores faras se
tornavam hospedeiros para deuses, geralmente Hrus. Ele lhes dava poder e sabedoria, e
os deixava construir o Egito como poderoso imprio."
"Mas isso  bom, no ? Por que  contra a lei hospedar um deus?"
A face de Iskandar obscureceu. "Deuses tm agendas diferentes dos humanos, Sadie.
Eles podem dominar seus hospedeiros, literalmente queim-los.  por isso que tantos
hospedeiros morrem jovens. Tutancmon, pobre garoto, morreu com dezenove anos.
Clepatra VII foi ainda pior. Ele tentou hospedar o esprito de sis sem saber o que
estava fazendo, e isso despedaou sua mente. Nos dias antigos, a Casa da Vida ensinou
o uso da magia divina. Iniciantes podiam estudar o caminho de Hrus, ou sis, ou
Sekhmet, ou qualquer nmero de deuses, aprendendo a canalizar seus poderes. Ns
tnhamos muito mais iniciantes naquela poca."
Iskandar olhou em volta para o corredor vazio, como se o imaginando cheio de magos.
"Alguns adeptos podiam convocar os deuses apenas de tempos em tempos. Outros
tentavam hospedar seus espritos... com graus variados de sucesso. O objetivo final era
tornar-se o `olho' do deus -- uma unio perfeita de duas almas, mortal e imortal. Muito
poucos conseguiram isso, mesmo entre os faras, que nasceram para a misso. Muitos
se destruram tentando." Ele virou sua palma para cima, a qual tinha a linha da vida
mais profundamente gravada que eu j vira. "Quando o Egito finalmente foi derrotado
pelos romanos, tornou-se claro para ns -- para mim -- que a humanidade, os nossos
governantes, mesmo os mais fortes magos, j no tinham a fora de vontade para
dominar o poder de um deus. Os nicos que podiam..." Sua voz vacilou.
"O qu?"
"Nada, minha querida. Eu falo demais. A fraqueza de um homem velho."
" o sangue dos faras, no ?"
Ele me olhou fixamente. Seus olhos j no pareciam leitosos. Eles queimavam com
intensidade. "Voc  uma jovem garota notvel. Voc me lembra sua me."
Meu queixo caiu. "Voc a conheceu?"
" claro. Ela treinou aqui, assim como seu pai. Sua me... bem, alm de ser uma
cientista brilhante, ela tinha o dom da adivinhao. Uma das mais difceis formas de
magia, e ela foi a primeira em sculos a possuir isso."
"Adivinhao?"
"Ver o futuro. Trabalho complicado, nunca perfeito, mas ela viu coisas que a fizeram
procurar o conselho de... lugares no convencionais, coisas que fizeram at este velho
homem questionar algumas crenas antigas..."
Ele viajou para Memorialndia novamente, o que j era bastante irritante quando meus
avs faziam, mas quando  um mgico todo-poderoso que tem informaes valiosas,  o
suficiente para deixar qualquer um louco.
"Iskandar?"
Ele olhou para mim levemente surpreso, como se tivesse esquecido que eu estava ali.
"Desculpe-me, Sadie. Eu deveria ter ido logo ao ponto: voc tem um caminho difcil
pela frente, mas estou convencido agora que  um caminho que voc deve trilhar, pelo
bem de todos ns. Seu irmo precisar da sua orientao."
Eu estava tentada a rir. "Carter, precisar da minha orientao? Para qu? Que caminho
voc quer dizer?"
"Tudo a seu tempo. As coisas devem seguir o seu curso."
Tpica resposta de adultos. Tentei engolir a minha frustrao. "E se eu precisar de
orientao?"
"Zia," ele disse, sem hesitao. "Ela  minha melhor pupila, e  sbia. Quando chegar a
hora, ela saber como ajudar voc."
"Certo," eu disse um pouco desapontada. "Zia."
"Por agora voc deveria descansar, minha querida. E parece que eu, tambm, posso
descansar finalmente." Ele parecia triste, mas aliviado. Eu no sabia do que ele estava
falando, mas ele no me deu a chance de perguntar.
"Lamento que nosso tempo juntos tenha sido to breve," ele disse. "Durma bem, Sadie
Kane."
"Mas --"
Iskandar tocou minha testa. E eu cai num sono profundo, sem sonhos.
                                     DEZESSEIS

             COMO ZIA PERDEU SUAS SOMBRANCELHAS

EU ACORDEI COM UM BALDE DE GUA FRIA NA CARA.
"Sadie! Levante-se," Zia disse.
"Deus!" gritei. "Isso foi necessrio?"
"No," Zia admitiu.
Eu queria estrangul-la, exceto que eu estava muito molhada, tremendo, e ainda
desorientada. Por quanto tempo eu dormi? Parecia que foram apenas alguns minutos,
mas o dormitrio estava vazio. Todos os outros beliches estavam feitos. As garotas j
deviam ter ido para as lies matutinas.
Zia me jogou uma toalha e roupas secas de linho. "Vamos encontrar Carter na sala de
limpeza."
"Eu acabei de tomar banho, muito obrigada. O que eu preciso  de um caf da manh
decente."
"A limpeza te prepara para a magia." Zia jogou seu saco de truques sobre o ombro e
desdobrou o longo cajado preto que usara em Nova York. "Se voc sobreviver, ns
veremos sobre a comida."
Eu estava cansada de ser lembrada que eu talvez pudesse morrer, mas me vesti e a
segui. Aps mais uma srie sem fim de tneis, ns chegamos a uma cmera com uma
barulhenta cachoeira. No havia teto, apenas um vo que parecia subir para sempre.
gua caia da escurido para uma fonte, espalhando sobre uma esttua de cinco metros
de um deus com uma cabea de pssaro. Qual era o nome dele? Tooth? No, Thoth. A
gua cascateava sobre sua cabea, acumulando em suas palmas, ento se espalhava para
a piscina.
Carter estava parado ao lado da fonte. Ele estava vestido com roupas de linho, com a
bolsa de ferramentas do papai sobre um ombro e com sua espada amarrada nas costas.
Seu cabelo estava despenteado, como se ele no tivesse dormido bem. Pelo menos ele
no recebeu um balde de gua fria. Vendo-o, tive uma estranha sensao de alvio.
Pensei nas palavras de Iskandar na noite passada: Seu irmo precisar da sua orientao.
"Que foi?" Carter perguntou. "Voc est me encarando de um jeito engraado."
"Nada," respondi rapidamente. "Como voc dormiu?"
"Mal. Eu... eu te conto mais tarde."
Era minha imaginao, ou ele estava olhando na direo da Zia? Hmm, possvel
problema romntico entre Sta. Magia e meu irmo? Fiz uma anotao mental para
interrog-lo na prxima vez que estivssemos sozinhos.
Zia foi para um armrio prximo. Ela trouxe duas canecas de cermica, mergulhou-as
na fonte, depois as ofereceu para ns. "Bebam."
Eu olhei para Carter. "Depois de voc."
" apenas gua," Zia me garantiu, "mas purificada pelo contato com Thoth. Isso
aguar suas mentes."
Eu no via como uma esttua podia purificar gua. Depois me lembrei do que Iskandar
dissera, como deuses conseguiam habitar qualquer coisa.
Tomei um gole. Imediatamente senti como se tivesse tomado uma forte caneca do ch
da vov. Meu crebro zunia. Minha viso ficou mais afiada. Eu me senti to hiperativa,
que quase no senti falta da minha goma de mascar -- quase.
Carter bebericou sua caneca. "Nossa."
"Agora as tatuagens," Zia anunciou.
"Brilhante!" eu disse.
"Na sua lngua," ela acrescentou.
"Perdo?"
Zia mostrou sua lngua. Bem no meio havia um hierglifo azul.
"Nith ith Naat." Ela tentou dizer com a lngua pra fora. Ento ela percebeu seu erro e
ps a lngua pra dentro. "Quero dizer, isso  Ma'at, o smbolo da ordem e harmonia.
Isso ajudar vocs a falar mgica corretamente. Um erro com um feitio --"
"Deixe-me adivinhar," falei. "A gente morre."
Do seu armrio de horrores, Zia produziu um pincel de bico fino e uma tigela com
corante azul. "Isso no machuca. E no  permanente."
"Qual  o gosto disso?" Carter quis saber.
Zia sorriu. "Estique sua lngua."
Para responder a pergunta de Carter, a tatuagem tinha gosto de pneus de carro
queimados.
"Ugh." Cuspi um bocado de `ordem e harmonia' azul dentro da fonte. "Esquece o caf
da manh. Perdi meu apetite."
Zia puxou um saquinho de couro de dentro do armrio. "Carter ter permisso para
manter os utenslios mgicos de seu pai, mais um novo cajado e uma varinha.
Resumindo, a varinha  para defesa, o cajado  para ataque, contudo, Carter, voc talvez
prefira usar seu khopesh."
"Khopesh?"
"A espada curva," Zia disse. "A arma preferida da guarda do fara. Pode ser usada em
combate mgico. Quanto a Sadie, voc precisar de um kit completo."
"Por que ele ficou com o kit do papai?" reclamei.
"Ele  o mais velho," ela disse, como se isso explicasse tudo. Tpico.
Zia jogou uma bolsa de couro. Dentro havia uma varinha de marfim, uma vara que
supus viraria um cajado, alguns papis, tinta, um pouco de corda e um adorvel pedao
de cera. Eu estava super animada.
"Que tal um pequeno homem de cera?" perguntei. "Eu quero um Massinha."
"Se voc quer dizer uma estatueta, voc mesma deve fazer uma. Voc ser ensinada
como, se tiver habilidade. Determinaremos sua especialidade depois."
"Especialidade?" Carter perguntou. "Voc quer dizer como Nectanebo especializado em
esttuas?"
Zia assentiu. "Nectanebo era extremamente habilidoso em magia do estaturio. Ele
podia fazer um shabti natural, que eles poderiam passar por humanos. Ningum nunca
foi melhor em estaturio... exceto talvez Iskandar. Mas existem muitas outras
disciplinas: curandeiro, fazedor de amuletos, encantador de animais, elementalista,
combate mgico. Necromante."
"Adivinhado?" perguntei.
Zia me olhou com curiosidade. "Sim, mas  bem raro. Por que voc --"
Pigarreei. "Ento como sabemos nossa especialidade?"
"Ficar claro em breve," Zia prometeu, "mas um bom mgico conhece um pouco de
tudo, que  o porqu de comearmos com um teste bsico. Vamos para biblioteca."
A livraria do Primeiro Nome era como a de Amos, mas cem vezes maior, com quartos
circulares forrados com prateleiras em forma de favos de mel que pareciam no ter fim,
como a maior colmia do mundo. As esttuas shabtis de argila pipocavam entrando e
saindo, retirando caixas com pergaminhos e desaparecendo, mas no vimos outras
pessoas.
Zia nos levou a uma mesa de madeira e desenrolou um longo rolo de papiro em branco.
Ela pegou uma pena e a mergulhou na tinta.
"A palavra egpcia shesh quer dizer escriba ou escritor, porm pode tambm significar
mgico. Isso porque magia, na sua forma mais bsica, transforma palavras em realidade.
Vocs criaro um pergaminho. Usando sua prpria magia, vocs enviaro poder para as
palavras no papel. Quando ditas, as palavras iro liberar a magia."
Ela passou a pena a Carter.
"Eu no entendi," ele protestou.
"Uma simples palavra," ela sugeriu. "Pode ser qualquer coisa."
"Em ingls?"
Zia curvou seus lbios. "Se voc precisa. Qualquer lngua funciona, mas hierglifos so
melhores. Eles so a lngua da criao, da magia, do Ma'at. Entretanto, voc deve ser
cuidadoso."
Antes que ela pudesse explicar, Carter desenhou um simples hierglifo de um pssaro.
A figura se moveu, saiu do papiro e voou para longe. Respingou na cabea de Carter
com alguns pingos de hierglifos em seu caminho para fora. No consegui evitar rir da
expresso de Carter.
"Um erro de principiante," Zia disse, fechando a cara pra mim para que eu ficasse
quieta. "Se voc usa um smbolo que quer dizer alguma coisa viva, seria melhor
escrever apenas parcialmente -- deixe de fora uma asa, ou as pernas. De outra forma a
mgica que voc canalizar pode torn-lo um ser vivo.
"E fazer coc no seu criador." Carter suspirou, esfregando seu cabelo com um pedao
de papiro. " por isso que a esttua de cera do nosso pai, Massinha, no tinha pernas,
certo?"
"O mesmo princpio," Zia concordou. "Agora, tente de novo."
Carter encarou o cajado de Zia, que estava coberto de hierglifos. Ele pegou o mais
obvio e copiou no papiro -- o smbolo do fogo.
Uh-oh, pensei. Mas a palavra no ganhou vida, o que seria bem excitante. Ela
simplesmente se dissolveu.
"Continue tentando," Zia insistiu.
"Por que estou to cansado?" Carter quis saber.
Ele realmente parecia exausto. Sua face estava coberta de suor.
"Voc est canalizando mgica do seu interior," Zia falou. "Para mim, fogo  fcil. Mas
talvez no seja a magia mais natural para voc. Tente outra coisa. Convoque... convoque
uma espada."
Zia mostrou a ele como formar o hierglifo, e Carter escreveu no papiro. Nada
aconteceu.
"Fale," Zia disse.
"Espada," Carter falou. A palavra brilhou e desapareceu, e uma faca de manteiga
apareceu sobre o papiro.
Eu ri. "Assustador!"
Carter parecia que ia desmaiar, mas ele conseguiu sorrir. Ele pegou a faca e ameaou
me espetar com ela.
"Muito bom para uma primeira vez," Zia disse. "Lembre-se, voc no est criando a
faca. Voc a est convocando do Ma'at -- a fora criadora do universo. Hierglifos so
o cdigo que usamos. Por isso so chamados Palavras Divinas. Quanto mais poderoso o
mago, mais fcil fica controlar a lngua."
Eu prendi minha respirao. "Esses hierglifos estavam flutuando no Hall das Eras.
Eles pareciam se agrupar em volta de Iskandar. Ele os estava invocando?"
"No exatamente," Zia disse. "Sua presena  to forte, que ele faz a lngua do universo
ficar visvel simplesmente por estar no aposento. No importa nossa especialidade, a
maior esperana de cada mgico  se tornar um orador das Palavras Divinas -- saber a
lngua da criao to bem que podemos moldar a realidade simplesmente falando, sem
sequer usar um pergaminho."
"Como dizer shatter," eu me aventurei. "E fazer uma porta explodir."
Zia franziu o cenho. "Sim, mas tal coisa levaria anos de prtica."
"Srio? Bem --"
Pelo canto do olho, eu vi Carter balanar a cabea, me avisando silenciosamente para
calar a boca.
"Um..." gaguejei. "Um dia, eu vou aprender como fazer isso."
Zia levantou uma sobrancelha. "Primeiro, domine o pergaminho."
Eu estava ficando cansada da atitude dela, ento pequei a pena e escrevi Fogo em
ingls.
Zia inclinou-se para frente e franziu a testa. "Voc no deveria --"
Antes que ela pudesse terminar, uma coluna de chamas atingiu seu rosto. Eu gritei, certa
que havia feito algo horrvel, mas quando o fogo acabou, Zia ainda estava ali, parecendo
atordoada, suas sobrancelhas estavam chamuscadas e sua franja queimada.
"Oh, Deus," falei. "Desculpa, desculpa. Eu morro agora?"
Por trs batidas de corao, Zia me encarou.
"Agora," ela anunciou. "Eu acho que vocs esto preparados para duelar."
Ns usamos outro portal mgico, o qual Zia convocou bem na entrada da biblioteca.
Pisamos em um crculo de areia em espiral e aparecemos do outro lado, cobertos em
areia e poeira, na frente de algumas runas. A forte luz do sol quase me cegou.
"Odeio portais," Carter murmurou, tirando a areia do cabelo.
Ento ele olhou em volta e seus olhos se arregalaram. "Isto  o Luxor! Isso , como,
centenas de milhas ao sul do Cairo."
Suspirei. "E isso te surpreende depois de ter sido teletransportado de Nova York ?"
Ele estava muito ocupado checando os arredores para responder.
Suponho que as runas eram legais, apesar de, uma vez que voc tenha visto uma pilha
dessas coisas egpcias quebradas, voc j viu todas, na minha opinio. Ns ficamos
numa avenida larga flanqueada por humanos com cabeas de bestas, a maior parte deles
quebrado. A estrada ia atrs da gente at onde eu conseguia enxergar, mas na nossa
frente ela acabava num templo muito maior que o do museu de Nova York.
As paredes tinham pelo menos seis andares de altura. Grandes faras de pedra
guardavam cada lado da entrada, e um nico obelisco se erguia no lado esquerdo.
Parecia que um costumava ficar na direita tambm, mas agora tinha desaparecido.
"Luxor  um nome moderno," Zia disse. "Esta j foi a cidade de Thebes. Este templo
era um dos mais importantes no Egito.  o melhor lugar para ns praticarmos."
"Por que j est todo destrudo?" perguntei.
Zia me deu um de seus famosos olhares fuzilantes. "No, Sadie -- porque est cheio de
magia. E  sagrado para sua famlia."
"Nossa famlia?" Carter perguntou.
Zia no explicou, pra variar. Ela s gesticulou para ns a seguirmos.
"Eu no gosto dessas esfinges feias," murmurei enquanto caminhvamos pelo trajeto.
"Essas feias esfinges so criaturas da justia e da ordem," Zia disse. "Protetores do
Egito. Esto do nosso lado."
"Se voc diz."
Carter me cutucou enquanto passvamos pelo obelisco. "Voc sabe que o faltante est
em Paris."
Eu revirei meus olhos. "Obrigada, senhor Wikipdia. Eu pensei que estavam em Nova
York e em Londres."
"Aquele  um par diferente," Carter disse, como se eu me importasse. "O outro obelisco
de Luxor est em Paris."
"Queria estar em Paris," falei. "Bem melhor do que este lugar."
Ns entramos em um poeirento ptio cercado por pilares em runas e esttuas com
vrias partes do corpo faltando. Ainda assim, eu podia dizer que o lugar j fora bem
impressionante.
"Onde esto as pessoas?" perguntei. "Meio do dia, frias de inverno. No deveria ter um
monte de turistas?"
A expresso de Zia ficou desagradvel. "Normalmente, sim. Eu os encorajei a ficarem
fora por algumas horas"
"Como?"
"Mentes comuns so fceis de manipular." Ela me olhou mordazmente, e eu me lembrei
de como ela me forara a falar no museu de Nova York. Ah sim, ela estava apenas
implorando por mais sobrancelhas chamuscadas.
"Agora, o duelo." Ela convocou seu cajado e desenhou dois crculos na areia com dez
metros entre eles. Ela me dirigiu para um e depois Carter para o outro.
"Eu preciso duelar com ele?" perguntei.
Eu achei a idia ridcula. A nica coisa em que Carter mostrou aptido foi em invocar
facas de manteiga e pssaros. Bem, ok, e aquele episdio na ponte sobre o abismo,
desviando os punhais, mas mesmo assim -- e se eu o machucar? Por mais irritante que
Carter fosse, eu no queria invocar acidentalmente aquele hierglifo que eu fizera na
casa de Amos e explodi-lo em pedacinhos.
Talvez Carter estivesse pensando a mesma coisa, porque ele comeou a suar.
"E se a gente fizer algo errado?" ele perguntou.
"Eu vou supervisionar o duelo," Zia prometeu. "Ns vamos comear devagar. O
primeiro mgico que derrubar o outro para fora de seu crculo ganha."
"Mas ns no fomos treinados!" protestei.
"Se aprende fazendo," Zia disse. "Isto no  a escola, Sadie. Voc no consegue
aprender mgica sentada em uma mesa tomando notas. Voc s consegue aprender
mgica fazendo mgica."
"Mas --"
"Invoque qualquer poder que conseguir," Zia disse. "Use qualquer coisa que tenha
disponvel. Comecem!"
Olhei cautelosamente para Carter. Usar qualquer coisa que eu tenha? Abri o saquinho de
couro e olhei dentro. Um pedao de cera? Provavelmente no. Saquei a varinha e a vara.
Imediatamente a vara expandiu-se at eu estar segurando um cajado branco de dois
metros.
Carter sacou sua espada, mas no consegui imaginar o que ele faria com ela. Seria bem
difcil me atingir a dez metros de distncia.
Eu queria isso acabado, ento levantei meu cajado como eu vira Zia fazendo. Eu pensei
na palavra `fogo'.
Uma pequena chama ganhou vida na ponta do cajado. Eu desejei que ela ficasse maior.
O fogo ficou mais brilhante por um momento, mas ento minha viso ficou turva. A
chama apagou. Cai sobre meus joelhos, sentindo como se tivesse corrido uma maratona.
"Voc est bem?" Carter perguntou.
"No," reclamei.
"Se ela se derrubar sozinha, eu ganho?" ele perguntou.
"Cala a boca!" falei.
"Sadie, voc precisa ser cuidadosa," Zia disse. "Voc usou suas prprias reservas, no a
do cajado. Voc pode esgotar rapidamente sua magia."
Eu fiquei de p tremendo. "E isso quer dizer?"
"Um mgico comea um duelo cheio de magia, do jeito que voc deve ficar cheia aps
uma boa refeio --"
"Que eu no tive," lembrei a ela.
"Cada vez que voc faz mgica," Zia continuou, "voc gasta energia. Voc pode drenar
energia de si mesma, mas precisa conhecer seus limites. De outra forma voc pode ficar
exausta, ou pior."
Engoli em seco, e olhei para o meu cajado fumegante. "Quanto pior?"
"Voc pode literalmente pegar fogo."
Eu hesitei, pensando em como fazer minha prxima pergunta sem falar demais. "Mas eu
j fiz mgica antes. s vezes eu no fico exausta. Por qu?"
Do pescoo, Zia soltou um amuleto. Ela o jogou no ar, e com um flash ele se
transformou em um abutre gigante. O pssaro preto macio disparou por sobre as
runas. Logo que estava fora de vista, Zia estendeu sua mo e o amuleto reapareceu na
sua palma.
"Mgica pode ser retirada de vrias fontes," ela disse. "Pode ser armazenada em
pergaminhos, varinhas ou cajados. Amuletos so especialmente poderosos. Mgica
tambm pode ser invocada diretamente do Ma'at, usando as Palavras Divinas, mas isso
 difcil. Ou" -- ela me olhou nos olhos -- "pode ser convocada dos deuses."
"Por que voc est olhando pra mim?" demandei. "Eu no convoquei nenhum deus.
Eles parecem simplesmente me encontrar!"
Ela recolocou seu amuleto, mas sem dizer nada.
"Espera a," Carter disse. "Voc falou que esse lugar foi sagrado para nossa famlia."
"E foi," Zia concordou.
"Mas aqui no era..." Carter franziu a testa. "Os faras no tinham um festival anual
aqui ou alguma coisa do tipo?"
"Realmente," ela disse. "O fara devia andar pelo caminho processional de Karnak para
Luxor. Ele devia entrar no templo e se tornar um com os deuses. Algumas vezes, isso
era puramente cerimonial. Algumas vezes, com os grandes faras, como Ramesses, aqui
--" Zia apontou para uma das enormes esttuas em runas.
"Eles realmente hospedavam os deuses," interrompi, lembrando-me do que Iskandar
disse.
Zia estreitou seus olhos. "E mesmo assim voc continua dizendo que no sabe nada
sobre o passado de sua famlia."
"Espere um segundo," Carter protestou. "Voc est dizendo que ns estamos
relacionados aos --"
"Os deuses escolhem seu hospedeiros cuidadosamente," Zia disse. "Eles sempre
preferem o sangue dos faras. Quando um mgico tem o sangue de duas famlias
reais..."
Eu troquei um olhar com Carter. Algo que Bast dissera me voltou  mente: "Sua famlia
nasceu para a magia." E Amos nos contara que os dois lados de nossa famlia tinham
uma complicada histria com o deuses, e que Carter e eu ramos as mais poderosas
crianas a nascer em sculos. Um pressentimento ruim se apoderou de mim, como um
cobertor pinicando minha pele.
"Nossos pais so de diferentes famlias reais," falei. "Papai... ele deve descender de
Narmer, o primeiro fara. Eu disse a voc que ele se parecia com aquela figura!"
"Isso no  possvel," Carter disse. "Isso foi a cinco mil anos atrs." Mas eu podia ver
sua mente acelerando. "Ento, os Fausts..." Ele se virou para Zia. "Ramesses, o grande,
construiu este ptio. Voc est me dizendo que a famlia da nossa me descende dele?"
Zia suspirou. "No me diga que seus pais esconderam isso de vocs. Por que voc acha
que vocs so to perigosos para ns?"
"Voc acha que estamos abrigando deuses," falei, completamente surpresa. " com isso
que vocs esto preocupados -- s por causa de algo que nossos tataravs de milnios
atrs fizeram? Isso  uma loucura completa."
"Ento prove!" Zia disse. "Duelem, e mostrem quo fraca sua mgica !"
Ela deu as costas pra ns, como se fssemos completamente sem importncia.
Alguma coisa dentro de mim estalou. Eu tivera os dois piores dias da minha vida. Eu
havia perdido meu pai, meu lar, minha gata, fora atacada por monstros e tive gua
gelada jogada na minha cara. Agora essa bruxa estava dando as costas pra mim. Ela no
queria nos treinar. Ela queria ver quo perigosos ns ramos.
T, tudo bem.
"Hum... Sadie?" Carter chamou. Ele devia ter visto pela minha expresso que eu estava
perdendo a cabea.
Eu me concentrei no cajado. Talvez no fogo. Gatos sempre gostaram de mim. Talvez...
Joguei meu cajado diretamente em Zia. Ele bateu no cho perto de seus calcanhares e
imediatamente se transformou em uma leoa rosnando. Ela girou surpresa, mas tudo deu
errado. A leoa se virou e rugiu para Carter, como se soubesse que eu deveria estar
duelando com ele.
Tive um centsimo de segundo para pensar: O que foi que eu fiz?
Ento a leoa atacou... e a forma de Carter tremulou. Ele se ergueu do cho, cercado por
uma couraa hologrfica dourada como a que Bast tinha usado, exceto que sua imagem
gigante era de um guerreiro com cabea de falco. Carter balanou sua espada, e o
guerreiro falco fez o mesmo, golpeando a leoa com uma lmina de energia cintilante.
A gata se dissolveu em pleno ar, e meu cajado bateu no cho, cortado quase no meio.
O avatar do Carter tremeluziu, e ento desapareceu. Ele voltou para o cho e sorriu.
"Divertido."
Ele nem ao menos parecia cansado. Quando me recuperei do alvio por no t-lo
matado, percebi que tambm no me sentia cansada. Alis, eu tinha mais energia.
Eu me virei desafiadora para Zia. "Ento? Melhor, certo?"
Seu rosto estava plido. "O falco. Ele -- ele convocou --"
Antes que ela pudesse terminar, passos soaram nas pedras. Um jovem iniciante veio
correndo para o ptio, parecendo em pnico. Lgrimas riscavam seu rosto empoeirado.
Ele disse algo a Zia em um rabe apressado. Quando Zia entendeu a mensagem, ela se
deixou cair pesadamente na areia. Ela cobriu seu rosto e comeou a tremer.
Carter e eu deixamos nossos crculos de duelo e corremos at ela.
"Zia?" Carter disse. "O que aconteceu?"
Ela respirou profundamente, tentando retomar sua compostura. Quando ela olhou pra
cima, seus olhos estavam vermelhos. Ela disse algo ao iniciante, que assentiu e correu
de volta pelo caminho que viera.
"Novidades no Primeiro Nome," ela falou tremulamente. "Iskandar..." Sua voz quebrou.
Senti como se um punho gigante tivesse me socado no estmago. Pensei nas palavras
estranhas de Iskandar na noite passada: parece que eu, tambm, poderei descansar. "Ele
est morto, no est? Era isso que ele queria dizer."
Zia me encarou. "O que voc quer dizer com: `Era isso que ele queria dizer'?"
"Eu..." Eu estava para falar que havia conversado com Iskandar na noite passada. Ento
percebi que isso poderia no ser uma boa coisa para se dizer. "Nada. Como isso
aconteceu?"
"Enquanto ele dormia," Zia disse. "Ele -- ele esteve doente por anos, claro. Mas mesmo
assim..."
"Est tudo bem," Carter disse. "Eu sei que ele era importante pra voc."
Ela secou suas lgrimas, em seguida se levantou cambaleando. "Voc no entende.
Desjardins  o prximo na sucesso. Assim que ele for nomeado Chefe Lector, ele ir
ordenar sua execuo."
"Mas ns no fizemos nada!" falei.
Os olhos de Zia brilharam com raiva. "Vocs ainda no perceberam quo perigosos
vocs so? Vocs esto hospedando deuses."
"Ridculo," insisti, mas uma sensao desagradvel estava crescendo dentro de mim. Se
fosse verdade... no, no podia ser! Alm disso, como algum, at mesmo um babaca
como Desjardins, realmente executaria crianas por algo que elas nem sabiam que
estava acontecendo?
 "Ele me ordenar que leve vocs," Zia avisou, "e eu terei que obedecer."
"Voc no pode!" Carter gritou. "Voc viu o que aconteceu no museu. Ns no somos o
problema. Set . E se Desjardins no est levando isso a srio... bem, talvez ele faa
parte do problema tambm."
Zia apertou seu cajado. Eu tinha certeza que ela iria nos fritar com uma bola de fogo,
mas ela hesitou.
"Zia." Decidi arriscar. "Iskandar conversou comigo ontem  noite. Ele me pegou
andando pelo Hall das Eras."
Ela me olhou em choque. Eu percebi que tinha apenas alguns segundos antes daquele
choque se transformar em raiva.
"Ele disse que voc era sua melhor pupila," eu me lembrei. "Ele disse que voc era
sbia. Ele tambm disse que Carter e eu temos um caminho difcil pela frente, e que
voc saberia como nos ajudar quando a hora chegasse."
O cajado dela comeou a fumegar. Seus olhos me lembraram vidro a ponto de
estilhaar.
"Desjardins vai matar a gente," persisti. "Voc acha que era isso o que Iskandar tinha
em mente?"
Eu contei at cinco, seis, sete. Bem quando eu tinha certeza que ela iria nos explodir, ela
abaixou seu cajado.
"Use o obelisco."
"O qu?" perguntei.
"O obelisco na entrada, tola! Vocs tm cinco minutos, talvez menos, antes que
Desjardins envie ordens para sua execuo. Fujam, e destruam Set. Os Dias
Demniacos comeam ao pr-do-sol. Todos os portais vo parar de funcionar. Vocs
precisam chegar o mais perto possvel de Set antes disso acontecer."
"Espera a," falei. "Eu quis dizer que voc deveria vir conosco e nos ajudar! Ns nem
sabemos como usar um obelisco, muito menos destruir Set!"
"Eu no posso trair a Casa," ela disse. "Vocs tm quatro minutos agora. Se no
conseguirem usar o obelisco, vocs morrero."
Isso foi incentivo suficiente pra mim. Eu comecei a arrastar Carter pra fora, mas Zia me
chamou: "Sadie?"
Quando olhei de volta, os olhos de Zia estavam cheios de amargura.
"Desjardins vai ordenar que eu cace vocs," ela avisou. "Voc entendeu?"
Infelizmente, eu entendi. Na prxima vez que nos encontrssemos, seramos inimigos.
Agarrei a mo do Carter e corri.
                                     DEZESSETE

                        UMA VIAGEM RUIM A PARIS
OK, ANTES DE CHEGAR AOS morcegos frutferos demniacos, eu tenho que voltar
um pouco.
Na noite antes de fugirmos do Luxor, eu no consegui dormir muito  primeiro por
causa de uma experincia fora-do-corpo, depois um passeio com Zia. [Pare com esse
sorrisinho afetado, Sadie. No foi um bom passeio.]
Depois das luzes apagarem, eu tentei dormir. Honestamente. Eu at usei aquele estpido
encosto que eles me deram em vez de um travesseiro, mas no ajudou. Logo que eu
consegui fechar meus olhos, meu ba decidiu fazer uma pequena viagem. Exatamente
como antes, eu me senti flutuando sobre meu corpo, tomando uma fora alada. Ento a
corrente do Duat me levou para fora a uma velocidade ofuscante. Quando minha viso
clareou, eu me encontrei numa caverna escura.
Tio Amos estava espionando por l, achando seu caminho com uma luz azul fraca que
tremeluzia no topo de seu cajado. Eu queria cham-lo, mas minha voz no funcionava.
Eu no tenho certeza como ele no poderia no me notar, flutuando pouco acima dele na
forma brilhante de uma galinha, mas aparentemente eu era invisvel pra ele.
Ele caminhou adiante e o piso a seus ps de repente resplandeceu ganhando vida com
um hierglifo vermelho. Amos gritou, mas sua boca congelou metade aberta. Espirais
de luz se enrolaram em volta de suas pernas como vinhas. Logo gavinhas vermelhas se
entrelaaram completamente nele, e Amos ficou petrificado, seus olhos olhando
firmemente para frente sem piscar.
Tentei voar at ele, mas eu estava empacado no lugar, flutuando sem poder ajudar,
ento eu s poderia observar.
Risadas ecoaram atravs da caverna. Um bando de coisas emergiu da escurido 
criaturas repulsivas, animais com cabea de demnios, e at mesmo monstros mais
estranhos meio escondidos nas sombras. Eles estiveram esperando em uma tocaia,
percebi  esperando por Amos. Na frente deles apareceu uma silhueta flamejante  Set,
mas sua forma estava bem mais clara agora, e desta vez no era humana. seu corpo
estava mais emaciado, viscoso, e preto, e sua cabea era a de uma besta selvagem.
"Bon soir, Amos," Set disse. "Que bom que voc veio. Ns vamos nos divertir muito!"
Eu me sentei na cama num salto, de volta ao meu corpo, com meu corao acelerado.
Amos havia sido capturado. Eu tinha certeza disso.E ainda pior... Set soube de algum
modo que Amos estava chegando.Eu voltei a pensar em alguma coisa que Bast
disse,sobre como os serpopards tinha sido derrotados na manso.Ela disse que as
defesas tinha sido sabotadas e a s um mgico da casa poderia ter feito isso.Um horrvel
suspeita comeou a crescer dentro de mim.Eu olhei para a escurido por um longo
tempo,escutando a crianinha junto de mim resmungando feitios em seu sonho.Quando
eu no podia mais ficar l,eu abri a porta comum empurro da minha cabea,caminhei
pela manso de Amos me esgueirando.
Eu estava vagando atravs do mercado vazio,pensando sobre meu Pai e tio
Amos,repassando os eventos de novo e de novo,tentando entender o que eu poderia ter
feito diferente para salva-los,foi quando eu reconheci Zia.
Ela estava passando com pressa atravs do quintal como se ela estivesse sendo
perseguida,mas o que realmente chamou minha ateno foi a nevoa preta brilhante ao
redor dela,como se algum tivesse coberto ela com uma sombra brilhante.Ela vinha de
uma seo de paredes em branco e gesticulando com sua Mao.De repente uma porta
apareceu.Zia olhou nervosamente para trs e entrou.
 claro que eu a segui.
Eu me movi cautelosamente para a porta, Eu podia ouvir a voz de Zia l dentro, mas eu
no conseguia entender o que ela estava dizendo.ento a porta comeou a
solidificar,voltando a ser uma parede e eu numa frao de segundo tomei uma
deciso.Eu pulei para o outro lado.
L dentro ,Zia estava sozinha virada de costas para mim.Ela estava ajoelhada sobre um
altar de pedra,salmodiando alguma coisa debaixo da sua respirao.as paredes estavam
decoradas com antigos desenhos egpcios e fotos modernas.A sombra brilhante depressa
rodopiou Zia,mas alguma coisa mais estranha estava acontecendo.Eu estava planejando
falar com Zia sobre meu pesadelo,mas aquilo ficou completamente fora dos meus
planos quando eu vi o que ela estava fazendo.Ela cupped suas palmas,o modo que voc
possivelmente seguraria um pssaro e uma esfera de um azul brilhante apareceu,do
tamanho de uma bola de golfe.Ainda salmodiando,ela ergueu suas mos.e a esfera voou
,retamente em direo ao teto e desapareceu.
Algum instinto me avisou que supostamente no era para eu ter visto aquilo.
Eu pensei em voltar.s um problema:a porta se fora.sem outras sadas.foi s um
problema antes do tempo Uh-oh.
Talvez eu tenha feito algum barulho.talvez os sentidos mgicos me denunciaram.mas o
mais rpido que eu poderia fazer era reagir,Zia puxou sua varinha e se virou para
mim,chamas salpicaram para as extremidades como um boomerang.
"Oi" eu disse nervosamente
Sua expresso mudou de raiva para surpresa e ento para raiva de novo "Carter,o que
voc est fazendo aqui?"
"S passeando.Eu vi voc no ptio,ento "
"O que voc quer dizer voc me viu?"
"Bem...voc estava correndo e voc tinha essa coisa preta brilhante ao seu redor,e  "
"Voc viu isso?Impossvel."
"Por que?O que  isso?"
Ela colocou sua varinha sobre o fogo e ele cessou. "Eu no gosto de ser seguida,Carter"
"Desculpe.Eu pensei que voc estava com problemas."
Ela comeou a disser alguma coisa,mas aparentemente mudou de idia."Em problema...
isto  verdade o suficiente."
Ela sentou pesadamente e suspirou.Na luz da vela,seus olhos amarelo-mbar pareciam
escuros e tristes.Ela olhou para as fotos atrs do altar,e eu percebi que ela estava em
algumas delas.l estava ela como uma garotinha,aparentemente descala em frente de
uma casa de barro,rancorosa para a cmera como se ela no quisesse sua foto
tirada.Prximo a isso,uma wider foto mostrava uma vila intera no Nilo  o tipo de lugar
que meu pai me falara algumas vezes,onde nada tinha mudado muito nos ltimos
duzentos anos.Uma multido de habitantes do vilarejo sorrindo e acenando para a
cmera como se eles estivessem celebrando e sobre eles a pequena Zia estava montada
nos ombros de um homem que deveria ser seu pai.outra foto estava uma pequena
famlia:Zia segurando as mos de seu pai e sua me.eles deveriam ser alguma fellahin
famlia de algum lugar do Egito,mas seu pai tinha uma bondade particular,olhos
cintilantes  Eu pensei que ele deveria ter um bom senso de humor.O rosto de sua me
estava descoberto e ela sorria como se seu marido tivesse acabado de contar uma piada.
"Seus parentes parecem ser legais" Eu disse "Essa  sua casa?"
Zia parecia como se ela quisesse ficar zangada mas ela manteve suas emoes sobre
controle.ou talvez ela s no tinha a energia suficiente. "Essa era minha casa.A vila no
existe mais."
Eu esperei, no tinha certeza se eu ousaria perguntar.Nos trocamos olhares,eu posso
dizer que ela estava decidindo o quanto deveria me dizer.
"Meu pai era um fazendeiro" Ela disse, "mas ele tambm trabalhou como arquiologista
Em seu tempo livre ele percorria o deserto atrs de artefatos e novas reas onde eles
possivelmente queriam escavar."
Eu assenti.O que Zia descreveu era muito comum.Egpcios faziam trabalho extras como
aquele a sculos.
"Uma noite quando eu tinha oito anos,meu pai encontrou uma estatua", Ela disse.
"Pequena porem muito rara:uma estatua de um monstro,cravada em uma pedra
vermelha.Ela estava com carrapichos em uma fossa com outras estatuas que estavam
todas quebradas.mas de algum modo esta sobreviveu.ele trouxe para casa.Ele no
sabia... ele no percebeu os monstros e espritos mgicos presos de algum jeito dentro
da estatua.Meu pai trouxe a estatua no-quebrada para o vilarejo,e...e acidentalmente
liberou..."
Sua voz falhou.ela olhava para a foto de seu pai sorrindo segurando a sua mo.
"Zia,Eu sinto muito"
Ela juntou suas sobrancelhas."Iskandar me encontrou.ele e outros mgicos destruram o
monstro...mas no h tempo.Eles me encontraram enrolada num buraco de fogo debaixo
de algumas plantas onde minha me tinha me escondido.Eu fui a nica sobrevivente."
Eu tentei imaginar como Zia teria aparentado quando Iskandar encontrou ela  uma
garotinha que tinha perdido tudo,sozinha nas runas de seu vilarejo.Foi duro imagina-l
assim.
"Entao essa sala  um santurio para a sua famlia" Eu deduzi "Voc vem aqui para
lembrar deles."
Zia olhou para mim sem expresso "Esse  o problema,Carter.Eu no consigo
lembrar.Iskandar me contou sobre meu passado.Ele me deu estas fotos,me explicou o
que aconteceu.Mas ... Eu no memorizei isso"
Eu estava prestes a falar "Voce s tinha oito anos" Ento eu percebi que eu tinha a
mesma idade quando minha me morreu,quando Sadie e eu estvamos slipt up.Eu
lembrei de tudo to claramente.Eu podia ainda ver nossa casa em Los Angeles e o jeito
que as estrelas pareciam de noite de trs da nossa varanda contemplando o oceano.meu
pai contava para nos historias sobre as constelaes.ento toda a noite antes de
dormir,sadie e eu ficvamos abraados com nossa me no sof,lutando pela ateno dela
e ela falava para nos no acreditar nas palavras das historias do papai.ela explicava a
cincia por trs das estrela,falava sobre fsica e qumica como se nos fossemos seus
alunos da faculdade.Pensando agora,eu me pergunto se ela estava tentando nos
alertar:No acredite nesses deuses e mitos.Eles so muito perigosos.Eu me lembrei da
nossa ultima viagem pra Londres em famlia,quo nervosos papai e mame pareceram
naquele avio.eu lembrei do nosso pai voltando para o flat de nossos avos depois da
morte de mame,e falando para nos sobre o acidente.At mesmo antes dele explicar,eu
sabia que era ruim,porque eu nunca tinha visto meu pai chorando antes.
Os pequenos detalhes que me fizeram ficar louco  como o cheiro do perfume da
mame,ou o modo que sua voz era.Quanto mais velho eu ficava,mais firmemente eu
segurava essas coisas.eu no conseguia me imaginar lembrando de nada.Como Zia
conseguia?
"Talvez..." Eu vacilei tentando achar as palavras certas. "Talvez voc s "
Ela levantou sua Mao. "Carter acredite em mim.Eu tentei lembrar.mais no tem sido
til.Iskandar  a nica famlia que eu tive"
"E os amigos?"
Zia olhou para mim como seu eu tivesse usado um termo estrangeiro.Eu percebi que
no tinha ningum perto da nossa idade no Primeiro Nome.Todo mundo era muito novo
ou muito velho.
"Eu no tenho tempo para amigos" Ela disse. " Alm disso,quando iniciantes fazem
treze anos,eles so admitidos em outros nomes mundo afora.Eu sou a nica que fica
aqui.eu gosto de ser s. bom".
Os cabelos detrs do meu pescoo se arrepiaram.Eu costumava dizer quase a mesma
coisa,muitas vezes,quando as pessoas perguntavam para mim como foi ser colocado
num internato pelo meu pai. Eu no sentia falta de ter amigos?Eu no queria ter uma
vida normal? "Eu gosto de ser sozinho. bom"
Eu tentei imaginar Zia indo para uma escola publica,aprendendo uma combinao de
problemas de matemtica,passeando pela cantina.Eu no conseguia imaginar isso.Eu
imaginava que ela ficaria to perdida quanto eu fiquei.
"Te digo que" Eu falei. "Depois do teste,depois dos dias com demnios,quando as
coisas se acalmarem-"
"As coisas nunca se acalmam."
"- Eu vou levar voc para o shopping"
Ela piscou "O shopping?por que motivo?"
"para passear"Eu disse. "Nos vamos comer hamburgus.ver um filme."
Zia hesitou "no  isso que vocs chamam de encontro?
Minha expresso deve ter ficado divertido,porque Zia caiu na risada de verdade."Voce
parece uma vaca batida com uma p.
"Eu no quis dizer...Eu s queria dizer..."
Ela gargalhou e de repente ficou mais fcil imagin-la como uma aluna normal no
colgio.
"Eu vou pensar nesse Shopping,Carter," Ela disse. "voc  uma pessoa muito
interessante... ou uma muito perigosa"
"Vamos ficar com o interessante"
Ela balanou sua mo e a porta reapareceu."V,agora.e tome cuidado.da prxima vez
que voc ficar me espiando,possivelmente voc no ter tanta sorte."
Na porta,eu me virei"Zia,o que era aquela coisa preta brilhante?"
Seu sorriso se foi. "Um feitio de invisibilidade.S mgicos poderosos so capazes de
ver atravs dele.voc no deveria ter visto."
Ela olhou para mim esperando por respostas mas eu no tinha nenhuma.
"Talvez estava... mal vestida ou algo assim" eu soltei "E,posso perguntar,a esfera azul?
Ela franziu"O que?"
"A coisa que voc solto para o teto"
Ela olhou confusa "Eu...Eu no sei o que voc esta falando.talvez a luz da vela pregou
uma pea nos seus olhos."
Um silencio embaraoso.Talvez ela estava mentindo para mim,ou eu estava ficando
louco ou... Eu no sei o que.Eu percebi que eu no tinha falado para ela sobre minha
viso do tia Amos e Set mas eu sentei que eu j tinha pressionado ela o mximo que eu
podia por uma noite.
"Ok," Eu disse "Boa noite"
Eu andei meu caminho de volta para o dormitrio mas eu no consegui dormir de novo
por um bom tempo.
Fast-foward to Luxor.Talvez agora voc entenda porque eu no queria l trs ter
deixado Zia e por que eu no acredito que zia teria nos machucado.
Por outro lado,eu sabia que ela no estava mentindo sobre Desjardins.Aquele cara no
pensaria duas vezes e nos transformar em escargots.e o fato que Set falou em Frances no
meu sonho  "Bom soir,Amos"
Foi s uma coincidncia... ou era alguma coisa pior?
De todo jeito,quando Sadie me puxou pelo brao,eu segui.
Nos corremos para fora do templo e passamos pela a obelisk.mas naturalmente,no foi
to simples.nos ramos a famlia Kane.Nada era simples.
Assim que nos pegamos a obelisk,eu escutei um som slish-ing de um portal
mgico.aproximadamente cem jardas caram do caminho,um mgico careca em roupas
brancas caminhou para fora de um redemoinho de areia rodopiando.
"Cuidado" Eu avisei a Sadie.Eu agarrei o basto da minha mochila e arremessei para
ela. "Porque que eu cortei o seu no meio..Eu irei ficar com a espada."
"Mas eu no sei o que fazer com isso!"Ela protestou,procurando pela base da obelisk
com se ela esperasse encontrar um interruptor secreto.
O mgico equilibrou novamente e cuspiu a areia para fora de sua boca.Ento ele spotted
nos. "Stop!"
"Yeah" eu murmurei "isso vai acontecer"
"Paris" Sadie voltou-se para mim "Voce disse que a outra obelisk esta em Paris,certo?"
"Certo.Um,no para apressar voc,mas.."
O mgico ergueu seu basto e comeou a salmodiar.
Eu me atrapalhei com o cabo da minha espada.Minhas pernas estavam como se fossem
virar manteiga.Eu me perguntei se eu poderia fazer a coisa do guerreiro de guia de
novo.Aquilo tinha sido legal,mas aquilo tambm foi s um duelo.e o teste da ponte do
abismo,quando eu desviei aqueles smbolos  aquilo no pareciam comigo.
Da outra vez que eu saquei essa espada,eu no tinha ajudado:Zia ainda estava l,or
Bast.Eu nunca estive completamente s.desta vez,s tinha eu.eu estava louco em pensar
que eu poderia derrotar um mgico full-fledged.Eu no era um guerreiro.tudo que eu
sabia sobre espadas vinha de leituras de livros  a historia de Alexandre o Grande,Os
trs Mosqueteiros  como se isso pudesse ajudar! Com Sadie ocupada na obelisk,eu
estava por conta prpria.
No voc no ,disse uma voz dentro de mim.
timo,eu pensei.eu estou por contra prpria e enlouquecendo.
No final da avenida,o mgico me chamou "Sirva a casa da vida!"
Mas eu tive a impresso que ela no estava falando comigo
O ar entre nos comeou a tremeluzir.ondas de calor escorreram das duas linhas de
esfinges,fazendo eles parecerem com se eles estivessem se mexendo.ento eu percebi
que eles estavam se mexendo.cada um rachou-se no meio,e fantasmas apareceram da
pedra como gafanhotos quebrando suas cascas.nem todos deles estavam em boa
forma.as criaturas espritos das estatuas quebradas sumiram cabeas ou ps.algumas
maaram de trs pernas s.mas no mnimo uma dzia atacaram esfinges que estavam
em perfeito estado,e todos eles vieram em nossa direo  cada uma do tamanho de um
doberman,fazendo fumaa de leite branco e vapor quente.alguns das esfinges vieram
para nossa direo.
"Logo" Eu avisei a Sadie
"Paris!" ela falou,e ergueu seu basto e a varinha. "Eu quero ir para l agora.duas
entradas.primeira classe seria legal!."
As esfinges avanaram.o mais prximo se lanou em direo a mim e com um desvio
sortudo eu me ataquei e fatiei ele no meio.o monstro evaporou em fumaa,mas ele
explodiu num calor to intenso que eu pensei que meu rosto iria imediatamente derreter.
Mais dois fantasmas de esfinge trotaram na minha direo.mais uma dzia estava
apenas a poucos passos de mim.eu podia sentir minha pulsao batendo em meu
pescoo.De repente o cho sacudiu.o cu escureceu,e Sadie gritou "Yeah!"
A obelisk brilhou com uma luz roxa,zunindo com poder.Sadie tocou a pedra e gritou.
Ela estava sendo sugada para dentro e desapareceu.
"Sadie!" Eu gritei.
No meu momento de distrao,duas das esfinges me empurraram,me jogando no
cho.minha espada voou para fora.minha costela foi quebrada!e meu trax estourou em
dor.e o calor vindo das criaturas era insuportvel  era como se fosse ser esmagado por
um forno quente.
Eu estiquei meus dedos em direo a obelisk.apenas uma polegada de distancia.eu podia
ouvir as outras esfinges chegando,o mgico cantou, "Pegue ele! Pegue ele!"
Com minha ultima partcula de resistncia,eu guinei em direo a obelisk,cada nervo do
meu corpo gritando de dor.o topo dos meu =s dedos tocaram a base e o mundo ficou
preto.
De repente eu estava deitado no frio,uma pedra mida.eu estava no meio de uma
enorme praa publica.a chuva estava forte e o ar frio me falou que eu no estava muito
longe do Egito.Sadie estava em algum lugar perto daqui,gritando em alarme.
Mas noticias:Eu trouxe duas esfinges comigo.uma pulou na minha direo e amarrou
sadie atrs de mim.a outra estava ainda no meu peito,ofuscante embaixo de mim,suas
costas vaporizando na chuva,seus olhos de fumaa branca a polegadas da meu rosto.
Eu tentei lembrar a palavra egipicia para fogo.talvez se eu conseguisse fazer o monstro
incandescer.. mas minha mente estava cheia de pnico.eu escutei uma exploso vindo
da minha direita,na direo que Sadie tinha corrido.eu esperei que ela tivesse longe do
caminho,mas eu no tinha certeza.
A esfinge abriu sua boca e formou um dente canino de fumaa que no serviria em um
antigo Rei egpcio.ele estava perto de mastigar minha face quando uma forma escura se
aproximou atrs dele e berrou "coma muffins"
Pedao!
A esfinge se dissolveu em fumaa.
Eu tentei me erguer mais no conseguia.Sadie tropeou perto de mim. "Carter!Oh
cus,voc esta bem?"
Eu pisquei na direo da outra pessoa  a que me salvou:Alta,magra,vestida de
preto,com uma capa de chuva.
O que ela gritou:Coma muffins?que tipo de grito de batalha foi esse?
Ela tirou sua capa de chuva e a mulher na pele de num terno de pele de leopardo sorriu
largamente para mim,mostrando seus caninos e sua lamplike olhos amarelos.
Sentiu minha falta? Perguntou Bast.
                                     DEZOITO

            QUANDO MORCEGOS FRUGVEROS VO MAL

Ns ficamos encolhidos no beiral de um grande prdio governamental branco e
assistimos a chuva torrencial caindo na Place de La Concorde. Era um dia miservel
para estar em Paris. O cu de inverno era pesado e baixo, e frio, o ar mido parecia
penetrar nos meus ossos. No tinham turistas, nenhum trfego a p. Todo mundo que
no era louco estava dentro de casa, perto do fogo e aproveitando uma boa bebida
quente.
A nossa direita, o rio Sena cortava lentamente a cidade. Atravs do enorme Plaza, dos
jardins dos Tulieries estavam envoltos numa nvoa empapada.
O obelisco egpcio levantou lentamente e escuro no meio da avenida. Esperamos muito
para pularmos fora dali, mas nada veio. Eu lembrei o que Zia disse sobre artefatos que
precisavam de 12 horas descansando antes que pudessem ser usados novamente. Desejei
que ela estivesse certa.
"Agente ainda." Bast me disse.
Eu recuei  medida que ela apertava meu trax com sua mo. Ela sussurrou algo em
egpcio, e a dor acalmou lentamente.
"Costela quebrada," ela anunciou. "Melhor agora, mas voc deveria descansar alguns
minutos."
"Sobre os mgicos?"
"Eu no me preocuparia com eles ainda. A Casa assumira que voc se tele transportou
num outro lugar qualquer."
"Por qu?"
"Paris  a quadragsima Nome- quartel-general de Desjardin. Voc seria louco se
tentasse se esconder no territrio que ele domina."
"timo." Eu suspirei.
"E os seus amuletos te protegem," Bast acrescentou. "Eu poderia achar Sadie em
qualquer lugar por causa da minha promessa de proteg-la. Mas os amuletos te
mantero protegidos do olhar de Set e de outros mgicos."
Eu pensei sobre o quarto escuro da First Nome com todas aquelas crianas olhando para
tigelas de leo. Eles nos olhavam agora? Esse pensamento era degradante.
Eu tentei sentar e recuei novamente.
"Fique quieto," Bast ordenou. "Sinceramente, Carter, voc deveria aprender como cair
que nem um gato."
"Vou trabalhar nisso." Eu prometi. "Como ainda est vivo?  aquele negcio de nove
vidas?"
"Oh, isso  apenas uma lenda boba. Eu sou imortal."
"Mas os escorpies!" Sadie chegou mais perto,tremendo e desenhando o casaco de
chuva de Bast sobre os ombros dela. "Ns os vimos subjugando voc!"
Bast fez um som puxado. "Querida Sadie,vocs se importam mesmo! Eu devo dizer que
j trabalhei com muitas crianas de faras,mas vocs dois..." Ela olhou compadecida.
"Bem,sinto muito se os apressei.  verdade que os escorpies reduziram meu poder a
quase nada. Eu os segurei o mximo que pude. Ento eu tive energia suficiente para
reverter para a forma de Muffin e deslizar para Duat."
"Achei que voc no fosse boa com portais." Eu disse.
"Bem,primeiro de tudo,Carter,tem muitos jeitos para entrar e sair de Duat. Tem diversas
regies e sub- regies. O Abyss,o rio da Noite, a Terra dos Mortos,a Terra dos
Demnios..."
"Soa adorvel." Sadie murmurou.
"Enfim, portais so como portas. Eles passam pelo Duat para conectarem uma parte do
mundo mortal com outra. E sim,sou boa neles. Mas sou uma criatura de Duat. Se estou
na minha,dormindo na sub-regio mais prxima isso  relativamente fcil."
"E se eles a tivessem matado?" Eu perguntei. "Quer dizer, matado Muffin?"
"Isso teria me rebaixado para o fundo do Duat. Teriam levado anos, talvez sculos,
antes que eu estivesse forte o suficiente para retornar ao mundo mortal. Felizmente isso
no aconteceu. Eu voltei num caminho longo,mas no tempo em que fui ao museu,os
mgicos j haviam capturado vocs."
"Ns no fomos exatamente capturados." Eu disse.
"Mesmo, Carter? Quanto tempo voc ficou na First Nome antes de decidirem te matar?"
"Hum,eu acho que umas 24 horas."
Bast assoviou. "Eles nem ao menos ficaram mais amigveis. Eles costumavam usar
exploses de Godlings nos primeiros minutos."
"Ns no somos, pera a, do que voc nos chamou?"
Sadie respondeu,soando como se estivesse num transe: " `Godlings' Isso  o que
somos,no somos?  por isso que Zia estava to aterrorizada conosco, o porqu de
Desjardins querer nos matar."
Bast deu um tapinha no joelho de Sadie. "Voc sempre foi brilhante, querida."
"Pera um pouco" Eu disse. "Voc quer dizer hospedeiros para os deuses? Isso 
impossvel. Eu acho que saberia se..."
Ento pensei sobre a voz na minha cabea,me alertando a esconder-me quando
encontrei Iskandar. Eu pensei em todas as coisas eu de repente era capaz de fazer-como
lutar com uma espada e chamar uma armadura de concha. Isso no so coisas que eu
teria aprendido na escola.
"Carter." Sadie disse. " Quando a pedra de Roseta foi desbloqueada,ela liberou cinco
deuses,certo? Papai ficou com Osris.Amos nos contou isso. Set... Eu no sei.Ele saiu de
alguma forma.Mas voc e eu..."
"Os amuletos nos protegeram" Eu segurei o Olho de Hrus envolta do meu pescoo.
"Papai disse que eles iriam."
"Se ns tivssemos ficado na sala,como papai nos mandou," Sadie retomou "Mas ns
estvamos l,vendo. Ns queramos ajud-lo. Ns praticamente pedimos por
poder,Carter."
Bast percebeu. "Isso faz toda a diferena. Um convite."
"E desde ento..." Sadie me olhou tentativamente, quase me pedindo para zoar dela. "Eu
tive esse sentimento. A voz na minha cabea."
Por hora a fria chuva socava as minhas roupas. Se Sadie no tivesse dito algo,talvez eu
pudesse mentir sobre o que estava acontecendo por um tempo maior. Mas pensei no que
Amos disse sobre a minha famlia ter uma longa histria com os deuses. Pensei no que
Zia nos disse sobre nossa linhagem: "Os deuses escolhem seus hospedeiros com
cuidado. Eles sempre preferem o sangue dos faras."
"Okay," Eu admiti. "Eu estive ouvindo uma voz tambm. Ento ou ns dois estamos
ficando malucos..."
"O amuleto." Sadie puxou da sua blusa um colar e segurou para mostrar a Bast. " o
smbolo de uma deusa, no ?"
Eu no tinha vista o amuleto dela por um longo tempo. Era diferente do meu. Eu me
lembrei de um ankh ou talvez algum tipo de gravata chique.




"Isso  um tyet," Bast disse. "Um n mgico. E sim, e normalmente chamado de..."
"O N de Isis," Sadie disse. Eu no entendia como ela poderia saber sobre isso, mas ela
parecia absolutamente certa.
"No Hall das Eras, eu vi a imagem de Isis, e depois eu era Isis, tentando fugir de Set, e...
oh meu Deus.  isso no ? Eu sou ela."
Ela agarrou sua camisa como se mentalmente quisesse puxar a deusa para fora dela.
Tudo que eu podia fazer era encarar. Minha irm, com seu cabelo ruivo vivo, pijamas de
linho e suas botas de combate... como era possvel ela se preocupar por estar possuda
por uma deusa? Que deusa iria querer ela, exceto talvez a deusa da goma de mascar?
Mas tambm... eu estive ouvindo uma voz dentro de mim tambm. Uma voz que
definitivamente na era minha. Eu olhei para meu amuleto, o Olho de Horus. Eu pensei
sobre os mitos que eu conhecia... como Horus, o filho de Osris, tinha vingado seu pai
derrotando Set. E em Luxor eu invoquei um avatar com cabea de falco.
Eu estava com medo de tentar, mas eu pensei: Horus?
Bem, era uma questo de tempo, a outra voz dentro de mim disse. `Ol Carter.'
"Ah no" eu disse em pnico levantando meu trax. "No, no, no. Algum pegue um
abridor de lata. Eu tenho um deus preso na minha cabea.
Os olhos de Bast estreitaram. "Voc se comunicou com Horus diretamente? Isso  um
timo progresso!"
`Fique calmo' Horus disse.
"No me diga para ficar calmo!"
Bast franziu a testa. "Eu no disse."
"Eu estou falando com ele!" Eu apontei para minha testa.
"Isso  horrvel." Sadie choramingou. "Como eu me livro dela?"
Bast fungou. "Primeiro, Sadie, ela no est inteiramente em voc. Deuses so muito
poderosos. Ns podemos existir em vrios em vrios lugares de uma vez. Mas sim,
parte do esprito de Isis agora est em voc. Assim como Carter agora tem parte do
esprito de Horus com ele. E francamente, vocs dois deviam se sentir honrados."
"Certo, muito honrados," Eu disse. "Eu sempre quis ser possudo!"
Bast revirou os olhos. "Por favor, Carter, isso no  possesso. Alis, voc e Horus
querem a mesma coisa... derrotar Set, assim com Horus fez a milnios atrs, quando foi
a primeira vez que Set matou Osris. Se voc no fizer, seu pai  amaldioado e Set vai
ser o rei da terra."
Eu olhei nos olhos de Sadie, mas neles no haviam ajuda. Ela tirou o amuleto do
pescoo e jogou no cho.
"Isis entrou dentro de mim pelo amuleto, no foi? Ento, eu s preciso..."
"Eu realmente no faria isso." Bast avisou.
Mas Sadie pegou sua varinha e esmagou o amuleto. Fascas azuis subiram do
bumerangue de marfim. Sadie ganiu e deixou cair sua varinha, que agora estava
soltando fumaa. Suas mos estavam com marcas de queimaduras pretas. O amuleto
estava bem. "Nossa!" ela disse.
Bast fungou. Ela botou sua mo em Sadie, e as queimaduras sararam.
"Eu lhe avisei. Isis canalizou seu poder pelo amuleto, sim, mas ela no est nele agora.
Ela est em voc. E tm mais, amuletos mgicos so praticamente indestrutveis."
"Ento, o que ns devemos fazer?" Sadie disse.
"Bem para iniciantes," Bast falou, "Carter deveria usar o poder de Hrus para derrotar
Set."
"Oh, isso  tudo?" Eu disse. "Por minha conta?"
"No, no. Sadie pode ajudar."
"Oh, que demais."
"Eu os guiarei o mximo que puder," Bast prometeu, "mas no fim,vocs dois deveram
lutar. Apenas Hrus e sis podem defender Set e impedir a morte de Osris.  assim que
deve ser agora."
"Da teremos nosso pai de volta?" Eu perguntei.
Bast sorriu timidamente. "Se tudo der certo."
Ela no estava nos contando tudo. Nenhuma surpresa. Mas meu crebro estava muito
confuso para descobrir o que estava faltando.
Olhei para as minhas mos. Elas no pareciam nada diferentes- no estavam mais fortes,
no eram de um hospedeiro de deus. "Se eu consegui os poderes de um deus, ento por
que eu estou to..."
"Aleijado?" Sadie sugeriu.
"Cala a boca," Eu disse. "Por que no posso usar melhor meus poderes?"
"Precisa de prtica," Bast disse. "A no ser que voc queira dar todo o seu controle para
Horus. Assim ele poderia usar sua forma, e voc no precisaria se preocupar com nada."
`Eu poderia' a voz disse na minha mente. `Deixe-me lutar com Set. Voc pode confiar
em mim. '
`, tudo bem' eu disse para ele. `Como eu teria certeza de que voc no seria morto e
simplesmente mova para outro hospedeiro? Como eu teria certeza de que voc no est
influenciando meus pensamentos agora?'
`Eu no faria isso' a voz disse. `Eu lhe escolhi por causa de seu potencial, Carter, e
porque nos temos o mesmo objetivo. Lhe dou palavra minha palavra de honra, se voc
me deixar control-lo...
"No" Eu disse.
Eu percebi que falei auto, porque Sadie e Bast estavam me olhando.
"Quero dizer, no o deixarei me controlar." Eu disse. "Essa  a nossa luta. Nosso pai
est preso em um caixo. Nosso tio foi capturado."
"Capturado?" Sadie perguntou. Eu percebi com um choque que eu ainda no a tinha
contado sobre minha ltima pssima viagem. Simplesmente no tive tempo.
Quando eu lhe contei os detalhes. Ela parecia abatida.
"Deus, no."
"" eu concordei. "E Set falou em Frances `Bom soir. ' Sadie, o que voc disse sobre
Set estar se afastando... talvez ele no esteja. E se ele estiver procurando algum
poderoso para se hospedar..."
"Desjardins." Sadie terminou.
Bast limpou sua garganta.
"Desjardins estava em Londres na noite em que seu pai quebrou a Pedra da Roseta, no
estava? Desjardins sempre estava cheio de raiva, de ambio. Em vrios jeitos, ele seria
um hospedeiro perfeito para Set. Se Set conseguiu possuir Desjardins... pelo trono de
R, Carter, eu espero que voc esteja errado. Vocs dois vo precisar aprender
rapidamente como usar os poderes dos deuses. O que seja que Set esteja planejando, ele
far em seu aniversrio, quando  mais poderoso. Esse dia  o terceiro dia dos Dias do
Demnio... trs dias a partir de hoje.
"Mas eu j usei o poder de Isis, no usei?" Sadie perguntou. "Eu invoquei hierglifos.
Eu ativei o obelisco em Luxor. Isso foi ela ou eu?"
"Foram os dois." Bast disse. "Voc e Carter tm grandes habilidades sozinhos, mas o
poder dos deuses acelerou os seus desenvolvimentos, e deram uma reserva extra para
utilizarem. O que levaria anos para aprender, vocs realizaram em dias. Quanto mais
canalizarem os poderes dos deuses, mais fortes vocs sero."
"E mais perigoso fica" eu adivinhei. "os mgicos nos disseram que hospedar deuses
pode fazer voc pegar fogo, te matar, e te deixar louco."
Bast fixou seus olhos em mim. Por um segundo eles eram os olhos de um predador...
velho, poderoso e perigoso.
"No  qualquer um que pode hospedar um deus, Carter. Isso  verdade. Mas vocs dois
tem o sangue de faras. Vocs combinam duas linhas antigas. Isso  muito raro, muito
poderoso. E se vocs acham que podem sobrevirem sem os poderes dos deuses, pensem
de novo. No repitam o que sua me..."
"O que?" Sadie exigiu. "O que voc estava dizendo sobre a nossa me?"
"Eu no deveria ter dito isso."
"Conte-nos, gato!" Sadie disse.
Eu estava com medo de Bast desembainhar suas facas. Ao contrrio, ela se se encostou
 parede e olhou para a chuva.
"Quando seus pais me liberaram da Agulha da Clepatra... tinha muito mais energia do
que eles esperavam. O seu pai falou o atual encantamento, e a exploso teria matado ele
instantaneamente, mas sua me jogou um escudo. Naquele exato segundo, eu ofereci
minha ajuda. Eu ofereci que juntssemos nossos espritos e ajudar a proteg-lo. Mas ela
no aceitou minha ajuda. Ela escolheu usar sua prpria reserva..."
"Sua prpria mgica." Sadie murmurou.
Bast acenou triste.
"Quando um mgico faz um feitio, no a volta. Se ela sobrepujar seu poder... bem, sua
me usou o resto de energia para proteger seu pai. Para salv-lo, ela se sacrificou. Ela
literalmente..."
"Pegou fogo." Eu disse. "Isso foi o que Zia nos avisou."
A chuva continuou a cair. Percebi que eu estava tremendo.
Sadie enxugou uma lgrima de seu rosto. Ela pegou o amuleto e olhou para ela com
raiva.
"Ns precisamos salvar o papai. Se ele realmente tem o esprito de Osris..."
Ela no terminou, mas eu sabia no que ela estava pensando. Eu pensei sobre a mame
quando eu era pequeno, os braos dela sobre os meus ombros enquanto estvamos em
p no deck de trs da nossa casa em L.A. Ela apontou as estrelas para mim: Polares,
Cinturo de rion, Sirius. Depois ela sorriu para mim, e eu me senti mais importante do
que qualquer constelao no cu. Minha me se sacrificou para salvar o papai. Ela usou
muita magia, ela literalmente pegou fogo. Como eu poderia ser corajoso como ela? Sim,
eu tenho que salvar o papai. Seno, me sentia como se o sacrifcio da mame teria sido
em vo. E talvez, ele poderia arrumar as coisas, e at trazer a mame de volta.
`Isso era possvel?' Eu perguntei a Horus, mas sua voz estava silenciosa.
"Tudo bem," eu decidi. "Ento, como detemos Set?"
Bast pensou por um momento, depois sorriu. Eu tinha o pressentimento de qualquer
coisa que ela dissesse, eu no iria gostar.
"Talvez tenha um jeito de se fazer sem dar completamente voc mesmo aos deuses.
Tem um livro feito por Thoth... um dos raros livros de feitio escritos pelo prprio deus
da sabedoria. Aquele que estou pensando em detalhes para derrotar Set.  valorizado
pela possesso de certo mgico. Tudo que precisamos fazer  penetrar na sua fortaleza,
roub-lo, e sair antes do pr-do-sol, e fazer isso enquanto ainda podemos criar um portal
para os Estados Unidos.
"Perfeito." Sadie disse.
"Espera a," eu disse. "Qual mgico? E aonde  a fortaleza?"
Bast me encarou como se eu no tivesse entendido.
"Eu acho que j discutimos sobre ele. Desjardins. A casa dele  bem aqui, em Paris."
Uma vez eu vi a casa de Desjardins, eu o odiei ainda mais. Era uma enorme manso, no
outro lado das Tuleries, na rua Des Pyramides.
"Rua des Pyramides?" Sadie disse. "bvio, no acha?"
"Talvez ele no tenha achado um lugar na Rua do Mgico Estpido e Mau." Eu sugeri.
A casa era espetacular. Os pontos em cima de sua grade de ferro eram dourados. Mesmo
com a chuva de inverno, o jardim da frente estava repleto de flores. Cinco andares de
paredes de mrmore branco e janelas de preto-tapado apareceram diante de ns, tudo
com um jardim no terrao. Eu tinha visto palcios reais menores que este lugar.
Eu apontei para a porta da frente, que estava pintada em um vermelho brilhante.
"O vermelho no  uma cor ruim no Egito? A cor de Set?"
"Eu pensei que preto era a cor ruim." Sadie disse.
"No querida. Como usual, o povo moderno est atrasado. Preto  a cor do deus do solo,
como o solo do Nilo. Voc consegue plantar no solo preto. Comida  bom. Assim, preto
 bom. Vermelho  a cor das areias do deserto. Assim, vermelho no  bom." Ela
franziu a testa. " estranho que Desjardins tenha uma porta vermelha."
"Bem, eu estou excitada," Sadie resmungou. "Vamos bater na porta."
"L ter guardas," Bast disse. "E armadilhas. E alarmes. Voc pode apostar que a casa 
fortemente encantada para manter os deuses de fora."
"Mgicos podem fazer isso?" Eu perguntei. Eu imaginei uma grande lata de pesticida da
marca deuses-fora.
"Alas, sim." Bast disse. "Eu no conseguirei cruzar a cerca sem ser convidado. Vocs,
entretanto..."
"Eu pensei que ramos deuses tambm." Sadie disse.
"Essa  a beleza da coisa." Bast disse. "Como hospedeiros, vocs ainda so um pouco
humanos. Eu possui inteiramente Muffin, ento, eu sou muito eu... uma deusa. Mas
vocs ainda so... vocs mesmo. Est claro?"
"No." Eu disse.
"Eu sugiro que vocs se transformem em pssaros," Bast disse. "Vocs podem voar at
o jardim no terrao e entrarem. E, eu gosto de pssaros."
"Primeiro problema," Eu disse. "Ns no sabemos como virar pssaros."
"Fcil de resolver! E um bom teste de canalizar o poder dos deuses. Ambos Isis e Horus
tm formas de pssaros. Simplesmente imaginem que so pssaros, e pssaros sero."
"Somente isso." Sadie disse. "Voc no vai nos comer?"
Bast pareceu ofendido. "Elimine esse pensamento!"
Eu queria que ela no tivesse usado a palavra `elimine'.
"Tudo bem." Eu disse. "A vai."
Eu pensei: `Voc est a Horus?'
`O qu?' ele disse impacientemente.
`Forma de pssaro, por favor. '
`Ah, entendo. Voc no confia em mim. Mas agora precisa da minha ajuda. '
`Cara, sai dessa. S faa a coisa do falco. '
`Voc se contentaria com uma ema?'
Eu decidi que falar no iria ajudar, ento fechei meus olhos e imaginei que era um
falco. Neste instante, minha pele comeou a queimar. Eu tive problema para respirar.
Eu abri meus olhos e arfei.
Eu era muito, muito pequeno  meus olhos batiam nas pernas de Bast. Eu estava coberto
de penas e meus ps viraram garras, como se fosse minha forma antiga,mas essas eram
reais,rpidas e com sangue correndo nelas. Minhas roupas e minha mochila haviam
sumido,como se elas tivessem derretido em minhas penas. A linha dos meus olhos
tinham mudado completamente,tambm. Eu podia ver tudo numa linha de 180 graus,e
os detalhes eram incrveis. Cada folha de cada rvore balanou para fora. Eu parei uma
barata a 100 jardas de distncia, correndo na sada de um esgoto. Eu pude ver cada poro
na cara de Bast, que agora sorria para mim.
"Melhor atrasado do que nunca chegar." Ela disse. "Tomou-te uns dez minutos."
O que? A mudana pareceu instantnea. Ento olhei para o lado e vi um belo pssaro de
rezar cinza, um pouco menor que eu, com asas pretas e olhos dourados. Eu no estou
certo como, mas sabia que era um papagaio, como asa de pssaro, no do tipo com um
cordo.
O papagaio fez um som puxado... "Ha, ha, ha." Sadie estava rindo de mim.
Eu abri meu prprio bico, mas nenhum som veio dele.
"Vocs dois parecem deliciosos," Bast disse limpando os beios. "No, no... aham eu
quero dizer maravilhosos. Agora vamos l."
Eu espalhei minhas majestosas asas. Eu realmente fiz isso! Eu era um nobre falco,
senhor dos cus. Eu lancei-me para fora da calada e voei na estreita da cerca.
"Ha, ha, ha." Sadie gorjeou atrs de mim.
Bast encolheu-se e comeou a fazer grudo estranho. A bem, ela estava imitando
pssaros. J vi muitos gatos fazerem isso quando esto se preparando para a caada.
Ento meu prprio obiturio passou pela minha cabea: Carter Kane, 14, morreu
tragicamente em Paris quando foi devorado pelo gato de sua irm, Muffin.
Eu espalhei bem minhas asas,quiquei com os meus ps e com trs claps fortes eu alava
vo na chuva. Sadie estava logo atrs de mim. Juntos ns fizemos uma espiral no cu
para cima.
Eu tenho de admitir: eu me senti timo. Desde que eu era criana,eu tenho sonhos em
que eu voava,e eu sempre odiava acordar. Agora no era um sonho, ou mesmo uma
viagem ruim. Era 100 por cento real. Eu naveguei pelas correntes de ar acima de Paris.
Eu pode ver o rio,o Museu do Luvre,os jardins e palcios. E um rato, yumi.
Agente firme,Carter,pensei. No cace o rato. Eu zanzei na manso do
Desjardins,dobrei minhas asas e atirei-me para baixo.
Eu vi o topo do telhado dos jardins,as duas portas de vidro por dentro,e a voz na minha
mente disse: ` No pare. uma iluso. Voc tem de passar pelas barreiras mgicas
deles.'
Eu era louco,pensei. Eu viajava to rpido que eu me chocaria com o vidro e viraria
uma panqueca de falco,mas eu no o fiz,diminui a velocidade. Eu passei pelas portas
como se elas no estivessem l. Ergui minhas asas e pousei sobre a mesa. Sadie
navegou logo atrs de mim.
Ns estvamos sozinhos no meio de uma biblioteca. To longe,to bom.
Eu fechei meus olhos e pensei em voltar a minha forma normal. Quando abri meus
olhos novamente,eu era o velho Carter regular,sentado sobre a mesa vestido nas minhas
roupas habituais,minha mochila no ombro.
Sadie ainda era um gatinho.
"Voc pode voltar ao normal agora." Contei a ela.
Ela inclinou a cabea e me deu olhar intrigante. Ela fez um som frustrado.
Eu dei um sorriso torto. "Voc no consegue, no ? Voc est presa?"
Ela bicou minha mo seu extremamente afiado bico.
"Ei!" eu reclamei. "No  minha culpa. Continue tentando."
Ela fechou seus e amarrotou suas penas at que parecia que ia explodir, mas ela
continuou como um papagaio.
"No se preocupe." Eu disse, tentando manter uma expresso neutra. "Bast vai te ajudar
quando sairmos daqui."
"H, h, h."
"Apenas fique atenta. Eu vou olhar em volta."
O quarto era enorme... mais parecido com uma biblioteca tradicional do que com um
covil de mgico. A moblia era de mogno preto. Toda parede estava coberta com
estantes que vo do cho ao teto. Livros inundavam o cho. Alguns estavam
amontoados em mesas outros enfiados em pequenas prateleiras. Uma grande cadeira
perto da janela parecia o lugar que Sherlock Holmes sentaria fumando um cachimbo.
Cada passo que eu dava, o piso rangia, o que me fez recuar. Eu no conseguia ouvir
ningum na casa, mas eu no queria me arriscar.
Alm das portas de vidro para o telhado, a outra nica sada era uma porta de madeira
slida que estava trancada por dentro. Eu virei a fechadura. Ento eu firmei uma cadeira
embaixo da ala. Eu duvidei que iria manter mgicos fora por muito tempo, mas poderia
me dar alguns segundos, se as coisas correram mal.
Eu procurei nas prateleiras de livros que pareciam ter sculos. Todos tipos diferentes de
livros espremidos juntos... nada alfabetizado, nada enumerado. A maioria dos livros no
estava em ingls. Nenhum estava em hierglifos. Eu estava esperando algo intitulado
em letra de ouro que diziam O Livro de Thoth, mas no tive tanta sorte.
"Como o Livro de Thoth pareceria?" eu quis saber.
Sadie virou sua cabea e me encarou. Eu tinha certeza que ela estava me dizendo para
me apressar.
Eu desejei que houvesse um shabti para buscar coisas, como os da biblioteca de Amos,
mas eu no vi nenhum. Ou talvez...
Eu tirei a mochila do papai do meu ombro. Eu botei sua caixa mgica na mesa e deslizei
a tampa de cima. A pequena figura de cera ainda estava l, bem onde eu o deixei. Eu o
peguei e disse.
"Doughboy, me ajude a achar O Livro de Thoth nessa biblioteca."
Seus olhos de cera abriram imediatamente.
"E por que eu o deveria ajudar?"
"Porque voc no tem escolha."
"Eu odeio esse argumento! Tudo bem... me levante. Eu no consigo ver as prateleiras."
Eu andei com ele pelo quarto. Eu me senti um idiota dando ao boneco de cera um tour,
mas provavelmente no to idiota quanto Sadie se sentia. Ela ainda estava na forma de
pssaro, correndo para frente e para trs na mesa e batendo bico em frustrao enquanto
ela tentava voltar para a forma normal.
"Espera a." Doughboy anunciou. "Esse daqui  velho... bem aqui."
Eu puxei um volume fino amarrado em linho. Era to fino, que eu no teria visto, tinha
certeza, a capa estava escrita hierglifos. Eu o levei a mesa e o abri cuidadosamente. Era
mais como um mapa do que um livro, aberto em quatro partes at que eu estava vendo
um largo e longo rolo de papiro com uma escrita to velha que eu mal conseguia ler os
caracteres.
Eu encarei Sadie. "Eu aposto que voc leria isso para mim se no fosse um pssaro."
Ela tentou me bicar de novo, mas eu desviei minha mo.
"Doughboy," eu disse. "O que tem nesse rolo?"
 "Um feitio perdido no temo!" ele pronunciou. "Palavras antigas de tremendo poder!"
"Bem?" eu exigi. "Ele fala como derrotar Ser?"
"Melhor! O ttulo diz: O Livro para Encantar Morcegos Frugveros!"
Eu encarei ele. "Voc est de brincadeira?"
"Eu brincara sobre isso?"
"Quem iria querer encantar morcegos frugveros?"
"H, h, h." Sadie grasnou.
Eu empurrei o rolo e ns voltamos a busaca.
Depois de um dez minutos, Doughboy exclamou em deleite.
"Oh, olhe! Eu me lembro dessa pintura."
Era uma pintura a leo pequena em uma moldura dourada, em p no final da prateleira.
Devia ser importante, porque era cercada por pequenas cortinas de seda. Uma luz
brilhou sobre retrato da face do homem que parecia prestes a contar uma histria de
fantasmas.
"No  aquele cara que interpreta Wolverine?" Eu perguntei, porque tinha um cabelo
seriamente levantado.
"Voc me enoja!" Doughboy disse. "Esse  Jean-Franois Champollion."
Me levou um segundo, mas eu me lembrei do nome.
"O cara que decifrou os hierglifos da Pedra da Rosetta."
 " claro. O tio-av de Desjardins..."
"Cerca de duzentos anos de idade." Doughboy confirmou. "Ainda jovem. Voc sabia
que quando Champollion decifrou primeiramente os hierglifos, ele cai em como por
cinco dias? Ele se tornou o primeiro homem fora da Casa da Vida a usar magia, e isso
quase o matou. Naturalmente, atraiu a ateno do First Nome. Champollion morreu
antes de poder aproveitar a Casa da Vida, mas Chefe Lector aceitou seus descendentes
para treinarem. Desjardins tem muito orgulho de sua famlia... mas um pouco sensvel
tambm, porque ele  muito recm-chegado."
" por isso que ele no se dava bem com a nossa famlia", eu imaginei. "Ns somos
como ... antiga"
 Doughboy gargalhou. "E seu pai quebrou a pedra de Roseta? Desjardins teria visto isso
como um insulto  honra de sua famlia! Oh, voc deveria ter visto os argumentos de
Mestre Jlio e Desjardins teveram nesta sala. "
" Voc j esteve aqui antes?"
"Muitas vezes! Eu estive em todos os lugares. Eu sou todo-saber. "
Tentei imaginar o pai e Desjardins tendo uma discusso aqui. No foi difcil. Se
Desjardins odiava nossa famlia, e se os deuses tendem a encontrar anfitries, que
partilham as suas metas, ento faz sentido que Set se junte a ele. Ambos queriam o
poder, ambos so ressentidos e zangados, ambos queriam esmagar Sadie e me a uma
polpa. E agora Set controla secretamente o Chefe Lector... Uma gota de suor escorreu
pela lateral do meu rosto. Eu queria sair dessa manso. De repente, houve um som
batendo abaixo de ns, como algum fechar a porta de baixo.
 "Mostre-me onde est o Livro de Thoth," eu pedi Doughboy. "Rpido!"
Enquanto ns nos abaixamos para ver as prateleiras, Doughboy cresceu to quente em
minhas mos, eu tinha medo que ele iria derreter. Continuava falando comentrios sobre
os livros.
"Ah, Domnio dos Cinco Elementos!"
" esse que queremos?" Eu perguntei.
"No, mas  um livro bom. Como domar os cinco elementos essenciais do universo...
terra, ar, gua, fogo e queijo!"
"Queijo?"
Ele arranhou sua cabea de cera.
"Eu tenho certeza que esse  o quinto. Mas continuemos!"
Ns viramos para a prxima prateleira.
"No." Ele anunciou. "No. Chato. Chato. Oh, Clive Cussler! No. No."
Eu estava quase desistindo quando ele disse. "Ali."
Eu congelei. "Aonde... aqui?"
"O livro azul com enfeite dourado," ele disse. "Aquele que tem uma..."
Eu o puxei, e o quarto inteiro comeou a tremer.
"...Armadilha." Doughboy continuou.
Sadie grasnou urgentemente. Eu virei e a vi levantar vo. Alguma coisa pequena e preta
caiu do teto. Sadie colidiu com ele no meio do ar, e a coisa preta desapareceu na sua
garganta.
Antes de eu poder registrar quo perigoso isso era, alarmes soaram l em baixo. Mais
formas pretas caram do teto e pareciam se multiplicar no ar, transformando em uma
nuvem de plos e asas.
"Essa  a sua resposta," Doughboy me contou. "Para que Desjardins iria querer
enfeitiar morcegos frugveros. Voc fez baguna com os livros errados, voc acionou
uma praga de morcegos frugveros. Essa  a armadilha!"
As coisas estavam em mim como se eu fosse manga madura... mergulhando na minha
cara, arranhando meus braos. Eu agarrei o livro e corri para a mesa, mas eu mal
conseguia ver.
"Sadie, saia daqui!" Eu gritei.
"SAW!" ela chorou, o que eu esperava dizer um sim.
Eu achei a maleta de trabalho do papai e enfiei o livro e Doughboy dentro. A porta da
biblioteca escancarou-se. Vozes Berraram em Frances.
`Horus, hora do pssaro!' eu pensei desesperado. `E nada de emas, por favor!'
Eu corri para a porta de vidro. No ultimo segundo, eu me achei voando... de novo um
falco, acelerando na chuva fria. Eu sabia pelos sentidos do predador que estava sendo
seguido por aproximadamente quatrocentos raivosos morcegos frugveros.
Mas falces eram bem mais rpidos. Uma vez fora eu corri para o norte, esperando
afastar os morcegos de Sadie e Bast. Eu me afastei dos morcegos rapidamente mas
deixei-os perto o suficiente para no desistirem. Ento, com um surto de velocidade, em
me virei numa curva acentuada e me dirigi de volta a Sadie e Bast a cem milhas por
hora.
Bast pareceu surpreso quando eu posei na calada, tropeando sobre mim mesmo
enquanto me transformava em um humano. Sadie agarrou meu brao, e a eu percebi
que ela tinha voltado ao normal.
"Isso foi horrvel." Ela anunciou.
"Sada estratgica, rpido!" eu apontei para o cu, onde um nuvem preta e raivosa de
morcegos frugveros estavam ficando cada vez mais perto.
"O Louvre." Bast agarrou nossas mos. " o portal mais prximo."
Trs quarteires de distncia. Ns nunca conseguiramos.
Ento a porta vermelha da casa de Desjardins abriu explodindo, mas ns no esperamos
para ver o que viria dela.
Ns corremos pela rua Des Pyramides.
                                    DEZENOVE

                          UM PIQUENIQUE NO CU
[Certo, Carter. D-me o microfone.]
Eu j estive no Louvre uma vez num feriado, mas eu no tinha sido perseguida por
perversos morcegos frutferos. Eu at ficaria aterrorizada, exceto que eu estava muito
ocupada ficando com raiva de Carter. Eu no podia acreditar na maneira com que ele
tratou meu problema de pssaro. Honestamente, eu pensei que seria um papagaio para
sempre, sufocando dentro de uma pequena priso de penas. E ele teve coragem de fazer
piadas!
Eu prometi a mim mesmo que me vingaria, mas por enquanto ns tnhamos
preocupaes suficientes no mantendo vivo.
Ns corremos na chuva fria. Era tudo que eu podia fazer para evitar cair no calamento
escorregadio. Eu olhei para trs e vi duas figuras nos perseguindo--- homem com cabea
raspada e cavanhaque e capa de chuva preta. Eles podiam se passar por mortais normais
exceto que cada um carregava um cajado brilhante. Pssimo sinal.
Os morcegos estavam literalmente nos nossos calcanhares. Um beliscou minha perna.
Outro passou perto do meu cabelo. Tive que me forar para continuar correndo. Meu
estmago ainda estava reclamando porque eu havia comido uma das pequenas pragas
quando era um papagaio--- e no, no foi idia minha. Um instinto defensivo, apenas!
"Sadie," Bast chamou enquanto corramos. "Voc vai ter apenas alguns segundos para
abrir o portal."
"Onde  que t?" Eu gritei;
Ns contornamos pela rue de Rivoli para uma praa ampla protegida pelas asas do
Louvre. Bast foi direto para a pirmide de vidro na entrada, refletindo a luz do por do
sol.
"Voc no pode estar falando srio," eu disse. "Aquilo no  nem mesmo uma
pirmide."
"Claro que  real," disse Bast. "A forma d poder a pirmide.  uma rampa para os
cus."
Os morcegos estavam todos  nossa volta agora--- mordendo nossos braos, voando ao
redor nos nossos ps. A medida que o seu nmero aumentava, ficava difcil ver ou se
mover.
Carter procurou pela espada, e de repente lembrou que ela no estava mais l. Ela 
havia perdido no Luxor. Ele amaldioou e remexeu na bolsa.
"No diminuam!" Bast alertou.
Carter sacou seu basto. Com frustrao total, ele a atirou em um morcego. Eu achei
que era um gesto intil, mas o basto brilhou branco e bateu solidamente na cabea do
morcego, derrubando-o do ar. O basto ricocheteou pelo enxame, derrubando seis, sete,
oito dos pequenos monstros antes de voltar para a mo de Carter.
"Nada mal," eu disse. "Fica esperto!"
Ns chegamos  base da pirmide. A praa estava vazia, ainda bem. A ltima coisa que
eu queria era minha morte por morcegos frutferos postada no YouTube.
"Um minuto at o pr do sol," Bast avisou.
Ela pegou suas facas e comeou a despedaar os morcegos no ar, tentando mant-los
longe de mim. O basto de Carter voou selvagem, nocauteando morcegos por todo lado.
Eu encarei a pirmide e tentei pensar no portal, do jeito que tinha feito no Luxor, mas
era quase impossvel me concentrar.
Onde voc deseja ir? Isis disse na minha mente.
Deus, no me importa! America!
Eu percebi que estava chorando. Eu odeio, mas choque e medo estavam comeando a
me dominar. Onde eu queria ir? Pra casa,  claro! De volta ao meu apartamento em
Londres--- de volta ao meu velho quarto, meus avs, meus encontros na escola e minha
antiga vida. Mas eu no podia, eu tinha que pensar no meu pai e em nossa misso. Ns
tnhamos que chegar at Set.
America, eu pensei. Agora!
Minha exploso de emoo deve ter feito algum efeito. A pirmide tremeu. As paredes
de vidro reluziram e o topo da estrutura comeou a brilhar.
Um vrtice de areia apareceu tudo certo. S um problema: ele estava flutuando sobre o
topo da pirmide.
"Suba!" disse Bast. Fcil para ela--- era uma gata.
"O lado  muito ngreme!" Carter falou.
Ele havia feito um bom trabalho com os morcegos. Atordoados e empilhados,
literalmente, no pavimento, mas outros ainda rodavam ao nosso redor, mordendo cada
pedao de pele amostra, e os magos estavam se aproximando.
"Eu vou arremessar vocs," Bast disse.
"Como ?" Carter protestou, mas ela o pegou pelo colarinho e pelas calas e o
arremessou pela lateral da pirmide. Ele sobrevoou a lateral da pirmide de uma
maneira nada digna, atravessando o portal.
"Agora voc, Sadie," disse Bast. "Vamos!"
Antes que eu pudesse me mover, a voz de um homem gritou, "Pare!"
Estupidamente, congelei. A voz era poderosa, foi difcil no fazer.
Os dois magos se aproximaram. O mais alto falou em perfeito ingls: "Se entregue,
Senhorita Kane, e retorne  propriedade do nosso Mestre."
"Sadie, no oua," Bast alertou. "Venha aqui."
"A deusa gata engana voc," o mago disse. "Ela abandonou o posto. Ela ps todos ns
em perigo. Ela te levar  runa."
Eu podia dizer que ele disse certo. Ele estava absolutamente convicto do que falava.
Olhei para Bast. A expresso dela havia mudado. Ela parecia ferida, at mesmo aflita.
"O que isso significa?" eu disse. "O que voc fez de errado?"
"Ns temos que ir," ela avisou. "Ou eles vo nos matar."
Eu olhei para o portal. Carter j havia passado. Aquilo decidia. Eu no ia me separar
dele. Por mais chato que ele fosse, Carter era a nica pessoa que havia me restado.
(Como isso  deprimente)
"Jogue-me." Eu disse.
Bast me agarrou. "Vejo-te na America." Ento ela me balanou pelo lado da pirmide.
Eu ouvi o mago rosnar, "Se renda!" E uma exploso rachou o vidro perto da minha
cabea. Ento eu entrei no vrtice de arei.
Acordei num pequeno quarto com carpete industrial, paredes cinza, e janelas com
moldura de meta. Sentia como se estivesse em um refrigerador high-tech. Eu me sentei
grogue e descobri que estava em cima de fria e molhada areia.
"Ugh," eu disse. "Onde ns estamos?"
Carter e Bast olharam pela janela. Aparentemente eles estavam conscientes a um tempo,
porque eles haviam se limpado.
"Voc precisa se ligar nessa vista." Carter disse.
Eu fiquei fracamente sobre meus ps e logo ca de novo quando vi o quo alto ns
estvamos.
Uma cidade inteira se espalhava abaixo de ns--- Eu digo, muito longe, uns
quilmetros. Eu quase podia acreditar que ns ainda estvamos em Paris, por causa do
rio a nossa esquerda e a terra era mais plana. Havia prdios brancos do governo todos
cercados por parque e ruas circulares, todos espalhados sob um cu de inverno. Mas a
luz estava errada. Ainda era de tarde aqui, ento devemos ter viajado para oeste. E
quando meus olhos fizeram um caminho para o outro lado de um grande espao ver e
retangular, eu me descobri encarando uma manso que pareia vagamente familiar.
"Aquilo ... aquela  a Casa Branca?"
Carter concordou. "Voc nos trouxe para a America, tudo bem. Washington, D.C."
"Mas ns estamos num arranha cu!"
Bast riu. "Voc no especificou nenhuma cidade americana especfica, no ?"
"Bem... no."
"Ento voc nos trouxe para o marco zero para os Estados Unidos--- a maior fora do
poder Egpcio na America do Norte."
Eu olhei para ela incompreensiva.
"O maior obelisco j construdo," ela disse. "O Monumento a Washington."
Tive outro momento de vertigem e sai de perto da janela. Carter agarrou meu ombro e
me ajudou a sentar.
"Voc devia descansar," ele disse. "voc apagou por... quanto tempo, Bast?"
"Duas horas e trinta minutos," ela disse. "Desculpe-me, Sadie. Abrir mais de um portal
num dia  extremamente desgastante, mesmo com Isis ajudando."
Carter franziu a testa. "Mas ns precisamos dela para fazer de novo, certo? Ainda no 
pr do sol aqui. Ns ainda podemos usar portais. Vamos abrir um e ir pro Arizona. 
onde Set est."
Bast curvou os lbios. "Sadie no pode invocar outro portal. Ir extinguir os poderes
dela. Eu no tenho o poder. E voc, Carter... bom, suas habilidades esto em outro
lugar. Sem querer ofender."
"Ah, no," ele resmungou. "Tenho certeza que voc vai me chamar da prxima vez que
precisar derrotar alguns morcegos."
"Por outro lado," disse Bast. "Quando um portal  usado,  preciso tempo para ele
desaparecer. Ningum vai poder usar o Monumento---"
"Por outras doze horas." Carter amaldioou. "Tinha me esquecido disso."
Bast concordou. "E at l, os Dias do Demnio j tero comeado."
"Ento ns precisamos de outro jeito para chegar a Arizona." Carter disse.
Eu suponho que ele no queria me fazer sentir culpada, mas eu me senti. Eu no tinha
pensado nas coisas para fazer, e agora ns estvamos presos em Washington.
Eu espiei Bast pelo canto do olho. Queria perguntar a ela o que o homem no Louvre
queria dizer com ela nos guiando para a runa, mas eu estava com medo. Eu queria
acreditar que ela estava do nosso lado. Talvez se eu desse a ela uma chance, ela daria a
informao voluntariamente.
"Ao menos aqueles magos no podem nos seguir." Eu disparei.
Bast hesitou. "No pelo portal, no. Mas h outros magos na America. E pior... Sditos
de Set."
Meu corao subiu para minha garganta. A Casa da Vida foi assustadora o suficiente,
mas quando eu me lembro de Set, e o que seus sditos haviam feito com a casa de
Amos...
"E o livro de magia de Thoth?" eu disse. "Ns achamos pelo menos um jeito de lutar
com Set?"
Carter apontou para o canto da sala. Sobre a capa de chuva de Bast estava  caixa
mgica de papai e o livro azul que ns roubamos de Desjardins.
"Talvez voc possa fazer isso ter sentido," Carter disse. "Bast e eu no conseguimos ler.
At Doughboy ficou perdido."
Eu peguei o livro, que era na verdade um pergaminho separado em sees. O papiro era
to fino, estava com medo de pegar. Hierglifos e ilustraes marcavam a pgina, mas
eu no tinha idia do que eles eram. Minha habilidade de ler a lngua parecia ter sido
desligada.
Fechei o livro frustrada. "Todo aquele trabalho pra nada."
"Agora, agora," Bast disse. "No  to ruim assim."
"Certo," eu disse. "Estamos presos em Washington, D.C. Temos dois dias para chegar a
Arizona e para um deus que no sabemos como parar. E se no conseguirmos, nunca
mais veremos papai e Amos novamente, e o mundo pode acabar."
"Esse  o esprito!" Bast disse radiante. "Agora, vamos fazer um piquenique."
Ela estalou os dedos. O ar sibilou e uma pila de potes com biscoitos e duas jarras de
leite apareceram no carpete.
"Um." Carter disse. "voc pode conjurar comida de qualquer lugar?"
Bast piscou. "Bem, no garanto o gosto."
O ar tremulou novamente. Um prato de sanduches de queijo grelhados e batatas fritas
surgiram, com um pacote de seis cocas-cola.
"Yum." Eu disse.
Carter murmurou alguma coisa sob seu sanduche. Suponho que queijo grelhado no era
seu favorito, mas ele pegou um sanduche.
"Ns devemos partir logo." Ele disse entre mordidas. "Quero dizer... turistas e tudo
mais."
Bast balanou a cabea. "O Monumento Washington fecha as seis. Os turistas j foram
agora. Ns devemos passar a noite. Se ns temos que viajar durante os Dias do
Demnio, melhor que o faamos a luz do dia."
Todos ns devamos estar exaustos, porque no falamos novamente at termos
terminado de comer. Eu comi trs sanduches e bebi duas Cocas. Bast fez todo o lugar
cheirar a petiscos de gato, ento comeou a lamber a pata como preparando para um
banho de gato.
"Voc podia no fazer isso?" perguntei. " perturbador."
"Ah," ela sorriu. "Desculpe."
Eu fechei meus olhos e me encostei contra a parede. Parecia bom para descansar, mas
eu me dei conta de que o quarto no estava exatamente quieto. Todo o prdio parecia
estar balanando lentamente, mandando um tremor pelos meus ossos que fizeram meus
dentes baterem. Abri os olhos e me sentei. Eu ainda podia sentir.
"O que  isso?" eu perguntei. "O vento?"
"Energia mgica," Bast explicou. "Eu disse a voc, esse  um monumento poderoso."
"Mas  moderna. Como a pirmide do Louvre. Por que ela  mgica?"
"Os Antigos Egpcios eram excelentes construtores, Sadie. Eles pegaram formas---
obeliscos, pirmides--- que eram carregadas com mgica simblica. Um obelisco
representa um raio de sol congelado na pedra--- um raio de vida dado pelo rei dos
deuses original, Ra. No importa quando a estrutura foi construda: ainda  Egpcia. Isso
 o porqu de qualquer obelisco poder ser utilizado para abrir portais para o Duat, ou
libertar grandes princpios de poder---"
"Ou prend-los," eu disse. "Do jeito que voc estava no Obelisco de Clepatra."
Sua expresso escureceu. "Eu no estava realmente presa no obelisco. Minha priso era
um abismo mgico criado no fundo do Duat, e o obelisco era a porta que seus pais
usaram para me libertar. Mas, sim. Todos os smbolos do Egito concentram grandes
quantidades de poder mgico. Ento um obelisco definitivamente pode ser usado para
aprisionar deuses."
Uma idia estava latejando na minha cabea, mas eu no podia simples mente cuspi-la.
Alguma coisa sobre minha me, e o Obelisco de Clepatra, e a ltima promessa do meu
pai no Museu Britnico: Eu vou fazer as coisas se acertarem.
Ento eu pensei de volta no Louvre, e o comentaria que o mago fez. Bast parecia to
atravessada no momento que eu estava quase com medo de pergunta, mas era o nico
meio de conseguir uma resposta. "O mago disse que voc abandonou seu posto. O que
ele quis dizer?"
Carter franziu a testa. "Quando foi isso?"
Eu disse a ele o que aconteceu depois de Bast o arremessar atravs do portal.
Bast largou o pote de biscoitos vazio. Ela no parecia ansiosa para responder.
"Quando eu fui aprisionada." Ela finalmente disse. "Eu--- eu no estava sozinha. Eu fui
trancada com uma... criatura do caos."
"Isso  ruim?" perguntei.
A julgar pela cara de Bast, a resposta era sim. "Os magos depois de fazerem isso---
trancar um deus com um monstro ento no tnhamos tempo para tentar escapar da
priso. Por tempos, eu lutei contra ele. Quando seus pais me libertaram---"
"O monstro saiu?"
Bast hesitou demais para o meu gosto.
"No. Meu inimigo no pde escapar." Ela respirou fundo. "O ltimo ato mgico da sua
me selou o portal. O inimigo continua dentro. Mas isso era o que o mago queria dizer.
Enquanto ele estiver preso meu `posto'  combat-lo para sempre."
Aquilo tinha um som da verdade, como se ela estivesse compartilhando uma memria
dolorosa, mas aquilo no explicou a outra parte que o mago disse: Ela ps todos ns em
perigo. Eu estava tomando coragem para perguntar exatamente o que era o monstro,
quando Bast levantou.
"Eu devia fazer a ronda." Ela disse abruptamente. "J volto."
Ns escutamos os passos dela ecoarem pela escadaria.
"Ela est escondendo alguma coisa." Carter disse.
"Descobriu isso sozinho, foi?" eu perguntei.
Ele olhou pra longe e imediatamente eu me senti mal.
"Desculpa," eu disse. " s que... o que vamos fazer?"
"Resgatar papai. O que mais podemos fazer?" Ele pegou o seu basto e o girou nos
dedos. "Voc acha que ele realmente queria dizer... voc sabe trazer mame de volta?"
Eu queria dizer sim. Mais que qualquer coisa, eu queria acreditar nessa possibilidade.
Mas me surpreendi balanando a cabea. Alguma coisa sobre isso no parecia certo.
"Iskandar me disse alguma coisa sobre mame." Eu disse. "Ela era uma vidente. Podia
ver o futuro. Ele disse que ela o fez repensar antigas idias."
Foi minha primeira chance para contar a Carter sobre minha conversa com o antigo
mago, ento eu dei para ele os detalhes.
Carter pestanejou seus olhos marrons. "Voc acha que isso tem alguma coisa a ver com
a causa da morte de nossa me--- ela viu alguma coisa no futuro?"
"No sei." Eu tentei lembrar quando eu tinha seis anos, mas minha memria esta
confusa. "Quando eles nos levaram para a Inglaterra na ltima vez, ela e papai pareciam
estar apresados--- como se estivessem fazendo alguma coisa realmente importante?"
"Definitivamente."
"Voc diria que libertar Bast era realmente importante? Eu digo--- eu a amo, claro---
mas vale a pena morrer por importantes?"
Carter hesitou. "Provavelmente no."
"Bom, ai est. Eu acho que papai e mame estavam atrs de algo maior, uma coisa que
eles no haviam completado. Possivelmente era disso que papai estava atrs no Museu
Britnico--- completando a pesquisa, no importa o que fosse. Acertando as coisas. E
todo esse negcio de nossa famlia voltar bilhes de anos atrs para um tipo de fara
deus-hospedeiro--- por que ningum nos contou? Por que papai no o fez?"
Carter no respondeu por um longo tempo.
"Talvez papai estivesse nos protegendo." Ele disse. "A Casa da Vida no confiava na
nossa famlia, especialmente depois do que papai e mame fizeram. Amos disse que a
gente ns fomos criados separados por uma razo, ento ns no, tipo, acionaramos a
mgica um do outro."
"Maldito motivo para nos manter separados." Eu murmurei.
Carter olhou para mim estranhamente, e eu percebi que o que eu disse podia ter soado
como uma complicao.
"Eu s quis dizer que eles deviam ter sido honestos," eu disparei. "No que eu queria
mais tempo com meu irmo insuportvel,  claro."
Ele concordou serio. " claro."
Sentamos-nos escutando o tremor mgico do obelisco. Eu tentei lembrar a ltima vez
em que Carter e eu passamos um tempo assim juntos, conversando.
"O seu amigo, ..." eu bati no lado da minha cabea. "Seu amigo est sendo de alguma
ajuda?"
"No muito." Ele admitiu. "E o seu?"
Balancei minha cabea. "Carter, voc t com medo?"
"Um pouco." Ele enfiou o basto no carpete. "No, muito."
Eu olhei para o livro azul que ns roubamos--- pginas cheias de grandes segredos que
eu no podia ler. "E se ns no pudermos fazer isso?"
"No sei," disse ele. "Aquele livro sobre dominar o elemento queijo teria sido mais
til."
"Ou invocar morcegos."
"Por favor, no os morcegos."
Ns compartilhamos um sorriso fraco, e me pareceu bom. Mas no mudou nada. Ns
continuvamos com srios problemas e sem planos.
"Por que voc no dorme um pouco?" ele sugeriu. "Voc usou muita energia hoje. Eu
fico vigiando at Bast voltar."
Ele realmente parecia preocupado comigo. Que lindo.
Eu no queria dormir. Eu no queria perder nada. Mas eu percebi que minhas plpebras
estavam incrivelmente pesadas.
"Tudo bem ento." Eu disse. "No deixe os percevejos morderem."
Eu me deitei muito devagar, mas minha alma tinha outros planos.
                                       VINTE

               VISITO A DEUSA COBERTA DE ESTRELAS

NO TINHA PERCEBIDO QUE seria to perturbador. Carter me explicara como seu
ba deixou seu corpo enquanto ele dormia, mas, quando aconteceu comigo, foi
completamente outra histria. Era muito pior do que minha viso no Saguo das Eras.
L estava eu, flutuando no ar como um esprito brilhante que se assemelhava a um
pssaro. E l estava meu corpo abaixo de mim, dormindo feito uma pedra. Apenas
tentar descrev-lo j me d dor de cabea.
Meu primeiro pensamento, assim que fitei abaixo meu corpo adormecido: Deus, pareo
horrvel. Ruim demais para se olhar no espelho ou ver fotos minhas nas pginas da Web
de meus amigos. Ver eu mesma em pessoa era simplesmente errado. Meu cabelo era um
ninho de rato, o pijama de linho no era, no mnimo, elogivel, e a pinta em meu queixo
era enorme.
Meu segundo pensamento, quando examinei a forma brilhante de meu ba: Aquilo
realmente no daria. No me importava se eu fosse invisvel para os olhos mortais ou
no. Depois de minha m experincia como uma pipa, simplesmente me recusava a
andar por a como uma galinha com cabea de Sadie. Seria bom para Carter, entretanto,
tenho meus padres.
Podia sentir as correntes do Duat me puxando, tentando levar meu ba para onde quer
que as almas vo quando tm vises, mas no estava pronta. Concentrei-me bastante, e
imaginei minha aparncia normal (ok, tudo bem, talvez minha aparncia da maneira que
gostaria que fosse, um pouco melhor do que a normal). E, voil, meu ba tomou uma
forma humana, ainda transparente e brilhante, imaginem, contudo, mais para um
fantasma adequado.
Bem, pelo menos isso se podia escolher, pensei. E permiti que as correntes me
arrastassem para longe. O mundo derreteu-se em preto.
A princpio, eu estava em lugar nenhum -- apenas um vazio negro. Ento, um jovem
rapaz deu um passo das sombras.
"Voc outra vez," disse.
Gaguejei. "H..."
Honestamente,
Honestamente, vocs me conhecem suficientemente bem agora. Aquela no era eu. Mas
aquele era o garoto que vira em minha viso do Saguo das Eras -- o rapaz muito lindo
com as vestes pretas e os cabelos desgrenhados. Seus olhos castanho-escuros causavam
o mais irritante efeito em mim, e eu estava bastante grata por ter me livrado da minha
forma de galinha reluzente.
Tentei novamente, e consegui quarto palavras inteiras. "O que voc est..."
"Fazendo aqui?" disse ele, encerrando minha frase imponentemente. "Viagens
espirituais e morte so bastante similares"
"No estou certa do que isso queira dizer", disse. "Deveria me preocupar?"
Ele inclinou a cabea como se estivesse considerando a questo. "No nesta viagem. Ela
somente quer bater um papo com voc. Siga em frente."
O garoto acenou com a mo e uma soleira abriu-se na escurido. Eu era puxada em
direo a ela.
"Vejo voc outra vez?" perguntei.
Mas o garoto j tinha ido.
Descobri-me dentro de um luxuoso flat no meio do cu. No havia paredes, nem teto, e
um cho transparente em que se via logo abaixo as luzes da cidade  altura de um avio.
Nuvens acumulavam-se sob meus ps. O ar deveria estar congelante e rarefeito demais
para respirar, no entanto, me sentia quente e confortvel.
Sofs de couro preto formavam um U ao redor de uma mesa de caf sobre um carpete
vermelho-sangue. Um fogo ardia numa lareira feita de ardsia. Estantes de livros e
pinturas pairavam no ar onde deveriam estar as paredes. Uma barra de granito preto
situava-se no canto, e, nas sombras por detrs dela, uma mulher fazia um ch.
"Ol, minha criana," disse ela.
Ele deu um passo  luz, e arquejei. Ela vestia um saiote egpcio da cintura para baixo.
Da cintura para cima, ela usava somente um top de biquni, e sua pele... sua pele era
azul-escura, coberto de estrelas. No quero dizer estrelas pintadas. Ela tinha o cosmo
inteiro vivendo sobre sua pele: constelaes vislumbrantes, galxias muito brilhantes
para serem vistas, nebulosas incandescentes em poeira azul e rosa. Suas feies
pareciam desaparecer-se nas estrelas que se deslocavam por seu rosto. Seus cabelos
eram longos e negros como a meia-noite.
"Voc  a tal Nut", disse. Ento notei que talvez saiu errado. "Quero dizer... a deusa do
cu."
A deusa sorriu. Seus dentes alvos e brilhantes eram como uma nova galxia explodindo-
se em existncia. "Nut est bom. E acredite, j ouvi todas as piadas a respeito de meu
nome."
Ela serviu um segundo copo da bebida em seu bule. "Vamos sentar e conversar. Gosta
de sahlab?"
"H, no  ch?"
"No,  uma bebida egpcia. J ouviu falar de chocolate quente?  como baunilha
quente."
Eu preferia um ch, como se eu no tivesse bebido uma generosa xcara h anos. Mas
achei que uma no iria aborrecer uma deusa. "H... sim. Obrigada."
Sentamos juntas ao sof. Para minha surpresa, minhas mos fantasmagricas e
brilhantes no tinham problema algum em segurar uma xcara, e pude beber facilmente.
O sahlab era doce e saboroso, com apenas uma pitada de canela e coco. Aquilo me
aqueceu bem e preencheu o ar com o cheiro de baunilha. Pela primeira vez, em dias,
senti-me segura. Ento lembrei que estava aqui apenas em esprito.
Nut desceu o copo. "Suponho que voc esteja se perguntando o porqu de eu ter trazido
voc aqui?"
"Onde  exatamente aqui? E, ah, quem  seu porteiro?"
Esperava que ela deixasse escapar alguma informao sobre o garoto de preto, mas ela
apenas sorriu. "Preciso manter meus segredos, querida. No posso ter a Casa da Vida
tentando me procurando. Vamos apenas dizer que constru esse lar como uma bela vista
da cidade."
"Isso ..." Fiz um gesto para sua pele azul estrelada. "H... voc est dentro de um corpo
humano?"
"No, querida. O seu em si  o meu corpo. Isto  apenas uma manifestao."
"Mas pensei que--"
"Deuses precisavam de um corpo fsico fora do Duat?  algo um tanto mais fcil para
mim, sendo um esprito do ar. Eu era um dos poucos deuses que nunca foram
aprisionados, porque a Casa da Vida jamais conseguiriam me capturar. Estou
acostumada a ser... uma forma livre." De repente, Nut e o apartamento inteiro
tremeluziram. Senti-me como se eu fosse cair do cho. Ento o sof tornou-se estvel
novamente.
"Por favor, no faa isso de novo," implorei.

"Minhas desculpas," disse Nut. "A questo , cada deus  diferente. Mas todos meus
irmos esto libertos agora, todos procurando lugares nesse seu mundo moderno. No
sero aprisionados outra vez."
"Os magos no gostaro disso."
"No," assentiu Nut. "Essa  a primeira razo de voc estar aqui. Uma batalha entre os
deuses e a Casa da Vida tragaria apenas o caos. Voc precisa fazer os magos
compreenderem isto."
"Eles no me daro ouvidos. Pensam que sou uma deusa menor."
"Voc  uma deusa menor, querida." Ela tocou meus cabelos gentilmente, e senti Isis
agitando-se dentro de mim, esforando-se para para falar usando minha voz.
"Sou Sadie Kane," disse. "No pedi para que Isis pegasse uma carona."
"Os deuses tm conhecido sua famlia por geraes, Sadie. Em tempos remotos,
trabalhvamos juntos em benefcio ao Egito."
"Os magos disseram que os deuses causaram a queda do imprio."
"Essa  uma discusso longa e intil," disse Nut, e pude sentir uma ponta de raiva em
sua voz. "Todos os imprios caem. Mas a idia do Egito  eterna -- o triunfo da
civilizao, as foras do Ma'at superando as foras do caos. Essa batalha  travada
gerao aps gerao. Agora  sua vez."
"Sei, sei," disse. "Temos que derrotar Set."
"Mas  assim to simples, Sadie? Set  meu filho. Nos tempos antigos, ele era o mais
forte tenente de R. Ele protegia a barca do deus do sol da serpente Apfis. Desde que
havia o mal. Apfis era a personificao do caos. Ele odiou a Criao desde o momento
em que a primeira montanha surgiu do mar. Odiava os deuses, mortais e tudo que eles
construram. E ainda, Set lutou contra ele. Set era um de ns."
"Ento ele tornou-se mal?"
Nut deu de ombros. "Set tem sempre sido Set, para melhor ou para pior. Mas ele ainda 
parte de nossa famlia.  difcil perder um membro de sua famlia... no ?"
Minha garganta apertou-se. " um mal justo"
"No me fale de justia," disse Nut. "Por cinco mil anos, tenho sido afastada de meu
marido, Geb."
Lembrei-me vagamente de Carter dizendo algo sobre isto, mas parecia diferente
escutando dela agora, ouvindo a dor em sua voz.
"O que aconteceu?" perguntei.
"Punio por ter dado a luz aos meus filhos," disse ela amargamente. "Desobedecia aos
desejos de R, e ento ele ordenou ao meu prprio pai, Shu--"
"Calma a," disse. "Shoe? Sapato em ingls?"
"S-h-u," disse ela. "O deus do vento."
"Oh." Queria que os deuses tivessem nomes que no fosse objetos comuns de casa.
"Prossiga, por favor."
"R ordenou ao meu pai, Shu, para que nos mantivesse afastados, para sempre. Estou
exilada ao cu, enquanto meu amado Geb no pode deixar o cho."
"O que acontece se voc tentasse?"
Nut fechou seus olhos e estendeu as mos. Um buraco abriu-se onde ela estava sentada,
e ela caiu pelo ar. Imediatamente, as nuvens sob ns cintilaram com relmpagos. Ventos
assolaram todo o apartamento, jogando livros para fora das prateleiras, rasgando fora os
livros e lanando-os no vazio. Minha xcara pulou de minha mo. Agarrei-me ao sof
para evitar que fosse assoprada para longe.
                                    VINTE E UM

                           TIA KITTY AO RESGATE
EU J TINHA VISTO FOTOS DA CRIATURA ANTES, mas fotos no chegavam
nem perto de como era horrvel na vida real.
"O animal de Set," Bast disse, confirmando meu receio.
Abaixo, a criatura perambulava pela base do monumento, deixando marcas na neve
recm-cada. Tive problema em julgar seu tamanho, mas devia pelo menos ser maior
que um cavalo, com pernas um pouco maiores tambm. Tinha um anormal corpo magro
e musculoso com pele brilhante e a cor era cinza-avermelhada. Voc quase poderia
confundi-lo com um grande cachorro galgo -- exceto pela calda e a cabea. A cauda era
rptil, bifurcada no fim com pontas triangulares, como os tentculos de uma lula. Ela
chicoteava como se pensasse por si prpria.
A cabea da criatura era a parte mais estranha. Suas orelhas de tamanho fora do comum
espetavam-se para cima como orelhas de coelho, mas elas pareciam mais como
casquinhas de sorvete, enroladas para dentro e maiores na parte superior do que na
inferior. Elas podiam rodar quase 360, ento poderiam ouvir qualquer coisa. O focinho
da criatura era grande e curvado como o de um tamandu -- porm tamandus no tm
dentes afiados.
"Os olhos esto brilhando," eu disse. "No deve ser bom."
"Como voc pode ver de to longe?" Sadie perguntou.
Ela olhou perto de mim, apertando os olhos para a figura fina na neve, e percebi que ela
tinha razo. O animal estava a, pelo menos, quinhentos metros abaixo de ns. Como eu
poderia ver os olhos?
"Voc ainda tem a viso do falco," Bast sups. "E voc est certo, Carter. Os olhos
brilhantes significavam que a criatura sentiu o nosso cheiro."
Eu olhei para ela e quase pulei para fora do meu corpo. O cabelo dela estava em p
sobre a cabea, como se tivesse posto o dedo numa tomada eltrica.
"H, Bast?" perguntei.
"Sim?"
Sadie e eu trocamos olhares. Ela formou com os lbios a palavra `assustador'. Ento
lembrei como o rabo de Muffin de arrepiava quando algo a assustava.
"Nada," eu disse, contudo se o animal de Set fosse to perigoso que desse  nossa deusa
um choque eltrico no cabelo, aquilo era um mau sinal. "Como vamos sair daqui?"
"Voc no entendeu," Bast disse. "O animal de Set  o caador perfeito. Se ele tem
nosso cheiro, nada vai par-lo."
"Por que chama de `Animal de Set'?" Sadie perguntou, nervosa. "No tem um nome?"
"Se tivesse," Bast disse, "voc no iria querer pronunci-lo.  unicamente conhecido
como o animal de Set -- a criatura simblica do Lorde Vermelho. Compartilham a
fora, habilidades... e a natureza m."
"Adorvel," Sadie disse.
O animal farejou o monumento e recuou, rosnando.
"Ele no parece gostar do obelisco," notei.
"No," Bast disse. "Muita energia de Ma'at. Mas isso no vai segur-lo por muito
tempo."
Como se num palpite, o animal de Set saltou num dos lados do monumento. Comeou a
subir como um leo escalando uma rvore, enterrando as garras na pedra.
"Isso est confuso," eu disse. "Elevador ou escadas?"
"So muito lentos," Bast disse. "Recuem para a janela."
Ela desembainhou as facas comeou a cortar o vidro. Ela perfurou a janela, acionando
os alarmes. Ar frio explodiu na sala de observao.
"Vocs precisaro voar," Bast gritou sobre a ventania. " o nico jeito."
"No!" A face de Sadie ficou plida. "O milhano de novo no."
"Sadie, tudo bem," eu disse.
Ela balanou a cabea, aterrorizada.
Peguei a mo dela. "Vou ficar com voc. Vou ter certeza que voc voltar."
"O animal de Set j est na metade do caminho," Bast alertou. "Estamos correndo
contra o tempo."
Sadie olhou para Bast. "E voc? Voc no pode voar."
"Eu vou pular," ela disse. "Gatos sempre caem em p."
" mais de cem metros!" Sadie gritou.
"Cento e setenta," Bast falou. "Distrairei o animal de Set, vai lhes dar algum tempo."
"Voc ser morta." A voz de Sadie pareceu perto de quebrar. "Por favor, no posso lhe
perder tambm."
Bast pareceu um pouco surpresa. Ento ela sorriu e colocou as mos nos ombros de
Sadie. "Ficarei bem, querida. Me encontrem no Reagan National, terminal A. Preparem-
se para correr."
Antes que pudesse argumentar, Bast pulou para fora da janela. Meu corao estava
prestes a parar. Ela disparou em linha reta  calada. Estava certo de que ela ia morrer,
mas enquanto ela caia ela esticou os braos e pernas e pareceu relaxar.
Ela caiu em cima do animal de Set, que soltou um grito horrvel como um homem
ferido num campo de batalha, ento virou e pulou atrs dela.
Bast atingiu o cho em p e saiu correndo. Ela devia estar a 100 km/h, fcil. O animal
de Set no era muito gil. Ele colidiu to duro, a calada quebrou. Ele cambaleou por
alguns metros mas no pareceu machucado. Ento disparou atrs de Bast e estava logo
ganhando dela.
"Ela no vai conseguir," Sadie agitou-se.
"Nunca aposte contra um gato," eu disse. "Temos que fazer nossa parte. Pronta?"
Ela tomou flego. "Tudo bem. Antes que eu mude de ideia."
Num instante, um milhano de asas negras apareceu na minha frente, batendo asas para
manter o equilbrio na ventania intensa. Desejei-me virar um falco. Foi ainda mais fcil
do que antes.
Um momento depois, subimos no ar da manh fria sobre Washington, D.C.
Achar o aeroporto era fcil. Reagan National era to perto que eu podia ver os avies
pousando alm do Potomac.
A parte difcil era lembrar o que eu estava fazendo. Todas as vezes que eu via um rato
ou um esquilo, eu instintivamente desviava-me para ele. Vrias vezes me peguei
mergulhando, e eu tinha de lutar contra o impulso.
Uma vez eu olhei para cima e percebi que estava alguns quilmetros de Sadie, que
estava fazendo sua prpria caa.
Tive que me forar a voar perto dela e chamar a ateno.
 preciso fora de vontade para ficar humano, a voz de Hrus avisou. Mais tempo que
voc fica como uma ave de rapina, mais voc pensa como uma.
Agora que voc me diz, pensei.
Eu poderia ajudar, ele argumentou. Me d o controle.
No hoje, cabea-de-pssaro.
Finalmente, conduzi Sadie ao aeroporto, e comeamos a procurar um lugar para
transformarmos de volta  forma humana. Pousamos acima de uma garagem de
estacionamento.
Desejei virar humano. Nada aconteceu.
Pnico comeou a crescer na minha garganta. Fechei meus olhos e pensei no rosto do
meu pai. Pensei como eu sentia falta dele, como eu precisava encontr-lo.
Quando abri os olhos, voltei ao normal. Infelizmente, Sadie ainda era um milhano. Ela
voou ao meu redor e crocitou freneticamente. "Ha -- ha -- ha!" Havia um brilho
selvagem nos olhos, e dessa vez entendi como ela estava assustada. A forma de pssaro
havia sido difcil demais para quebrar da primeira vez. Se a segunda vez pegasse mais
energia ainda, ela poderia estar em srios problemas.
"Est tudo bem." Agachei-me, tomando cuidado para me mover lentamente. "Sadie, no
force. Voc tem que relaxar."
"Ha!" Ela escondeu as asas. Sua respirao estava intensa.
"Oua, me ajudou focar no papai. Lembre o que  importante para voc. Feche seus
olhos e pense sobre sua vida humana."
Ela fechou os olhos, mas quase que instantaneamento chorou em frustrao e bateu as
asas.
"Pare," eu disse. "No voe!"
Ela inclinou a cabea e gorgolejou de um jeito suplicante. Comecei a falar para ele o
jeito que eu ia a um animal assustado. No estava realmente prestando ateno nas
palavras. S estava tentando manter um tom calmo. Mas depois de um minuto percebi
que estava contando sobre minhas viagens com papai, e as memrias que me ajudaram a
sair da forma de pssaro. Contei para ela sobre a vez que papai e eu ficamos presos no
aeroporto de Veneza e comi tanto cannoli que fiquei doente. Contei para ela sobre a vez
no Egito quando eu encontrei um escorpio na minha meia, e papai preparou-se para
mat-lo com um controle remoto. Contei para ele como nos separamos uma vez no
Metr de Londres e como fiquei apavorado at papai finalmente me encontrar. Contei
para ela algumas histrias embaraosas que nunca compartilhei com ningum, porque
quem eu poderia compartilhar? E pareceu para mim que Sadie ouviu. Pelo menos ela
parou de bater as asas. Sua respirao aliviou-se. Ela ficou em silncio, e seus olhos no
pareceram mais em pnico.
"Tudo bem, Sadie," eu disse por fim. "Tive uma ideia. Aqui est o vamos fazer."
Peguei a bolsa de mgica do papai de dentro da sua bolsa de couro. Cobri a bolsa com o
meu antebrao e amarrei as cintas no melhor que pude. "Venha."
Sadie voou e pousou no meu pulso. Mesmo com minha proteo improvisada, suas
garras afiadas penetraram minha pele.
"Vamos tirar voc disso," eu disse. "Continue tentando. Relaxe, e foque na sua forma
humana. Voc vai conseguir, Sadie. Eu sei que vai. Vou te levar at conseguir."
"Ha."
"Vamos l," disse. "Vamos achar Bast."
Com minha irm no meu brao, andei at o elevador. Um empresrio com uma mala de
rodas estava esperando nas portas. Arregalou os olhos quando me viu. Eu devia estar
parecendo muito estranho -- uma criana negra e alta suja, vestindo farrapos egpcios,
com uma bolsa estranha num brao e uma ave de rapina no outro.
"Como est indo?" eu disse.
"Vou usar as escadas." Ele saiu com pressa.
O elevador me levou ao trreo. Sadie e eu atravessamos  ponte de partidas. Procurei
desesperadamente por Bast, esperando ver Bast, mas ao invs disso chamei a ateno de
um policial. O sujeito franziu o cenho e comeou a se arrastar em minha direo.
"Fique calma," disse para Sadie. Resistindo  vontade de correr, virei-me e fui em
direo s portas giratrias.
A est o problema -- eu sempre fico um pouco nervoso com a polcia. Me lembro
quando tinha aproximadamente sete ou oito anos e ainda era uma pequena e bonita
criana, isso no era um problemas; mas assim que atingi os onze anos, comecei a
chamar Ateno, como O que aquele menino est fazendo? Ele vai roubar alguma
coisa?  claro, isso  ridculo, mas  um fato. No estou dizendo que acontece com
todos os oficiais de polcia, mas quando no acontece -- vamos s dizer que  uma
surpresa agradvel.
Essa no era uma das vezes em que h surpresas. Sabia que o policial iria me seguir, e
sabia que tinha de ficar calmo e andar como se tivesse um propsito... o que no  fcil
com um milhano no seu brao.
Era frias de Natal, ento o aeroporto estava bastante cheio -- sobretudo famlias nas
filas dos balces, crianas discutindo e pais registrando bagagens. Eu queria saber o que
aquilo seria: uma normal viagem em famlia, nenhum problema mgico ou monstros
perseguindo voc.
Pare, falei para mim mesmo. Voc tem trabalho a fazer.
Mas eu no sabia aonde ir. Bast estaria em segurana? Ou no? A multido ia abrindo
passagem enquanto eu andava pelo terminal. As pessoas olharam para Sadie. Sabia que
eu no podia andar parecendo perdido. Era s questo de tempo antes dos policiais...
"Mocinho."
Me virei. Era o oficial de polcia. Sadie grasnou, e o policial recuou, mantendo a mo no
cassetete.
"Voc no pode ficar com pssaros aqui," ele me disse.
"Eu tenho passagens..." Tentei alcanar meus bolsos. Ento lembrei que Bast estava
com nossas passagens.
O policial franziu a testa. "Seria melhor voc vir comigo."
De repente a voz de uma mulher chamou: "A est voc, Carter!"
Bast estava se apressando, empurrando pela multido. Nunca estive to feliz em ver
uma deusa egpcia na minha vida.
De algum jeito, ela mudou as roupas. Ela usava uma cala e um casaco cor-de-rosa e
vrias jias douradas, que a fez parecer uma rica empresria. Ignorando o policial, ela
avaliou minha aparncia e enrugou o nariz. "Carter, eu lhe disso para no usar essas
roupas de falco. Honestamente, voc parece algum que dormiu no meio da selva!"
Ela tirou um leno e fez uma grande produo de limpeza no meu rosto, enquanto o
oficial da polcia olhava.
"H, madame," ele finalmente disse. "Esse  seu..."
"Sobrinho," Bast mentiu. "Desculpe, oficial. Estamos indo a Memphis para para uma
competio de falces. Espero que ele tenha causado problema nenhum. Vamos perder
nosso voo!"
"H, o falco no pode voar..."
Bast riu. "Bem, naturalmente ele pode voar, oficial.  um pssaro!"
A face dele corou. "Digo, no avio."
"Ah! Ns temos a papelada." Para o meu espanto, ela puxou um envelope e deu ao
policial com as nossas passagens.
"Estou vendo," o policial disse. Ele examinou nossas passagens. "Voc comprou... uma
passagem da primeira classe para o seu falco.
" um milhano preto, na verdade," Bast disse. "Mas sim,  um pssaro muito
temperamental. Um premiado, voc sabe. D-lhe uma carruagem e tente oferecer
pretzels, e no serei responsabilizada pelas consequncias. No, ns sempre voamos na
primeira class, no voamos, Carter?"
"H, sim... Tia Kitty."
Ela me mandou um olhar que dizia: voc vai pagar por isso. Ento ela virou e sorriu
para o policial, que devolveu nossas passagens e a "papelada" de Sadie.
"Bem, se nos der licena, oficial.  uma farda bem bonito, alis. Voc gosta?"
Antes que pudesse responder, Bast pegou meu brao e me puxou ao ponto de inspeo
de segurana.
"No olhe para trs," ela disse, respirando duro.
Assim que viramos num canto, Bast me puxou de lado nas mquinas.
"O animal de Set est prximo," ela disse. "Temos poucos minutos, se pensarmos
positivo. Qual  o problema de Sadie?"
"Ela no pode..." gaguejei. "No sei exatamente."
"Bem, vamos ter que descobrir no avio."
"Como voc mudou de roupa?" perguntei. "E o documento do pssaro..."
Ela acenou a mo desconsideravelmente. "Ah, mentes mortais so simplrias. Aquele
`documento'  um bilhete vazio. E minhas roupas no foram mudadas.  s um
encantamento.
Olhei para ela mais de perto, e vi que ela estava certa. Suas novas roupas cintilavam
como uma miragem sobre sua pele de leopardo. Assim que ela disse, a magia parecia
fina e bvia.
"Vamos tentar chegar ao porto antes do animal de Set," ela disse. "Vai ser mais fcil se
voc guardar suas coisas no Duat."
"O qu?"
"Voc realmente no quer levar essa bolsa no seu brao, quer? Use o Duat como um
cofre."
"Como?"
Bast suspirou. "Honestamente, o que lhe ensinaram sobre magia nesses dias?"
"Tnhamos vinte segundos de treino!"
"Basta imaginar um espao no ar, como uma prateleira ou bolsa do tesouro..."
"Um armrio?" perguntei. "Nunca tive um armrio na escola."
"Muito bem. D para ele uma combinao -- qualquer coisa que queira. Imagine abrir o
armrio com sua combinao. Ento ponha a bolsa dentro. Quando precisar de novo,
basta chamar pela mente, e ir aparecer."
Eu estava incrdulo, mas imaginei um armrio. Dei uma combinao: 13/32/33 --
nmeros retirados dos Lakers, obviamente: Chamberlain, Johnson, Abdul-Jabbar. Tirei
a bolsa de magia do meu pai e deixei-a ir, com certeza que ela iria cair no cho. Ao
invs disso, a bolsa desapareceu.
"Legal," eu disse. "Voc tem certeza que eu posso peg-la novamente?"
"No," Bast disse. "Agora, vamos!"
                                   VINTE E DOIS

             LEROY CONHECE O ARMRIO DA PERDIO

EU NUNCA HAVIA PASSADO PELA SEGURANA com um pssaro de caa vivo
antes. Eu pensei que causaria um pequeno atraso, mas invs disso, os guardas no
colocaram em uma fila especial. Eles chegaram papelada. Bast sorriu um bocado,
flertou com os guardas e disse que eles deviam estar trabalhando muito, e eles nos
liberaram. As espadas de Bast no acionaram o alarme, ento talvez ela tenha as
guardado no Duat. Os guardas nem mesmo tentaram passar Sadie pelo raio-X.
Eu estava recuperando meus sapatos quando escutei um grito do outro lado da
segurana.
Bast amaldioou em egpcio. "Ns fomos devagar demais."
Eu olhei para trs e vi o animal de Set correndo pelo terminal, empurrando os
passageiros para fora do seu caminho. As estranhas orelhas de coelho balanando para
frente e para trs. Espuma escorrendo de seu curvo, dentado focinho, e seu rabo
bifurcado balanando, procurando por alguma coisa para espetar.
"Alce!" uma senhora gritou. "Alce enfurecido!"
Todo mundo comeou a gritar, correndo em diferentes direes e bloqueando a
passagem do animal de Set.
"Alce?" Eu questionei.
Bast deu de ombros. "Nem idia do que os mortais percebem. Agora a idia vai se
espalhar pelo poder da sugesto."
Certeira demais. Mais passageiros comearam a gritar "Alce!" e correr pelo lugar
enquanto o animal de Set empurrava as filas e se enroscava nos fueiros. Funcionrios da
Administrao de Segurana dos Transportes apareceram  frente, mas o animal jogou-
os de lado como bonecas de pano.
"Vamos l!" Bast me disse.
"Eu no posso deixar que ele machuque essas pessoas."
"No podemos par-lo!"
Mas eu no me movi. Eu queria acreditar que Horus estava me dando coragem, ou que
talvez os ltimos dias houvessem finalmente despertado um gene guerreiro adormecido
que eu teria herdado dos meus pais. Mas a verdade era assustadora. Dessa vez, ningum
estava me fazendo tomar essa iniciativa. Eu queria fazer aquilo.
As pessoas estavam em problemas por nossa causa. Eu tinha que consertar isso. Eu senti
o mesmo tipo de instinto que senti quando Sadie precisava da minha ajuda, como se
fosse a hora para eu me impor. E sim, eu estava com medo. Mas tambm sentia que era
o certo.
"V para o porto," eu disse a Bast. "Pegue Sadie. Eu encontro com vocs l."
"O que?! Carter---"
"Vo!" eu me imaginei abrindo meu armrio invisvel: 12/32/33. Eu estiquei minha
mo, mas no para a caixa mgica de papai. Me concentrei em algo que havia perdido
no Luxor. Tinha que estar ali. Por um momento, senti alguma coisa. Ento minha mo
se fechou ao redor de um punho de couro, e eu puxei minha espada de dentro do nada.
Os olhos de Bast se arregalaram. "Impressionante."
"Vo andando." Eu disse. " minha vez de fazer uma interferncia."
"Voc sabe que aquilo vai te matar."
"Obrigado pelos votos de confiana. Agora, circulando!"
Bast saiu em disparada, Sadie se debatendo para continuar de p segurada nela.
Um tiro foi disparado. Eu me virei e o animal de Set espancou um policial que tinha
acabado de atirar na cabea dele sem efeito algum. O pobre policial cambaleou para trs
e derrubou o porto detector de metais.
"Ei, alce!" eu gritei.
O animal de Set ps seus olhos sedentos em mim.
Muito bem! Horus disse. Vamos morrer com honra!
Cala a boca, eu pensei.
Eu olhei para trs para ter certeza que Bast e Sadie estavam fora de viso. Ento me
aproximei da criatura.
"Ento... voc no tem nome?" eu perguntei. "Eles no puderam pensar num feio o
suficiente?"
A criatura grunhiu, pisando sobre o policial inconsciente.
"Animal de Set  difcil de dizer," eu decidi. "Vou te chamar de Leroy."
Aparentemente, Leroy no gostou desse nome. Ele se atirou.
Eu rebati as garras dele e eu dei um jeito de golpe-lo no focinho com a lateral da minha
espada, mas isso quase no o abalou. Leroy se apoiou e investiu de novo, babando,
agitando as garras. Eu ataquei o joelho dele, mas Leroy era muito esperto. Ele esquivou
para a esquerda e cravou os dentes no meu brao livre. Se no fosse pela minha
proteo de couro para o brao, eu poderia ter um brao a menos. As mandbulas do
animal abriram to rpido que isso me ajudou a soltar o brao. Mesmo assim, as pressas
de Leroy continuaram mordendo atravessando o couro. Dor vermelha e quente passou
pelo meu brao.
Eu gritei, e uma injeo de poder passou pelo meu corpo. Eu senti ressurgindo do cho
e a aura dourada do guerreiro guia se formando ao meu redor. A mandbula do animal
se abriu to rpido que ele ganiu e largou meu brao. Eu me mantive agora cercado por
uma barreira mgica duas vezes o meu tamanho normal, e chutei Leroy na parede.
Boa! Disse Horus. Agora despacha essa besta para o mundo inferior!
Quieto, cara. Eu estou fazendo todo o trabalho.
Eu estava vagamente ligado nos seguranas tentando reagrupar, gritando nos seus
walkie-talkies e chamando ajuda. Viajantes ainda estavam gritando e correndo por todo
lugar. Eu ouvi uma garotinha gritar: "Homem-galinha, pegue o alce!"
Voc sabe o quo difcil  se sentir uma mquina de combate falco de cabea branca
quando algum te chama de "homem-galinha"?
Eu levantei minha espada, que agora estava no centro de uma espada de energia de uns
dez metros.
Leroy balanou a areia das suas orelhas em forma de cone, e veio at mim de novo.
Minha forma armada podia ser poderosa, mas tambm era desajeitada e devagar; se
mover era como passar por uma gelia. Leroy rebateu o ataque da minha espada e
pousou no meu peito, me derrubando. Ele era muito mais pesado do que parecia. Seu
rabo e suas garras se chocaram contra minha armadura. Eu peguei seu pescoo com meu
punho brilhante e tentei manter suas garras longe da minha cara, mas em todo lugar que
ele babava, meu escudo mgico assobiava e fumegava. Eu podia sentir meu brao ferido
ficando dormente.
Alarmes soaram. Mais passageiros se juntaram na frente da entrada para ver o que
estava acontecendo. Eu tinha que terminar isso logo--- antes que eu desmaie de dor ou
mais mortais fiquem machucado.
Eu senti minhas foras se esvaindo, meu escudo oscilando. As garras de Leroy estavam
a uma polegada da minha cara, e Horus no estava oferecendo palavras de
encorajamento.
Ento eu pensei no meu armrio invisvel no Duat. Imaginei se outras coisas podiam ser
postas l, tambm... grandes, coisas ms.
Eu fechei minhas mos ao redor da garganta de Leroy e encaixei meu joelho contra o
quadril dele. Ento eu imaginei uma aberta no Duat--- no ar sobre mim: 13/32/33.
Imaginei meu armrio abrindo o mais largo que podia.
"Pra onde  que foi?" algum gritou.
"Ei, garoto!" outro cara chamou. "Voc est bem?"
Meu escudo de energia se foi. Eu queria desmaiar, mas eu tinha que ir antes que os
caras da segurana chegassem para me prender por ter lutado contra o alce. Eu fiquei de
p e joguei minha espada no teto. Ela desapareceu no Duat. Ento eu amarrei a proteo
de couro em volta do meu brao sangrando o melhor que pude e corri para os portes.
Eu alcancei nosso voou no momento em que eles fechavam o porto.
Aparentemente, coisas sobre o incidente do homem-galinha no tinha se espalhado
ainda. A agente do porto gesticulou para alm do balco de entrada enquanto pegava
meu tquete. "O que  todo aquele barulho l em cima?"
"Um alce passou pela segurana," eu disse. "Est sob controle agora." Antes que ela
pudesse fazer alguma pergunta, eu corri para o avio.
Eu colidi com o meu assento do lado de Bast no corredor. Sadie, ainda em forma de
papagaio, estava descansando na poltrona perto de mim.
Bast deixou um grande sinal de alvio. "Carter, voc conseguiu! Mas voc est ferido. O
que houve?"
Eu contei para ela.
Os olhos de Bast se espantaram. "Voc colocou o animal de Set no seu armrio? Voc
sabe quanta fora  preciso para isso?"
"Sim," eu disse. "eu estava l."
A atendente de voou comeou a fazer os anncios. Aparentemente, o incidente de
segurana no afetou nosso voou. O avio se separou do porto a tempo.
Eu me dobrei de dor, e s ento Bast percebeu o quanto meu brao estava ruim. Sua
expresso ficou severa.
"Segura ai." Ela sussurrou alguma coisa em egpcio, e meus olhos comearam a ficar
pesados.
"Voc vai precisar descansar para curar esse ferimento." Ela disse.
"Mas se Leroy voltar---"
"Quem?"
"Nada."
Bast me estudou como se estivesse me vendo pela primeira vez. "Isso foi
extraordinariamente bravo, Carter. Enfrentando o monstro de Set--- voc tem mais jeito
do que imagina."
"hmn... obrigado?"
Ela sorriu e tocou minha testa. "Ns vamos estar no ar em breve, me guerreiro. Durma."
Eu no pude me opor. Exausto me tomou e eu fechei meus olhos.
Naturalmente minha alma decidiu fazer uma viajem.
Eu estava na forma ba, circulando sobre Phoenix. Era uma manh de inverno brilhante.
A brisa do deserto passava legal sob minhas asas. A cidade parecia diferente  luz do
dia--- uma vasta rede de praas bege e verde dotadas com palmeiras e piscinas.
Montanhas altas se viam ali e aqui como crateras na lua. A montanha mais proeminente
estava logo a minha frente--- uma longa serra com dois picos distantes. O que o minion
de Set invocou na minha primeira visita astral? Montanha Camelback.
Seu sop estava repleto de casas luxuosas, mas o topo era estril. Alguma coisa
capturou minha ateno: uma abertura entre dois grandes pedregulhos e uma fagulha de
calor vindo do fundo da montanha--- coisa que olho humano nenhum poderia perceber.
Eu dobrei minhas asas e mergulhei para a fenda.
Ar quente soprou com tanta fora que eu tive que me forar para passar. Por volta de
cinqenta metros para baixo, a abertura abriu, e eu me vi num lugar que simplesmente
no podia existir.
Todo o interior da montanha havia sido cavado. No meio da caverna, uma pirmide
estava sob construo. O ar estava preenchido com o som de picaretas. Vrios demnios
cortando calcrio vermelho-sangue em blocos e rebocando-os no meio da caverna, onde
mais demnios usaram cordas e rampas para colocar os blocos no lugar, do jeito que
meu pai disse que as pirmides de Gize foram construdas. Mas as de Gize levaram tipo,
vinte anos cada para serem terminadas. Essa pirmide j estava metade construda.
Havia alguma coisa estranha sobre isso, tambm---e no s a cor vermelha-sangue.
Quando eu olhei para ela, senti um formigamento familiar, como se toda a estrutura
estivesse sussurrando num tom... no, numa voz que eu quase reconheci.
Eu percebi uma pequena forma flutuando sobre a pirmide--- uma barcaa de junco
como a canoa de Unde Amos. Na sua proa, duas figuras. Uma era um demnio grande
em armadura de couro. A outra era um homem corpulento em uma roupa de combate
vermelha.
Eu circulei mais perto, tentando ficar nas sombras porque eu no tinha certeza se eu era
realmente invisvel. Eu pousei no topo do mastro. Era uma manobra arriscada, porm
nenhum dos ocupantes do barco olhou para cima.
"Quanto tempo ainda?" perguntou o homem de vermelho.
Ele tinha a voz de Set, mas parecia completamente diferente do que estava na minha
ltima viso. Ele no era uma coisinha preta qualquer, e nem estava pegando fogo---
exceto pela mistura assustadora de dio e diverso queimando em seus olhos. Ele tinha
um grande corpo como um linebacker, com mos carnudas e um rosto brutal. Seu
cabelo curto ouriado e a barba aparada eram to vermelhos quanto seus trajes de
combate. Eu nunca vi camuflagem daquela cor antes. Talvez ele estivesse planejando se
esconder num vulco.
Prximo a ele, o demnio se curvou em reverncia. Era o cara p-de-galo mais estranho
que eu j tinha visto. Ele tinha pelo menos sete ps de altura e magro como um
espantalho, com poleiro por ps. E infelizmente, dessa vez eu pude ver seu rosto. Era
quase horrvel demais para descrever. Voc sabe aquelas exibies de anatomia onde
eles mostram corpos mortos sem pele? Imagine uma dessas caras... viva. Apenas com
slidos olhos negros e mandbulas.
"Estamos fazendo um excelente progresso, mestre!" o demnio prometeu. "Ns
conjuramos mais uns sem demnios hoje. Com sorte, teremos terminado ao pr-do-sol
do seu aniversrio!"
"Isto  inadmissvel, Face do Horror." Set disse calmamente.
O servo vacilou. Eu adivinhei que seu nome fosse Face do Horror. Fiquei imaginando
quanto tempo a me dele levou pensando nisso. Bob? No. Sam? No. Que tal Face do
Horror?
"M---mas, mestre," Face gaguejou. "Eu pensei---"
"No pense, demnio. Nossos inimigos so mais engenhosos do que eu havia previsto.
Ele desabilitaram, temporariamente, meu filhote favorito e agora aceleram atrs de ns.
Devemos terminar antes de eles chegarem. Nascer do sol do meu aniversrio, Face do
Horror. No mais que isso. Ser o amanhecer do meu novo reino. Eu vou escorraar
toda vida desse continente, e essa pirmide deve permanecer como um monumento ao
meu poder--- a ltima e eterna tumba de Osris!"
Meu corao quase parou. Eu olhei para baixo a pirmide de novo, e percebe porque
parecia familiar. Havia uma energia nela, a energia do meu pai. Eu no sei explicar
como, mas eu sabia que seu sarcfago estava escondido em algum lugar dentro daquela
pirmide.
Set sorriu cruelmente, como se ele fosse ficar feliz em ter Face o obedecendo ou
retalhando Face em pedaos. "Voc entendeu minha ordem?"
"Sim, senhor!" Face do Horror deslocou se p de ave, como se estivesse construindo
sua coragem. "Mas posso perguntar, lord... por que parar l?"
As narinas de Set inflaram. "Voc est a um passo da destruio, Face do Horror.
Escolha suas prximas palavras com cuidado."
O demnio correu sua lngua preta pelos dentes. "Bem, meu senhor, a aniquilao de
apenas um deus digno de seu glorioso poder? E se ns pudemos criar ainda mais energia
do caos--- para alimentar sua pirmide por todo tempo e fazer de voc o senhor de todos
os mundos?"
Uma luz faminta danou nos olhos de Set. "Senhor de todos os mundos'... isso soa
muito bem. E como voc faria isso, dbil demnio?"
"Os, no eu, meu senhor. Eu sou um verme insignificante. Mas se ns capturssemos os
outros: Nefertide---"
Set chutou Face no peito, e o demnio caiu, chiando. "Eu disse para voc nunca falar o
nome dela."
"Sim, mestre," Face ofegou. "Desculpa mestre. Mas se ns a capturarmos, e os outros...
pense no poder que voc poderia consumir. Com o plano certo."
Set comeou a concordar, de acordo com a idia. "Eu acho que est na hora de colocar
Amos Kane em uso."
Eu retesei. Amos estava aqui?
"Brilhante, mestre. Um plano brilhante."
"Sim, fico feliz em ter pensado nisso. Em breve, Face do Horror, muito em breve,
Horus, Isis, e minha preciosa esposa se curvaro perante mim--- e Amos vai ajudar. Ns
teremos uma pequena reunio de famlia."
Set olhou para cima--- direto para mim, como se ele soubesse que eu estava l o tempo
todo, e me deu o sorriso te-fao-em-pedaos. "No  isso, garoto?"
Eu queria abrir minhas asas e voar. Eu tinha que sair da caverna e alertar Sadie. Mas
minhas asas no funcionavam. Eu fiquei l paralisado enquanto Set escalava para me
pegar.
                                   VINTE E TRS

                O EXAME FINAL DO PROFESSOR THOTH

SADIE AQUI. DESCULPEM PELO DELAY, embora eu suponha que no d pra notar
numa gravao. Meu super-gil irmo deixou cai o microfone num pote cheio de... oh,
deixa pra l. De volta  histria.
Carter acordou com um grande comeo, ele bateu os joelhos na bandeja com bebidas, o
que foi divertido.
"Dormiu bem?" perguntei.
Ele piscou para mim em confuso. "Voc  humana."
"Que gentileza sua notar."
Eu peguei outro pedao de pizza. Eu nunca havia comido pizza de um prato chins ou
bebido Coca num copo de vidro (com gelo ao menos--- Americanos so antiquados),
mas eu estava aproveitando a primeira classe.
"Eu mudei de volta h uma hora." Limpei minha garganta. "foi... ah... de ajuda, o que
voc disse sobre focar no que  importante."
Estranho dizer tudo isso, pelo que eu me lembro tudo que ele disse quando eu estava em
forma de papagaio sobre as viagens com papai--- como ele ficou perdido no subsolo,
ficou preso em Veneza, gritou como um beb quando ele achou um escorpio na meia.
Tanta munio para importun-lo, mas estranhamente eu no estava afim. A maneira
como ele ps pra fora a alma... Talvez ele achasse que eu no o entendia em forma de
papagaio--- mas ele foi to honesto, to desarmado, e ele fez tudo s para me acalmar.
Se ele no tivesse me dado alguma coisa para se concentrar, eu ainda estaria,
provavelmente, caando ratos do campo sobre o Potomac.
Carter havia falado sobre papai como se eles tiverem viajado juntos tivesse sido uma
grande coisa, sim, mas tambm um pouco chato, com Carter sempre lutando para
agradar e estar em seu melhor comportamento, sem ningum para relaxar, ou conversar.
Papai era eu tinha que admitir uma presena. Voc dificilmente no iria querer sua
aprovao. (Sem dvida foi assim que eu peguei minha prpria deslumbrante
personalidade carismtica.) Eu o via apenas duas vezes num ano, e mesmo assim eu
tinha que me preparar mentalmente para a experincia. Pela primeira vez, eu comecei a
analisar se Carter realmente tinha a melhor moeda de barganha. Ser que eu iria querer
trocar minha vida pela dele?
Eu tambm decidi no contar a ele o que me transformou de volta em humano. Eu no
me concentrei totalmente em papai. Imaginei mame viva, nos imaginei juntas andando
Rua Oxford abaixo, admirando as vitrines e conversando e rindo--- o tipo de dia normal
que nunca partilhamos. Um desejo impossvel, eu sei. Mas foi poderoso suficiente para
me lembrar quem eu era.
No disse nada disso, mas Carter estudou meu rosto, e eu senti que ele pegou meus
pensamentos bem demais.
Tomei um gole de Coca. "Voc perdeu o lanche, por sinal"
"Voc no tentou me acordar?"
Do outro lado do corredor, Bast arrotou. Ela tinha acabado o prato de salmo e parecia
bastante satisfeita. "Eu podia invocar mais Friskies" ela ofereceu. "Ou sanduches de
queijo."
"No obrigado." Carter murmurou. Ele parecia arrasado.
"Deus, Carter." Eu disse. "Se  to importante assim pra voc, eu tenho um pouco de
pizza sobran---"
"No  isso." Ele falou. E nos contou como seu ba quase foi capturado por Set.
As novidades me deram problemas pra respirar. Senti como se estivesse presa em forma
de papagaio de novo, incapaz de pensar claramente. Papai preso em uma pirmide
vermelha? Pobre Amos usado como um tipo de peo? Olhei para Bast procurando por
alguma garantia. "Tem alguma coisa que a gente possa fazer?"
Sua expresso era cruel. "Sadie, eu no sei. Set ser mais poderoso no dia de seu
nascimento, e o nascer do sol  o melhor momento para mgica. Se ele puder gerar uma
grande exploso de energia ao pr do sol nesse dia--- usando no s sua mgica, mas
combinando a com o poder de outros deuses que ele escravizou... a quantidade de caos
que ele pode liberar  quase inimaginvel." Ela tremeu. "Carter, voc diz que um
simples demnio deu essa idia para ele?"
"Soou assim," disse Carter. "Ou ele tomou o plano original, de todo jeito."
Ela balanou a cabea. "No se parece com Set."
Eu tossi. "O que voc quer dizer?  exatamente como ele."
"No," ela insistiu. "Isso  horrendo, at mesmo para ele. Set deseja ser rei, mas tal
exploso no deve deixar nada para ele mandar.  quase como se..." Ela parou a si
mesma, o pensamento pareceu muito perturbador. "Eu no entendo, mas ns vamos
aterrissar em breve. Vocs devem perguntar a Thoth."
"Voc fala como se voc no viesse." Eu falei.
"Thoth e eu no nos damos muito bem. Suas chances de sobreviver devem ser melhor---
"
A luz do cinto de segurana acendeu. O capito anunciou que ns comeamos a nossa
descida para Memphis. Eu espie pela janela e vi um longo rio marrom cortando a vista--
- um rio mais largo que qualquer outro que eu tenha visto. Aquilo me lembrou
infelizmente de uma cobra gigante.
A atendente de voou apareceu e apontou para o meu prato. "Acabou querida?"
"Parece que sim." Eu contei para ela sombriamente.
Memphis no deve ter ouvido que era inverno. As rvores eram verdes e o cu azul
brilhante.
Ns insistimos para Bast no "pegar emprestado" um carro dessa vez, ento ela
concordou em alugar um desde que ela pegasse um conversvel. Eu no perguntei onde
ela conseguiu o dinheiro, mas logo ns estvamos cruzando atravs da mais deserta rua
de Memphis com nosso BMW top de linha.
Eu lembro s de poucas imagens da cidade. Ns passamos por um bairro que devia ser
um set de E o Vento Levou--- grandes manses brancas com os gramados sombreados
por rvores ciprestes, apesar de o Papai Noel de plstico, no estragou o visual. Na outra
quadra, quase fomos mortos por uma velhinha que dirigindo um Cadillac pra fora do
estacionamento de uma Igreja. Bast desviou e buzinou, e a mulher apenas sorriu e
acenou. Hospitalidade sulista, eu suponho.
Depois de mais algumas quadras, as casas se tornaram barracos. Eu vi dois garotos afro-
americanos usando jeans e camisetas, sentados na varanda, tocando violo e cantando.
Era to bonito o som que eu fiquei tentada a parar.
Na prxima esquina ficava um restaurante de alvenaria com uma placa pintada a mo
onde se lia galinha & waffles. Havia uma fila de vinte pessoas do lado de fora.
"Vocs Americanos tem os gostos mais estranhos. Que planeta  esse?" eu perguntei.
Carter apenas balanou a cabea. "E onde estaria Thoth?"
Bast farejou o ar e virou a esquerda numa rua chamada Poplar. "Estamos chegando
perto. Se eu conheo Thoth, ele vai achar um centro de aprendizado. Uma livraria,
talvez, ou um esconderijo de livros numa tumba de mago."
"No tem muitos desses no Tennessee" Carter adivinhou.
Ento eu vi uma placa e falei brilhante. "A Universidade de Memphis, talvez?"
"Muito bem, Sadie!" Bast ronronou.
Carter fez cara pra mim. O pobre garoto ficou com cimes, sabe.
Poucos minutos depois, ns estvamos passeando pelo campus de um pequeno colgio:
prdios de tijolos vermelhos e gramados amplos. Estava estranhamente quieto, exceto
pelo som de uma bola ecoando no concreto.
Assim que Carter ouviu, ele se animou. "Basquete!"
"Oh, por favor." Eu disse. "Ns temos que achar Thoth."
Mas Carter seguiu o som da bola e ns o seguimos. Ele virou a esquina de um prdio e
parou. "Vamos perguntar a eles."
No entendi o que ele queria. At que virei  esquina e congelei. Na quadra, cinco
jogadores estavam no meio de um jogo intenso. Eles usavam camisetas de diferentes
times da America, e todos pareciam desesperados para ganhar--- rosnando e grunhindo
uns para os outros, roubando a bola e socando.
Oh... e todos os jogadores eram babunos.
"O animal sagrado de Thoth." Bast disse. "Ns devemos estar no lugar certo."
Um dos babunos tinha cabelos dourados, mais lustrosos que os outros, e, er, um
traseiro mais colorido. Ele usava uma camisa roxa estranhamente familiar.
"Aquilo ... uma camiseta do Lakers?" perguntei, hesitando at mesmo nomear a
obsesso infantil de Carter.
Ele concordou e ns dois sorrimos.
"Khufu!" gritamos.
Verdade, ns mal conhecamos o babuno. Passamos menos de um dia com ele, e nossa
estadia na manso de Amos parecia como anos atrs, mas eu ainda sentia que ns
reencontramos um amigo de longa data.
Khufu pulou para os braos e latiu pra mim. "Agh! Agh!" Ele mexeu no meu cabelo,
procurando por insetos, eu acho [Nenhum comentrio seu, Carter!], e desceu para o
cho, batendo no piso pra mostrar o quo contente ele estava.
Bast riu. "Ele diz que voc cheira como flamingos."
"Voc fala babuno?" Carter perguntou.
A deusa concordou. "Ele tambm quer saber por onde vocs andaram."
"Onde ns estvamos?" eu disse. "Bom, primeiro, diga a ela que eu passei a maior parte
do dia como papagaio, que no  um flamingo e no termina em o (DESCULPA,
MAS ESSA PARTE VAI TER QUE FICAR PRA QUEM REVISA) portanto no se
encaixa na dieta dele. Segundo---"
"Espera ai." Bast se virou para Khufu e disse. "Agh!" Ento ela olhou de volta pra mim.
"Muito bem, v em frente."
Eu pisquei. "Okay... hmn, e segundo, onde ele esteve?"
Ela relatou isso em um nico grunhido.
Khufu aspirou e agarrou a bola de basquete, o que ps seus amigos babunos em um
frenesi de latidos e arranhes e rosnados.
"Ele mergulhou no rio e nadou de volta." Bast traduziu, "mas quando retornou, a casa
estava destruda e ns tnhamos ido. Ele esperou um dia Amos voltar, mas ele nunca o
fez. Ento Khufu foi at Thoth. Os babunos esto sob sua proteo desde ento."
"Por que isso?" Carter perguntou. "Quero dizer, sem ofensa, mas Thoth  o deus do
conhecimento, certo?"
"Babunos so animais muito sbio." Disse Bast.
"Agh!" Khufu pegou seu nariz, ento virou seu bumbum Multicolorido em nossa
direo. Ele jogou a bola para seus amigos. Eles comearam a brigar por ela, mostrando
uns aos outros suas garras e estapeando suas cabeas.
"Espertos?" perguntei.
"Bem, eles no so gatos, imagina." Bast acrescentou. "Mas, sim, espertos. Khufu disse
que assim que Carter cumprir sua promessa, ele os levar ao professor."
Eu pisquei. "O prof--- oh, voc quer dizer... certo."
"Que promessa?" Perguntou Carter.
O canto da boca de Bast virou. "Aparentemente, voc prometeu mostrar a Khufu suas
habilidades no basquete."
Os olhos de Carter se abriram em espanto. "Ns no temos tempo!"
"Oh, tudo bem." Bast prometeu. " melhor eu ir agora."
"Mas pra onde, Bast?" perguntei, j que eu no estava ansiosa para ser separada dela
novamente. "Como ns vamos ach-la?"
O olhar dela mudou para uma coisa como culpa, como se ela tivesse causado um terrvel
acidente. "Eu acharei voc quando voc sair, se voc sair..."
"O que voc quer dizer?" Carter perguntou, mas Bast j havia se transformado em
Muffin e correu.
Khufu latiu para Carter insistentemente. Ele pegou a mo dele, puxando o para a
quadra. Os babunos imediatamente se dividiram em dois times. Metade tirou suas
camisetas, metade ficou com elas. Carter, infelizmente, estava no time sem camiseta, e
Khufu ajudou o a tirar sua camisa expondo o peito ossudo. Os times comearam a jogar.
Agora, eu no sei nada de basquete. Mas certamente um no devia subir no ombro do
outro, ou pegar um passe com a testa de outro, ou driblar ( essa a palavra?) com ambas
as mos como se acariciasse um possvel co raivoso. Mas esse era exatamente o jeito
que Carter jogou. Os babunos simplesmente o baniram, literalmente. Eles marcaram
cesta aps cesta enquanto Carter ia e vinha, sendo atingido pela bola sempre que ela
chegava para ele, tropeando nos babunos at estar to tonto que agarrou os joelhos e
caiu. Os babunos pararam e assistiram em descrena. Carter deitou no meio da quadra,
coberto de suor e ofegando. Os outros babunos olharam para Khufu. Era bvio que eles
estavam pensando: Quem convidou esse humano? Khufu cobriu os olhos em vergonha.
"Carter" eu disse com alegria, "toda aquela conversa sobre basquete e os Lakers, e voc
 absolutamente um lixo! Derrotado pelos macacos!"
Ele gemeu miservel. "Era... era o jogo favorito de papai."
Eu o encarei. O jogo favorito de papai. Deus, por que isso no me ocorreu antes?
Aparentemente ele pegou minha expresso abobalhada como crtica.
"Eu... eu posso dizer pra voc qualquer estatstica da NBA que voc quiser." Ele disse
um pouco desesperado. "Rebotes, assistncias, porcentagem de lances livres."
Os outros babunos voltaram para seu jogo, ignorando tanto Carter quanto Khufu.
Khufu deixou escapar um som de desgosto, meio brincadeira, meio chateado.
Eu entendi o sentimento, mas eu fui para frente e ofereci minha mo para Carter.
"Vamos l. No importa."
"Se eu tivesse tnis melhores" ele suspirou. "Ou se eu no estivesse to cansado---"
"Carter," eu disse com um sorriso. "No importa. E eu no vou pronunciar uma palavra
para Papai quando o salvarmos."
Ele olhou pra mim com bvia gratido. (Bom, eu sou mais linda, depois de tudo.) Ai ele
pegou minha mo e eu o levantei.
"Agora, pelo amor de Deus, coloque a camiseta." Eu disse. "E Khufu, t na hora de
voc nos levar para o professor."
Khufu nos levou para um prdio de cincias deserto. O ar nos corredores cheirava a
vinagre, e os laboratrios vazios pareciam com um colegial Americano, no o tipo de
lugar que um deus passaria o tempo. Subimos as escadas e achamos uma fileira de
escritrios de professores. Maior parte das portas estava fechada. Uma havia sido
deixada aberta, revelando um espao to grande quanto um armrio de vassouras cheio
de livros, uma mesinha e uma cadeira. Fiquei imaginando se aquele professor tinha feito
alguma coisa ruim pra merecer um escritrio to pequeno.
"Agh!" Khufu parou em frente a uma porta de mogno polida, mais legal que as outras.
Um novo nome estampado brilhava no vidro: Dr.Thoth.
Sem bater, Khufu abriu a porta e entrou.
"Depois de voc, homem galinha." Eu disse para Carter. (E sim, tenho que ele estava
arrependido de ter me contado aquele incidente em particular. Depois de tudo, eu no
podia parar de importun-lo completamente. Tinha uma reputao a zelar.)
Eu esperava outro armrio de vassouras. Invs disso, o escritrio era impossivelmente
grande.
O teto subia pelo menos dez metros, com um lado do escritrio todas as janelas
deixavam ver o horizonte de Memphis. Escadas de metal levavam para um sto
dominado por um enorme telescpio, e de algum lugar de l veio um som de uma
guitarra sendo toca bem ruinzinha. As outras paredes do escritrio estavam repletas de
prateleiras. Mesas de trabalho cheias de bugigangas--- conjuntos de qumica,
computadores semi-montados, animais empalhados com fios eltricos saindo de suas
cabeas. A sala cheirava a carne assada, mas com um cheiro de fumaa que eu nunca
havia sentido.
Mais estranho de tudo, bem na nossa frente, meia dzia de aves de pescoo grande---
ibises--- sentados atrs das mesas como recepcionistas, digitando em laptops com seus
bicos.
Carter e eu olhamos um para o outro. Pela primeira vez eu estava sem palavras.
"Agh!" Khufu chamou.
A cima, no sto, a guitarra parou. Um homem magro com seus vinte parou com a
guitarra na mo. Ele tinha uma juba rebelde de cabelo louro, como Khufu, e ele usava
um jaleco branco de laboratrio, jeans e uma camiseta preta. A princpio achei que
sangue estava escorrendo no canto da boca dele. Ento percebi que era um tipo de
molho de carne.
"Fascinante." Ele falou em um sorriso largo. "Eu descobri uma coisa, Khufu. Esta no 
Memphis, Egito."
Khufu me deu uma olhada de lado, e eu podia jurar que sua expresso significava: Duh.
"Tambm descobri uma nova forma de mgica chamada Blues." O homem continuou.
"E costelas. Sim, voc deve experimentar as costelas."
Khufu pareceu nada impressionado. Ele subiu no topo de uma estante, pegou uma caixa
de Cheerios, e comeou a mastigar.
O guitarrista deslizou pelo balaustre com perfeio e pousou a nossa frente. "Isis e
Horus." Ele disse. "Vejo que vocs conseguiram novos corpos."
Seus olhos eram de uma dzia de cores, mudando como um caleidoscpio, com efeito
hipntico.
Eu consegui balbuciar. "Hmn, ns no somos---"
"Oh, entendo." Ele disse. "Tentando partilhar o corpo, no ? No pense que eu fui
enganado por um minuto, Isis. Eu sei que voc est no comando."
"Mas ela no est!" eu protestei. "Meu nome  Sadie Kane. Presumo que seja Thoth?"
Ele levantou uma sobrancelha. "Voc diz no me conhecer? Claro que eu sou Thoth.
Tambm chamado de Djehuti. Tambm chamado---"
Eu segurei uma risada. "Ja-hooty?"
Thoth pareceu ofendido. "Em Egpcio Antigo,  um nome perfeito. Os gregos me
chamaram de Thoth. Ento depois me confundiram com seu deus Hermes. Tiveram at
a audcia de re-nomear minha cidade sagrada de Hermopolis, mesmo que ns no
sejamos nada parecidos. Acredite, se voc algum dia conhecer Hermes---"
"Agh!" Khufu gritou atravs de uma boca cheia de Cheerios.
"Tem razo," Thoth concordou. "Estou perdendo o foco. Ento voc diz ser Sadie Kane.
E..." ele balanou um dedo para Carter, que estava vendo os Ibises teclarem nos seus
laptops. "Suponho que voc no  Horus."
"Carter Kane." Disse Carter, ainda distrado pelas telas dos Ibises. "O que  aquilo?"
Thoth brilhou. "Sim, eles so chamados computadores. Maravilhosos, no so?
Aparentemente---"
"No, eu quero dizer o que os pssaros esto digitando?" Carter se aproximou e leu de
uma tela. "'Um breve Tratado sobre a Evoluo dos Yaks'?"
"Meus textos acadmicos." Thoth explicou. "Eu tento manter vrios projetos ao mesmo
tempo. Por exemplo, voc sabia que essa Universidade no tem mestre em Astrologia
ou Medicina? Chocante! Minha inteno  mudar isso. Estou renovando novas matrizes
agora, mais embaixo no rio. Logo Memphis ser um verdadeiro centro de aprendizado!"
"Isso  brilhante," eu disse meio tocada. "Precisamos de ajuda para derrotar Set."
Os Ibises pararam de digitar e me encararam.
Thoth limpou o molho de costela da boca. "Voc tem o despeito de pedir isso depois da
ltima vez?"
"ltima vez?" eu repeti.
"Eu tenho o contrato aqui em algum lugar..." Thoth deu umas palmadinhas no jaleco.
Ele puxou um pedao velho de papel e leu. "No, lista do supermecado."
Ele a jogou por sobre o ombro. Assim que o papel tocou o cho se transformou em po
de trigo, uma jarra de leite, e um pacote com seis Mountain Dew.
Thoth olhou suas mangas. Percebi que as manchas no jaleco eram palavras manchadas,
impressas em todas as lnguas. As manchas mudavam e moviam, formando hierglifos,
letras em ingls, smbolos demticos. Ele limpou uma mancha da lapela e sete letras
flutuaram para o cho, formando uma palavra: crawdad. A palavra se transformou em
um crustceo pegajoso, como um camaro, que agitou as pernas por um momento
apenas antes de um Ibis varr-lo.
"Ah, esqueam." Thoth disse. "Vou s contar a verso curta: Para vingar seu pai, Osris,
Horus desafiou Set para um duelo. O ganhador se tornaria rei dos deuses."
"Horus ganhou." Carter disse.
"Voc se lembra!"
"No, eu li sobre isso."
"E voc se lembra que sem minha ajuda, Isis e voc teriam morrido? Oh, eu tentei
mediar uma soluo para prevenir a batalha. Esse  um dos meus deveres, voc sabe:
manter balanceados a ordem e o caos. Mas no, Isis me convenceu a ajudar o seu lado
porque Set estava ficando muito poderoso. E a batalha quase destruiu o mundo."
Ele aumenta demais, Isis disse dentro da minha cabea. No foi to ruim assim.
"No?" Ele gritou, e eu tive a sensao de que ele podia ouvir a voz to bem quanto eu.
"Set arrancou os olhos de Horus."
"Ai" Carter piscou.
"Sim, e eu os recoloquei com novos olhos feitos da lua cheia. O Olho de Horus--- seu
smbolo famoso. Aquilo foi eu, muito obrigado. E quando voc arrancou a cabea de
Isis---"
"Espera ai." Carter olhou para mim. "Eu cortei a cabea dela?"
Eu fiquei melhor, Isis me assegurou.
"Apenas porque eu curei voc, Isis!" Thoth disse. "E sim, Carter, Horus, seja l o que
for, voc foi imprudente, cortou a cabea dela fora. Voc foi negligente, v--- sobre
atacar Set enquanto voc ainda estava muito fraco, e Isis tentou te para. Aquilo te
deixou to irado que voc pegou sua espada--- bom, a questo  que vocs quase se
destruram antes mesmo de poder derrotar Set. Se vocs comearam outra briga com o
Lord Vermelho, cuidado. Ele usar caos para jogar vocs um contra o outro."
Ns o derrotaremos de novo, Isis prometeu. Thoth s est com cimes.
"Cale a boca." Thoth e eu dissemos ao mesmo tempo.
Ele olhou pra mim, surpreso. "Ento, Sadie... voc est tentando ficar no controle. No
vai durar. Voc pode ser sangue dos faras, mas Isis  uma enganadora, fome de poder--
-"
"Eu posso cont-la" eu disse, e eu tive que usar toda minha fora de vontade para Isis
no explodir vrios insultos.
Thoth mexeu nos trastes da guitarra. "No tenha tanta certeza. Isis provavelmente te
disse que ela ajudou a derrotar Set. Ela tambm contou que foi a razo para Set ficar
fora de controle a princpio? Ela exilou nosso primeiro rei."
"Voc diz Ra?" Carter disse. "Ele no ficou velho e decidiu deixar a terra?"
Thoth suspirou. "Ele estava velho, mas foi forado a partir. Isis ficou cansada de esperar
por ele se aposentar. Ela queria que seu marido, Osris, se tornasse rei. Ela tambm
queria mais poder. Ento um dia, enquanto Ra estava tirando um cochilo, Isis
secretamente coletou um pouco da baba do deus sol."
"Eww," eu disse. "Desde quando baba te torna poderoso?"
Thoth fez careta para acusadoramente. "Voc misturou argila e cuspe para fazer uma
cobra venenosa. Aquela noite, a serpente entrou no quarto de Ra e o mordeu no
tornozelo. Nenhum tipo de mgica podia salv-lo, nem mesmo a minha. Ele teria
morrido---"
"Deuses podem morrer?" Carter perguntou.
"Oh, sim." Thoth disse. "Claro que na maioria das vezes ns ressurgimos do Duat. Mas
esse veneno foi no fundo do ser de Ra. Isis,  claro, agiu inocentemente. Ela chorou ao
ver Ra com dor. Tentou at ajudar com sua mgica. Finalmente ela contou a Ra que s
havia um jeito de salv-lo: Ra devia contar a ela o seu nome secreto."
"Nome secreto?" perguntei. "Tipo Bruce Wayne?"
"Tudo na criao tem um nome secreto." Thoth disse. "At os deuses. Saber o nome
secreto de um ser  tem poder sobre aquela criatura. Isis prometeu que com o nome
secreto de Ra ela podia o salvar. Ra estava com tanta dor que concordou. E Isis o
curou."
"Mas aquilo a deu poder sobre ele." Carter sups.
"Poder extremo." Thoth concordou. "Ela forou Ra a se retirar para os cus, abrindo
caminho para seu amado, Osris, se tornar o novo rei dos deuses. Set foi um importante
tenente para Ra, mas ele no pde ver seu irmo assumir o poder. Ai Set e Osris
viraram inimigos, e aqui estamos ns cinco milnios depois, ainda lutando essa guerra,
tudo por causa de Isis."
"Mas isso no foi minha culpa!" eu disse. "Eu nunca faria tal coisa."
"No faria?" Thoth perguntou. "Voc no faria qualquer coisa para salvar sua famlia,
mesmo que isso perturbasse a balana do cosmos?"
Seus olhos de caleidoscpio olharam os meus, e eu senti uma onda de desconfiana.
Bom, por que eu no iria ajudar minha famlia? Quem era esse em um jaleco de
laboratrio me dizendo o que eu posso e no posso fazer?^
Ento percebi que eu no sabia quem estava pensando aquilo: Isis ou eu. Pnico
comeou a crescer no meu peito. Se eu no podia distinguir meus pensamentos dos de
Isis, quanto tempo at eu ficar completamente maluca?
"No, Thoth," eu ralhei. "Voc tem que acreditar em mim. Eu estou no comando--- eu,
Sadie--- e preciso da sua ajuda. Set tem nosso pai."
Eu deixei tudo sair, ento--- tudo desde o Museu Britnico at a viso de Carter da
Pirmide Vermelha. Thoth ouviu tudo sem comentar, mas eu pude jurar que novas
manchas apareciam no seu jaleco enquanto eu falava, como se minhas palavras
estivessem sendo adicionadas  mistura.
"Apenas d uma olhada numa coisa pra ns." Eu terminei. "Carter, mostre o livro."
Carter remexeu na bolsa e trouxe de dentro o livro que ns roubamos em Paris. "Voc
escreveu isso, certo?" ele disse. "Isso conta como derrotar Set."
Thoth folheou as pginas de papiro. "Oh, querida. Odeio ler meu antigo trabalho. Olhe
esta sentena. Eu nunca  escreveria assim agora." Ele bateu nos bolsos do jaleco.
"Caneta vermelha, algum tem uma?"
Isis insistiu contra minha fora de vontade, para que ns colocssemos algum senso em
Thoth. Uma bola de fogo, ela implorou. Apenas uma enorme bola de fogo mgica, por
favor?
No posso dizer que no fiquei tentada, mas a mantive sobre controle.
"Olhe Thoth" eu disse. "Ja-hooty, que seja. Set est para destruir a Amrica do Norte no
mnimo, possivelmente o mundo. Milhes vo morrer. Voc disse que se importa com
balana. Vai nos ajudar ou no?"
Por um momento o nico som eram os bicos dos Ibises teclando.
"Voc est encrencada." Thoth concordou. "Ento me deixe perguntar, por que voc
acha que o seu te colocou nessa situao? Por que ele libertou os deuses?"
Eu quase disse, Para trazer mame de volta. Mas eu no acreditava mais nisso.
"Minha me viu o futuro." Supus. "Alguma coisa ruim estava vindo. Acho que ela e
papai estavam tentando impedir. Eles achavam que o nico jeito era libertando os
deuses."
"Mesmo pensar em usar o poder dos deuses  incrivelmente perigoso para mortais."
Thoth constatou. "e contra a lei da Casa da Vida--- uma lei que eu convenci Iskandar a
fazer, por sinal."
Eu me lembrei de uma coisa que o velho Chefe Lector me disse no Saguo das Eras.
"Deuses tm grande poder, mas apenas humanos tm criatividade." "Eu acho que minha
me convenceu Iskandar de que a regra estava errada. Talvez ele no pudesse admitir
isso publicamente, mas ela o fez mudar de idia. No importa o que est vindo,  muito
mal. Deuses e mortais precisaro uns dos outros."
"E o que est vindo?" Thoth perguntou. "A Ascenso de Set?" Seu tom era irnico,
como um professor tentando um truque.
"Talvez," eu disse cuidadosamente. "mas eu no sei."
No topo da prateleira, Khufu grunhiu. Ele raspou as garras numa barra de ferro.
"Voc tem l razo, Khufu." Thoth murmurou. "Ela no soa como Isis. Isis nunca
admitiria que no soubesse de uma coisa."
Eu tive que manter uma mo mental sobre a boca de Isis.
Thoth devolveu o livro para Carter. "Vamos ver se voc age to bem quanto fala. Vou
explicar o livro de magia, desde que vocs provem que realmente tm controle sobre
seus deuses, que vocs no esto simplesmente repetindo os mesmos erros."
"Um teste?" Carter disse. "Aceitamos."
"Agora, espere." Protestei. Talvez sendo educado em casa, Carter no soubesse que
"teste" normalmente  uma coisa ruim.
"Maravilhoso." Thoth disse. "Tem um item de poder que eu quero de uma tumba
mgica. Tragam-no para mim."
"Qual tumba mgica?" perguntei.
Mas Thoth pegou um pedao de giz do seu jaleco e riscou algo no ar. Uma passagem se
abriu na frente dele.
"Como voc fez isso?" perguntei. "Mas disse que no podemos invocar portais durante
os Dias do Demnio."
"Mortais no podem," Thoth concordou. "Mas um deus de magia pode. Se vocs
conseguirem, ns teremos costeletas."
             O portal num negro vazio, e o escritrio de Thoth desapareceu.
                                 VINTE E QUATRO

        EU EXPLODI ALGUNS SAPATOS DE CAMURA AZUL

"ONDE NS ESTAMOS?" EU PERGUNTEI.
Ns ficamos em uma avenida deserta do lado de fora de uma grande propriedade.
Parecia que estvamos em Memphis - pelo menos as rvores, o clima, o sol da tarde
eram os mesmos.
A propriedade deve ser bem grande. Os portes de metal brancos foram feito com
design de silhueta de guitarristas e notas musicais. Do outro lado a estrada curva pelas
rvores at uma casa de dois andares com um prtico de colunas brancas.
"Oh, no," Carter disse. "Eu reconheo esses portes."
"O que? Por qu?"
"Meu pai me trouxe aqui uma vez. Um tmulo de um grande mgico..."
"Carter, sobre o que voc est falando? Tem algum enterrado aqui?"
Ele desviou. "Essa  Graceland. Casa do mais famoso msico do mundo."
"Michael Jackson morou aqui?"
"No, burro," Carter disse. "Elvis Presley."
Eu no tinha certeza se eu ria ou o amaldioava. "Elvis Presley. Voc quis dizer roupa
branca com rhinestones, cabelos lisos e grandes, coleo de discos--esse Elvis?"
Carter olhou em volta nervoso. Ele empunhou sua espada, mesmo parecendo que
estvamos totalmente sozinhos.
"Aqui foi onde ele viveu e morreu. Ele est enterrado nos fundos da manso."
Eu olhei fixamente para a casa. "Voc est dizendo que Elvis foi um mgico?"
"No sei." Carter segurou a espada. "Thoth falou algo sobre musica sendo um tipo de
magica. Mas algo no est certo. Porque s ns estamos aqui? Aqui  um ponto
turstico."
"Feriados de Natal?"
"Mas sem seguranas?"
Eu fiquei assustado. "Talvez seja como Zia fez em Luxor. Talvez Thoth tirou todos
daqui."
"Talvez." Mas eu poderia falar a Carter que ele continuava inquieto. Ele empurrou o
porto, e eles abriram facilmente. "Isso no est certo," ele murmurou.
"No," Eu concordei. "Mas vamos pagar nosso respeito."
Enquanto caminhavamos, No pude deixar de pensar que a casa do "Rei" no era to
impressionante.
Comparado com algumas das casas de ricos e famosos que eu vi na TV, A casa do Elvis
parecia terrivelmente pequena. S tinha dois andares, com um portico com colunas
brancas e paredes de tijolo. Lees de gesso ridiculos nas escadas. Talvez as coisas eram
simples antes no tempo de Elvis, ou talvez ele gastou todo o seu dinheiro em roupas.
Ns paramos no p das escadas.
"Ento, seu pai trouxe voc aqui?" Eu perguntei.
"Sim." Carter olhou os lees esperando eles atacarem. "Meu pai ama blues e jazz,
principalmente, mas ele disse que Elvis foi importante porque ele pegou a musica Afro-
Americana e fez ela popular para os brancos. Ele ajudou a inventar o Rock and roll. De
qualquer modo,Meu pai e euestivemos na cidade para um simpsio ou algo assim.
Eu no me lembro. Meu pai insistiu que eu viesse aqui."
"Sorte sua." E sim, talvez eu comecei entender que a vida de Carter com o seu pai no
foi cheia de glamour e feriados, Mas ainda assim eu no poderia deixar de ficar com
inveja. No porque sempre quis ver Graceland, claro, mas meu pai nunca insistiu em me
levar em nenhum lugar--pelo menos at a viagem ao Museu Britnico quando ele
desapareceu. Nem sabia que meu pai era um f do Elvis, que foi um pouco horripilante.
Ns continuamos andando. A porta da frente se abriu sozinha.
"No estou gostando disso," Carter disse.
Eu tornei olhar atrs de ns, e meu sangue congelou. Eu agarrei o brao do meu irmo.
"H, Carter, falando de coisas que no gostamos..."
Subindo as escadas estavam dois mgicos brandindo cajados e varinhas.
"Entra," Carter disse. "Rpido!"
Eu no tive muito tempo para admirar a casa. Havia uma sala de jantar na nossa
esquerda e uma sala de estarsala de musica na nossa direita, com um piano e um arco
com vitrais decorado com penas de pavo.
Todos os mveis estavam rasgados. A casa cheirava como pessoas idosas.
"Item de poder," Eu disse. "Aonde?"
"Eu no sei," Carter falou. "Eles no tinham `itens de poder' na lista do tour!"
Olhei pela janela. Nossos inimigos estavam se aproximando. O cara da frente usava
jeans, uma camisa preta sem mangas, botas,e um chapu de cowboy surrado. Ele
parecia mais um fora-da-lei do que um mgico.
O amigo dele estava idntico, mas estava mais diferente, com os braos tatuados, a
cabea careca, e uma barba pequena. Quando eles estavam a dez metros de distancia, o
homem com o chapu de cowboy baixou seu cajado, que se transformou em uma
espingarda.
"Oh, por favor!" Eu gritei, e empurrei Carter para a sala de estar.
O tiro destruiu a porta da frente da casa de Elvis e deixou meus ouvidos tocando. Ns
corremos mais para dentro da casa. Ns passamos por uma cozinha  moda antiga,
entramos na mais estranha toca que eu j vi. A parede de trs era feita de tijolos
cobertos de plantas, com uma cachoeira.
O tapete era verde e felpudo (piso e teto, imagine) e os moveis foram esculpidos em
formas de animais assustadores. S no caso de no ser assustador o suficiente, macacos
de gesso e lees empalhados foram colocados estrategicamente na sala. Apesar do
perigo em que estvamos ,o lugar era to horripilante, eu tive que parar e admirar.
"Meu Deus," Eu disse. "Elvis no tinha bom gosto?"
"Sala da Selva," Carter disse. "Ela  decorada como  para irritar o pai dele"
"Posso respeitar isso."
Outro tiro de espingarda rugiu pela casa.
"Entra," Carter disse.
"M idia!" Posso ouvir os mgicos andando pelas salas, quebrando coisas enquanto
chegam mais perto.
"Irei distra-los," Carter disse. "Voc procura. A sala de trofus esta por aqui."
"Carter!"
Mas o bobo correu para me proteger. Odeio quando ele faz isso. Eu devia ter seguido
ele, ou correr para o outro lado, mas eu fiquei congelado em estado de choque quando
ele virou no canto com a sua espada em guarda, seu corpo comeou a brilhar com uma
luz dourada... e tudo deu errado.
Blam! Uma luz esmeralda trouxe Carter aos seus joelhos. Pensei que o tiro o acertou, eu
tive de sufocar um grito. Mas imediatamente, Carter entrou em colapso e comeou a
encolher. Roupas, espada e tudo--transformando em algo verde.
Um lagarto que costumava ser meu irmo correu em minha direo, subiu em minhas
pernas e na palma da minha mo, E olhou para mim desesperadamente.
Do canto, uma voz spera disse, "Ache a irm. Ela esta em algum lugar perto."
"Oh, Carter," Sussurrei para o lagarto "Eu vou mat-lo para isso"
Coloquei-o em meu bolso e corri.
Os dois mgicos continuaram esmagando e quebrando o caminho por Graceland,
chutando os mveis e explodindo em pedaos. Aparentemente eles no eram fs do
Elvis.
Eu agachei sob algumas cordas, rastejei pelo corredor, e achei a sala de trofus.
Surpreendentemente, cheia de trofus. Paredes lotadas de discos de ouro.
A sala estava mal iluminada, e musica tocava suavemente nos alto-falantes em cima:
Elvis avisou a todos para no pisar em seus sapatos de camura azul.
Procurei a sala toda, mas no achei nada que pudesse ser mgico. As roupas? Eu espero
que Thoth no espera que eu vista uma. Os discos de ouro? Frisbees legais, mas no.
"Jerrod!" uma voz me chamou  minha direita. Um mgico estava vindo pelo corredor.
Eu corria para a outra sada, mas uma voz do lado de fora me chamou de volta, ",
estou aqui em cima."
Eu estava cercado.
"Carter," Eu sussurrei. "Use seu crebro de lagarto."
Ele se agitou nervosamente no meu bolso.
I procurei pela minha mochila de magia e peguei minha varinha. Posso tentar desenhar
um circulo mgico?
Sem tempo, e eu no quero duelar corpo-a-corpo com dois mgicos mais velhos. Eu
tinha que ficar mvel. Eu peguei minha vara e a transformei em um cajado. Eu poderia
por fogo, ou transformar em leo, mas o que eu deveria fazer? Minhas mos comearam
a tremer. Eu queria me esconder em uma bola e se esconder.
Coleo de discos de ouro do Elvis.
Deixe-me assumir, Isis disse. Eu posso transformar os inimigos em p.
No, Eu disse a ela.
Voc vai nos matar.
Eu pude sentir ela me pressionando, tentando me fazer mudar de idia. Eu podia sentir
sua raiva com aqueles mgicos.
Como eles se atrevem a nos desafiar? Com uma palavra, poderamos destru-los.
No, eu pensei de novo. Ento lembrei algo que Zia falou: Use o que houver disponvel
A sala estava mal-iluminada... Talvez eu pudesse escurec-la mais.
"Trevas," Sussurrei. Senti a sensao de algum puxando meu estomago, e as luzes
desligaram. A msica parou. Continuou escurecendo - at mesmo a luz do sol
desapareceu da janela at a sala inteira ficar escura.
Em algum lugar  minha direita, o primeiro mgico suspirou irritado. "Jerrod!"
"No sou eu, Wayne!" Jerrod insistiu. "Voc sempre me culpa!"
Wayne murmurou algo em Egpcio, e continuava andando at mim. Preciso de uma
distrao.
Eu fechei meus olhos e imaginei o que estava  minha volta. Apesar de estar um breu,
eu continuava sentir que Jerrod estava no corredor  minha esquerda, tropeando no
escuro. Eu senti Wayne do outro lado, na parede  direita, a poucos passos da porta. E
eu pude visualizar os quatro expositores de vidro com os ternos de Elvis.
Eles esto destruindo a sua casa, Eu pensei. Defender ela!
Senti algo forte, como se estivesse levantando um grande peso - em seguida o display
quebrou. Eu ouvi o barulho de roupa, como velas ao vento, e lentamente tive certeza
que quatro formas em movimento--dois para cada porta.
Wayne gritou primeiro quando os ternos vazios de Elvis caiu nele. Sua espingarda
clareou o escuro. Ento a minha esquerda, Jerrod gritou surpreendido. Um grande susto!
Disse-me que havia sido derrubado. Decidi ir  direo de Jerrod--melhor ficar com um
desequilibrado do que um com uma espingarda. Eu passei pela porta e pelo corredor,
deixando Jerrod brigando atrs de mim e gritando, "Sai fora! Sai!"
Pegue-o enquanto ele esta fraco, Isis insistiu. Transforme-o em cinzas!
Parte de mim sabia que ela tinha razo: se eu deixasse Jerrod um instante, ele podia
estar sem tempo e depois de mim de novo; mas eu no achei justo feri-lo, especialmente
enquanto ele estava sendo atacado pelos ternos de Elvis. Eu achei uma porta e sai no sol
da tarde.
Eu estava no jardim dos fundos de Graceland. Uma grande fonte borbulhava prximo,
cercada com uma vala. Um deles tinha fogo dentro de um vidro no topo e estava
cercado com flores. Dei um palpite: pode se Elvis.
A tumba de em mgico.
Claro. Ns procuramos a casa toda, mas o item do poder estaria no seu tmulo. Mas o
que exatamente era o item?
Antes de me aproximar do tmulo, a porta abriu. O homem grandalho com pouca
barba saiu. Um terno esfarrapado de Elvis estava com as mangas enroladas em seu
pescoo como se estivesse de carona nas suas costas.
"Bem, bem." O mgico tirou o macaco. A voz dele confirmou a mim que ele era quem
se chamava Jerrod. "Voc  s uma garotinha. Voc nos causou muitos problemas,
mocinha."
Ele abaixou seu cajado e disparou uma luz verde. Eu levantei a varinha e desviei a luz
para cima. Eu ouvi um co surpreso--o grito de um pombo--e um lagarto nascido
recentemente caiu do cu para os meus ps.
"Desculpa," Eu disse.
Jerrod rosnou e jogou o seu cajado. Aparentemente, ele era especializado em lagartos,
porque o cajado transformou-se em um drago do tamanho de um taxi de Londres.
O monstro arrancou com uma velocidade anormal. Ele abriu a boca e j poderia ter me
mordido pela metade, mas eu s tive tempo de bater meu cajado na boca dele.
Jerrod gargalhou. "Boa tentativa, garota!"
Eu sentia as mandbulas do drago pressionando o cajado. Faltavam poucos segundos
antes da madeira romper, e ento eu seria o almoo do drago. Ajude-me, I disse a Isis.
Cuidadosamente, muito cuidadosamente, Eu bati em sua fora. Faz-lo sem deix-la
assumir foi como surfar em uma onda, tentando desesperadamente ficar em p. Eu senti
cinco mil anos de experincia, sabedoria, e poder passaram por mim. Ela me ofereceu
opes, e eu escolhi a mais simples. Eu enchi de energia o meu cajado e senti-o crescer
quente em minhas mos, brilhando. O drago urrava e se engasgava enquanto o cajado
se alongava, forando a criatura abrir sua boca mais e mais, e ento: boom!
O drago ficou em pedaos e os restos do cajado de Jerrod cairam em volta.
Jerrod teve s um momento para parecer atordoado antes de eu pegar minha varinha e
bater ele na testa. Os olhos dele se cruzaram, e ele caiu no cho. Minha varinha voltou a
minha mo.
Isso poderia ser um final feliz... Exceto eu ter esquecido sobre o Wayne. O mgico de
chapu de cowboy empurrou a porta, quase tropeando pelo seu amigo, mas ele se
recuperou com a velocidade da luz.
Ele gritou "Vento!" e meu cajado voou das minhas mos para as dele.
Ele sorriu cruelmente. "Boa luta, querida. Mas mgica elemental  sempre a mais
rpida."
Ele bateu os dois cajados, o dele e o meu, no cho. Uma onda surgiu pelo sujo e o cho
como se o cho tivesse virado liquido, fazendo eu me desequilibrar. Eu cai para trs de
joelhos, mas eu podia escutar Wayne cantando, invocando fogo dos cajados.
Cordas, Isis disse. Todo mgico carrega cordas.
O pnico fez minha mente ficar vazia, mas minha mo instintivamente foi a minha bolsa
mgica. Eu tirei um pequeno pedao de corda. No era to firme, mas ela me fez
lembrar algo - algo que Zia fez no museu de New York. I joguei a corda em Wayne e
gritei uma palavra que sugeriu: "Tas!"
Um hierglifo queimou no ar acima de cabea de Wayne:




A corda que eu joguei nele crescia e ficava mais grossa enquanto ela voava, como uma
cobra raivosa. Os olhos de Wayne arregalaram. Ele tentou se protegem e mandou jatos
de fogo, usando os dois cajados, mas a corda foi mais rpida. Ela amarrou o tornozelo e
o derrubou de lado, cobrindo todo o corpo dele at ele estar dentro de um casulo de
cordas da cabea aos ps. Ele se mexia e gritava e me chamava de alguns nomes sem
sentido.
Me levantei inseguro. Jerrod ainda estava frio. Eu recuperei meu cajado, que estava
cado prximo a Wayne.
Ele continuava tentando sair das cordas e me amaldioando em Egpcio, o que soava
estranho com um sotaque Americano.
Acabe com ele, Isis avisou. Ele pode continuar a falar. Ele no ir descansar at destruir
voc.
"Fogo!" Wayne gritou. "gua! Queijo!"
At o feitio queijo no funcionou. Eu calculeisua raiva quando estava jogando sua
magia fora de equilbrio, fazendo-a impossvel de focalizar, mas eu sabia que ele iria se
recuperar logo.
"Silncio," Eu disse.
A voz de Wayne parou de funcionar abruptamente. Ele continuou a gritar, mas nenhum
som saia.
"Eu no sou seu inimigo," Eu disse a ele. "Mas voc no pode me matar."
Algo se mexia no meu bolso, e eu me lembrei de Carter. Eu tirei-o do meu bolso. Ele
parecia bem, for a o fato de continuar sendo um lagarto.
"Vou tentar transform-lo de volta," Eu disse a ele. "Felizmente eu no fiz nada de
errado."
Ele fez um barulho que no me dava confiana.
Eu fechei meus olhos e imaginei Carter como ele deveria ser: um adolescente alto de 14
anos, roupas ruins, muito humano, e muito chato. Carter comeou a ficar pesado em
minhas mos. Eu o coloquei no cho e vi como o lagarto cresceu e se transformou em
uma forma vagamente humana. Ao contar at trs, meu irmo estava deitado de bruos,
e sua espada e sua mochila estava prximo a ele na grama.
Ele cuspiu grama de sua boca. "Como voc fez isso?"
"Eu no sei," eu disse. "Voc s parecia... que no estava bem."
"Muito obrigado mesmo." Ele acordou e checou para ter certeza se ele tinha todos os
dedos. Ento ele viu os dois mgicos e ele ficou de queixo cado. "O que voc fez com
eles?"
"S amarrei um. Acabei com o outro. Mgica."
"No, quero dizer..." Ele parou, para lembrar feitios, ento ele desistiu e apontou.
Eu olhei para os mgicos e gritou. Wayne no se mexia. Seus olhos e sua boca estavam
abertos, mas ele no estava piscando ou respirando. Prximo a ele, Jerrod parecia
congelado. Como ns vimos, a boca deles comeou a brilhar como se eles tivessem
engolido algo. Dois pequenos orbes de fogo surgiram de entre as bocas deles e foram
lanadas no ar, desaparecendo na luz do sol.
"O que--o que foi isso?" Eu perguntei. "Eles esto mortos?"
Carter se aproximou deles com cuidado e colocou sua mo no pescoo de Wayne. "Isso
no parece ser pele. Parece que  pedra."
"No, eles eram humanos! Eu no os transformei em pedra!"
Carter passou a mo na testa de Jerrod onde eu o bati com a minha varinha. "Est
quebrado."
"Qu?"
Carter pegou sua espada. Antes de eu conseguir gritar, ele bateu no rosto de Jerrod e a
cabea do mgico quebrou em pedaos como um vaso de flores.
"Eles so feitos de argila," Carter disse. "Os dois so shabti."
Ele chutou o brao de Wayne e eu o ouvi por debaixo da corda.
"Mas eles estavam conjurando feitios," Eu disse. "E falando. Eles eram reais."
Como ns vimos, os shabti viraram poeira, deixando nada mais que meu pedao de
corda, dois cajados, e algumas roupas.
"Thoth estava nos testando," Carter disse. "Essas bolas de fogo..." Ele franziu a testa
como se estivesse tentando relembrar algo importante.
"Provavelmente a mgico os reanimou," Eu pensei. "Voando de volta ao mestre deles--
como uma gravao do que eles fizeram?"
Isso pareceu uma teoria slida para mim, mas Carter pareceu que estava com muitos
problemas. Ele apontou para a porta dos fundos destruda de Graceland. "A casa toda
est assim?"
"Est pior." Eu olhei para o macaco rasgado de Elvis debaixo da roupa de Jerrod.
Talvez Elvis no tivesse gosto, mas eu me senti ruim sobre destruir o palacio do Rei. Se
esse lugar foi importante para o meu pai... Rapidamente uma idia me surgiu. "O que
Amos disse, quando ele reparou esse pires?"
Carter franziu a testa. " a casa toda, Sadie. No um pires."
"Lembrei," Eu disse. "Hi-nehm!"
Um hierglifo piscou na palma da minha mo.




Eu o segurei e joguei para a casa. Toda Graceland comeou a brilhar. Os pedaos da
porta voaram de volta para os seus lugares e se consertaram sozinhos. Os pedaos da
roupa esfarrapada de Elvis desapareceram.
"Uau," Carter disse. "Voc acha que o lado de dentro est consertado tambm?"
"Eu--" Minha viso desfocou, e meus joelhos travaram. Eu poderia ter batido a cabea
na calada se Carter no tivesse me pegado.
"Est tudo bem," ele disse. "Voc fez muita mgica, Sadie. Isso foi timo."
"Mas ns no achamos ainda o item que Thoth nos mandou."
"," Carter disse. "Talvez ns tenhamos que procurar."
Ele apontou para o tmulo de Elvis, e eu vi claramente: uma lembrana deixada por
alguns fs--um colar com uma cruz de prata, parecido com uma na blusa da minha me
em uma foto antiga.
" um ankh," Eu disse. "O smbolo Egpcio para vida eterna."
Carter pegou-o. Ali estava um pequeno papiro junto com a corrente.
"O que  isso?" ele murmurou, e desenrolou o papiro. Ele olhou para ele to fixamente
que eu pensei que ele iria queimar um buraco nela.
"Que?" Eu olhei pelos seus ombros.
A pintura parecia um pouco antiga. Ela mostrava um gato dourado segurando uma faca
em uma das patas e cortando a cabea de uma cobra.




Embaixo dela, de marcador preto, algum escreveu: Manter a luta!
"Isso  vandalismo, no ?" Eu perguntei. "Escrevendo em escrituras antigas assim?
Uma coisa estranha para Elvis ter feito."
Carter parecia no escutar. "Eu vi essa foto antes. Esta em um monte de tmulos. No
sei por que isso nunca aconteceu comigo..."
Eu estudei a foto mais de perto. Algo sobre ela pareceu familiar.
"Voc sabe o que isso significa?" Perguntei.
"Esse  o Gato de Ra, lutando contra o maior inimigo do deus sol, Apophis."
"Essa cobra," Eu disse.
", esse era Apophis --"
"A personificao do caos," Eu disse, lembrando o que Nut falou.
Carter pareceu impressionado, assim que ele deveria estar. "Exatamente. Apophis foi
ainda pior que Set. Os Egpcios pensaram que o Apocalipse ira chegar quando Apophis
comesse o sol e destrusse toda a Criao."
"Mas... o gato o matou," Eu disse.
"O gato teve que mat-lo muitas vezes," Carter disse. "Igual ao que Thoth disse sobre
estampas repetidas.
A verdade  que... Eu perguntei ao meu pai uma vez se o gato tinha nome. E ele disse
que ningum o sabe certamente, mas a maioria das pessoas diz que  Sekhmet, essa
deusa leo feroz. Ela foi chamada de O Olho de Ra porque ela fez o seu trabalho sujo.
Ele viu o inimigo; ela o matou."
"Otimo. Ento?"
"Ento, o gato no parece com Sekhmet. Isso s aconteceu comigo..."
Eu finalmente o vi, e senti calafrios pela minha costa. "O Gato de Ra e exatamente igual
a Muffin. Esse  Bast."
So ento o cho tremeu.A fonte memorial comeou a brilhar, e uma porta escura se
abriu.
"Venha," Eu disse. "Tenho algumas perguntas para o Thoth. E ento eu vou dar um
soco na cara dele."
                                   VINTE E CINCO

  NS GANHAMOS UMA VIAGEM COM TUDO PAGO PARA A MORTE

SER TRANSFORMADO EM UM LAGARTO pode realmente atrapalhar o seu dia.
Assim que passamos pela entrada, tentei esconder, mas estava me sentindo mal.
Voc provavelmente est pensando: Ei, voc j foi transformado em um falco. Qual o
grande problema? Mas algum te forar para outra forma---  totalmente diferente.
Imagine-se num compactador de lixo, todo o seu corpo esmagado  uma forma menor
que a sua mo.  doloroso e humilhante. Seu inimigo te v como um pequeno e
indefeso lagarto ento impe sua vontade sobre voc, esmagando seus pensamentos at
voc ter que ser o que eles querem que voc seja. Eu acho que poderia ter sido pior. Ele
podia ter me transformado em um morcego, mesmo assim...
 claro que eu me senti grato a Sadie por ela ter me salvado, mas eu tambm me sentia
como um completo idiota. J tinha sido ruim o suficiente que eu havia envergonhado a
mim mesmo na quadra de Basquete com a trupe de babunos. Mas eu tambm falhei em
batalha. Talvez eu tenha acertado com Leroy, o monstro do aeroporto, mas de cara com
dois magos (at os de barro), fui transformado em um rptil logo nos primeiros
segundos. Como eu poderia ter alguma chance contra Set?
Eu estava me livrando desses pensamentos quando ns emergimos do portal, por que
ns definitivamente no estvamos no escritrio de Thoth.
Em frente a ns havia uma pirmide gigantesca de vidro e metal, quase to grande
quanto s de Gize. O arranha cu de Memphis surgiu  distncia. s nossas costas
estava as margens do Rio Mississipi.
O sol estava se pondo, transformando o rio e a pirmide em ouro. Nos degraus da frente
da pirmide, prximo a uma esttua de vinte ps de altura nomeada Ramss O Grande,
Thoth armou um piquenique com costela assada e carne de peito, po e picles, as obras.
Ele estava tocando sua guitarra com um amplificador porttil. Khufu estava perto,
tapando os ouvidos.
"Ah, bom." Thoth tocou uma nota que soou como um choro de morte de um burro
doente. "Voc sobreviveu."
Eu olhei para a pirmide, admirado. "De onde  que isso veio?" Voc simplesmente
no... construiu isso, no ?"Eu me lembrei da minha viagem a pirmide vermelha de
Set, e de repente imaginei monumentos de deuses por todos os Estados Unidos.
Thoth riu. "Eu no tive que construir. Os cidados de Memphis fizeram. Humanos
nunca realmente esquecem o Egito, voc sabe. Toda vez que eles constroem uma cidade
nas margens do rio, eles se lembram dos seus antepassados, enterrados no fundo do seu
subconsciente. Essa  a Pirmide Arena--- sexta maior pirmide no mundo. Costumava
ser uma arena de esportes para... qual o esporte que voc gosta Khufu?"
"Agh!" Khufu disse indignadamente. E eu juro que ele me deu um olhar duro.
"Sim, basquetebol," Thoth disse. "Mas a arena caiu em tempos difceis. Est
abandonada a tempo. Bom, no mais. Eu estou levando adiante. Voc tem o ankh? '
Por um momento, fiquei pensando se era realmente uma boa idia ajudar Thoth, mas
ns precisvamos dele. Joguei-lhe o colar.
"Excelente," ele disse. "Um ankh da tumba de Elvis. Poderosssima mgica!"
Sadie cerrou os punhos. "Ns quase morremos pegando isso. Voc nos trapaceou."
"No uma trapaa." Ele insistiu. "Um teste."
"Essas coisas," disse Sadie, "o shabti---"
Sim, meu melhor trabalho em sculos. Uma pena quebr-los, mas eu no podia ter
vocs batendo em magos de verdade, podia? Shabti faz excelentes acrobacias."
"Ento voc viu tudo?" eu murmurei.
"Ah, sim," Thoth estendeu sua mo. Duas pequenas chamas danaram ao longo de sua
palma--- as duas essncias mgicas que vimos sair da boca do shabti. "Esses so...
dispositivos de memria. Suponho que vocs diriam assim. Eu tenho um relatrio
completo. Vocs derrotaram o shabti sem mat-lo. Devo admitir que estou
impressionado, Sadie. Voc controlou sua mgica e controlou Isis. E voc, Carter, fez
bem se transformando num lagarto."
Eu achei que ele estava tirando uma com a minha cara. Ento eu percebi que havia
simpatia de verdade nos olhos dele, como se minha falha tivesse sido tambm um tipo
de teste.
"Voc vai achar inimigos piores pela frente, Carter." Ele avisou. "At mesmo agora, a
Casa da Vida manda seu melhor contra voc. Mas voc tambm vai achar amigos onde
menos espera."
Eu no sabia por que, mas eu tinha a sensao de que ele estava falando de Zia... ou
talvez fosse apenas um pensamento desejoso.
Thoth parou e estendeu a guitarra para Khufu. Ele girou o ankh na esttua de Ramss, e
o colar se fechou sozinho em volta do pescoo do fara.
"Ai est, Ramss," Thoth disse a esttua. "Aqui est para nossa nova vida."
A esttua brilhou fracamente, como se o pr do sol tivesse ficado dez vezes mais claro.
Ento o brilho espalhou para a pirmide inteira antes de se extinguir.
"Ah, sim." Thoth devaneou. "Eu acho que vou ser feliz l. Da prxima vez que vocs
me visitarem, eu vou ter um laboratrio muito maior."
Pensamento assustador, mas eu tentei me manter concentrado.
"Isso no foi tudo que ns achamos." Eu disse. "Voc tem que nos explicar isso."
Eu segurei a pintura do gato e da cobra.
" um gato e uma cobra." Thoth disse.
"Obrigado, deus da sabedoria. Voc colocou isso para ns acharmos, no foi? Voc est
tentando nos dar alguma pista."
"Quem, eu?"
Apenas mate-o, Horus disse.
Cala a boca, eu disse.
Ao menos mate a guitarra.
"O gato  Bast," eu disse, tentando ignorar meu psquico falco interior. "Isso tem
alguma coisa a ver com o motivo dos nossos pais terem libertado os deuses?"
Thoth apontou para os pratos de piquenique. "Eu mencionei que ns temos costela
assada?"
Sadie bateu o p. "Ns tnhamos um acordo, Ja-hooty!"
"Voc sabe... eu gosto desse nome," Thoth devaneou. "mas no tanto quando voc diz.
Eu acredito que nosso acordo era que eu mostraria como usar o livro de magia. Posso?"
Ele estendeu a mo. Relutante eu peguei o livro de magia de dentro da mochila e estendi
para ele.
Thoth folheou as pginas. "Ah, isso me leva de volta. Tantas frmulas. Antigamente,
ns acreditvamos em rituais. Um bom feitio pode levar dias para ser preparado, com
ingredientes exticos vindos de todo o mundo."
"Ns no temos semanas." Eu disse.
"Pressa, pressa, pressa," Thoth lamentou.
"Agh," Khufu concordou, cheirando a guitarra.
Thoth fechou o livro e o devolveu para mim. "Bem, esse  um encanto para destruir
Set."
"Ns sabemos disso." Sadie falou. "Isso vai destru-lo para sempre?"
"No, no. Mas vai destruir sua forma nesse mundo, banindo-o para o Duat profundo e
reduzindo seu poder ento ele no vai poder aparecer de novo por um bom tempo.
Sculos, por ai."
"Parece-me bom," eu disse. "Como ns lemos isso?"
Thoth olhou para mim como se a resposta fosse bvia. "Voc no pode l-las agora por
que as palavras s podem ser pronunciadas na presena de Set. Uma vez de frente com
ele, Sadie deve abrir o livro e recitar o encanto. Ela saber o que fazer quando a hora
chegar."
"Certo," disse Sadie. "E Set vai ficar parado calmamente enquanto eu leio para ele
morrer."
Thoth deu de ombros. "Eu no disse que seria fcil. Vocs tambm precisaro de dois
ingredientes para o feitio funcionar--- um ingrediente verbal, o nome secreto de Set---"
"O que?" eu protestei. "Como  que vamos conseguir isso?"
"Com dificuldade, imagino. Voc no pode simplesmente ler um nome secreto em um
livro. O nome deve vir dos lbios do dono, em sua prpria pronuncia, para dar poder a
voc sobre ele."
"timo," eu disse. "Ento s temos que forar Set a nos dizer."
"Ou engan-lo," Thoth falou. "Ou convenc-lo."
"No tem outro jeito?" Sadie perguntou.
Thoth sacudiu uma mancha de tinta do seu jaleco. Um hierglifo se transformou numa
mariposa e voou. "Eu suponho que... sim. Voc pode perguntar a pessoa mais prxima
do corao de Set--- a pessoa que mais o ama. Ela tambm deve ter a capacidade de
dizer o nome."
"Mas ningum ama Set!" disse Sadie.
"Sua esposa." Eu adivinhei. "Aquela outra deusa, Nefertiti."
Thoth concordou. "Ela  a deusa do rio. Talvez vocs a encontrem em um rio."
"Isso s fica melhor e melhor." Eu murmurei.
Sadie se virou para Thoth. "Voc disse que tinha outro ingrediente?"
"Um ingrediente psquico." Thoth afirmou. "uma pena da verdade."
"Um qu?" Sadie disse.
Mas eu sabia sobre o que ele estava falando, e meu corao disparou. "Voc quer dizer
da Terra dos Mortos."
Thoth sorriu. "Exato."
"Espera." Disse Sadie. "Sobre o que ele est falando?"
Eu tentei conter meu medo. "Quando voc morria no Antigo Egito, voc tinha que fazer
uma jornada para a Terra dos Mortos." Expliquei para ela. "Uma jornada realmente
perigosa. Finalmente, voc chegava a Sala do Julgamento, onde sua vida era pesada na
Balana de Anbis: seu corao de um lado, a pena da verdade do outro. Se voc
passasse no teste, voc era abenoado com felicidade eterna. Se voc falhasse, um
monstro comeria seu corao e deixava de existir."
"Ammit o comilo." Thoth disse saudosamente. "Coisinha bonitinha."
Sadie piscou. "Ento ns temos que pegar essa pena da Sala do Julgamento como,
exatamente?"
"Talvez Anbis v estar de bom-humor" Thoth sugeriu. "Isso acontece a cada mil anos
mais ou menos."
"Mas como ns chegamos  Terra dos Mortos?" perguntei. "Quero dizer... sem morrer."
Thoth olhou para o horizonte  oeste, onde o pr do sol estava se tornando vermelho-
sangue. "Descendo o rio  noite, eu acho.  assim que a maioria das pessoas passa para
a Terra dos Mortos. Eu devia pegar um barco. Vocs encontraro Anbis no fim do rio--
-" ele apontou para o norte, ento mudou de idia e apontou para o sul. "Esqueam, os
rios correm para o sul aqui. Tudo  ao contrrio."
"Agh!" Khufu correu seus dedos pelas cordas da guitarra e tocou um riff de rock `n' roll
pesado. Ento ele arrotou como se nada tivesse acontecido e abaixou a guitarra. Sadie e
eu apenas o encaramos, mas Thoth concordou como se o babuno tivesse dito alguma
coisa profunda.
"Tem certeza, Khufu?" perguntou Thoth.
Khufu grunhiu.
"Muito bem." Thoth suspirou. "Khufu diz que gostaria de ir com vocs. Eu disse a ele
que ele pode ficar aqui e patentear minhas teses em fsica quntica, mas ele no est
interessado."
"No consigo imaginar por que," Sadie falou. "Feliz por ter Khufu, mas onde ns
achamos um barco?"
"Voc tem sangue dos faras," Thoth disse. "Faras sempre tm acesso a um barco. S
tenha certeza que vai us-lo com sabedoria."
Ele gesticulou rio abaixo. Ancorado na margem mais a frente havia um antigo barco de
ps com fumaa saindo do motor.
"Desejo a vocs uma boa jornada," disse Thoth. "At nos encontrarmos novamente."
"Para onde isso vai nos levar?" perguntei. Mas quando eu voltei a olhar para Thoth, ele
tinha partido, e ele tinha levado as costelas assadas com ele.
"Maravilhoso." Sadie murmurou.
"Agh!" Khufu concordou. Ele pegou nossas mos e nos guiou para a margem.
                                   VINTE E SEIS

                      A BORBO DO RAINHA EGPCIA

Quanto mais se distanciava da Terra dos Mortos, o barco era bem legal. Tinha vrios
deques com grades ornamentadas pintadas de preto e verde. As ps laterais espumavam
o rio, e no alojamento das ps o nome do barco reluzia em letras douradas: rainha
egpcia.
 primeira vista, voc poderia pensar que o barco era apenas uma atrao turstica: um
desses cassinos flutuantes ou cruzeiros para pessoas velhas. Mas se voc olhasse mais
de perto comearia a perceber pequenos detalhes estranhos. O nome do barco estava
escrito em demtico e em hierglifos abaixo do ingls. Fumaa cintilante levantava-se
das chamins como se os motores estivessem queimando ouro. Esferas multicoloridas
de fogo voavam pelos deques. E na proa da embarcao, dois olhos pintados se moviam
e piscavam, procurando por problemas no rio.
"Isso  bizarro," Sadie comentou.
Eu concordei com a cabea. "Eu j vi olhos pintados em barcos antes. Eles ainda fazem
isso por todo o Mediterrneo. Mas normalmente eles no se mexem."
"O qu? No, no os olhos estpidos. Aquela mulher no deque mais alto. No ..."
Sadie irrompeu em um largo sorriso. "Bast!"
Com certeza, nossa felina favorita estava se inclinando para fora da janela da sala do
piloto. Eu estava quase acenando para ela, quando percebi a criatura parada ao lado de
Bast, controlando o timo. Ele tinha um corpo humano e estava vestindo um uniforme
branco de capito, mas um machado duplo brotava de seu colarinho. E eu no estou
falando de uma machadinha de cortar madeira. Estou falando de um machado de guerra:
duas lminas gmeas de ao em forma de crescentes, uma na frente onde deveria estar
seu rosto, uma na parte de trs, as pontas respingadas com suspeitas manchas vermelhas
secas.
A embarcao parou na doca. Bolas de fogo comearam a zunir por ali - descendo a
prancha de desembarque, amarrando cordas, e basicamente fazendo coisas de
tripulao. Como elas faziam isso sem mos, e sem incendiar tudo, eu no sei, mas no
era a coisa mais estranha que eu tinha visto aquela semana.
Bast desceu da sala do timo. Ela nos abraou quando subimos a bordo- at mesmo
Khufu, que tentou retornar o favor retirando os piolhos dela.
"Estou feliz por vocs terem sobrevivido!" Bast nos disse. "O qu aconteceu?"
Ns contamos a ela o bsico e ela mexeu no cabelo novamente. "Elvis? Gah! Thoth est
ficando cruel em sua velhice. Bem, eu no posso dizer que estou feliz por estar nesse
barco novamente. Eu odeio a gua, mas eu suponho-"
"Voc j esteve nesse barco antes?" eu perguntei.
Bast sorriu vacilantemente. "Um milho de perguntas como de costume, mas vamos
comer primeiro. O capito est esperando."
Eu no estava ansioso para conhecer um machado gigante, e eu no estava
entusiasmado para outro jantar de sanduche-de-queijo-e-Friskies de Bast, mas eu a
segui para dentro do barco.
O salo de jantar era ricamente decorado no estilo egpcio. Murais coloridos
representando os deuses cobriam as paredes. Colunas adornadas suportavam o teto.
Uma longa mesa de jantar estava cheia de todos os tipos de comida que voc poderia
querer - sanduches, pizzas, hamburguers, comida mexicana, voc escolhe. Fora feito
para esquecer o churrasco de Thoth. Em uma mesa lateral havia um recipiente de gelo,
uma fileira de taas douradas, e um continer de refrigerante com cerca de vinte opes.
As cadeiras de mogno foram esculpidas para se parecerem com babunos, o que me
lembrou at demais da Sala da Selva de Graceland, mas Khufu as aprovou. Ele rugiu
para sua cadeira apenas para mostrar a ela quem era o macaco alfa ali, e ento sentou
em seu encosto. Ele pegou um abacate de uma fruteira e comeou a descasc-lo.
Do outro lado da sala, uma porta se abriu, e o cara machado entrou. Ele teve que se
abaixar para no rachar o umbral da porta.
"Senhor e Senhora Kane," o capito disse, curvando-se. Sua voz era um sussurro
trmulo que ressoou pela sua lmina frontal. Eu tinha visto um vdeo de um cara
tocando msica batendo num serrote com um martelo, e foi mais ou menos parecido
com o modo que o capito soou. " uma honra t-los a bordo."
"Senhora Kane," Sadie meditou. "Eu gosto disso."
"Eu sou Lmina Ensangentada," o capito disse. "Quais so as ordens?"
Sadie levantou uma sobrancelha para Bast. "Ele recebe ordens de ns?"
"Com razo," disse Bast. "Ele  vinculado  sua famlia. Seu pai..." Ela pigarreou.
"Bem, ele e sua me convocaram este barco."
O demnio machado fez um zumbido de desaprovao. "Voc no contou a eles,
deusa?"
"Eu estou comeando," Bast resmungou.
"Nos contar o qu?" eu perguntei.
"Apenas detalhes." Ela se apressou. "O barco pode ser convocado uma vez por ano, e
apenas em momentos de grande necessidade. Vocs precisaro dar suas ordens ao
capito agora. Ele deve ter direes claras se ns quisermos prosseguir, ah, em
segurana."
Eu me perguntei o que estaria incomodando Bast, mas o cara machado estava esperando
por ordens, e as manchas de sangue seco em suas lminas me disseram que seria melhor
no deix-lo na expectativa.
"Ns precisamos visitar o Salo de Julgamento," eu disse a ele. "Leve-nos para a Terra
dos Mortos."
Lmina Ensangentada murmurou pensativamente. "Eu vou fazer os arranjos, Senhor
Kane, mas vai levar algum tempo."
"Ns no temos muito disso." Eu me virei para Sadie. "... o que, o anoitecer do
vigsimo stimo?"
Ela concordou. "Depois de amanh, ao nascer do sol, Set completar sua pirmide e
destruir o mundo a no ser que o impeamos. Ento, sim, Capito Lmina Muito
Grande, ou o que quer que seja, eu diria que estamos com um poo de pressa."
"Ns vamos, com certeza, fazer o nosso melhor," disse Lmina Ensangentada, apesar
de sua voz estar um pouco, bem, rspida. "A tripulao ir preparar suas cabines. Vocs
vo jantar enquanto esperam?"
Eu olhei para a mesa cheia de comida e percebi o quo faminto eu estava. Eu no tinha
comido desde que estivemos no Monumento Washington. "Sim. Umm, obrigado, LE."
O capito se curvou novamente, o que fez com que ele parecesse um pouco demais com
uma guilhotina. Ento ele nos deixou para o nosso jantar.
A princpio, eu estava ocupado demais comendo para falar. Eu devorei um sanduche de
bife tostado, alguns pedaos de torta de cereja com sorvete, e trs copos de cerveja de
gengibre antes de finalmente voltar a respirar.
Sadie no comeu tanto assim. Outra vez ela havia comido no avio. Ela se decidiu por
um sanduche de queijo e pepino e uma dessas estranhas bebidas britnicas que ela
gosta - um Ribena. Khufu cuidadosamente escolheu tudo o que terminava com -o -
Doritos, Oreos, e alguns nacos de carne. Bfalo? Cervo? Eu estava com medo de
imaginar.
As bolas de fogo flutuaram atenciosamente pela sala, enchendo nossas taas e limpando
nossos pratos assim que terminvamos de comer.
Depois de tantos dias gastos fugindo por nossas vidas, era bom apenas sentar em uma
mesa de jantar e relaxar. O capito nos informando que no poderia nos transportar
instantaneamente para a Terra dos Mortos tinha sido a melhor notcia que eu tinha
recebido em muito tempo.
"Agh!" Khufu limpou a boca e agarrou uma das bolas de fogo. Ele moldou-a como uma
bola de basquete brilhante e bufou para mim.
Pela primeira vez eu tive certeza do que ele dissera em babuno. No era um convite.
Ele quis dizer algo como: "Eu vou jogar basquete sozinho agora. Eu no vou convidar
voc porque sua falta de habilidade me faria vomitar."
"Sem problemas, cara," eu disse, apesar de meu rosto estar quente de vergonha.
"Divirta-se."
Khufu bufou novamente, e ento gingou para fora com a bola debaixo do brao. Eu
imaginei se ele iria encontrar uma quadra em algum lugar do barco.
Na parte mais distante da mesa, Bast empurrou seu prato para longe. Ela mal tocara nos
seus Friskies de atum.
"Sem fome?" perguntei.
"Hmm? Oh... acho que no." Ela virou sua taa desinteressadamente. Ela estava com
uma expresso que eu no associo com gatos: culpa.
Sadie e eu trocamos olhares. Ns tivemos um breve, silencioso dilogo, algo como:
Voc pergunta a ela.
No, voc.
 claro que Sadie  melhor em dar olhares ameaadores, ento eu perdi a disputa.
"Bast?" eu disse. "O qu o capito queria que voc nos contasse?"
Ela hesitou. "Oh, isso? Voc no deveria escutar demnios. Lmina Ensangentada 
obrigado por mgica a servir, mas se ele fosse liberto, usaria aquele machado em todos
ns, acredite em mim."
"Voc est mudando de assunto," eu disse.
Bast traou a mesa com seu dedo, desenhando hierglifos na parede condensada de sua
taa. "A verdade? Eu no estive a bordo desde a noite em que sua me morreu. Seus
pais tinham aportado esse barco no Tames. Depois do... acidente, seu pai me trouxe
aqui. Foi onde ns fizemos nosso acordo."
Eu percebi que ela queria dizer aqui, nessa mesa. Meu pai sentara aqui em desespero
aps a morte de Mame - com ningum para consol-lo alm da deusa dos gatos, um
demnio machado, e um punhado de luzes flutuantes. Eu examinei o rosto de Bast na
luz fraca. Eu pensei na pintura que ns encontramos em Graceland. Mesmo em sua
forma humana, Bast se parecia muito com uma gata - uma gata desenhada por algum
artista h milhares de anos.
"No foi apenas um monstro do caos, no ?" perguntei.
Bast olhou para mim. "O qu voc quer dizer?"
"A coisa que voc estava combatendo quando nossos pais te libertaram do obelisco.
No era apenas um monstro do caos. Voc estava lutando contra Apophis."
Por todo o salo, os fogos serventes obscureceram. Um deles derrubou um prato e
tremeu nervosamente.
"No diga o nome da Serpente," Bast avisou. "Especialmente quando comeamos a
entrar na noite. A noite  seu reino."
"Ento  verdade." Sadie balanou a cabea em desnimo. "Por que voc no disse
nada? Por que mentiu para ns?"
Bast abaixou o olhar. Sentada nas sombras, ela parecia cansada e frgil. Seu rosto estava
marcado com traos de cicatrizes de antigas batalhas.
"Eu era o Olho de Ra." Ela disse calmamente. "A campe do deus sol, o instrumento de
sua vontade. Voc tem idia da honra que isso era?"
Ela estendeu suas garras e as examinou. "Quando as pessoas vem fotos da gata
guerreira de Ra, eles presumem que seja Sekhmet, a leoa. E ela foi sua primeira campe,
 verdade. Mas ela era muito violenta, muito descontrolada. Finalmente Sekhmet foi
forada a se demitir, e Ra me escolheu como lutadora: a pequena Bast."
"Por que voc soa envergonhada?" Sadie perguntou. "Voc disse que era uma grande
honra."
"A princpio eu fiquei orgulhosa, Sadie. Eu lutei com a Serpente por eras. Gatos e
cobras so inimigos mortais. Eu fiz bem meu trabalho. Mas ento Ra retirou-se para os
cus. Ele me prendeu  Serpente com seu ltimo feitio. Ele nos lanou no abismo,
onde eu estava encarregada de lutar contra a Serpente e mant-la ali para sempre."
A compreenso se apoderou de mim. "Ento voc no era uma prisioneira menor. Voc
foi aprisionada por mais tempo do que qualquer outro deus."
Ela fechou os olhos. "Eu ainda me lembro das palavras de Ra: `Minha gata leal. Esta 
sua maior misso.' E eu estava orgulhosa de cumpri-la... por sculos. E ento milnios.
Voc pode imaginar como era? Facas contra presas, golpeando e cortando, uma guerra
sem fim na escurido. Nossas foras foram se enfraquecendo, a minha e a de meu
exrcito, e eu comecei a perceber qual era o plano de Ra. A Serpente e eu deveramos
dilacerar um ao outro at a no-existncia, e o mundo estaria seguro. Somente assim Ra
poderia se retirar com a conscincia limpa, sabendo que o caos no iria superar a Ma'at.
Eu teria cumprido minha misso, tambm. Eu no tinha escolha. At que seus pais-"
"Te deram uma rota de fuga," eu disse. "E voc a pegou."
Bast olhou para cima tristemente. "Eu sou a rainha dos gatos. Eu tenho muitas
habilidades. Mas para ser honesta, Carter... gatos no so muito corajosos."
"E Ap- seu inimigo?"
"Ele ficou preso no abismo. Seu pai e eu estvamos certos disso. A Serpente j estava
grandemente enfraquecida pela eternidade de luta contra mim, e quando sua me usou
sua prpria fora da vida para fechar o abismo, bem... ela realizou uma poderosa
faanha mgica. No deveria haver qualquer modo da Serpente quebrar aquele tipo de
selo. Mas enquanto os anos passavam... ns comeamos a ficar cada vez menos certos
de que a priso iria segur-lo. Se de algum modo ele fugisse e ganhasse sua fora de
volta, eu no poderia imaginar o que aconteceria. E seria minha culpa."
Eu tentei imaginar a serpente, Apophis - uma criatura do caos ainda pior do que Set. Eu
imaginei Bast com suas facas, presa em combate com um monstro pela eternidade.
Talvez eu devesse ficar bravo com Bast por no ter nos contado a verdade antes. Ao
invs disso, eu me senti mal por ela. Ela havia sido colocada na mesma situao em que
ns estvamos agora- forada a fazer um trabalho grande demais para ela.
"Ento por que meus pais a libertaram?" eu perguntei. "Eles disseram?"
Ela concordou lentamente com a cabea. "Eu estava perdendo minha luta. Seu pai me
disse que sua me havia previsto... coisas horrveis se a Serpente me superasse. Eles
tinham que me libertar, me dar tempo para me recuperar. Eles disseram que era o
primeiro passo para restaurar os deuses. Eu no posso fingir que entendi o plano todo.
Eu estava aliviada por aceitar a oferta de seu pai. Eu me convenci de que estava fazendo
a coisa certa pelos deuses. Mas isso no muda o fato de eu ser uma covarde. Eu falhei
em minha misso."
"No foi sua culpa," eu disse a ela. "No foi justo Ra pedir aquilo a voc."
"Carter est certo," disse Sadie. " muito sacrifcio para uma pessoa- uma deusa gata,
tanto faz."
"Era a vontade de meu rei," Bast disse. "O fara pode comandar seus sditos para o
bem do reino- at mesmo para darem suas vidas- e eles devem obedecer. Horus sabe
disso. Ele foi o fara muitas vezes."
Ela diz a verdade, disse Horus.
"Ento voc tem um rei estpido," eu disse.
O barco tremeu como se tivssemos batido a quilha em um banco de areia.
"Cuidado, Carter," Bast avisou. "Ma'at, a ordem da criao, depende da lealdade ao
legtimo rei. Se voc question-lo, cair sob a influncia do caos."
Eu me senti to frustrado, que eu queria quebrar alguma coisa. Eu queria gritar que
aquela ordem no parecia muito melhor do que o caos se voc tinha que se matar por
ela.
Voc est sendo infantil, Horus repreendeu. Voc  um servo de Ma'at. Esses
pensamentos so indignos.
Meus olhos arderam. "Ento talvez eu seja indigno."
"Carter?" Sadie perguntou.
"Nada," eu disse. "Eu vou pra cama."
Eu sa irritado. Uma das luzes trmulas juntou-se a mim, me guiando escada acima para
meus aposentos. A cabine provavelmente era muito boa. Eu no prestei ateno. Eu
apenas ca na cama e desmaiei.
Eu precisava seriamente de um travesseiro mgico de energia-extra, porque meu ba se
recusou a ficar ali. [E no, Sadie, eu no acho que enrolar minha cabea com fita
adesiva teria funcionado do mesmo jeito.]
Meu esprito flutuou para a casa do timo do barco a vapor, mas Lmina Ensangentada
no estava no timo. Ao invs disso, um jovem em uma armadura de couro navegava o
barco. Seus olhos eram delineados com kohl, e sua cabea era raspada, exceto por um
rabo de cavalo tranado. O cara definitivamente malhava, porque seus braos eram
musculosos. Uma espada como a minha estava presa ao seu cinto.
"O rio  traioeiro," ele me disse com uma voz familiar. "Um piloto no pode se
distrair. Ele deve sempre estar alerta para o caso de bancos de areia e protuberncias
escondidas.  por isso que barcos so pintados com olhos, sabe - para ver os perigos."
"O Olho de Horus," eu disse. "Voc."
O deus falco olhou para mim, e eu vi que seus olhos eram de duas cores diferentes -
um amarelo ardente como o sol, o outro de um prateado refletido como a lua. O efeito
era to desorientador que eu tive que desviar o olhar. E quando eu fiz isso, percebi que a
sombra de Horus no combinava com sua forma. Ela alongou-se pela sala do timo
como a silhueta de um falco gigante.
"Voc questionou se a ordem  melhor do que o caos," ele disse. "Voc se distraiu do
nosso real inimigo: Set. Voc deveria aprender uma lio."
Eu estava quase dizendo, No, de verdade, tudo bem.
Mas imediatamente meu ba foi retirado. Repentinamente, eu estava a bordo de um avio
- uma grande aeronave internacional como os avies que eu e meu pai tnhamos tomado
um milho de vezes. Zia Rashid, Desjardins, e dois outros mgicos estavam apertados
em um corredor central, rodeados de famlias com crianas gritando. Zia no parecia se
importar. Ela meditava calmamente com os olhos fechados, enquanto Desjardins e dois
outros homens pareciam to desconfortveis que eu quase quis rir.
O avio balanou para frente e para trs. Desjardins derramou vinho em todo o seu colo.
A luz do cinto de segurana se acendeu, e uma voz partiu do intercomunicador: " o
capito. Parece que estamos experimentando algumas pequenas turbulncias enquanto
comeamos a aterrissar em Dallas, ento eu vou pedir s aeromoas-"
Boom! Uma exploso sacudiu as janelas - raio seguido imediatamente de trovo.
Os olhos de Zia abriram-se imediatamente. "O Senhor Vermelho."
Os passageiros gritavam como se o avio casse vrias centenas de metros.
"O comeo!" Desjardins gritou acima do barulho. "Rpido!"
Quando o avio sacudiu, os passageiros gritaram e agarraram seus assentos. Desjardins
levantou-se e abriu o compartimento superior.
"Senhor!" uma aeromoa gritou. "Senhor, sente-se!"
Desjardins a ignorou. Ele pegou quatro malas familiares - kits de utenslios mgicos - e
os atirou para seus colegas.
Ento as coisas realmente se complicaram. Um horrvel tremor passou pela cabine e o
avio deu uma guinada para o lado. Pelas janelas do lado direito, eu vi a asa do avio ser
cortada fora por um vento de oitecentos-quilmetros-por-hora.
A cabine caiu em caos - bebidas, livros, e sapatos voando por toda parte, mscaras de
oxignio caindo e se emaranhando, pessoas gritando por suas vidas.
"Protejam os inocentes!" Desjardins ordenou.
O avio comeou a tremer e rachaduras apareceram nas janelas e paredes. Os
passageiros ficaram em silncio, caindo em inconscincia enquanto a presso do ar caa.
Os mgicos ergueram suas varinhas enquanto o avio se esfacelava.
Por um momento, os mgicos flutuaram em um redemoinho de nuvens de tempestade,
pedaos de fuselagem, bagagem, e passageiros girando ainda presos a seus assentos.
Ento um brilho branco se expandiu ao redor deles, uma bolha de poder que desacelerou
a dissoluo do avio e manteve as peas rodopiando em uma rbita estreita. Desjardins
estendeu sua mo e a beirada da nuvem esticou-se em sua direo - uma espiral de fofa
nvoa branca - como uma linha de segurana. Os outros fizeram o mesmo, e a
tempestade curvou-se ante sua vontade. Vapor branco os envolveu e comeou a enviar
mais espirais, como nuvens funis, que agarraram pedaos do avio e os juntaram
novamente.
Uma criana passou caindo por Zia, mas ela apontou seu basto e murmurou um feitio.
Uma nuvem envolveu a garotinha e a trouxe de volta. Logo os quatro mgicos estavam
remontando o avio  sua volta, selando as brechas com fios de nuvens at a cabine
inteira estar envolta em um casulo de vapor brilhante. Do lado de fora, a tempestade se
intensificou e troves estouravam, mas os passageiros dormiam em seus assentos.
"Zia!" Desjardins gritou. "Ns no podemos segurar por muito tempo."
Zia correu por ele para o corredor para o convs de vo. De algum modo a frente do
avio havia sobrevivido  desintegrao intacta. A porta era blindada e trancada, mas o
basto de Zia chamejou, e a porta derreteu como cera. Ela passou e encontrou trs
pilotos inconscientes. A vista pela janela foi o suficiente para me deixar enjoado. Pelas
nuvens em espirais, o cho estava se aproximando rpido - muito rpido.
Zia chocou sua mo contra os controles. Energia vermelha surgiu nos displays.
Mostradores giraram, medidores piscaram, e o altmetro elevou-se. O nariz do avio
subiu, sua velocidade caindo. Enquanto eu assistia, Zia planou o avio para um pasto e
aterrissou sem nem mesmo um solavanco. Ento seus olhos viraram-se para trs, e ela
desmaiou.
Desjardins a encontrou e a tomou nos braos. "Rpido," ele disse aos seus colegas, "os
mortais iro acordar logo."
Eles arrastaram Zia para fora da cabine do piloto, e meu ba foi varrido por um borro de
imagens.
Eu vi Phoenix novamente - ou pelo menos um pouco da cidade. Uma tempestade de
areia vermelha macia agitando-se pelo vale, engolindo prdios e montanhas. No
spero, quente vento, eu ouvi a risada de Set, divertindo-se em seu poder.
Ento eu vi Brooklyn: a casa de Amos destruda no East River e uma tempestade de
inverno avanando com fora, ventos uivantes aoitando a cidade com neve e granizo.
E ento eu vi um lugar que eu no reconheci: um rio serpenteando por um cnion de um
deserto. O cu era um cobertor de nuvens de breu, e a superfcie do rio parecia ferver.
Algo estava se movendo sob a gua, algo enorme, perverso, e poderoso - e eu sabia que
estava esperando por mim.
Este  apenas o comeo, Horus me avisou. Set ir destruir todos com quem voc se
importa. Acredite em mim, eu sei.
O rio tornou-se um pntano de juncos. O sol brilhava acima. Cobras e crocodilos
deslizavam pela gua.  beira d'gua havia uma cabana de palha. Fora dela, uma
mulher e uma criana de aproximadamente dez anos estavam examinando um sarcfago
bastante danificado. Eu podia dizer que o caixo havia sido uma obra de arte - ouro
incrustado com pedras preciosas - mas agora estava amassado e preto de fuligem.
A mulher passou as mos pela tampa do atade.
"Finalmente." Ela tinha o rosto da minha me - olhos azuis e cabelo cor de caramelo -
mas ela brilhava com uma aurola mgica, e eu sabia que estava olhando para a deusa
Isis.
Ela viou-se para o menino. "Ns procuramos tanto, meu filho. Finalmente o
restauramos. Eu vou usar minha magia e d-lo vida novamente!"
"Papa?" O garoto olhou para a caixa com os olhos arregalados. "Ele est mesmo a
dentro?"
"Sim, Horus. E agora-"
De repente a cabana irrompeu em chamas. O deus Set saiu do inferno - um poderoso
guerreiro de pele vermelha com ardentes olhos negros. Ele usava o coroa dupla do Egito
e as roupas de um fara. Em suas mos, um basto de ferro ardia lentamente.
"Encontrou o caixo, no ?" ele disse. "Bom para voc!"
Isis levantou seu brao para o cu. Ela enviou raios contra o deus do caos, mas a vara de
set absorveu o impacto e o refletiu de volta para ela. Arcos de eletricidade golpearam a
deusa e a atirou para trs.
"Me" O menino retirou uma faca e investiu contra Set. "Eu vou te matar!"
Set rugiu uma gargalhada. Ele facilmente contornou o garoto e o chutou na lama.
"Voc tem esprito, sobrinho," Set admitiu. "Mas voc no viver o suficiente para me
desafiar. E com relao ao seu pai, eu s terei que dispers-lo mais permanentemente."
Set bateu na tampa do caixo com seu basto de ferro.
Isis gritou quando o caixo se despedaou como gelo.
"Faa um desejo." Set urrou com toda a sua fora, e os cacos do caixo voaram pelo
cu, espalhando-se em todas as direes.
"Pobre Osris - ele est em pedacinhos, espalhados por todo o Egito agora. E para voc,
irm Isis - corra!  o que voc sabe fazer melhor!"
Set investiu contra eles. Isis apanhou a mo de seu filho e os dois se transformaram em
pssaros, voando por suas vidas.
A cena se apagou, e eu estava novamente na sala do timo do barco  vapor. O sol
nasceu em uma sucesso de cenas acelerada enquanto cidades e barcos passaram
rapidamente e as margens do Mississipi se obscureceram em um jogo de luz e sombra.
"Ele destruiu meu pai," Horus me disse. "Ele vai fazer o mesmo com o seu."
"No," eu disse.
Horus me fitou com aqueles olhos estranhos - um dourado ardente, um prateado como a
lua cheia. "Minha me e Tia Nephtys passaram anos procurando os pedaos do caixo e
do corpo de meu Pai. Quando elas coletaram os quarenta, meu primo Anubis ajudou a
unir meu pai novamente com invlucros de mmia, mas a mgica de minha Me ainda
no conseguiu traz-lo de volta  vida completamente. Osris tornou-se um deus morto-
vivo, uma sombra semi-viva de meu pai, apto para governar apenas no Duat. Mas sua
perda me deu raiva. Raiva me deu fora para derrotar Set e tomar o trono para mim.
Voc deve fazer o mesmo."
"Eu no quero um trono," eu disse. "Eu quero meu pai."
"No iluda a si mesmo. Set est apenas brincando com voc. Ele ir lev-lo ao
desespero, e seu sofrimento ir torn-lo fraco."
"Eu tenho que salvar meu pai!"
"Esta no  sua misso," Horus repreendeu. "O mundo est em jogo. Agora, acorde!"
Sadie estava sacudindo meu brao. Ela e Bast estavam acima de mim, parecendo
preeocupadas.
"O qu?" eu perguntei.
"Ns estamos aqui," disse Sadie nervosamente. Ela tinha colocado uma roupa de linho
fresca, preta dessa vez, que combinava com suas botas de combate. Ela tinha at mesmo
recolorido o cabelo ento as mechas estavam azuis.
Eu me sentei e percebi que me sentia descansado pela primeira vez em uma semana.
Minha alma estava viajando, mas pelo menos meu corpo teve algum descanso. Eu olhei
para fora da janela da cabine. Estava um breu l fora.
"Por quanto tempo eu fiquei fora?"
"Ns velejamos por quase todo o Mississipi e entramos no Duat," Bast disse. "Agora
ns alcanamos a Primeira Catarata."
"Primeira Catarata?"
"A entrada," Bast disse sombriamente, "para a Terra dos Mortos."
                                   VINTE E SETE

                UM DEMNIO COM AMOSTRAS GRTIS

Eu? Eu dormi como os mortos, o que eu esperei que no fosse um sinal do que estava
por vir.
Eu podia dizer que a alma do Carter esteve vagando por uns locais assustadores, mas ele
no falava nada sobre eles.
"Voc viu a Zia?" Eu perguntei. Ele ficou to perturbado que eu pensei que seu rosto
iria cair. "Eu sabia," Eu disse.
Ns seguimos Bast at a cabine, onde o Lmina Sangrenta estava estudando um mapa
enquanto Khufu manejava - er, macacava - o timo.
"O babuno est pilotando," Eu apontei. "Deveria me preocupar?"
"Quieta, por favor, Senhorita Kane." Lmina Sangrenta correu os dedos por um longo
pedao de um mapa de papiro.
"Esse trabalho  delicado. Dois graus para estibordo, Khufu."
"Agh!" Disse Khufu.
O cu j estava escuro, mas enquanto continuamos indo em frente, as estrelas
desapareceram. O rio se tornou cor-de-sangue. Escurido engoliu o horizonte, e ao
longo das margens, as luzes da cidade se transformaram em fogos flutuantes, ento
apagaram-se completamente
Agora nossas nicas luzes eram os fogos servidores multicoloridos e a fumaa brilhante
que se expandia das chamins, lavando-nos em um estranho brilho metlico.
"Deve estar logo  frente," o capito anunciou. Na penumbra, sua lmina de machado
manchada de vermelho parecia mais assustadora do que nunca.
"O que  esse mapa?" Eu perguntei.
"Encantamentos de Sair Para a Luz," ele disse. "No se preocupe.  uma boa cpia."
Eu olhei para o Carter procurando uma traduo.
"A maioria das pessoas chamam de O Livro dos Mortos," ele me disse. "Egpcios ricos
sempre eram enterrados com uma cpia, assim eles poderiam ter as direes atravs do
Duat para a Terra dos Mortos.  como um Guia dos Idiotas para o Ps-vida."
O capito resmungou indignado. "Eu no sou idiota, Senhor Kane."
"No, no, Eu s quis dizer..." A voz do Carter vacilou. "Hum, o que  isso?"
 nossa frente, desfiladeiros de rochas salientavam-se do rio como presas,
transformando a gua em uma massa fervente de corredeiras.
"A Primeira Catarata," Lmina Sangrenta anunciou. "Espere."
Khufu empurrou o timo para a esquerda, e o barco a vapor derrapou de lado, atirando-
se entre dois pinos rochosos com apenas alguns centmetros vagos. Eu no sou muito de
gritar, mas irei admitir prontamente que eu gritei at quase explodir. [E no olhe assim
para mim, Carter. Voc no foi muito melhor.]
Ns avistamos de repente um filamento de gua espumante  ou vemelhante  (Acho
melhor esquecer essa piada, rs. Em ingls: White water  or red water) e desviamos
para evitar uma pedra do tamanho da estao de Paddington. O barco a vapor fez mais
duas voltas suicidas entre pedregulhos, fez uma girada de 360 graus em volta de um
redemoinho, lanou-se de uma cachoeira de dez metros e caiu batendo com tanta fora
que meus ouvidos fizeram um estouro como um tiro.
Ns continuamos correnteza abaixo como se nada tivesse acontecido, o roncado das
corredeiras desaparecendo atrs de ns.
"Eu no gosto de cataratas," Eu decidi. "Haver mais?"
"No to grandes, ainda bem," disse Bast, que estava parecendo enjoada. "Ns
atravessamos para a "
"A Terra dos Mortos," Carter terminou.
Ele apontou para a costa, que estava envolta em neblina. Coisas estranhas espreitavam
na escurido: luzes fantasmagricas flutuantes, rostos gigantes feitos de nvoa, sombras
desajeitadas que pareciam desconectadas de qualquer coisa fsica. Ao longo das
margens, velhos ossos se arrastavam atravs da lama, juntando-se com outros ossos em
padres aleatrios.
"Estou chutando que isso no  o Mississpi," Eu disse.
"O Rio da Noite," Lmina Sangrenta resmungou. "Ele  todos os rios e nenhum rio - a
sombra do Mississpi, do Nilo, do Tames. Ele corre pelo Duat, com vrias ramificaes
e afluentes."
"Isso explica," Eu murmurei.
A cena ficou mais estranha. Ns vimos vilas fantasmas de tempos antigos - pequenas
aglomeraes de cabanas de junco feitas de fumaa flutuante. Ns vimos vastos templos
desmoronando e reconstruindo a si mesmos o tempo todo como um vdeo repetindo-se.
E em todo lugar, fantasmas olhavam-nos enquanto passvamos. Mos enfumaadas
chegaram. Sombras chamaram-nos silenciosamente, ento voltaram em desespero
quando passamos.
"Os perdidos e confusos," Blast disse. "Espritos que nunca encontraram seu caminho
para a Sala do Julgamento."
"Porque eles so to tristes?" Eu perguntei.
"Bem, eles esto mortos," Carter especulou.
"No,  mais do que isso," Eu disse. " como se eles estivessem... Esperando algum."
"Ra," Bast disse. "Por eras, o glorioso barco de Ra viajava essa rota todas as noites,
expulsando as foras de Apfis." Ela olhou ao redor nervosamente como se lembrasse
de velhas emboscadas. "Era perigoso: toda noite, uma luta pela existncia. Mas quando
ele passava, Ra trazia a luz do dia e calor ao Duat, e esses espritos perdidos
regozijavam-se, lembrando do mundo dos vivos."
"Mas isso  uma lenda," Carter disse. "O mundo gira em volta do sol. Na verdade o sol
nunca desce  terra."
"Voc no aprendeu nada do Egito?" Bast perguntou. "Histrias conflitantes podem ser
igualmente verdadeiras. O sol  uma bola de fogo no espao, sim. Mas a imagem dele
enquanto corta o cu, o calor doador de vida e luz que ele trs para a terra - isso era
encorpado em Ra. O sol era seu trono, sua fonte de poder, seu prprio esprito. Mas
agora Ra recuou aos Cus. Ele dorme, e o sol  apenas o sol. O barco de Ra no viaja
mais em seu ciclo pelo Duat. Ele no clareia mais o escuro, e os mortos sentem sua
ausncia muito mais fortemente."
"Verdade," disse Lmina Sangrenta, apesar de no parecer muito preocupado com isso.
"A lenda diz que o mundo vai acabar quando Ra ficar muito cansado para continuar
vivendo em seu estado enfraquecido. Apfis ir engolir o sol. A escurido reinar. O
caos ir superar Ma'at, e a Serpente reinar para sempre."
Parte de mim pensou que isso era absurdo. Os planetas no iriam simplesmente parar de
girar. O sol no iria deixar de nascer.
Por outro lado, aqui estava eu viajando pela Terra dos Mortos em um barco com um
demnio e um deus. Se Apfis era real tambm, eu no gostaria de conhec-lo.
E para ser honesta, eu me sentia culpada. Se a histria que Toth me contou era verdade,
sis fez Ra recuar aos cus com aquele negcio do nome secreto. O que significa, em
uma maneira ridcula e maluca, que o fim do mundo seria minha culpa. Tpico. Eu
queria me esmurar para ficar quite com Isis, mas eu suspeitei que isso iria doer.
"Ra deveria acordar e sentir o cheiro de sahlab," eu disse. "Ele deveria voltar."
Bast sorriu sem humor. "E o mundo deveria ser jovem novamente, Sadie. Eu gostaria
que isso fosse to..."
Khufu grunhiu e apontou para frente. Ele deu o timo ao capito e correu para fora da
cabine e escada abaixo.
"O babuno est certo," disse Lmina Sangrenta. "Vocs deveriam ir para a proa. Um
desafio vir logo."
"Que tipo de desafio?" Eu perguntei.
" difcil dizer," Lmina Sangrenta disse, e eu pensei ter detectado uma satisfao
presunosa em sua voz. "Te desejo sorte, Senhorita Kane."
"Porque eu?" resmunguei.
Bast, Carter e eu ficamos na proa do barco, assistindo o rio aparecer da escurido. Sob
ns, os olhos pintados no barco brilhavam fracamente no escuro, varrendo vigas de luz
atravs da gua vermelha. Khufu escalou ao topo da prancha de desembarque, que
ficava em p quando retrada, e colocou as mo acima dos olhos como um marujo em
uma gvea.
Mas toda essa vigilncia no ajudou muito. Com a escurido e a nvoa, nossa
visibilidade era nula. Pedras gigantes, pilares quebrados e esttuas de faras
desintegrando apareciam do nada, e Lmina Sangrenta rodava o timo rapidamente para
evit-los, forando-nos a a segurar para nos manter nos trilhos. Ocasionalmente ns
vamos criaturas viscosas cortando a superfcie da gua, como tentculos, ou as costas
de criaturas sumersas  Eu realmente no queria saber.
"Almas mortais sempre so desafiadas," Bast me disse. "Vocs devem provar seu valor
para entrar na Terra dos Mortos."
"Como se fosse um negcio to bom?"
Eu no tenho certeza de quanto tempo eu passei olhando para a escurido, mas aps um
bom tempo um borro avermelhado apareceu na distncia, como se o cu estivesse se
tornando mais claro.
"Isso  minha imaginao, ou - "
"Nosso destino," Bast disse. "Estranho, ns realmente j deveramos ter sido desafiados
-"
O barco estremeceu, e a gua comeou a fervilhar. Uma figura gigantesca irrompeu do
rio. Eu podia v-lo apenas da cintura para cima, mas ele tinha vrios metros a mais que
o barco. Seu corpo era humanoide  de peito n e peludo com pele arroxeada. Um cinto
de corda estava amarrado ao redor de sua cintura, decorado com bolsas de couro,
diversas cabeas de demnios, e algunas cositas ms (bits and bobs, expresso
idiomtica. Coloquei "algunas cositas ms" por se tratar de uma expresso
comumente utilizada e mantendo o ar de brincadeira.). Sua cabea era uma estranha
combinao de leo e humano, com olhos dourados e uma juba preta feita com
dreadlocks. Sua boca respingada de sangue era felina, com bigodes eriados e presas
pontiagudas. Ele rosnou, fazendo Khufu correr da gvia. O pobre babuno deu um salto,
voando aos braos de Carter, que derrubou os dois ao deque.
"Voc deveria dizer algo," eu falei para Bast fracamente. "Ele  seu parente, eu
espero?"
Bast balanou a cabea. "Eu no posso te ajudar com isso, Sadie. Vocs so mortais.
Vocs devem lidar com o desafio."
"Oh, obrigado por isso."
"Eu sou Shezmu!" o maldito homem-leo disse.
Eu quis dizer, "Sim, voc realmente ." Mas decidi manter minha boca fechada.
Ele virou seus olhos dourados para Carter e inclinou sua cabea. Suas narinas tremeram.
"Eu sinto o cheiro de sangue de faras. Um prazer delicioso... Ou voc se atreve a me
nomear?"
"T-te nomear?" Carter cuspiu confusamente. "Voc quer dizer seu nome secreto?"
O demnio riu. Ele agarrou um pinculo de rocha prximo, que esfarinhou-se como
gesso velho em seu punho.
Eu olhei desesperadamente para Carter. "Voc no teria por acaso o nome secreto dele
por a?"
"Pode estar no Livro dos Mortos," Carter disse. "Eu esqueci de checar."
"E ento?" Eu disse.
"Mantenha-o ocupado" Carter respondeu, e saiu tropeando para a Cabine de controle.
Manter um demnio ocupado, eu pensei. Certo. Talvez ele curta um futebol de botes.
(Traduo livre, j que o jogo "tiddlywinks" no  muito conhecido por aqui, mas
assemelha-se um pouco ao futebol de boto.)
"Voc desiste?" Shezmu berrou.
"No!" Eu gritei. "No, ns no desistimos. Ns te nomearemos. S que... Meu deus,
voc  bem musculoso, no ? Voc malha?"
Eu olhei para Bast, que aprovou com um gesto.
Shezmu estrondou com orgulho e flexionou seus poderosos braos. Nunca falha com
homens, no ? Mesmo se eles tem vinte metros de altura e uma cabea de leo.
"Eu sou Shezmu!" Ele berrou.
"Sim, voc j deve ter mencionado isso," Eu disse. "Eu me pergunto, hum, qual tipo de
ttulos voc recebeu atravs dos tempos, hein? O Senhor disso e daquilo?"
"Eu sou o executor real de Osiris!" ele gritou, socando um punho na gua e sacudindo
nosso barco. "Eu sou o Senhor do Sangue e do Vinho!"
"Brilhante," Eu disse, tentando no ficar enjoada. "Er, como sangue e vindo so
conectados, exatamente?"
"Garrr!" Ele inclinou-se para frente e arreganhou suas presas, que no eram nem um
pouco mais bonitas de perto. Sua juba estava emaranhada com nojentos pedaos de
peixe e musgo do rio. "Senhor Osiris me deixa decapitar os perversos! Eu esmago-os na
minha prensa de vinho, e fao vinho para os mortos!"
Eu fiz uma nota mental de nunca tomar vinho dos mortos.
Voc est indo bem. A voz de Isis comeou. Ela esteve quieta por tanto tempo que eu
quase a esqueci. Pergunte-o sobre suas outras atribuies.
"E quais suas outras atribuies... Oh poderoso e demonaco cara do vinho?"
"Eu sou o senhor do..." Ele flexionou seus msculos para um efeito mximo.
"Perfume!"
Ele sorriu para mim, aparentemente esperando pelo terror comear.
"Oh, meu deus!" Eu disse. "Isso deve fazer seus inimigos estremecerem."
"H, h, h! Sim! Voc gostaria de uma amostra grtis?" Ele arrancou uma bolsa de
couro viscosa de seu sinto, e trouxe um pote de barro cheio de um p amarelo de cheiro
adocicado. "Eu chamo esse de... Eternity!"
"Amvel," eu engasguei. Eu olhei para trs, me perguntando onde Carter havia ido, mas
no tinha sinal dele.
Mantenha-o falando, Isis apressou.
"E, hum... perfume  parte de seu negcio porque... espera, eu intendi, voc o espreme
de plantas, do mesmo jeito que voc espreme vinho..."
"Ou sangue!" Shezmu adicionou.
"Bem, naturalmente," Eu disse. "O sangue no precisa nem dizer."
"Sangue!" ele disse.
Khufu deu um gritinho desesperado e cobriu os olhos.
"Ento voc serve Osiris?" Eu perguntei ao demnio.
"Sim! Pelo menos..." Ele hesitou, rugindo de dvida. "Eu costumava. O trono de Osiris
est vazio. Mas ele retornar. Ele retornar!"
"Claro," eu disse. "E ento seus amigos te chamam de que... Shezinho? Caasangue?
(PS: Original: Bloodsiekins. No tenho a mnima ideia o que seja "siekins" e no
consegui separar em mais palavras que faam sentido. Pensei que possa ser para
soar como "seek", mas no tem muito sentido. No encontrei nenhuma palavra
parecida, mas tambm pensei em algo como "tiposangrento" [bloodsie kins]
baseado em expresses como Otherkins [other kinds])"
"Eu no tenho amigos! Mas se eu tivesse, eles me chamariam de Carrasco das Almas,
Rosto Feroz! Mas eu no tenho nenhum amigo, ento meu nome no est em perigo.
H, h, h!"
Eu olhei para Bast, me perguntando se eu tinha tido tanta sorte quanto eu pensei. Bast
sorriu para mim.
Carter veio tropeando pelas escadas, segurando o Livro dos Mortos. "Eu consegui! Em
algum lugar por aqui. No consigo ler essa parte, mas - "
"Diga meu nome ou seja comido!" Shezmu berrou.
"Eu te nomeio!" Eu gritei de volta. "Shezmu, Carrasco das Almas, Rosto Feroz!"
"GAAAAHHHHH!" Ele se contorceu de dor. "Como eles sempre sabem?"
"Deixe-nos passar!" Eu ordenei. "Oh, e mais uma coisa... meu irmo quer uma amostra
grtis."
Eu s tive tempo de sair do caminho, e Carter s teve tempo de parecer confuso antes do
demnio jogar p amarelo nele todo. Ento Shezmu afundou de baixo das ondas.
"Que cara legal," Eu disse.
"P!" Carter cospiu perfume. Ele parecia um pedao de peixe empanado. "Pra que foi
isso?"
"Seu cheiro est adorvel," eu assegurei-o. "O que vem agora, ento?"
Eu estava me sentindo muito satisfeita comigo mesmo at que nosso barco fez uma
curva no rio. De repente o brilho avermelhado no horizonte tornou-se uma chama de
luz. Na cabine de comando, o capito tocou o sino de alarme.
 nossa frente, o rio estava em chamas, correndo por uma extenso de corredeiras em
direo ao que parecia uma cratera vulcnica borbulhante.
"O Lago de Fogo," Bast disse. " aqui que fica interessante.
                                    VINTE E OITO

 EU TENHO UM ENCONTRO COM O DEUS DO PAPEL HIGINICO

BAST TINHA UMA DEFINIO INTERESSANTE sobre interessante: Um lago
fervente com muitas milhas de dimetro que tinha cheiro de petrleo queimado e carne
podre. Nosso barco a vapor parou bem onde o rio encontrava o lago, pois um porto de
metal gigante bloqueava nosso caminho. Era um disco de bronze como um escudo, to
longo quanto nosso barco, submerso no rio at a metade. Eu no tinha certeza de como
ele evitava derreter no calor, mas tornou impossvel continuarmos. Em ambas margens
do rio, encarando o disco, haviam babunos de bronze gigantes com os braos erguidos.
"O que  isso?" Perguntei.
"Os Portais do Oeste," Bast disse. "O barco solar de R passaria por eles e seria
renovado nos fogos do lago, ento passaria para o outro lado e ressurgir pelos Portais do
Leste para um novo dia."
Olhando para os babunos gigantes, eu me perguntei se Khufu teria algum tipo de
cdigo babuno secreto que nos faria entrar. Mas ao invs disso, ele ladrou para as
esttuas e encolheu-se heroicamente entre minhas pernas.
"Como ns fazemos para passar?" Me perguntei.
"Talvez," uma nova voz disse, "voc devesse perguntar para mim."
O ar tremeluziu. Carter recuou rapidamente e Bast chiou.
 minha frente apareceu um esprito pssaro: um ba. Ele tinha a combinao usual de
cabea humana e corpo de peru assassino, com suas asas recolhidas para trs e sua
forma inteira brilhando, mas algo neste ba era diferente. Eu percebi que eu conhecia o
rosto deste esprito  um homem velho e careca, pele enrugada, olhos leitosos e sorriso
gentil.
"Iskandar?" Eu perguntei.
"Ol, minha querida." A voz do velho mago ecoou como se viesse do fundo de um
poo.
"Mas..." Eu me percebi lacrimejando. "Voc est realmente morto ento?"
Ele riu. "Da ltima vez que conferi."
"Mas porque? Eu no te fiz-"
"No, querida. No foi sua culpa. Era simplesmente a hora certa."
"Foi uma hora horrvel!" Minha surpresa e tristeza transformou-se de repente em raiva.
"Voc nos deixou antes de termos treinado, e agora Desjardins est atrs de ns e-"
"Minha querida, olhe quo longe vocs chegaram. Perceba quo bem vocs foram.
Vocs no precisavam de mim, treino tampouco teria ajudado. Meus irmos teriam
descoberto a verdade sobre vocs cedo o suficiente. Eles so excelentes em farejar
deuses menores, eu temo, e eles no teriam intendido."
"Voc sabia, no ? Voc sabia que estvamos possudos por deuses."
"Hospedeiros dos deuses."
"Tanto faz! Voc sabia."
"Depois do nosso segundo encontro, sim. Meu nico pesar  no ter percebido antes. Eu
no poderia proteger voc e seu irmo tanto quanto-"
"Tanto quanto quem?"
Os olhos de Iskandar ficaram tristes e distantes. "Eu fiz escolhas, Sadie. Algumas
pareceram mais sbias no momento. Algumas, em retrospecto..."
"Sua deciso de proibir os deuses. Minha me te convenceu de que era uma m ideia,
no foi?"
Suas asas espectrais tremeram. "Voc precisa intender, Sadie. Quando o Egito caiu para
os Romanos, meu esprito foi pulverizado. Milhares de anos de poder e tradio
egpcios rudos por aquela rainha Clepatra insensata, que pensou que poderia hospedar
uma deusa. O sangue dos faras parecia fraco e diludo  perdido para sempre. Na
poca eu culpei a todos  os deuses que usaram os homens para encenar suas
ornamentadas desavenas, as regras Ptolomaicas que guiaram o Egito ao cho, meus
prprios irmos da Casa por se tornarem fracos, gananciosos e corruptos. Eu comunguei
com Toth, e ns concordamos: os deuses devem ser colocados de lado, banidos. Os
magos devem encontrar seu prprio caminho sem eles. As novas regras mantiveram a
Casa intacta por mais dois mil anos. Na poca, foi a escolha certa."
"E agora?" Perguntei.
O brilho de Iskandar esmaeceu. "Sua me previu um grande embalano. Ela previu o
dia  muito prximo  quando Ma'at seria destruda, e o caos iria reivindicar toda a
Criao. Ela insistiu que apenas os deuses e a Casa juntos poderiam prevalecer. O velho
modo  o caminho dos deuses  teria que ser restabelecido. Eu era um velho insensato.
Eu sabia no meu corao que ela estava certa, mas eu me recusei a acreditar... E seus
pais agiram por conta prpria. Eles se sacrificaram tentando consertar as coisas, porque
eu era muito inflexvel para mudar. Por isso, sinto muito."
Por mais que eu tenha tentado, achei difcil continuar com raiva do velho peru.  muito
raro um adulto admitir estar errado para uma criana  principalmente um sbio adulto
de dois mil anos de idade. Voc prefere estimar esses momentos.
"Eu te perdoo, Iskandar," Eu disse. "Honestamente. Mas Set est quase para destruir a
Amrica do Norte com uma pirmide vermelha gigante. O que eu fao sobre isso?"
"Isso, minha querida, eu no posso responder.  sua escolha..." Ele voltou sua cabea
para o lago, como se escutasse uma voz. "Nosso tempo chegou ao fim. Eu devo fazer
meu trabalho como porteiro, e decidir se permito seu acesso ao Lago de Fogo ou no."
"Mas eu tenho mais perguntas!"
"E eu gostaria que tivssemos mais tempo," disse Iskandar. "Voc tem um esprito
forte, Sadie Kane. Algum dia voc dar um excelente ba guardio."
"Obrigado," eu murmurei. "No posso esperar por ser um passarinho domstico para
sempre."
"Eu posso te dizer isso: sua escolha se aproxima. No deixe seus sentimentos cegarem o
que  melhor, como eu fiz."
"Que escolha? Melhor para quem?"
"Essa  a chave, no? Seu pai  sua famlia  os deuses  o mundo. Ma'at e Isfet, ordem
e caos, esto para colidir mais violentamente do que em eras. Voc e seu irmo sero
instrumentos no balano dessas foras, ou na destruio total. Isso, tambm, sua me
previu."
"Espere. O que voc-"
"At mais ver, Sadie. Talvez algum dia teremos a chance de conversar mais. Mas por
agora, siga em frente! Meu trabalho  estimar sua coragem  e isso voc possui em
abundncia."
Eu quis argumentar que no, de fato, eu no tinha. Eu quis que Iskandar ficasse e me
dissesse exatamente o que minha me previu no meu futuro. Mas ele desapareceu,
deixando o deque quieto e imvel. Apenas ento eu percebi que ningum a bordo havia
dito uma palavra.
Eu me virei para o Carter. "Deixando tudo s minhas custas, hein?"
Ele estava fitando o vazio, nem mesmo piscando. Khufu ainda agarrado s minhas
pernas, absolutamente petrificado. O rosto de Bast estava congelado em meio a um
chiado.
"Hum, pessoal?" Eu estalei meus dedos, e todos descongelaram.
"Ba!" chiou Bast. Ento ela olhou ao redor e franziu as sobrancelhas. "Espere, eu acho
que eu vi... O que aconteceu?"
Eu me perguntei quo poderoso um mago teria que ser para parar o tempo, congelar at
mesmo uma deusa. Algum dia, Iskandar iria me ensinar esse truque, morto ou no.
"Sim," eu disse. "Eu conto que havia um ba. J se foi."
As esttuas dos babunos comearam a ranger enquanto os braos abaixavam. O disco
solar de bronze afundou alm da superfcie no meio do rio, abrindo caminho para o
lago. O barco atirou-se  frente, direto para as chamas e as ondas vermelhas ferventes.
Atravs do calor trepidante, eu s conseguia perceber uma ilha no meio do lago. Nela
ergueu-se um templo negro brilhante que no parecia nem um pouco amigvel.
"O Salo de Julgamento," eu chutei.
Bast assentiu. "Em tempos como esse, fico contente por no ter uma alma mortal."
Quando ancoramos na ilha, Lmina Sangrenta veio at ns para dizer adeus.
"Espero v-la novamente, Senhorita Kane," ele murmurou. "Seus quartos estaro
esperando a bordo do Rainha Egpcia. A no ser,  claro, que achem adequado me
liberar do servio."
Atrs de suas costas, Bast balanou a cabea duramente.
"Hum, bem, manteremos voc por perto," Eu disse ao capito. "Obrigado por tudo."
"Como desejar," o capito disse. Se machados pudessem fazer careta, eu tenho certeza
que ele teria feito.
"Fique afiado," Carter o disse, e com Bast e Khufu, ns descemos a plataforma de
desembarque. Ao invs de zarpar, o barco simplesmente afundou na lava fervente e
desapareceu.
Eu franzi as sobrancelhas para o Carter. "Fique afiado?"
"Eu achei engraado."
"Voc no tem jeito."
Ns subimos os degraus do templo negro. Uma floresta de pilares de pedra seguraram o
telhado. Toda superfcie estava encravada com hierglifos e imagens, mas no havia cor
 s preto e preto. Nevoeiro do lago espalhava-se pelo templo, e apesar das tochas que
queimavam em cada pilar, era impossvel ver muito longe atravs das trevas.
"Fique alerta," Bast disse, farejando o ar. "Ele est prximo."
"Quem?" Eu perguntei.
"O Co," Bast disse com desdenho.
Havia um barulho de rosnado, e uma forma preta gigantesca saltou da nvoa. Ela atacou
Bast, que rolou e gemeu de um modo muito felino, ento saiu correndo, deixando-nos
s com a besta. Suponho que ela tenha nos dito que no era muito valente.
O novo animal era lustroso e preto, como o Set animal que vimos em Washington, D.C.,
mas mais obviamente canino, gracioso e at bonitinho, na verdade. Um chacal, eu
percebi, com uma coleira dourada ao redor de seu pescoo.
Ento ele morfou em um jovem, e meu corao quase parou. Ele era o garoto dos meus
sonhos, literalmente  o garoto de preto que eu vi duas vezes antes nas vises em ba.
Pessoalmente, Anbis era ainda mais lindo de morrer. [Oh.. h, h. Eu no peguei o
trocadilho, mas obrigado, Carter. Deus dos mortos, lindo de morrer. Sim, hilrio. Agora,
posso continuar?]
Ele tinha uma pele plida, cabelos desgrenhados, e olhos castanhos como chocolate
derretido. Ele estava usando um jeans preto, coturnos (iguais aos meus!), uma camiseta
rasgada e uma jaqueta de couro preto que caia muito bem nele. Ele era alto e magro
como um chacal. Suas orelhas, como as de um chacal, eram um pouco pontudas (o que
eu achei fofo), e ele usava uma corrente dourada no pescoo.
Agora, por favor entenda, eu no sou louca por garotos. No sou! Eu passei a maior
parte do semestre letivo zoando a Liz e Emma, que eram, e eu estava muito agradecida
por elas no estarem comigo no momento, pois elas iriam me importunar eternamente.
O garoto de preto espanou a jaqueta. "Eu no sou um co," ele rosnou.
"No," eu concordei. "Voc ..."
Sem dvidas eu iria dizer delicioso ou algo igualmente embaraoso, mas Carter me
salvou.
"Voc  Anbis?" Ele perguntou. "Ns viemos pela Pena da Verdade."
Anbis franziu o cenho. Ele prendeu seu olhos muito amveis em mim. "Voc no est
morta."
"No," eu disse. "Apesar de terrivelmente estarmos tentando muito."
"Eu no lido com os vivos," ele disse com firmeza. Ento ele olhou para Khufu e
Carter. "Contudo voc viaja com um babuno. Isso demonstra bom gosto. No te
matarei sem que voc tenha tido uma chance de explicar. Porque Bast os trouxe aqui?"
"Na verdade," Carter disse, "Toth nos mandou."
Carter comeou a contar a histria, mas Khufu cortou com impacincia. "Agh! Agh!"
Lngua babuna deve ter sido bem eficiente, pois Anbis concordou como se tivesse
pego a narrativa inteira. "Intendo."
Ele franziu o cenho para Carter. "Ento voc  Horus, e voc..." Seu dedo direcionou-se
para mim.
"Eu-Eu, hum-" Eu gaguejei. Bem diferente eu ter lngua presa, irei admitir, mas olhando
para Anbis eu senti como se eu tivesse acabado de levar uma grande dose de
Novocana no dentista. Carter olhou para mim como se eu tivesse ficado doida.
"Eu no sou sis," eu conduzi. "Digo, sis est moendo a por dentro, mas eu no sou
ela. Ela est apenas... visitando."
Anbis inclinou a cabea. "E vocs dois esto querendo desafiar Set?"
"Essa  a ideia geral," Carter concordou. "Voc nos ajudar?"
Anbis olhou furiosamente. Me lembrei de Toth dizer que Anbis s estava de bom
humor uma vez a cada aeon, por a. Eu tive a impresso de que esse no era um desses
dias.
"No," ele disse secamente. "Mostrarei o motivo."
Ele se transformou em um chacal e correu de volta ao lugar de onde veio. Carter e eu
trocamos olhares. Sem saber mais o que fazer, corremos atrs de Anbis, mais fundo na
escurido.
No centro do templo havia uma cmara circular que parecia ser dois lugares ao mesmo
tempo. De um lado, era um grande salo com braseiros flamejantes e um trono vazio no
fundo distante. O centro do cmodo era dominado por um conjunto de balanas  um T
de ferro preto com cordas ligadas aos dois pratos dourados, cada um grande o suficiente
para caber uma pessoa  mas as balanas estavam quebradas. Um dos pratos dourados
estava dobrado em V como se algo muito pesado tivesse pulado em cima dele. O outro
prato estava pendurado por uma nica corda.
Enrolado na base das balanas, adormecido, estava o monstro mais bizarro que j vi. Ele
tinha a cabea de um crocodilo com juba de leo. A metade frontal de seu corpo era
leo, mas as costas eram lustrosas, marrons e gordas  Hipoptamo, eu decidi. A parte
estranha era, o animal era minsculo  quero dizer, no era maior do que um poodle
mdio, o que eu imagino que o faa um hipocroodle.
Ento esse era o salo, pelo menos uma camada dele. Mas ao mesmo tempo, eu parecia
estar em um cemitrio fantasmagrico  como uma projeo tridimensional sobreposta
 sala. Em alguns lugares, o cho de mrmore deu lugar  trechos de lama e pedras de
pavimentao cobertas de musgo. Filas de tumbas como fileira de casas em miniatura
irradiavam do centro da sala num padro circular. Muitas tumbas foram arrebentadas e
abertas. Algumas foram fechadas com tijolos, outras circuladas com cercas de ferro. Ao
redor das bordas da cmara, os pilares negros mudaram de forma, s vezes se
transformando em antigas rvores ciprestes. Eu senti como se estivesse pisando em dois
mundos diferentes, e no conseguisse dizer qual era real.
Khufu galopou diretamente para as balanas quebradas e escalou at o topo, fazendo-se
em casa. Ele no prestou nenhuma ateno ao hipocroodle.
O chacal trotou at os degraus do trono e transformou-se novamente em Anbis.
"Bem," ele disse. "A ltima sala que vocs viro."
Carter olhou ao redor com reverncia. "O Salo do Julgamento." Ele focou no
hipocroodle e franziu o cenho. "Isso  o..."
"Ammit, o Devorador," Anbis disse. "Lance seu olhar sobre ele e estremea."
Ammit aparentemente ouviu seu nome em seu sono. Ele fez um som de latido e virou de
costas. Suas pernas de leo e hipoptamo contradas. Eu me perguntei se monstros do
mundo inferior sonhavam com caar coelhos.
"Eu sempre o imaginei... Maior," Carter admitiu.
Anbis olhou Carter de modo spero. "Ammit tem que ser apenas grande o suficiente
para comer os coraes dos perversos. Acredite em mim, ele faz bem o seu trabalho. Ou
ele fazia bem, de qualquer modo."
Em cima das balanas, Khufu grunhiu. Ele quase perdeu o equilbrio na viga central, e o
pires dentado tiniu contra o cho.
"Porque as balanas esto quebradas?" Eu perguntei.
Anbis fechou o rosto. "Ma'at est enfraquecendo. Eu tentei consert-las, mas..." Ele
abriu os braos desamparadamente.
Eu apontei para as filas fantasmagricas de tmulos. " por isso que o, ah, cemitrio
est se conectando?"
Carter olhou para mim de modo estranho. "Que cemitrio?"
"As tumbas," eu disse. "As rvores."
"Do que voc est falando?"
"Ele no pode v-las," Anbis disse. "Mas voc, Sadie  voc  perceptiva. O que voc
ouve?"
No primeiro momento eu no soube o que ele quis dizer. Tudo que eu ouvia era o
sangue correndo pelos meus ouvidos, e os distantes roncos e estalos do Lago de Fogo.
(E Khufu se coando e grunhindo, mas isso no era novidade.)
Ento eu fechei meus olhos, e ouvi outro som distante  msica que desencadeou
minhas memrias mais jovens, meu pai sorrindo enquanto me carregava em uma dana
em nossa casa em Los Angeles.
"Jazz," eu disse.
Eu abri meus olhos e o Salo do Julgamento se fora. Ou no se fora, mas esvaneceu. Eu
ainda podia ver as balanas quebradas e o trono vazio. Mas sem colunas negras, sem
crepitar de fogo. At o Carter, Khufu e Ammit haviam desaparecido.
O cemitrio era muito real. Pedras de pavimentao rachadas balanavam sob meus ps.
O ar mido da noite cheirava a especiarias, ensopado de peixe e lugares velhos
embolorados. Eu podia estar de volta na Inglaterra  nos arredores de uma igreja em
algum canto de Londres, talvez  mas as escrituras nos sepulcros estavam em francs, e
o ar era muito suave para um inverno ingls. As rvores eram baixas e exuberantes,
cobertas de musgo.
E havia msica. Logo aps as cercas do cemitrio, uma banda de jazz desfilava pela rua
em sombrios ternos escuros e chapus brilhantes e coloridos. Saxofonistas golpeavam
para cima e para baixo. Cornetas e clarinetes gemiam. Bateristas sorriam e se
balanavam, suas baquetas em vultos. E atrs deles, carregando flores e tochas, uma
multido de folies com roupas de velrio danavam em volta de um antiquado carro
fnebre enquanto ele seguia seu caminho.
"Onde estamos?" Eu disse, maravilhada.
Anbis pulou de cima de uma tumba e aterrizou prximo a mim. Ele respirou o ar do
cemitrio, e suas feies relaxaram. Eu me peguei estudando sua boca, a curva de seu
lbio inferior.
"Nova Orleans," ele disse.
"Desculpe?"
"A cidade afogada," ele disse. "No quarteiro francs, no lado ocidental do rio  a costa
dos mortos. Eu amo esse local.  por isso que o Salo do Julgamento frequentemente se
conecta a essa parte do mundo mortal."
A procisso de jazz fez seu caminho pela rua, dragando mais espectadores para a festa.
"O que eles esto celebrando?"
"Um funeral," Anbis disse. "Eles acabaram de colocar o falecido em sua tumba. Agora
esto 'soltando o corpo'. Os que esto de luto celebram a vida do morto com msica e
dana enquanto escoltam o carro funerrio para longe do cemitrio. Muito egpcio, esse
ritual."
"Como voc sabe tanto?"
"Eu sou o deus dos funerais. Eu conheo todos os costumes de morte ao redor do
mundo  como morrer apropriadamente, como preparar o corpo e a alma para o ps-
vida. Eu vivo para a morte."
"Voc deve ser divertido em festas," eu disse. "Poque voc me trouxe aqui?"
"Para conversar." Ele abriu as mos e a tumba mais prxima estremeceu. Uma longa
fita branca atirou-se de uma rachadura na parede. A fita simplesmente continuou vindo,
tecendo-se em um tipo de forma ao redor de Anbis, e meu primeiro pensamento foi,
Meu deus, ele tem um rolo de papel higinico mgico.
Ento eu percebi que era tecido, um pedao de invlucro de linho  invlucro de
mmia. O pano torceu-se em forma de um banco, e Anbis se sentou.
"Eu no gosto do Horus." ele fez um gesto para eu me sentar ao seu lado. "Ele 
barulhento, arrogante e acha que  melhor do que eu. Mas sis sempre me tratou como
um filho."
Eu cruzei meus braos. "Voc no  meu filho. E eu te disse que no sou sis."
Anbis inclinou sua cabea. "No, voc no age como um deus menor. Voc me lembra
sua me."
Aquilo me atingiu como um balde de gua fria (e infelizmente eu sabia bem como isso
era, graas  Zia).
"Voc conheceu minha me?"
Anbis piscou, como se percebesse que fez algo errado. "E-Eu conheo todos os
mortos, mas o caminho de cada esprito  secreto. Eu no deveria ter falado."
"Voc no pode simplesmente dizer algo assim e ento se recusar a falar! Ela est no
ps-vida egpcio? Ela passou no seu pequeno Salo do Julgamento?"
Anbis olhou desconfortavelmente para as balanas douradas, que tremeluziam como
uma miragem no cemitrio. "No  meu salo. Eu meramente cuido dele at que Osris
retorne. Me desculpe se eu te preocupei, mas no posso dizer mais nada. Eu no sei nem
porque eu disse algo.  s que... sua alma possui um brilho similar. Um forte brilho."
"Que lisonjeiro," eu grunhi. "Minha alma brilha."
"Desculpe," ele disse novamente. "Por favor, sente-se."
Eu no tinha interesse em deixar o assunto morrer, ou sentar com ele em um monte de
faixa de mmia, mas minha abordagem direta para coleta de informaes no parecia
estar funcionando. Eu me deixei cair no banco e tentei parecer o mais zangada possvel.
"E ento." Eu o dei um olhar enfurecido. "O que  essa forma, ento? Voc  um deus
menor?"
Ele franziu o cenho e colocou a mo no peito. "Voc quer dizer, se eu estou habitando
um corpo humano? No, eu posso habitar qualquer cemitrio, qualquer lugar de morte e
lamria. Essa  minha aparncia natural."
"Oh." Parte de mim tinha esperanas de que havia na verdade um garoto sentado do
meu lado  algum que simplesmente estivesse hospedando um deus. Mas eu deveria
saber que isso era bom de mais para ser verdade. Me senti desapontada. Ento senti
raiva de mim mesma por me sentir desapontada.
No  como se houvesse algum potencial, Sadie, eu me repreendi. Ele  o maldito deus
dos funerais, ele tem uns cinco mil anos.
"Ento," eu disse, "se voc no pode me dizer nada til, pelo menos me ajude. Ns
precisamos da Pena da Verdade."
Ele balanou a cabea. "Voc no sabe o que est pedindo. A Pena da Verdade  muito
perigosa. D-la a um mortal seria contra as regras de Osris."
"Mas Osris no est aqui." Eu apontei para o trono vazio. "Aquele  o assento dele, no
? Voc v Osris?"
Anbis olhou para o trono. Ele correu os dedos por sua corrente dourada como se ela
estivesse ficando mais apertada. " verdade que eu estive esperando por eras, mantendo
meu posto. Eu no fui preso como os outros. No sei o motivo... mas eu fiz o melhor
que eu pude. Quando ouvi que os cinco haviam sido soltos, eu esperei que o Senhor
Osris fosse voltar, mas..." ele balanou a cabea abatido. "Porque ele negligenciaria
suas atribuies?"
"Provavelmente porque ele est preso dentro do meu pai."
Anbis olhou para mim. "O babuno no me explicou isso."
"Bem, eu no posso explicar to bem quanto um babuno. Mas basicamente meu pai
quis liberar alguns deuses por rases que eu no... Talvez ele pensou, vou estrondar o
museu britnico e explodir a Pedra Rosetta! E ele liberou Osris, mas tambm veio Set e
o resto do fado."
"Ento set prendeu seu pai enquanto ele estava hospedando Osris," Anbis disse. "O
que significa que Osris tambm foi preso por meu-" Ele parou a si mesmo. "por Set."
Interessante, eu pensei.
"Voc compreende, ento," eu disse. "Voc tem que nos ajudar."
Anbis hesitou, ento balanou a cabea. "No posso. Entrarei em problemas."
Eu somente olhei para ele e ri. Eu no conseguia evitar, ele soou to ridculo. "Voc
entrar em problemas? Qual sua idade, dezesseis? Voc  um deus!"
Era difcil de dizer no escuro, mas eu podia jurar que ele ficou vermelho. "Voc no
intende. A pena no pode tolerar a menor mentira. Se eu te desse, e voc dissesse uma
nica inverdade enquanto a carrega, ou agisse de um modo que no fosse verdadeiro,
voc queimaria em cinzas."
"Voc est presumindo que sou uma mentirosa."
Ele piscou. "No, eu somente-"
"Voc nunca contou uma mentira? O que voc ia dizer agora  sobre Set? Ele  seu pai,
eu acho.  isso?"
Anbis fechou sua boca, ento abriu-a novamente. Ele parecia querer ficar com raiva,
mas no se lembrava como. "Voc  sempre to irritante?"
"Geralmente mais," eu admiti.
"Porque sua famlia no te casou com algum muito, muito longe?"
Ele perguntou como se fosse uma questo honesta, e agora era minha vez de ficar
pasma. "Com licena, garoto morte! Mas eu tenho doze anos! Bem... quase treze, e um
quase treze muito maduro, mas esse no  o ponto. Ns no 'casamos' garotas na minha
famlia, e voc pode saber tudo sobre funerais, mas aparentemente voc no est muito
atualizado em rituais de cortejo!"
Anbis parecia mistificado. "Aparentemente no."
"Certo! Espere  sobre o que estvamos falando? Oh, pensou que poderia me distrair,
hein? Eu me lembro. Set  seu pai, no ? Fale a verdade."
Anbis olhou pelo cemitrio. O som do funeral jazz estava desaparecendo nas ruas do
Quarteiro Francs.
"Sim," ele disse. "Pelo menos, isso  o que a lenda diz. Eu nunca o conheci. Minha me,
Nftis, me deu  Osris quando eu era uma criana."
"Ela... te deu?"
"Ela disse que no queria que eu conhecesse meu pai. Mas na verdade, eu no sei se ela
sabia o que fazer comigo. Eu no era como meu primo Horus. Eu no era um guerreiro.
Eu era... uma criana diferente."
Ele soou to amargo, que eu no soube o que falar. Quero dizer, eu perguntei a verdade,
mas normalmente voc no recebe isso, especialmente de garotos. Eu tambm sabia
algo sobre ser uma criana diferente  e sentir como se meus pais houvessem de
abandonado.
"Talvez sua me estivesse tentando te proteger," eu disse. "Seu pai sendo Senhor do
Mal, e tudo."
"Talvez," ele disse sem emoo. "Osris me acolheu sob suas asas. Ele me fez o Senhor
dos Funerais, o Mantenedor dos Caminhos da Morte.  um bom trabalho, mas... voc
me perguntou minha idade. A verdade  que eu no sei. Os anos no passam na Terra
dos Mortos. Eu ainda me sinto bem novo, mas o mundo ficou velho ao meu redor. E
Osris se foi h tanto tempo... Ele  a nica famlia que tive."
Olhando para Anbis na penumbra do cemitrio, eu vi um adolescente solitrio. Eu
tentei lembrar a mim mesmo que ele era um deus, provavelmente capaz de controlar
poderes muito alm de papel higinico mgico. Mas eu ainda sentia pena dele.
"Ajude-nos a resgatar meu pai," eu disse. "Ns enviaremos Set de volta para o Duat, e
Osris ser livre. Ns todos seremos felizes."
Anbis balanou a cabea novamente. "Eu te disse-"
"Suas balanas esto quebradas," eu notei. " porque Osris no est aqui, penso. O que
acontece com todas as almas que vem para o julgamento?"
Eu sabia que havia acertado um nervo. Anbis se mexeu desconfortavelmente no banco.
"Isso aumenta o caos. As almas ficam confusas. Algumas no conseguem ir ao ps-
vida. Algumas conseguem, mas devem procurar outros modos. Eu tento ajudar, mas... o
Salo do Julgamento tambm  chamado de Salo de Ma'at. Ele  destinado a ser o
centro da ordem, uma base slida. Sem Osris ele est caindo em runas, desintegrando."
"Ento o que voc est esperando? Nos d a pena. A no ser que voc esteja com medo
de que seu pai te deixe de castigo."
Seus olhos piscaram com irritao. Por um momento eu achei que ele estava planejando
meu funeral, mas ele simplesmente suspirou em exaspero. "Eu fao uma cerimnia
chamada abertura da boca. Isso deixa a alma da pessoa sair. Para voc, Sadie Kane, eu
inventaria uma nova cerimnia: o fechamento da boca."
"H, h. Voc vai me dar a pena ou no?"
Ele abriu sua mo. Houve uma exploso de luz, e uma pena brilhante flutuou sobre sua
palma  uma pluma nvea como uma pena de escrever. "Pelo amor de Osris  mas eu
insistirei em vrias condies. Primeiro, somente voc poder manipul-la."
"Bem,  claro. Voc no acha que eu deixaria Carter - "
"Tambm, voc deve escutar minha me, Nftis. Khufu me disse que voc a estava
procurando. Se voc conseguir encontr-la, escute-a."
"Fcil," eu disse, apesar do pedido ter me deixado estranhamente desconfortvel.
Porque Anbis pediria algo assim?
"E antes que voc v," Anbis continuou, "voc deve me responder trs perguntas
enquanto segura a Pena da Verdade, para provar que voc  honesta."
Minha boca ficou seca de repente. "Hum... Que tipo de perguntas?"
"Qualquer uma que eu quiser. E lembre-se, a menor mentira te destruir."
"Me d a maldita pena."
Quando ele me entregou, a pena parou de brilhar, mas eu a senti mais quente e mais
pesada do que uma pena deveria ser.
" a pena da calda de um bennu," Anbis explicou, "O que vocs chamariam de fnix.
Pesa exatamente o mesmo que uma alma humana. Est pronta?"
"No," eu disse, o que deve ter sido verdadeiro, afinal no queimei. "Isso conta como
uma pergunta?"
Anbis na verdade sorriu, o que eu achei bem deslumbrante. "Suponho que sim. Voc
barganha como um comerciante martimo fencio, Sadie Kane. Segunda pergunta ento:
voc daria sua vida por seu irmo?"
"Sim," eu disse imediatamente.
(Eu sei. Tambm me surpreendeu. Mas segurar a Pena da Verdade me obrigou a ser
verdadeira. Obviamente no me fez mais sbia.)
Anbis assentiu, aparentemente sem surpresa. "ltima pergunta: Se isso significa salvar
o mundo, voc est preparada para perder seu pai?"
"Essa no  uma pergunta justa!"
"Responda honestamente."
Como eu poderia responder algo assim? No era um simples sim/no.
 claro que eu sabia a resposta "certa". A herona deve recusar sacrificar seu pai. Ento
ela audaciosamente vai e salva o pai e o mundo, certo? Mas e se fosse realmente um ou
outro? O mundo inteiro era um lugar demasiadamente grande: Vov e vov, Carter, Tio
Amos, Bast, Khufu, Liz e Emma, todos que j conheci. O que meu pai diria se eu o
escolhesse, ao invs?
"Se... se realmente no houver outro modo," eu disse. "Nenhum outro jeito  Ah, para
com isso.  uma pergunta ridcula."
A pena comeou a brilhar.
"Tudo bem," eu abrandei. "Se eu tiver, ento eu suponho... Eu suponho que eu salvaria
o mundo."
Uma horrvel culpa se esmagou em mim. Que tipo de filha eu era? Eu apertei o amuleto
de Tyet no meu colar  minha nica lembrana do papai. Eu sei o que muitos de vocs
pensaro: voc mal viu seu pai. Voc mal o conhecia. Porque voc ligaria tanto?
Mas isso no o fazia ser menos meu pai, fazia? Ou o pensamento de perd-lo para
sempre menos horrvel. E o pensamento de falhar com ele, de voluntariamente escolher
deix-lo morrer mesmo para salvar o mundo  que tipo de pessoa horrvel era eu?
Eu mal podia olhar Anbis nos olhos, mas quando eu pude, sua expresso suavizou-se.
"Eu acredito em voc, Sadie."
"Oh, realmente. Eu estou segurando a maldita Pena da Verdade, e voc acredita em
mim. Bem, obrigado."
"A verdade  severa," Anbis disse. "Espritos vm ao Salo do Julgamento todo o
tempo, e eles no conseguem abandonar suas mentiras. Eles negam suas culpas, seus
reais sentimentos, seus erros... At o momento em que Ammit devora suas almas para a
eternidade.  necessrio fora e coragem para admitir a verdade."
"Sim. Me sinto to forte e corajosa. Obrigado."
Anbis levantou-se. "Eu deveria deix-la agora. Vocs esto ficando sem tempo. Em
menos de vinte e quatro horas, o sol ir nascer no aniversrio de Set, e ele completar
sua pirmide  a no ser que voc o impea. Talvez, na prxima vez que nos
encontrarmos-"
"Voc ser igualmente irritante?" Eu chutei.
Ele me fitou com aqueles mornos olhos castanhos. "Ou talvez voc possa me atualizar
aos modernos rituais de cortejo."
Eu permaneci sentada aturdida at que ele me deu um vislumbre de um sorriso  apenas
o suficiente para eu saber que ele estava provocando. Ento ele desapareceu.
"Oh, muito engraado!" Eu gritei. A balana e o trono sumiram. O banco de linho
desfiou-se e me despejou no meio do cho. Carter e Khufu apareceram prximos a mim,
mas eu simplesmente continuei gritando para o lugar onde Anbis estivera, chamando-o
de alguns nomes escolhidos.
"O que est acontecendo?" Carter pediu. "Onde estamos?"
"Ele  horrvel!" Eu grunhi. "Cheio de si, sarcstico, inacreditavelmente gato,
insuportvel-"
"Agh!" Khufu reclamou.
"," Carter concordou. "Voc pegou a pena ou no?"
Eu levantei minha mo e ali estava  uma pluma branca brilhante flutuando acima dos
meus dedos. Eu fechei meu punho e ela sumiu novamente.
"Uah," disse Carter. "Mas e quanto ao Anbis? Como voc-"
"Vamos encontrar Bast e dar o fora daqui," eu interrompi. "Ns temos trabalho para
fazer."
E eu marchei para fora do cemitrio antes que ele fizesse mais perguntas, pois eu no
estava no clima para falar a verdade.
                                   VINTE E NOVE

                        ZIA MARCA UM ENCONTRO
[, muito obrigado, Sadie. Voc conta a parte da Terra dos Mortos. Eu descrevo a
interestadual 10 pelo Texas.]
Resumindo: Foi super demorada e totalmente entediante, a no ser que sua ideia de
diverso seja assistir vacas pastando.
Ns deixamos Nova Orleans por volta de 1 da manh do dia vinte e oito de Dezembro,
o dia anterior ao qual Set planejava destruir o mundo. Bast pegou "emprestado" um
trailer  uma sobra da FEMA (Agncia Federal de Gerenciamento de Emergncias) do
Furaco Katrina. Primeiramente Bast sugeriu pegar um avio, mas depois que eu contei
sobre o sonho com os magos em um voo explodindo, ns concordamos que avies
poderiam no ser uma boa ideia. A deusa dos cus Nut nos prometeu viagens areas
seguras at Mnfis, mas eu no queria abusar da sorte enquanto chegvamos perto de
Set.
"Set no  nosso nico problema," Bast disse. "Se sua viso est correta, os magos esto
se aproximando. E no so quaisquer magos  o prprio Desjardins."
"E Zia," Sadie adicionou, s para me irritar.
No fim, decidimos que era mais seguro dirigir, mesmo que fosse mais lento. Com sorte,
chegaramos em Fnix bem  tempo de desafiar Set. Quanto  Casa da Vida, tudo que
poderamos fazer era esperar evit-los enquanto fazamos nosso trabalho. Talvez uma
vez que houvssemos lidado com Set, os magos decidiriam que ramos legais. Talvez...
Eu continuei pensando em Desjardins, me perguntando se ele realmente poderia ser um
hospedeiro para Set. Um dia atrs, isso fez todo o sentido. Desjardins queria acabar com
a famlia Kane. Ele odiava nosso pai, e ele nos odiava. Ele provavelmente esteve
esperando dcadas, at sculos, pela morte de Iskandar, ento ele poderia ser o Leitor
Chefe. Poder, raiva, arrogncia, ambio: Desjardins tinha tudo. Se Set estivera
procurando por uma alma gmea, literalmente, ele no conseguiria achar algo muito
melhor. E se Set pudesse comear uma guerra entre deuses e magos atravs do controle
do Leitor Chefe, o nico vencedor seria as foras do caos. Alm do mais, Desjardins era
um cara fcil de odiar. Algum sabotou a casa de Amos e avisou Set que Amos estava
vindo.

Mas o modo que Desjardins salvou aquelas pessoas no avio  aquilo simplesmente no
pareceu com algo que o Senhor do Mal faria.
Bast e Khufu revesaram-se na direo enquanto Sadie e eu cochilamos. Eu no sabia
que babunos podiam dirigir veculos recreacionais, mas Khufu foi bem. Quando
acordei por volta do amanhecer, ele estava navegando pela hora do rush em Houston,
desnudando suas presas e ladrando bastante, e nenhum dos outros motoristas pareciam
perceber algo fora do comum.
Para o caf da manh, Sadie, Bast e eu nos sentamos na cozinha do trailer enquanto os
armrios abriram-se, os pratos tiniram e milhas e milhas de nada saram de dentro. Bast
havia surrupiado alguns lanches e bebidas (e Friskies,  claro) em uma convenincia
24hrs de Nova Orleans antes de sairmos, mas ningum parecia muito faminto. Eu podia
dizer que Bast estava ansiosa. Ela j havia fatiado a maior parte do estofado do trailer, e
estava agora usando a mesa da cozinha para arranhar.
Enquanto  Sadie, ela continuou abrindo e fechando a mo, olhando para a Pena da
Verdade como se fosse um telefone que ela gostaria que tocasse. Desde seu
desaparecimento no Salo do Julgamento, ela esteve agindo toda distante e quieta. No
que eu esteja reclamando, mas isso no parecia ela.
"O que aconteceu com Anbis?" Eu perguntei pela milionsima vez.
Ela olhou-me pronta para arrancar minha cabea. Ento ela aparentemente decidiu que
eu no valia o esforo. Ela fixou seus olhos na pena brilhante que flutuava em cima de
sua mo.
"Ns conversamos," ela disse cuidadosamente. "Ele fez algumas perguntas."
"Que tipo de pergunta?"
"Carter, no pergunte. Por favor."
Por favor? Ok, isso realmente no parecia com a Sadie.
Eu olhei para Bast, mas ela no era ajuda alguma. Ela estava lentamente destruindo a
frmica em pedaos com suas garras.
"O que h de errado?" Perguntei para ela.
Ela manteve seus olhos na mesa. "Na terra dos mortos, eu abandonei vocs.
Novamente."
"Anbis te assustou," eu disse. "No h nada de mais."
Bast virou seus grandes olhos amarelos para mim, e eu fiquei com a sensao de que eu
s havia piorado as coisas.
"Eu fiz uma promessa para seu pai, Carter. Em troca da minha liberdade, ele me deu um
trabalho ainda mais importante do que lutar contra a Serpente: proteger Sadie  e se isso
se tornasse necessrio, proteger vocs dois."
Sadie ficou vermelha. "Bast, isso ... quero dizer, obrigada e tudo, mas ns dificilmente
somos mais importantes do que lutar contra... voc sabe, ele."
"Voc no intende," Bast disse. "Vocs dois no so somente sangue dos faras. Vocs
so as crianas reais mais poderosas a nascer em sculos. Vocs so as nicas chances
que temos de reconciliar os deuses e a Casa da Vida, de reaprendermos os modos
antigos antes que seja tarde de mais. Se vocs puderem aprender o caminho dos deuses,
vocs poderiam encontrar outros com sangue real e ensin-los. Vocs poderiam
revitalizar a Casa da Vida. O que seus pais fizeram  tudo que eles fizeram, foi para
preparar o caminho para vocs."
Sadie e eu estvamos silenciosos. Quero dizer, o que voc responde para algo assim? Eu
acho que eu sempre senti que meus pais me amaram, mas intencionar morrer por mim?
Acreditar que isso era necessrio ento Sadie e eu poderamos fazer uma impressionante
salvao mundial? Eu no pedi por isso.
"Eles no queriam deix-los sozinhos," Bast disse, lendo minha expresso. "Mas eles
sabiam que liberar os deuses seria perigoso. Acredite em mim, eles compreenderam
quo especial vocs so. Primeiramente, eu estava protegendo-os porque eu havia
prometido. Agora, mesmo que eu no houvesse prometido, eu iria. Vocs dois so como
gatinhos para mim. No falharei com vocs novamente."
Admito que fiquei com um n na garganta. Nunca fui chamado de gatinho de algum
antes.
Sadie fungou. Ela limpou algo de baixo do olho. "Voc no vai nos lavar, vai?"
Era bom ver Bast sorrir novamente. "Tentarei resistir. E por falar nisso, Sadie, estou
orgulhosa de voc. Lidando com Anbis sozinha  esses deuses da morte podem ser
clientes desagradveis."
Sadie encolheu os ombros. Ela parecia estranhamente desconfortvel. "Bem, eu no o
chamaria de desagradvel. Quero dizer, ele mal parecia mais do que um adolescente."
"Do que voc est falando?" Eu disse. "Ele tinha a cabea de um chacal."
"No, quando ele virou humano."
"Sadie..." Eu estava comeando a me preocupar com ela agora. "Quando Anbis virou
humano ele ainda tinha a cabea de um chacal. Ele era gigante, aterrorizante e, sim, bem
desagradvel. Porque? Como ele pareceu pra voc?"
Suas bochechas avermelharam. "Ele pareceu... com um garoto mortal."
"Provavelmente um glamour," Bast disse.
"No," Sadie insistiu. "No poderia ser."
"Bem, isso no  importante," eu disse. "Ns conseguimos a pena."
Sadie inquietou-se, como se isso fosse muito importante. Mas ento ela fechou seu
punho e a pena da verdade desapareceu. "Isso no vai nos ajudar sem o nome secreto de
Set."
"Estou trabalhando nisso." O olhar de Bast correu pela sala  ela parecia estar com
medo de ser ouvida. "Eu tenho um plano. Mas  perigoso."
Eu sentei mais  frente. "O que ?"
"Ns teremos que fazer uma parada. Eu preferiria no nos causar mau agouro at
chegarmos mais prximo, mas est no nosso caminho. No deve causar muito atraso."
Eu tentei calcular. "Essa  a manh do segundo Dia Demonaco?"
Bast concordou. "O dia em que Horus nasceu."
"E o aniversrio de Set  amanh, o terceiro Dia Demonaco. Isso significa que temos
em mdia vinte e quatro horas at ele destruir a Amrica do Norte."
"E se ele colocar as mos em ns," Sadie adicionou. "Ele ir aumentar ainda mais seus
poderes."
"Ser tempo suficiente," Bast disse. "So aproximadamente vinte e quatro horas de
Nova Orleans  Phenix, e ns j estamos na estrada h mais de cinco horas. Se ns no
tivermos mais nenhuma surpresa desagradvel - "
"Do tipo que temos todos os dias?"
"Sim," Bast admitiu. "Como essas."
Eu dei um suspiro trmulo. Vinte e quatro horas e estaria terminado, de um modo ou de
outro. Ns salvaramos o papai e pararamos Set, ou tudo teria sido em vo  no apenas
o que Sadie e eu fizemos, mas todo o sacrifcio de nossos pais tambm. De repente eu
senti que estava no subterrneo novamente, naqueles tneis do Primeiro Nomo, com
milhes de toneladas de pedras sobre minha cabea. Uma pequena mudana no solo, e
tudo viria caindo abaixo.
"Bem," eu disse. "Se vocs precisarem de mim, estarei l fora, brincando com objetos
afiados."
Eu peguei minha espada e encabecei para os fundos do trailer.
Eu nunca vi uma casa mvel com uma sacada antes. O letreiro nas costas da porta
avisava para no us-la com o veculo em movimento, mas eu usei de qualquer modo.
No era o melhor lugar para praticar esgrima. Era muito pequeno, e duas cadeiras
pegavam a maior parte do espao. O vento frio chicoteava  minha volta, e cada
solavanco na estrada me desequilibrava. Mas era o nico lugar eu poderia ir para estar
s. Eu precisava limpar meus pensamentos.
Eu pratiquei invocar minha espada do Duat e coloc-la de volta. Logo, eu podia fazer
isso quase todas as vezes, to longo quanto eu mantivesse a concentrao. Ento eu
pratiquei alguns movimentos  bloqueios, golpes e ataques  at Horus no resistir em
oferecer seus concelhos.
Levante mais a lmina, ele instruiu. Mais como um arco, Carter. A lmina  projetada
para acolchetar uma arma do inimigo.
Cala a boca, eu murmurei. Onde voc esteve quando precisei de ajuda na quadra de
basquete? Mas eu tentei segurar a espada do modo que ele falou e descobri que ele
estava certo.
A estrada feria por longos trechos de cerrado vazio. De vez em quando passvamos por
um trator de um fazendeiro ou o SUV de uma famlia, e o motorista ficaria de olhos
arregalados ao me ver: uma criana negra balanando uma espada na traseira de um
trailer. Eu somente sorria e acenava, e a direo de Khufu logo os deixaria na poeira.
Depois de uma hora de prtica, minha camisa estava presa ao meu peito com suor
gelado. Minha respirao estava pesada. Eu decidi sentar e tirar uma pausa.
"Se aproxima," Horus me disse. Sua voz soou mais substancial, no mais em minha
cabea. Eu olhei prximo a mim e o vi tremeluzindo em uma aura dourada, sentado na
outra espreguiadeira usando sua armadura de couro e seus ps com sandlias em cima
da grade. Sua espada, uma cpia fantasmagrica da minha, estava apoiada ao seu lado.
"O que est aproximando?" Eu perguntei. "A luta com Set?"
"Isso, com certeza," Horus disse. "Mas h outro desafio antes desse, Carter. Esteja
preparado."
"timo. Como se eu j no tivesse tido desafios bastantes."
Os olhos prata e dourado de Horus brilharam. "Quando eu estava crescendo, Set tentou
me matar vrias vezes. Minha me e eu fugimos de local a local, escondendo dele at
que eu fosse velho o suficiente para enfrent-lo. O Senhor Vermelho enviar as mesmas
foras contra voc. O prximo vir-"
"No rio," eu chutei, lembrando da minha ltima viagem em esprito. "Algo ruim ir
acontecer no rio. Mas qual  o desafio?"
"Voc tem que ter cuidado-" a imagem de Horus comeou a esvanecer, e o deus franziu
o cenho. "O que  isso? Algum est tentando  uma fora diferente-"
Ele foi trocado pela imagem brilhante de Zia Radish.
"Zia!" Eu me levantei, subitamente consciente do fato que eu estava suado e sujo e
parecia que tinha sido arrastado pela Terra dos Mortos.
"Carter?" Sua imagem tremeluziu. Ela estava agarrando seu basto e vestia um casaco
cinza embrulhado sobre suas vestes como se ela estivesse em um lugar frio. Seu cabelo
preto curto danava em volta de seu rosto. "Graas  Toth eu te encontrei."
"Como voc chegou at aqui?"
"No h tempo! Escute: ns estamos vindo atrs de vocs. Desjardins, eu, e dois outros.
Ns no sabemos exatamente onde vocs esto. Os feitios de localizao de Desjardins
esto tendo problemas em encontr-los, mas ele sabe que estamos nos aproximando. E
ele sabe onde vocs esto indo  Phoenix."
Minha mente comeou a correr. "Ento ele finalmente acredita que Set est livre? Vocs
esto vindo para ajudar-nos?"
Zia sacudiu a cabea. "Ele est indo para te impedir."
"Impedir-nos? Zia, Set est para explodir o continente! Meu pai-" minha voz morreu.
Eu odiei quo assustado e impotente eu soei. "Meu pai est com problemas."
Zia estendeu uma mo reluzente, mas era apenas uma imagem. Nossos dedos no
podiam se tocar. "Carter, me desculpe. Voc tem que ver o ponto de vista de Desjardins.
A Casa da Vida tem tentado manter os deuses presos por sculos para prevenir algo
assim de acontecer. Agora que vocs os soltaram-"
"No foi ideia minha!"
"Eu sei, mas vocs esto tentando lutar contra Set com magia divina. Deuses no podem
ser controlados. Vocs poderiam terminar causando ainda mais estragos. Se vocs
deixarem a Casa da Vida fazer isso-"
"Set  muito poderoso," eu disse. "E eu posso controlar Horus. Eu posso fazer isso."
Zia sacudiu a cabea. "Vai ficar mais difcil enquanto voc chega mais prximo de Set.
Voc no faz ideia."
"E voc faz?"
Ela olhou nervosamente para a esquerda. Sua imagem tornou-se imprecisa, como um
sinal de televiso ruim. "Ns no temos muito tempo. Mel sair do banheiro logo."
"Vocs tm um mago chamado Mel?"
"S escute. Desjardins est nos dividindo em dois times. O plano  para cortar-vos de
ambos os lados e intercept-los. Se meu time os alcanar primeiro, eu acho que consigo
impedir que Mel ataque pelo tempo suficiente de conversarmos. Ento talvez ns
possamos descobrir um modo de aproximar de Desjardins e convenc-lo que temos que
cooperar."
"No intenda de modo errado, mas porque eu deveria confiar em voc?"
Ela franziu os lbios, parecendo genuinamente ferida. Parte de mim se sentiu culpado,
enquanto parte de mim se preocupou se isso era um truque.
"Carter, eu tenho algo pra te dizer. Algo que pode ajudar, mas tem que ser dito
pessoalmente."
"Diga-me agora."
"Pelo bico de Toth! Voc  impossivelmente teimoso."
", isso  um dom."
Ns prendemos os olhares. Sua imagem estava desbotando, mas eu no queria que ela
fosse. Eu queria conversar mais.
"Se voc no vai confiar em mim, eu terei que confiar em voc," Zia disse. "Eu
providenciarei para estar em Las Cruces, Novo Mxico, hoje  noite. Se voc escolher
me encontrar, talvez ns possamos convencer Mel. Ento juntos, ns convenceremos
Desjardins. Voc vir?"
Eu quis prometer, s para v-la, mas eu me imaginei tentando convencer Sadie ou Bast
de que isso era uma boa ideia. "Eu no sei, Zia."
"Somente pense nisso," ela declarou. "E Carter, no confie no Amos. Se voc o ver-"
Seus olhos arregalaram. "Mel est aqui!" Ela sussurrou.
Zia golpeou seu basto  sua frente e sua imagem desapareceu.
                                      TRINTA

                       BAST MANTM A PROMESSA

HORAS DEPOIS, EU ACORDEI NO SOF DO RV com Bast sacudindo meu brao.
"Chegamos," ela anunciou.
Eu no tinha ideia de quanto tempo tinha passado desacordado. Em algum ponto, a
paisagem achatada e o tdio completo me fizeram cair no sono, e eu comecei a ter
sonhos ruins sobre magos minsculos voando ao redor do meu cabelo, tentando me
deixar careca. Em algum lugar l, eu havia tido um pesadelo sobre Amos tambm, mas
foi confuso. Eu ainda no entendia porque Zia o mencionaria.
Eu pisquei para despertar e percebi que minha cabea estava no colo de Khufu. O
baboon estava catando meu couro cabeludo em busca de lanche.
"Cara" Eu levantei cambaleando. "Nada legal."
"Mas ele fez em voc um penteado adorvel," Sadie disse.
"Agh- agh!" Khufu concordou.
Bast abriu a porta do trailer. "Vamos," ela disse. "Ns teremos que andar a partir de
agora."
Quando eu alcancei a porta quase tive um ataque do corao. Estvamos estacionados
em uma estrada na montanha to estreita que o RV teria despencado se eu espirrasse.
Por um segundo, temi que j estivssemos em Phoenix, porque a paisagem era
semelhante. O sol estava se pondo no horizonte. O limite das montanhas acidentadas
erguia-se de cada lado, e o cho desrtico entre elas parecia no ter fim. Em um vale 
nossa esquerda jazia uma cidade sem cor - dificilmente algumas rvores ou grama,
apenas areia, pedregulhos, e construes. Porm a cidade era muito menor que Phoenix,
e um grande rio traava seu limite ao sul, e o vermelho cintilava na luz que se
esvanecia. O rio fazia uma curva em volta da base das montanhas abaixo de ns antes
de sumir no norte.
"Estamos na lua," Sadie murmurou.
"El Paso, Texas," Bast corrigiu. "E aquele  o Rio Grande." Ela inspirou longamente o
ar seco. "Uma civilizao fluvial no deserto. Parece muito com Egito, na verdade! Er,
exceto o fato de que o Mxico est bem prximo. Eu acho que  o melhor lugar para
invocar Nephthys."
"Voc acha mesmo que ela ir nos contar o nome secreto de Set?" Sadie perguntou.
Bast ponderou. "Nephthys  imprevisvel, mas ela j se posicionou contra o marido
antes. Ns podemos esperar."
Aquilo no soou muito promissor. Eu encarei o rio muito abaixo. "Por que voc
estacionou na montanha? Por que no mais perto?"
Bast deu de ombros, como se isso no houvesse ocorrido a ela. "Gatos gostam de estar
to alto quanto possvel. No caso de termos que atacar alguma coisa."
"timo," Eu disse," Ento se tivermos que atacar, estaremos preparados."
"No  to ruim," Bast disse. "Ns apenas faremos nosso caminho descendo at o rio,
atravessando umas poucas milhas de areia, cactos e cobras cascavis, tomando cuidado
com a patrulha da fronteira, traficantes de pessoas, magos e demnios - e invocar
Nephthys."
Sadie assoviou. "Bem, eu estou animada!"
"Agh," Khufu concordou miseravelmente. Ele cheirou o ar e rosnou.
"Ele fareja perigo," Bast traduziu. "Algo ruim est para acontecer."
"At eu poderia farejar aquilo." Eu resmunguei, e ns seguimos Bast montanha abaixo.
Sim, Horus disse. Eu me lembro desse lugar.
 El Paso, eu disse a ele. A menos que voc tenha vindo aqui por comida mexicana,
voc nunca esteve aqui.
Eu me lembro muito bem, ele insistiu. O pntano, o deserto.
Eu parei e olhei ao redor. De repente eu me lembrei desse lugar tambm. Cerca de
cinqenta metros  nossa frente, o rio espalhava-se em uma rea pantanosa - uma teia de
afluentes que se moviam devagar cortando uma rasa depresso dentro do deserto. A
grama era alta ao longo da margem. Devia ter algum tipo de vigilncia, como era uma
fronteira internacional e tudo mais, mas eu no notei nenhuma.
Eu tinha estado aqui na forma ba. Eu pude imaginar uma cabana l no pntano, Isis e o
jovem Horus se escondendo de Set. E precisamente rio abaixo - foi onde eu tinha
sentido algo negro movendo-se debaixo d'gua, esperando por mim.
Eu agarrei o brao de Bast quando ela estava a alguns passos da margem. "Fique longe
da gua."
Ela franziu o cenho. "Carter, eu sou uma gata. Eu no estou a fim de um mergulho. Mas
se voc quer invocar uma deusa do rio, voc realmente precisa fazer isso na margem."
Ela fez isso soar ao lgico que eu me senti estpido, mas no pude fazer nada. Algo de
ruim estava pra acontecer.
O que  isso? Eu perguntei a Horus. O que  o desafio?
Mas o meu deus de passeio permanecia em um silncio nada tranqilizador, como que
esperando.
Sadie arremessou uma pedra na gua turva e marrom. Ela afundou com um sonoro ker-
plunk!
"Para mim parece bem seguro," ela disse, e desceu movendo-se com dificuldade at a
margem.
Khufu seguiu hesitante. Quando ele alcanou a gua, ele a cheirou e rosnou.
"V?" Eu disse "Khufu no gosta dessa gua."
"Provavelmente  uma lembrana antiga," Bast disse. "O rio era um lugar perigoso no
Egito. Cobras, hipoptamos, todos os tipos de problemas."
"Hipoptamos?"
"No os subestime," Bast avisou. "Hipoptamos podem ser mortais."
"Foi isso o que atacou Horus?" Eu perguntei. "Digo, naqueles dias, quando Set estava
procurando por ele?"
"No ouvi essa histria," Bast disse. "Geralmente voc ouve que Set usou escorpies
primeiro. E depois crocodilos."
"Crocodilos," Eu disse, e um arrepio desceu pelas minhas costas.
Foi isso mesmo? Eu questionei Horus. Mas de novo ele no respondeu. "Bast, o Rio
Grande tem crocodilos?"
"Duvido muito." Ela se ajoelhou na gua. "Agora, Sadie, voc faria as honras?"
"Como?"
"S pea a Nephthys que aparea. Ela era a irm de Isis. Se ela est em algum lugar
desse lado do Duat ela deve ouvir sua voz."
Sadie pareceu hesitante, mas ela se ajoelhou ao lado de Bast e tocou a gua. As
impresses digitais dela causaram ondulaes que pareciam muito grandes, anis de
fora emanando de todos os lados do rio.
"Ol, Nephthys?" ela disse. "Algum em casa?"
Eu ouvi um splash rio abaixo, e me virei para ver uma famlia de imigrantes cruzando o
meio da correnteza. Eu ouvi histrias sobre como milhares de pessoas cruzam a
fronteira do Mxico ilegalmente todo ano, procurando trabalho e uma vida melhor, mas
estava comeando a v-los na minha frente - um homem e uma mulher se apressando,
carregando uma garotinha entre eles. Estavam vestindo trapos e pareciam mais pobres
que os camponeses egpcios mais pobres que eu j vi. Eu os encarei por uns segundos,
mas eles no pareciam ser nenhum tipo de ameaa sobrenatural. O homem me lanou
um olhar desconfiado e ns nos entendemos silenciosamente: Ambos tnhamos
problemas o suficiente sem incomodarmos um ao outro.
Enquanto isso Bast e Sadie permaneceram focadas na gua, assistindo as ondas se
propagarem dos dedos de Sadie.
Bast inclinou a cabea, ouvindo com ateno. "O que ela est dizendo?"
"Eu no consigo entender," Sadie sussurrou. "Muito fraco."
"Voc est conseguindo ouvir alguma coisa?" Eu perguntei.
"Shhh," elas disseram ao mesmo tempo.
"Caged'..." Sadie disse. "No, agora o que  essa palavra em ingls?"
"Acolhida," Bast sugeriu. "Ela est acolhida longe daqui. Uma hospedeira adormecida.
O que isso quer dizer?
Eu no sabia do que elas estavam falando. No podia ouvir nada.
Khufu puxou minha mo e apontou para o rio l em baixo. "Agh."
A famlia de imigrantes tinha desaparecido. Parecia impossvel que eles tivessem
cruzado o rio to rapidamente. Eu percorri com o olhar as duas margens - nenhum sinal
deles - mas a gua estava mais turbulenta no lugar onde eles estavam parados, como se
algum houvesse mexido com uma colher gigante. Minha garganta apertou.
"Um, Bast-"
"Carter, ns mal conseguimos ouvir Nephthys," ela disse. "Por favor."
Eu cerrei os dentes. "Certo. Khufu e eu vamos checar algo-"
"Shh!" disse Sadie de novo.
Eu acenei para Khufu, e ns comeamos a descer a margem. Khufu se escondeu atrs de
minhas pernas e rosnou para o rio.
Eu olhei para trs, mas Bast e Sadie pareciam bem. Elas estavam ainda encarando a
gua como se fosse algum vdeo fantstico da Internet.
Finalmente ns chegamos ao lugar em que eu tinha visto a famlia, mas a gua tinha se
acalmado. Khufu deu um tapa no cho e se equilibrou nas mos, que significava ou ele
estava danando break ou realmente nervoso.
"O que  isso?" Eu perguntei, meu corao batendo forte.
"Agh, agh, agh!" Ele reclamou. Provavelmente isso era uma palestra inteira em Baboon,
mas eu no tinha ideia do que ele estava falando.
"Bem, eu no vejo outro caminho," Eu disse. "Se aquela famlia parou na gua ou
alguma outra coisa... Eu tenho que encontr-los. Estou indo."
"Agh!" Ele saiu de perto da gua.
"Khufu, aquelas pessoas tinha uma garotinha. Se eles precisam de ajuda, eu no posso
simplesmente ignor-los para evitar problemas. Fique aqui e vigie minha retaguarda."
Khufu rosnou e bateu no prprio rosto em protesto quando eu entrei na gua. Era mais
fria e ligeira do que eu tinha imaginado. Eu me concentrei e invoquei minha espada e
varinha do Duat. Talvez fosse minha imaginao, mas isso pareceu fazer o rio correr at
mais rpido.
Eu estava no meio da corrente quando Khufu gritou com urgncia. Ele estava pulando
ao redor da margem, apontando freneticamente para uma moita de juncos prxima.
A famlia estava abraada dentro, tremendo de medo, os olhos arregalados. Meu
primeiro pensamento: Por que eles esto se escondendo de mim?
"Eu no vou machucar vocs." Eu prometi. Eles me encararam sem me ver realmente, e
eu desejei poder falar espanhol.
Ento a gua se agitou ao meu redor, e eu percebi que eles no estavam com medo de
mim. Meu prximo pensamento: Cara, eu sou estpido.
A voz de Horus gritou: Pule!
Eu saltei da gua como se fosse um tiro de canho - vinte, trinta ps no ar. De modo
algum eu deveria ter sido capaz de fazer aquilo, mas foi bom, porque um monstro
emergiu da gua abaixo de mim.
De primeira tudo que eu vi foram centenas de dentes - uma garganta trs vezes maior
que eu. De algum modo eu dei um jeito de virar e aterrissar no raso. Eu estava
encarando um crocodilo to grande quanto o RV - e aquilo era s a metade saindo da
gua. Sua pele verde-acinzentada estava sulcada com placas grossas como uma roupa de
camuflagem ou uma armadura, e os olhos dele eram da cor de leite estragado.
A famlia gritou e comeou a subir a margem com dificuldade. Aquilo chamou a
ateno do crocodilo. Ele instintivamente se virou em direo  presa mais barulhenta e
mais interessante. Eu sempre pensei em crocodilos como animais lentos, mas quando
ele investiu nos imigrantes, eu nunca tinha visto algo se mover to rpido.
Use a distrao, Horus incitou. V por trs e acerte-o.
Ao invs disso eu gritei, "Sadie, Bast, socorro!" e atirei minha varinha.
Pssimo arremesso. A varinha bateu no rio bem em frente ao crocodilo, ento saiu da
gua como um pedra, atingiu o crocodilo entre os olhos e voltou para minha mo.
Duvidei ter feito algum estrago, mas o crocodilo olhou para mim, incomodado.
Ou voc pode atingi-lo com um basto, Horus murmurou.
Eu avancei, gritando para prender a ateno do crocodilo. Pelo canto do olho pude ver a
famlia lutando para subir na margem em segurana. Khufu estava correndo atrs deles,
agitando os braos e gritando para conduzi-los para fora do perigo. Eu no tinha certeza
se eles estavam correndo do crocodilo ou do macaco louco, mas desde que eles
estivessem correndo, eu no me importei.
Eu no pude ver o que estava acontecendo com Bast e Sadie. Eu ouvi gritos e agitaes
na gua atrs de mim, mas antes que eu pudesse olhar, o crocodilo deu o bote.
Eu mergulhei para a esquerda, investindo com a minha espada. A lmina apenas quicou
na pele do crocodilo. O mostro se moveu para os lados descontrolado, e seu focinho
teria golpeado minha cabea; mas por instinto eu ergui minha varinha e o crocodilo se
chocou contra uma parede de fora, ricocheteando como se eu fosse protegido por uma
bolha invisvel gigante de energia.
Eu tentei invocar um guerreiro falco, mas era muito difcil me concentrar com um
rptil de seis toneladas tentando me partir em dois.
Ento eu ouvi Bast gritar, "NO!" e eu soube imediatamente, sem ao menos olhar, que
algo estava errado com Sadie.
Desespero e fria fizeram meus nervos virarem ao. Com um aceno de minha varinha, a
parede de energia se projetou para frente, colidindo com o crocodilo to forte que ele
saiu voando, para cair fora do rio, na costa mexicana.. Enquanto ele estava de costas, eu
saltei, ergui minha espada, que estava agora brilhando em minhas mos, e enterrei a
lmina na barriga do monstro. Eu segurei firma enquanto o monstro se sacudia, se
desintegrando aos poucos, do focinho at a ponta da cauda, at eu estar parado no meio
de uma pilha gigante de areia molhada.
Eu me virei e vi Bast lutando com um crocodilo to grande quanto o meu. O crocodilo
deu o bote, e Bast deslizou para baixo dele, cravando suas facas na garganta do bicho. O
crocodilo derreteu no rio at que sobrou apenas uma nuvem de fumaa arenosa, mas o
estrago j havia sido feito: Sadie jazia em um monte amassado na beira do rio.
Pelo tempo que eu cheguei l, Khufu e Bast j estavam ao lado de Sadie. Sangue
escorria da cabea dela. O rosto dela estava em um feio tom de amarelo.
"O que aconteceu?" Eu perguntei.
"Aquilo saiu do nada," Bast disse miseravelmente. "A cauda bateu em Sadie e a fez
voar, no deu para defender. Ela est...?"
Khufu ps a mo na testa de Sadie e fez uns rudos de estalo com a boca.
Bast suspirou aliviada. "Khufu diz que ela vai viver, mas temos que tir-la daqui.
Aqueles crocodilos poderiam significar..."
A voz dela falhou. No meio do rio, a gua estava fervendo. Erguendo-se dela estava
uma figura to horrvel, que eu soube que estvamos perdidos.
"Poderia significar aquilo," Bast disse de um modo sinistro.
Para comear, o cara tinha vinte ps de altura - e no estou falando de um avatar
brilhante. Ele era todo de carne e osso. Peito e braos eram humanos, mas a pele era
verde clara, com a cintura enrolada em um saiote blindado como a pele de um rptil. A
cabea era a de um crocodilo, uma boca enorme cheia de dentes tortos, e olhos que
reluziam de muco esverdeado (eu sei, bem atraente). O cabelo negro estava tranado e
escorregava pelos ombros dele, e haviam chifres de boi curvados na cabea dele. Como
se tudo isso no fosse estranho o bastante, ele parecia estar suando em uma proporo
inacreditvel - gua oleosa jorrava dele e caa no rio.
Ele ergueu seu cajado - um pedao de madeira verde to grande quanto um poste.
Bast gritou, "Cuidado!" e me puxou, enquanto o homem-crocodilo esmagava o lugar no
rio onde eu estava, deixando um buraco de cinco ps de profundidade.
Ele berrou: "Horus!"
A ltima coisa que eu queria dizer era, Aqui! Mas Horus falou com urgncia em minha
mente: Encare-o. Sobek s compreende a fora. No deixe que ele agarre voc, seno
ele tentar afog-lo.
Engoli meu medo e gritei, "Sobek! Seu... fracote! Como vai?"
Sobek mostrou os dentes, e talvez essa fosse a verso dele de um sorriso amigvel.
Provavelmente no.
"Essa forma no serve para voc, deus-falco," ele disse. "Vou parti-lo em dois."
Perto de mim, as facas de Bast deslizaram das mangas dela. "No deixe que ele o
agarre," ela avisou.
"J entendi o recado," disse a ela. Eu tinha conscincia de Khufu  minha direita,
carregando Sadie para cima com certa dificuldade. Eu tinha de manter o cara verde
distrado, ao menos at que eles estivessem seguros. "Sobek, deus dos... crocodilos! Nos
deixe em paz ou destruiremos voc!"
Bom, Horus disse. "Destruir"  bom.
Sobek deu uma gargalhada. "Seu senso de humor melhorou, Horus. Voc e seu gatinho
de estimao vo me destruir?" Ele voltou seus olhos de muco para Bast. " O que a trs
a meu territrio, deusa dos gatos? Achei que voc no gostava de gua!
Na ltima palavra, ele mirou o cajado e atirou para a frente uma enxurrada de gua
verde. Bast foi muito rpida. Ela pulou por cima de Sobek com o avatar em sua forma
completa - um guerreiro com cabea de gato enorme e brilhante. "Traidor!" Bast gritou.
"Por que voc se juntou ao caos? Seu compromisso  com o rei!"
"Que rei?" Sobek rugiu. "Ra? Ra se foi. Osiris est morto de novo, o fracote! E esse
garoto no pode restaurar o imprio. Houve um tempo em que eu apoiei Horus, sim.
Mas ele no tem fora nessa forma, tampouco seguidores. Enquanto Set oferece poder e
refeio fresca. Eu acho que comearei com a carne de deuses menores.
Ele se virou para mim e balanou o cajado. Eu rolei para desviar de seu ataque, mas a
mo livre dele me agarrou pela cintura. Eu somente no fui rpido o suficiente. Bast
ficou tensa, preparando-se para lanar-se no inimigo, mas antes que ela pudesse, Sobek
deixou o cajado cair e me segurou com as duas mos enormes e me colocar dentro
d'gua. A prxima coisa que eu soube foi que estava afogando em uma escurido verde
e fria. No conseguia enxergar nem respirar. Eu afundava nas profundezas enquanto as
mos de Sobek impediam o ar de entrar em meus pulmes.
Agora ou nunca! Horus disse. Deixe-me tomar o controle.
No, eu respondi. Morrerei primeiro.
Achei o pensamento estranhamente tranqilizador. Se eu j estava morto, no tinha
porque ter medo. Tambm poderia lutar.
Foquei meu poder e me senti forte. Flexionei meus braos e senti o aperto de Sobek
enfraquecer. Invoquei o avatar do guerreiro-falco e fui instantaneamente envolvido em
uma brilhante forma dourada do tamanho de Sobek. Eu pude apenas v-lo na gua
negra, os olhos pegajosos dele arregalados de surpresa.
Eu me livrei do aperto e dei uma cabeada em Sobek, que resultou em alguns dentes
quebrados. Ento eu pulei da gua e aterrissei na beira do rio perto de Bast, que estava
to assustada que quase me atacou.
"Graas a Ra!" ela exclamou.
", estou vivo."
"No, eu quase pulou na gua atrs de voc. Eu odeio gua!"
Ento Sobek emergiu do rio, rugindo furioso. Sangue verde escorria de uma de suas
narinas.
"Voc no pode me derrotar!" Ele estendeu os braos, fazendo chover suor. "Eu sou o
senhor das guas! Meu suor cria os rios do mundo!"
Eca. Eu decidi nunca mais nada em rios. Eu olhei para trs, procurando por Khufu e
Sadie, mas no os encontrei. Desejei que Khufu tivesse levado Sadie para um lugar
seguro.
Sobek avanou, e trouxe o rio com ele. Uma onda gigante me atingiu e me fez cair, mas
Bast saltou nas costas de Sobek na forma de avatar: O peso nem o incomodou. Ele
tentou agarr-la, mas falhou. Ela deu facadas nos braos, pescoo e costas, mas a pele
verde dele se curava ao mesmo tempo em que ela o cortava.
Eu me pus de p, que em forma de avatar  como tentar levantar com um colcho
amarrado no peito. Sobek finalmente conseguiu agarrar Bast e atir-la longe. Ela
tombou sem se machucar, mas a aura azul comeou a piscar, sinal de que ela estava
perdendo poder.
Continuamos atacando o deus em turnos, porm quanto mais o machucvamos, mais
enfurecido e poderoso ele parecia ficar.
"Mais servos!" ele gritou. "Venham a mim!"
Aquilo no foi nada bom. Outra rodada de crocodilos gigantes e estaramos mortos.
Por que ns no temos servos? Eu reclamei, mas Horus no respondeu. Pude sentir que
ele estava se esforando para canalizar seu poder atravs de mim, tentando manter nosso
combate mgico.
O punho de Sobek atingiu Bast e ela saiu voando de novo. Dessa vez, ao bater no cho,
seu avatar apagou-se de vez.
Eu avancei, tentando tirar a ateno de Sobek. Infelizmente, funcionou. Ele se virou e
me atingiu com gua. Enquanto estava cego, ele me bateu com tanta fora e eu voei para
a outra margem, e ca entre as moitas.
Meu avatar entrou em colapso. Eu me sentei zonzo e vi Khufu e Sadie ao meu lado,
Sadie ainda desmaiada e sangrando. Khufu estava murmurando desesperado em baboon
e afagando a testa dela.
Sobek saiu da gua e sorriu para mim. L longe, corrente abaixo, na luz tnue da noite,
eu vi duas linhas no rio vindo em nossa direo rapidamente a cerca de quinze milhas de
distncia. - Reforos de Sobek.
Do rio, Bast gritou, "Carter, depressa! Tire Sadie daqui!"
O rosto dela estava plido de esforo, e seu avatar apareceu mais uma vez. Estava fraco,
contudo - quase nada substancial.
"No!" Eu gritei. "Voc vai morrer!"
Tentei invocar o guerreiro-falco, mas o esforo fez minhas entranhas queimarem de
dor. Eu estava sem foras, e o esprito de Horus estava dormindo, completamente
exausto.
"V!" Bast gritou. " E diga a seu pai que eu mantive minha promessa."
"NO!"
Ela pulou em Sobek, e os dois se atracaram - Bast esfaqueando-o furiosamente enquanto
ele uivava de dor. Os dois deuses caram na gua, e l afundaram.
Corri para a margem. O rio borbulhava e espumava. Ento uma exploso verde
iluminou todo o Rio Grande, e uma pequena criatura preta e dourada saiu do rio como
se tivesse sido arremessada. Ela caiu na grama aos meus ps - um molhado,
inconsciente e meio-morto gato.
"Bast?" Eu peguei a gata com cuidado. Usava a coleira de Bast, mas eu notei que o
talism da deusa estava esfarelado. No era mais Bast, apenas Muffin.
Meus olhos arderam com as lgrimas. Sobek havia sido derrotado, forado a voltar para
o Duat, mas ainda havia duas linhas vindo em nossa direo, e estavam to perto que eu
pude distinguir as costas verdes e os olhos pequenos e brilhantes dos monstros.
Apertei a gata contra meu peito e me virei para Khufu. "Vamos, ns temos que-"
Congelei, porque parado ao lado de Khufu e minha irm, olhando para mim, estava um
crocodilo diferente - um que era todo branco.
Estamos mortos, eu pensei. E ento, espere... um crocodilo branco?
Ele abriu a boca e deu o bote - bem na minha direo. Eu me virei e o vi lanando-se
nos dois outros crocodilos - os verdes gigantes que estavam a ponto de me matar.
"Philip?" Eu disse espantado, enquanto os crocodilos se sacudiam e lutavam.
"Sim," disse uma voz masculina.
Eu me virei de novo e vi o impossvel. Tio Amos estava ajoelhado ao lado de Sadie,
com o cenho franzido enquanto examinava a ferida. Ele olhou para mim com urgncia.
"Philip manter os servos de Sobek ocupados, mas no por muito tempo. Siga-me
agora, e teremos uma pequena chance de sobreviver!"
                                   TRINTA E UM

                  EU ENTREGO UMA CARTA DE AMOR

ESTOU FELIZ QUE CARTER TENHA CONTADO AQUELE LTIMO PEDAO 
parte porque eu estava inconsciente quando aconteceu, parte porque eu no consigo
falar do que Bast fez sem cair em pedaos.
Ah, mais sobre isso depois.
Eu acordei sentindo como se algum houvesse inflado minha cabea. Meus olhos no
estavam vendo as mesmas coisas. Na minha esquerda, eu vi o traseiro de um babuno, 
minha direita, meu perdido--tempos tio Amos. Naturalmente, decidi focar na direita.
"Amos?"
Ele colocou um pano frio na minha testa. "Descanse, criana. Voc teve uma
concusso."
Nisso pelo menos eu podia acreditar.
Enquanto meus olhos comearam a ganhar foco, eu vi que estvamos fora, de baixo de
um cu noturno estrelado. Eu estava deitada em um cobertor sobre o que pareceu areia
macia. Khufu estava do meu lado, sua parte colorida um pouco muito perto do meu
rosto. Ele estava mexendo uma panela sobre um pequeno fogo, e o que quer que ele
estivesse cozinhando cheirava a alcatro queimado. Carter sentava por perto no topo de
uma duna parecendo desanimado e segurando... aquilo era Muffin em sua perna?
Amos parecia bastante com quando o vimos pela ltima vez, eras atrs. Ele vestia seu
terno azul com casaco e chapu combinando. Seus longos cabelos estavam
ordenadamente tranados, e seus culos redondos brilhavam ao sol. Ele parecia
revigorado e descansado  no como algum que houvesse sido prisioneiro de Set.
"Como voc-"
"Escapou de Set?" Sua expresso escureceu. "Eu fui um tolo em ir procur-lo, Sadie. Eu
no fazia ideia de quo poderoso ele se tornara. Seu esprito est preso  pirmide
vermelha."
"Ento... ele no tem um hospedeiro humano?"
Amos balanou a cabea. "Ele no precisa de um enquanto ele tiver a pirmide.
Enquanto ela se aproxima da finalizao, ele fica cada vez mais forte. Eu esgueirei at
seu lar sob a montanha e ca em uma armadilha. Estou envergonhado em dizer que ele
me pegou sem uma luta."
Ele apontou para seu terno, exibindo quo perfeitamente bem ele estava. "Nem um
arranho. S  bam. Eu estava congelado como uma esttua. Set deixou-me do lado de
fora como um trofu e permitiu que seus demnios rissem e zombassem de mim
enquanto passavam."
"Voc viu o papai?" Eu perguntei.
Seus ombros afundaram. "Eu escutei os demnios conversando. O caixo est dentro da
pirmide. Eles esto planejando usar o poder de Osris para ampliar a tempestade.
Quando set liberar isso ao amanhecer  ser uma grande exploso  Osris e seu pai
sero obliterados. Osiris ser exilado to profundamente no Duat que ele poder nunca
mais ressurgir.
Minha cabea comeou a latejar. Eu no conseguia acreditar que tnhamos to pouco
tempo. E se Amos no pudera salvar o papai, como poderamos Carter e eu?
"Mas voc saiu," eu disse, vida por qualquer boa notcia. "Ento deve haver fraqueza
em suas defesas ou-"
"A magia que me congelou eventualmente comeou a enfraquecer. Eu concentrei minha
energia e fiz meu caminho para fora da guarnio. Demorou vrias horas, mas
finalmente eu me libertei. Eu esgueirei durante o dia, enquanto os demnios esto
dormindo. Isso foi muito fcil."
"No soa fcil," eu disse.
Amos sacudiu a cabea, obviamente perturbado. "Set me permitiu escapar. Eu no sei
porque, mas eu no deveria estar vivo.  algum tipo de truque. Estou com medo..." O
que quer que ele fosse dizer, ele mudou de ideia. "De qualquer maneira, meu primeiro
pensamento foi em procur-los, ento eu convoquei meu barco."
Ele gesticulou para trs dele. Eu levantei minha cabea e vi que estvamos em um
estranho deserto de dunas brancas que esticava-se to longe quanto eu podia ver  luz da
lua. A areia sob meus dedos era to fina e branca, que poderia ser acar. O barco de
Amos, o mesmo que nos carregara de Thames ao Brooklyn, estava encalhado no topo
de uma duna prxima, inclinado em um ngulo precrio como se houvesse sido jogado
ali.
"H um um armrio com provises abordo," Amos ofereceu. "Se voc quiser roupas
limpas."
"Mas onde estamos?"
"Areia Branca," Carter me disse. "Em Novo Mxico.  uma rea governamental para
teste de msseis. Amos disse que ningum nos procuraria aqui, ento ns a demos um
tempo para se curar. So cerca de sete da manh, ainda dia vinte e oito. Doze horas mais
ou menos at Set... voc sabe."
"Mas..." Muitas perguntas nadaram ao redor de minha mente. A ltima coisa que eu me
lembrava, eu estava no rio conversando com Nftis. Sua voz parecia vir do outro lado
do mundo. Ela falou fracamente atravs da corrente  to difcil de intender porm to
persistente. Ela me disse que estava abrigada muito longe em um hospedeiro
adormecido, o que eu no conseguia encontrar sentido. Ela disse que no podia aparecer
pessoalmente, mas que ela enviaria uma mensagem. Ento a gua comeou a ferver.
"Ns fomos atacados." Carter acariciou a cabea de Muffin, e eu finalmente notei que o
amuleto  o amuleto de Bast  estava faltando. "Sadie, eu tenho ms notcias."
Ele me contou o que aconteceu, e eu fechei meus olhos. Eu comecei a chorar.
Embaraoso, eu sei, mas eu no conseguia evitar. Ao longo dos ltimos dias, eu perdi
tudo  minha casa, minha vida ordinria, meu pai. Eu quase fui morta meia dzia de
vezes. A morte da minha me, que pra comear eu nunca havia superado, machucava
como uma ferida aberta. E agora Bast se fora tambm?
Quando Anbis me questionou no mundo inferior, ele quis saber o que eu sacrificaria
para salvar o mundo.
O que eu j no sacrifiquei? Eu quis gritar. O que me sobrara?
Carter veio e me deu Muffin, que ronronou em meus braos, mas no era o mesmo. No
era Bast.
"Ela vai voltar, no vai?" Eu olhei para Amos suplicantemente. "Quero dizer, ela 
imortal, no ?"
Amos deu um puxo na aba de seu chapu. "Sadie... eu simplesmente no sei. Parece
que ela se sacrificou para derrotar Sobek. Bast o forou para o Duat ao custo de sua
prpria fora vital. Ela at mesmo poupou Muffin, seu hospedeiro, provavelmente com
o ltimo fiapo de seu poder. Se isso for verdade, seria muito difcil para Bast voltar.
Talvez algum dia, em algumas centenas de anos-"
"No, no uma centenas de anos! Eu no posso-" minha voz quebrou-se.
Carter colocou sua mo em meu ombro, e eu sabia que ele intendeu. Ns no podamos
perder mais ningum. Ns no podamos.
"Descanse agora," Amos disse. "Ns podemos poupar mais uma hora, mas ento
teremos que ir."
Khufu me ofereceu uma tigela de sua confeco. O lquido grosso parecia sopa que
estragara h muito tempo. Eu olhei para Amos, esperando que ele me liberasse, mas ele
gesticulou encorajadoramente.
Para minha sorte, alm de tudo o mais eu tinha que tomar remdio de babuno.
Eu sorvi um pequeno gole, que tinha um gosto to ruim quanto o cheiro, e
imediatamente minhas plpebras ficaram pesadas. Eu fechei os olhos e dormi.
E justamente quando eu pensei que eu havia tido essa coisa de alma-que-deixa-o-corpo
resolvida, minha alma decidiu quebrar as regras. Bem,  minha alma no final das contas,
ento eu acho que isso faz sentido.
Quando meu ba saiu do meu corpo, ele manteve sua forma humana, que era melhor do
que o estilo passarinho alado, mas eu continuei crescendo e crescendo at que parei
gigantesca acima de Areia Branca. Me disseram vrias vezes que sou espirituosa
(geralmente no como um elogio), mas isso era absurdo. Meu ba estava to alto quando
o Monumento de Washington.
Ao sul, aps milhas e milhas de deserto, vapor subiu do Rio Grande  o campo de
batalha onde Bast e Sobek pereceram. Mesmo to alta quanto eu estava, eu no deveria
ter sido capaz de ver todo o caminho at o Texas, especialmente  noite, mas de algum
modo eu pude. Para o norte, ainda mais longe, eu vi um distante brilho vermelho e eu
sabia que era a aura de Set. Seu poder estava crescendo enquanto a pirmide
aproximava-se da finalizao.
Eu olhei para baixo. Prximo ao meu p estava uma pequenina aglomerao de
partculas  nosso acampamento. Miniaturas de Carter, Amos e Khufu sentavam-se ao
redor do fogo usado para cozinhar. O barco de Amos no era maior do que meu dedo
mindinho. Minha prpria forma adormecida deitava curvada em um lenol, to pequena
que eu poderia ter me esmagado com um passo em falso.
Eu era enorme, e o mundo pequeno.
" assim que os deuses veem as coisas," uma voz me disse.
Eu olhei ao redor mas no vi nada, somente a vasta expanso de dunas brancas rolantes.
Ento, na minha frente, as dunas se moveram. Eu pensei que fosse o vento, at que a
duna inteira rolou de lado como uma onda. Outra se moveu, e outra. Eu percebi que eu
estava olhando para uma forma humana  um homem enorme deitado em posio fetal.
Ele levantou-se, sacudindo areia branca a todo lado. Eu ajoelhei e coloquei minhas
mos sobre meus companheiros para preveni-los de serem enterrados. Estranhamente,
eles no perceberam, como se a ruptura no fosse mais do que uma borrifada de chuva.
O homem levantou-se para sua altura total  no mnimo uma cabea mais alto do que
minha prpria forma gigante. Seu corpo era feito de areia que acortinava-se de seus
braos e peitoral como cachoeiras de acar. A areia se moveu por seu rosto at que ele
formou um vago sorriso.
"Sadie Kane," ele disse. "Eu estive esperando por voc."
"Geb." No me pergunte como, mas eu soube instantaneamente que esse era o deus da
terra. Talvez o corpo de areia tivesse entregado. "Eu tenho algo para voc."
No fazia sentido que meu ba tivesse o envelope, mas eu alcancei meu bolso
fantasmagrico tremeluzente e puxei a carta de Nut.
"Sua esposa sente sua falta," eu disse.
Geb pegou a carta cautelosamente. Ele segurou-a em frente a seu rosto e pareceu cheir-
la. Ento ele abriu o envelope. Ao invs de uma carta, fogos de artifcio explodiram de
dentro. Uma nova constelao resplandeceu no cu noturno acima de ns  o rosto de
Nut, formado por milhares de estrelas. O vento aumentou rapidamente e destruiu a
imagem, mas Geb suspirou contentemente. Ele fechou o envelope e colocou-o dentro de
seu peito arenoso, como se houvesse um bolso exatamente no local onde seu corao
deveria estar.
"Eu te devo agradecimentos, Sadie Kane," Geb disse. "H vrios milnios desde que eu
vi o rosto de minha amada. Pea-me um favor que a terra possa conceder, e isso ser
seu."
"Salve meu pai," eu disse imediatamente.
O rosto de Geb enrugou-se de surpresa. "Hmm, que filha leal! sis poderia aprender algo
com voc. Infelizmente, eu no posso. O caminho de seu pai est retorcido com o de
Osris, e assuntos entre os deuses no podem ser resolvidos pela terra."
"Ento eu no poderia supor que voc pudesse desmoronar a montanha de Set e destruir
sua pirmide?" Eu perguntei.
A risada de Geb era como o maior chocalho de areia do mundo. "Eu no posso intervir
to diretamente entre minhas crianas. Set  meu filho tambm."
Eu quase bati o p no cho de frustrao. Ento eu me lembrei que eu era gigante e
poderia esmagar o acampamento inteiro. Um ba poderia fazer isso? Melhor no
descobrir. "Bem, seus favores no so muito teis ento."
Geb encolheu os ombros, desprendendo algumas toneladas de areia. "Talvez algum
concelho para ajud-la a adquirir o que voc deseja. V para o lugar das cruzes."
"E onde  isso?"
"Perto," ele prometeu. "E, Sadie Kane, voc est correta. Voc perdeu muito. Sua
famlia sofreu. Eu sei como  isso. Apenas lembre-se, um pai faria qualquer coisa para
salvar suas crianas. Eu desisti de minha felicidade, minha esposa  eu assumi a
maldio de Ra para que meus filhos nascessem." Ele olhou para o cu saudosamente.
"E enquanto minha saudade de minha amada aumenta a cada milnio, eu sei que
nenhum de ns mudaria sua escolha. Eu tenho cinco filhos os quais eu amo."
"At mesmo Set?" Eu perguntei incrdula. "Ele est para destruir milhes de pessoas."
"Set  mais do que parece," Geb disse. "Ele  nossa carne e sangue."
"No a minha"
"No?" Geb moveu-se, abaixando-se. Eu pensei que ele estava se agachando, at que
percebi que ele estava desfazendo-se em dunas. "Pense nisso, Sadie Kane, e proceda
com cuidado. Perigo a espera no lugar das cruzes, mas voc tambm encontrar o que
mais precisa."
"Voc poderia ser um pouco mais vago?" Eu murmurei.
Mas Geb se fora, deixando apenas uma duna mais alta que o normal na areia; e meu ba
afundou de volta em meu corpo.
                                    TRINTA E DOIS

                             O LUGAR DAS CRUZES

EU ACORDEI COM MUFFIN ANINHADA em minha cabea, ronronando e
mastigando meu cabelo. Por um momento, eu pensei que estava em casa. Eu costumava
acordar com Muffin na minha cabea o tempo todo. Ento eu me lembrei de que eu no
estava em casa, e Bast tinha ido. Meus olhos comearam a lacrimejar novamente.
No, a voz de Isis censurou. Ns devemos permanecer focadas.
Pela primeira vez, a deusa estava certa. Eu me sentei e tirei a areia branca do meu rosto.
Muffin miou em protesto, ento gingou dois passos e decidiu que ela poderia se
estabelecer no meu lugar quente no cobertor.
"Bom, voc est de p," Amos disse. "Ns j amos te acordar."
Ainda estava escuro. Carter estava no deque do barco, puxando um casaco novo de
linho do armrio de abastecimento de Amos. Khufu veio em minha direo e fez um
som de ronrono para a gata. Para minha surpresa, Muffin saltou em seus braos.
"Eu pedi a Khufu para levar a gata de volta para Brooklyn," Amos disse. "Aqui no 
lugar para ela."
Khufu grunhiu, claramente infeliz com sua tarefa.
"Eu sei, meu velho amigo," disse Amos. Sua voz estava dura; ele parecia estar
declarando-se o babuno alfa. " para o melhor."
"Agh," disse Khufu, sem olhar nos olhos de Amos.
Um mal-estar se apossou de mim. Eu lembrei do que Amos dissera: que esta libertao
poderia ser um truque de Set. E a viso de Carter: Set estava esperando que Amos nos
levasse para a montanha para poder nos capturar. E se Set estivesse de alguma forma
influenciando Amos? Eu no gostava da idia de mandar Khufu para longe.
Por outro lado, eu no via outra alternativa alm de aceitar a ajuda de Amos. E vendo
Khufu ali, segurando Muffin, eu no podia suportar a idia de colocar qualquer um dos
dois em perigo. Talvez Amos tivesse um objetivo.
"Ele pode viajar com segurana?" eu perguntei. "L fora sozinho?"
"Oh, sim," Amos prometeu. "Khufu - e todos os babunos - tem sua prpria marca de
mgica. Ele vai ficar bem. E por via das dvidas..."
Ele pegou uma estatueta de crocodilo de cera. "Isto ir ajudar se a necessidade surgir."
Eu tossi. "Um crocodilo? Depois do que ns-"
" Filipe da Macednia," Amos explicou.
"Filipe  de cera?"
" claro," disse Amos. "Crocodilos de verdade so muito difceis de cuidar. E eu te
disse que ele era mgico."
Amos lanou a estatueta para Khufu, que a cheirou, e a colocou em uma bolsa com seus
suprimentos de cozinha. Khufu me deu um ltimo olhar nervoso, deu uma olhadela
amedrontada para Amos, e ento andou lentamente pela duna com sua bolsa em um
brao e Muffin no outro.
Eu no via como eles poderiam sobreviver l fora, com ou sem mgica. Eu esperei que
Khufu aparecesse no topo da prxima duna, mas ele nunca apareceu. Ele simplesmente
sumiu.
"E agora," disse Amos. "Pelo que Carter me contou, Set pretende soltar sua destruio
amanh ao nascer do sol. Isso nos d muito pouco tempo. O que Carter no explicaria 
como vocs pretendem destruir Set."
Eu olhei rapidamente para Carter e vi um aviso em seus olhos. Eu entendi
imediatamente, e senti uma descarga de gratido. Talvez o garoto no fosse
completamente idiota. Ele compartilhava minhas preocupaes com relao a Amos.
" melhor mantermos isso para ns mesmos," eu disse terminantemente a Amos. "Voc
mesmo disse isso. E se Set tiver ligado um dispositivo de escuta em voc ou algo
assim?"
Amos enrijeceu o maxilar. "Voc est certa," ele disse de m vontade. "Eu no posso
confiar em mim mesmo.  to... frustrante."
Ele soou realmente aflito, o que fez com que eu me sentisse culpada. Eu fui tentada a
mudar de idia e contar a ele nosso plano, mas um olhar para Carter e eu mantive minha
resoluo.
"Ns deveramos ir para Phoenix," eu disse. "Talvez pelo caminho..."
Eu coloquei a mo no bolso. A carta de Nut tinha sumido. Eu queria contar a Carter
sobre minha conversa com o deus da terra, Geb, mas eu no sabia se isso seria seguro na
frente de Amos. Carter e eu tnhamos sido um time por tantos dias agora, eu percebi que
me ressentia um pouco com a presena de Amos. Eu no queria confiar em mais
ningum. Deus, eu no acredito que acabei de dizer isso.
Carter falou. "Ns devamos parar em Las Cruces."
Eu no tenho certeza de quem ficou mais surpreso: Amos ou eu.
" perto daqui," Amos disse lentamente. "Mas..." Ele pegou um punhado de areia,
murmurou um feitio, e jogou a areia pelo ar. Ao invs de se dispersarem, os gros
flutuaram e formaram uma seta ondulante, apontando ao sudoeste para uma linha de
montanhas escarpadas que formava uma silhueta negra contra o horizonte.
"Como eu pensei," disse Amos, e a areia caiu no cho. "Las Cruces est fora do nosso
caminho por sessenta e cinco quilmetros - depois daquelas montanhas. Phoenix  ao
nordeste."
"Sessenta e cinco quilmetros no  to ruim," eu disse. "Las Cruces..." O nome me
parecia estranhamente familiar, mas eu no descobri por qu. "Carter, por que l?"
"Eu s..." Ele parecia to desconfortvel que eu soube que era algo relacionado  Zia.
"Eu tive uma viso."
"Uma viso de beleza?" eu arrisquei.
Ele parecia estar tentando engolir uma bola de golfe, o que confirmou minhas suspeitas.
"Eu s acho que deveramos ir para l," ele disse. "Talvez achemos algo importante."
"Muito arriscado," disse Amos. "Eu no posso permitir isso com a Casa da Vida no seu
rastro. Ns devamos ficar no deserto, longe das cidades."
E de repente: click. Meu crebro teve um desses incrveis momentos em que ele
realmente funciona corretamente.
"No, Carter est certo," eu disse. "Ns temos que ir l."
Era a vez de meu irmo ficar surpreso. "Eu estou? Ns devemos?"
"Sim." Eu aproveitei a deixa e contei a eles sobre minha conversa com Geb.
Amos tirou alguma areia de seu casaco. "Isso  interessante, Sadie. Ma eu no vejo
como Las Cruces entra nisso."
"Porque  espanhol, no ?" eu disse. "Las Cruces. As cruzes. Exatamente como Geb
me disse."
Amos hesitou, e ento balanou a cabea relutantemente. "Entrem no barco."
"Um pouco de falta d'gua para um passeio de barco, no  mesmo?" eu perguntei.
Mas eu o segui a bordo. Amos tirou seu casaco e proferiu uma palavra mgica.
Instantaneamente o casaco criou vida, foi para a popa e agarrou o leme.
Amos sorriu para mim, e um pouco daquela velha centelha voltou a seus olhos. "Quem
precisa de gua?"
O barco estremeceu e elevou-se para o cu.
Se Amos algum dia ficasse cansado de ser um mgico, ele poderia arrumar um emprego
de operador turstico de barcos voadores. A vista vinda de alm das montanhas era
deslumbrante.
A princpio, o deserto parecera rido e feio comparado aos exuberantes verdes da
Inglaterra, mas eu estava comeando a apreciar que o deserto tivesse sua prpria rgida
beleza, especialmente  noite. As montanhas se erguiam como ilhas negras em um
oceano de luzes. Eu nunca tinha visto tantas estrelas sobre ns, e o vento seco cheirava a
slvia e pinho. Las Cruces se estendia no vale abaixo - uma brilhante colcha de retalhos
de ruas e bairros.
Enquanto nos aproximvamos, eu vi que a maioria da cidade no tinha nada notvel.
Poderia ter sido Manchester ou Swindon ou qualquer lugar, realmente, mas Amos
rumou com nossa nave para o sul da cidade, para uma rea que era obviamente muito
mais antiga - com prdios de adobe e ruas arborizadas.
Quando comeamos a descer, eu comecei a ficar nervosa.
"Eles no vo nos notar em um barco voador?" eu perguntei. "Quer dizer, eu sei que
mgica  difcil de enxergar, mas-"
"Aqui  o Novo Mxico," disse Amos. "Ele vem OVNIs aqui o tempo todo."
E com isso, ns aterrissamos no teto de uma pequena igreja.
 Era como voltar no tempo, ou entrar em um set de filmagem de um filme do Velho
Oeste. A praa da cidade era delineada com construes de estuque como um pueblo
indgena. As ruas estavam fortemente iluminadas e movimentadas - parecia um festival
- com vendedores em barracas vendendo fios com pimentas vermelhas, cobertores
indgenas, e outras curiosidades. Uma velha diligncia estava estacionada ao lado de
uma moita de cactos. No coreto da praa, homens com grandes violes e vozes altas
tocavam msica mariachi.
"Essa  uma rea histrica," disse Amos. "Eu acredito que a chamam de Mesilla."
"Tem bastante coisa egpcia aqui, no ?" eu perguntei hesitantemente.
"Oh, as antigas culturas do Mxico tem muito em comum com o Egito," disse Amos,
retirando o casaco do leme. "Mas essa  uma conversa para outro dia."
"Graas a Deus," eu murmurei. Ento eu cheirei o ar e senti algo estranho mas
maravilhoso - como po assando e manteiga derretendo, apenas condimentado e
delicioso. "Eu-estou-morrendo-de-fome."
Eu no levei muito tempo, andando pela praa, para achar tortillas caseiras. Deus, elas
estavam boas. Eu acho que Londres tem restaurantes mexicanos. Ns temos de tudo.
Mas eu nunca fui a um, e eu duvido que tortillas tenham tido algum dia um gosto to
divino. Uma mulher grande em um vestido branco moldava bolas de massa em suas
mos polvilhadas com farinha, as achatava e cozinhava as tortillas em uma frigideira
quente, e as entregava em guardanapos de papel. Elas no precisavam de manteiga ou
gelia ou qualquer outra coisa. Elas eram to delicadas que derretiam na minha boca. Eu
fiz Amos pagar doze s para mim.
Carter tambm estava aproveitando at ele experimentar os tamales de pimenta em outra
tenda. Eu achei que sua cara fosse explodir. "Quente!" ele declarou. "Bebida!"
"Coma mais tortilla," Amos aconselhou, tentando no rir. "Po corta o efeito melhor do
que gua."
Eu experimentei os tamales eu mesma e descobri que estavam excelentes, nem to
picantes quanto um bom curry, ento Carter estava apenas sendo um banana, como
sempre.
Logo ns tnhamos comido o nosso mximo e comeamos a vaguear pelas ruas,
procurando por... bem, eu no tenho certeza, exatamente.
O tempo estava passando. O sol estava descendo, e eu sabia que aquela seria a ltima
noite para todos a no ser que parssemos Set, mas eu no tinha a menor idia de por
que Geb me mandara para l. Voc tambm encontrar o que voc mais precisa. O que
isso queria dizer?
Eu examinei as multides e tive o relance e um cara jovem e alto com cabelo escuro.
Um arrepio subiu minha espinha- Anbis? E se ele estivesse me seguindo, se
assegurando de que eu estava segura? E se ele fosse o que eu mais precisava?
Pensamento maravilhoso, exceto pelo fato de no ser Anubis. Eu me censurei por
pensar que eu pudesse ter tanta sorte. Alm do mais, Carter tinha visto Anubis como um
monstro com cabea de chacal. Talvez o aspecto de Anubis comigo tenha sido s um
truque para confundir meu crebro - um truque que funcionou muito bem.
Eu estava sonhando acordada sobre isso, e sobre se eles tinham ou no tortillas na Terra
dos Mortos, quando eu cruzei o olhar com uma garota do outro lado da praa.
"Carter." Eu agarrei o brao dele e acenei com a cabea na direo de Zia Rashid. "Tem
algum que veio te ver."
Zia estava pronta para batalha em suas roupas de linho pretas e folgadas, basto e
varinha na mo. Seu cabelo negro e repicado estava todo para um lado s como se ela
tivesse voado at l em um forte vento. Seus olhos cor de mbar pareciam to amigveis
quanto um jaguar.
Atrs dela havia uma mesa de um vendedor cheia de souvenirs, e um pster que dizia:
novo Mxico: terra de encantamento. Eu duvidava que o vendedor soubesse quanto
encantamento estava bem em frente do seu negcio.
"Voc veio," disse Zia, o que parecia um pouco bvio. Era minha imaginao, ou ela
estava olhando para Amos com apreenso - at mesmo medo?
"Sim," Carter disse nervosamente. "Voc, uh, lembra de Sadie. E este -"
"Amos," Zia disse desconfortavelmente.
Amos se inclinou. "Zia Rashid, se passaram tantos anos. Eu vejo que Iskandar mandou
seu melhor."
Zia parecia ter levado um tapa na cara, e eu percebi que Amos no tinha ouvido as
ltimas notcias.
"Um, Amos," eu disse. "Iskandar est morto."
Ele olhava para ns com descrena enquanto contvamos a histria.
"Entendo," ele disse por fim. "Ento o novo Leitor Chefe -"
"Desjardins," eu disse.
"Ah. Ms notcias."
Zia franziu a sobrancelha. Ao invs de se dirigir a Amos, ela se virou para mim. "No
dispense Desjardins. Ele  muito poderoso. Vocs precisaram da ajuda dele - da nossa
ajuda - para desafiar Set."
"J te ocorreu," eu disse. "que Desjardins possa estar ajudando Set?"
Zia olhou fixamente para mim. "Nunca. Outros poderiam. Mas no Desjardins."
Ela claramente se referia a Amos. Eu suponho que isso deveria ter me deixado com
mais suspeitas, mas ao invs disso eu fiquei com raiva.
"Voc est cega," eu disse a Zia. "A primeira ordem de Desjardins como Leitor Chefe
foi nos matar. Ele est tentando nos parar, mesmo sabendo que Set est para destruir o
continente. E Desjardins estava l no Museu Britnico naquela noite. Se Set precisasse
de um corpo-"
O topo do basto de Zia entrou em chamas.
Carter rapidamente se colocou entre ns. "Whoa, as duas se acalmem. Ns estamos aqui
para conversar."
"Eu estou conversando," Zia disse. "Vocs precisam da Casa da Vida do seu lado.
Vocs precisam convencer Desjardins de que no so uma ameaa."
"Nos rendendo?" eu perguntei. "No, obrigada. Eu prefiro ser transformada em um
inseto e ento ser esmagada."
Amos pigarreou. "Eu temo que Sadie esteja certa. A menos que Desjardins tenha
mudado desde a ltima vez em que o vi, ele no  o tipo de homem que ouve a razo."
Zia irritou-se. "Carter, posso falar com voc em particular?"
Ele se mexeu de um p para o outro. "Olhe, Zia, Eu-eu concordo que ns precisamos
trabalhar juntos. Mas se voc vai tentar me convencer a me render  Casa-"
"Tem uma coisa que tenho que te falar," ela insistiu. "Algo que voc precisa saber."
O jeito que ela disse isso fez os cabelos da minha nuca se arrepiarem. Podia ser isso que
Geb quis dizer? Seria possvel que Zia segurasse a chave para derrotar Set?
De repente Amos se retesou. Ele levantou seu basto no ar e disse, " uma armadilha."
Zia pareceu confusa. "O qu? No!"
Ento todos vimos o que Amos tinha pressentido. Marchando em nossa direo do final
leste da praa estava Desjardins em pessoa. Ele vestia tnicas cor de creme com a capa
de pele de leopardo do Leitor Chefe amarrada em seus ombros. Seu basto brilhava em
tons de roxo. Turistas e pedestres se afastavam de seu caminho, confusos e nervosos,
como se eles no tivessem certeza do que estava acontecendo mas soubessem o bastante
para retirar-se.
"Pelo outro lado," eu insisti.
Eu me virei e vi mais dois mgicos em tnicas pretas vindo do oeste.
Eu empunhei minha varinha e a apontei para Zia. "Voc nos enganou!"
"No! Eu juro-" Seu rosto se abateu. "Mel. Mel deve ter dito a ele."
"Certo," eu murmurei. "Culpe Mel."
"Sem tempo para explicaes," disse Amos, e ele golpeou Zia com um raio de luz. Ela
bateu na mesa de souvenirs.
"Hey!" Carter protestou.
"Ela  inimiga," Amos disse. "E ns temos inimigos suficientes."
Carter correu para Zia (naturalmente) enquanto mais pedestres entravam em pnico e se
dispersavam para os limites da praa.
"Sadia, Carter," disse Amos, "se as coisas se complicarem, entrem no barco e fujam."
"Amos, no vamos te deixar," eu disse.
"Vocs so mais importantes," ele insistiu. "Eu posso segurar Desjardins por-
Cuidado!"
Amos girou seu basto na direo dos dois mgicos de preto. Eles deviam estar
murmurando feitios, mas a rajada de vento de Amos varreu-os do cho, mandando os
dois rodando sem controle no centro de um demnio de poeira. Eles bateram por toda a
rua, levando lixo, folhas, e tamales, at que o tornado em miniatura lanou os mgicos
aos gritos por cima de um prdio e fora de vista.
Do outro lado da praa, Desjardins gritou com raiva. "Kane!"
O Leitor Chefe bateu seu basto no cho. Uma rachadura se abriu no pavimento e
comeou a serpentear em nossa direo. Quando a fenda foi ficando maior, as
construes comearam a estremecer. Estuque comeou a se descascar das paredes. A
rachadura deveria ter nos engolido, mas a voz de Isis falou em minha mente, me falando
a palavra que eu precisava.
Eu levantei minha varinha. "Calma. Hah-ri."
Hierglifos arderam na nossa frente.




A fenda parou bem perto dos meus ps. O terremoto morreu.
Amos inspirou com fora. "Sadie, como voc-"
"Palavras Divinas, Kane!" Desjardins deu um passo para frente, seu rosto lvido. "A
criana se atreve a dizer as Palavras Divinas. Ela est corrompida por Isis, e voc 
culpado por ajudar os deuses."
"V embora, Michel," Amos advertiu.
Parte de mim achou divertido que o primeiro nome de Desjardins fosse Michel, mas eu
estava assustada demais para aproveitar o momento.
Amos estendeu sua varinha, pronto para nos defender. "Ns devemos parar Set. Se voc
for sbio-"
"Eu deveria fazer o qu?" Desjardins disse. "Me juntar a voc? Colaborar? Os deuses
no trouxeram nada alm de destruio."
"No!" Zia proclamou. Com a ajuda de Carter, ela de algum modo conseguiu ficar de
p. "Mestre, no podemos lutar um contra o outro. Iskandar no iria querer isso."
"Iskandar est morto!" Desjardins berrou. "Agora, afaste-se deles, Zia, ou seja destruda
com eles."
Zia olhou para Carter. Ento ela enrijeceu o maxilar e encarou Desjardins. "No. Ns
devemos trabalhar juntos."
Eu olhei para Zia com um novo respeito. "Voc realmente no o trouxe para c?"
"Eu no minto," ela disse.
Desjardins levantou seu basto, e enormes rachaduras apareceram nos prdios ao seu
redor. Grandes pedaos de cimento e tijolos de adobe voaram em nossa direo, mas
Amos convocou o vento e os desviou.
"Crianas, saiam daqui!" Amos gritou. "Os outros mgicos no vo ficar de fora para
sempre."
"Pela primeira vez, ele est certo," Zia avisou. "Mas ns no podemos fazer um portal-"
"Ns temos um barco voador," Carter ofereceu.
Zia balanou a cabea apreciativamente. "Onde?"
Ns apontamos para a igreja, mas infelizmente Desjardins estava entre ele e ns.
Desjardins arremessou mais uma rajada de pedras. Amos as desviou com vento e raios.
"Magia de tempestade!" Desjardins zombou. "Desde quando Amos Kane  um
especialista nos poderes do caos? Vocs esto vendo isso, crianas? Como ele pode ser
seu protetor?"
"Cale a boca," Amos grunhiu, e com uma volta de seu basto ele levantou uma
tempestade de areia to enorme que cobriu toda a praa.
"Agora," disse Zia. Ns fizemos um grande arco ao redor de Desjardins, e ento
corremos cegamente para a igreja. A tempestade de areia feriu minha pele e picou meus
olhos, mas ns encontramos as escadas e subimos at o telhado. O vento diminuiu, e do
outro lado da praa eu pude ver que Desjardins e Amos continuavam encarando um ao
outro, cobertos por escudos de energia. Amos estava cambaleando; o esforo estava
claramente tomando muito dele.
"Eu tenho que ajudar," Zia disse relutantemente, "ou Desjardins ir matar Amos."
"Eu pensei que voc no confiasse em Amos," Carter disse.
"Eu no confio," ela concordou. "Mas se Desjardins vencer esse duelo, ns todos
estaremos mortos. Ns nunca escaparamos." Ela cerrou os dentes como se estivesse se
preparando para algo realmente doloroso.
Ela estendeu seu basto e murmurou um encantamento. O ar ficou morno. O basto
reluziu. Ela o soltou e ele rompeu em chamas, crescendo at se transformar em uma
coluna de fogo de um metro de largura e quatro de altura.
"Persiga Desjardins," ela entoou.
Imediatamente, a coluna flamejante flutuou para fora do telhado e comeou a se mover
lenta mas deliberadamente na direo do Leitor Chefe.
Zia dobrou-se. Carter e eu tivemos que agarrar os braos dela para impedir que ela
casse de cara no cho.
Desjardins olhou para cima. Quando ele viu o fogo, seus olhos se arregalaram com
medo. "Zia!" ele praguejou. "Voc ousa me atacar?"
A coluna desceu, passando pelos galhos de uma rvore e queimando um buraco por
eles. Ela pousou na rua, pairando apenas alguns centmetros acima do asfalto. O calor
era to intenso que queimou o meio-fio de concreto e derreteu o asfalto. O fogo veio at
um carro estacionado, e ao invs de dar a volta, queimou direto o chassi de metal,
dividindo o carro em dois.
"Bom!" Amos gritou da rua. "Muito bem, Zia!"
Em desespero, Desjardins cambaleou para a esquerda. A coluna reajustou o curso. Ele a
golpeou com gua, mas o lquido evaporou em vapor. Ele convocou pedregulhos, mas
eles passaram diretamente pelo fogo e saram como caroos derretidos e fumegantes do
outro lado.
"O qu  aquela coisa?" eu perguntei.
Zia estava inconsciente, a Carter balanou a cabea em espanto. Mas Isis falou em
minha mente. Um pilar de fogo, ela disse com admirao.  o mais poderoso feitio que
um mestre do fogo pode convocar.  impossvel de derrotar, impossvel de escapar.
Pode ser usado para guiar o convocador at um objetivo. Ou pode ser usado para
perseguir um inimigo, for-lo a correu. Se Desjardins tentar se concentrar em qualquer
outra coisa, ele ir alcan-lo e consumi-lo. Ele no ir deix-lo sozinho at se dissipar.
Quanto tempo? Eu perguntei.
Depende da energia do convocador. Entre seis e doze horas.
Eu ri alto. Brilhante! Claro que Zia desmaiou criando-o, mas ainda sim era brilhante.
Um feitio desses esgotou sua energia, disse Isis. Ela no ser capaz de usar qualquer
mgica at o pilar se desfazer. Ao ajud-los, ela ficou completamente impotente.
"Ela vai ficar bem," eu disse a Carter. Ento eu gritei para a praa: "Amos, venha! Ns
temos que ir!"
Desjardins continuava indo para trs. Eu podia dizer que ele estava com medo do fogo,
mas ele no tinha terminado conosco.
"Vocs iro se arrepender por isso! Vocs querem bancar os deuses? Ento no me
deixam outra alternativa." Fora do Duat, ele apanhou um conjunto de varas. No, elas
era flechas - cerca de sete.
Amos olhou para as flechas com horror. "Voc no faria! Nenhum Leitor Chefe faria-"
"Eu convoco Sekhmet!" Desjardins berrou. Ele atirou as fleches no ar e elas comearam
a rodopiar, orbitando ao redor de Amos.
Desjardins concedeu a si mesmo um sorriso satisfeito. Ele olhou diretamente para mim.
"Vocs escolheram colocar sua f nos deuses?" ele gritou. "Ento morram pelas mos
de um deus."
Ele virou-se e correu. O pilar ganhou velocidade e o seguiu.
"Crianas, saiam daqui!" Amos gritou, rodeado pelas flechas. "Eu vou tentar distra-la!"
"Quem?" eu perguntei. Eu sabia que j tinha ouvido o nome Sekhmet antes, mas eu
tinha ouvido muitos nomes egpcios. "Qual deles  Sekhmet?"
Carter virou-se para mim, e mesmo com tudo que tnhamos passado naquela semana, eu
nunca tinha visto ele to assustado. "Ns precisamos ir embora," ele disse. "Agora."
                                  TRINTA E TRS

            NS ENTRAMOS NOS NEGCIOS DE MOLHOS
VOC EST ESQUECENDO DE ALGO, Horus me disse.
Um pouco ocupado aqui! Eu pensei de volta.
Voc poderia pensar que  fcil conduzir um barco mgico pelo ar. Voc estaria errado.
Eu no tinha o casaco animado de Amos, ento eu fiquei no fundo do barco tentando
mover o leme eu mesmo, o que era como mover cimento. Eu no podia ver onde
estvamos indo. Ns continuamos inclinando para frente e para trs enquanto Sadie
tentava ao mximo impedir uma Zia inconsciente de cair pelos lados.
 meu aniversrio, Horus insistiu. Deseje-me feliz aniversrio!
"Feliz aniversrio!" Eu gritei. "Agora, cala a boca!"
"Carter, o que voc est fazendo?" Sadie gritou, agarrando a grade com uma mo e Zia
com a outra enquanto o barco inclinou-se de lado. "Voc ficou louco?"
"No, eu estava falando com  oh, esquea."
Eu olhei para trs de ns. Algo estava se aproximando  uma figura resplandescente que
clareava a noite. Vagamente humanoide, definitivamente ms notcias. Eu implorei ao
barco para ir mais rpido.
Voc tem algo pra mim? Horus pediu.
Voc pode, por favor, fazer algo til? Eu exigi. Aquela coisa nos seguindo  aquilo  o
que eu penso que ?
Oh. Horus pareceu entediado. Aquela  Sekhmet. Olho de R, destruidora dos
perversos, a grande caadora, senhora das chamas, etc.
timo, eu pensei. E ela est nos seguindo porqu...
O Leitor Chefe tem o poder de evoc-la uma vez durante sua vida, Horus explicou. 
um presente muito, muito velho  remete aos dias em que R primeiramente abenoou o
homem com a magia.
Uma vez durante sua vida, eu pensei. E Desjardins escolhe agora?
Ele nunca foi muito bom em ser paciente.
Eu pensei que os magos no gostassem dos deuses!
Eles no gostam, Horus concordou. Somente te mostra quo hipcrita ele . Mas eu
suponho que te matar era mais importante do que manter os princpios. Eu posso
estimar isso.
Eu olhei para trs novamente. A figura estava definitivamente chegando perto  uma
mulher gigante dourada com armaduras vermelhas brilhantes, um arco em uma mo e
uma aljava de flechas amarrada em suas costas  ela estava se lanando contra ns
como um foguete.
Como podemos venc-la? Eu perguntei.
Voc basicamente no vence, Horus disse. Ela  a incarnao da ira do sol. Antes, na
poca em que R estava ativo, ela era muito mais impressionante, mas ainda assim... Ela
 impossvel de parar. Uma assassina de nascena, uma mquina de matar-"
"Ok, eu intendi!" Eu gritei.
"O que?" Sadie inquiriu, to alto que Zia se mexeu.
"O-o que?" Seus olhos abriram nervosamente.
"Nada," eu gritei. "Ns estamos sendo seguidos por uma mquina de matar. Volte a
dormir."
Zia sentou-se tontamente. "Uma mquina de matar? Voc no quer dizer-"
"Carter, vire para a direita!" Sadie gritou.
Eu o fiz, e uma flecha em chamas do tamanho de um predador raspou zumbindo ao
nosso bombordo. Ela explodiu acima de ns, deixando o telhado de nosso barco em
chamas.
Eu manejei o barco para um mergulho, e Sekhmet passou em disparada  nossa frente
mas ento deu uma pirueta no ar com agilidade irritante e mergulhou atrs de ns.
"Ns estamos queimando!" Sadie apontou prestativamente.
"Notei!" Eu gritei de volta.
Eu escaneei a paisagem abaixo de ns, mas no havia nenhum local seguro para
aterrizar  apenas subdivises e parques de escritrios.
"Morram, inimigos de R!" Sekhmet gritou. "Perea em agonia!"
Ela  quase to irritante quanto voc, eu disse para Horus.
Impossvel, Horus disse. Ningum supera Horus.
Eu dei outra virada evasiva, e Zia gritou, "Aqui!"
Ela apontou para um complexo de fbricas bem iluminado com caminhes, armazns e
reservatrios de cereais. Uma pimenta chili gigante estava pintada no lado do maior
armazm, e uma placa luminosa dizia: molho mgico, inc.
"Oh, por favor," Sadie disse. "No  realmente mgico!  s um nome."
"No," Zia insistiu. "Eu tive uma ideia."
"Aquelas Sete Fitas?" Eu chutei. "As que voc usou em Serqet?"
Zia sacudiu sua cabea. "Elas s podem ser conjuradas uma vez ao ano. Mas meu
plano-"
Outra flecha passou brilhando ao nosso lado, apenas centmetros de nosso estibordo.
"Segurem!" Eu dei um puxo no leme e girei o barco de cabea para baixo antes da
flecha explodir. O casco nos protegeu da violncia da exploso, mas todo o fundo do
navio estava agora em chamas, e ns estvamos caindo.
Com meu ltimo ato de controle, eu mirei o barco contra o telhado do armazm, e o
quebramos, batendo contra um amontoado gigantesco de... algo crocante.
Eu me arrastei para fora do barco e sentei, me sentindo tonto. Felizmente, a coisa em
que ns batemos era macia. Infelizmente, era uma pilha de sete metros de pimenta chili
desidratada, e o barco as incendiou. Meus olhos comearam a arder, mas eu sabia que
no deveria esfreg-los, pois minhas mos agora estavam cobertas de leo de chili.
"Sadie?" Eu chamei. "Zia?"
"Socorro!" Sadie gritou. Ela estava do outro lado do barco, puxando Zia de dentro do
fundo em chamas. Ns conseguimos pux-la para fora e escorregar pelo monte at o
cho.
O armazm parecia ser um local gigante de secagem de pimenta, com trinta ou quarenta
montanhas de chili e fileiras de pratilheiras de secagem feitas de madeira. Os destroos
de nosso barco enchiam o ar de fumaa picante, e pelo buraco que fizemos no teto, ns
podamos ver a silhueta brilhante de Sekhmet descendo.
Ns corremos. Arando por outra pilha de pimentas. [No, eu no peguei uma pitada
delas, Sadie  s cale a boca.] Ns nos escondemos atrs de uma pratilheira de secagem,
onde prateleiras de pimenta faziam o ar queimar como cido clordrico.
Sekhmet aterrizou, e o cho do armazm estremeceu. De perto, ela era ainda mais
aterrorizante. Sua pele brilhava como ouro lquido, e a armadura de seu peitoral e saia
parecia tecido de ladrilhos feitos de lava fundida. Seus cabelos eram como uma densa
juba de leo. Seus olhos eram felinos, mas no cintilavam como os de Bast ou traiam
qualquer bondade ou humor. Os olhos de Sekhmet reluziam como suas flechas,
projetados apenas para caar e destruir. Ela era bonita do mesmo modo que uma
exploso atmica  bonita.
"Sinto cheiro de sangue!" Ela rosnou. "Banquetearei os inimigos de R at que minha
barriga esteja cheia!"
"Encantador," Sadie sussurrou. "Ento Zia... Esse plano?"
Zia no parecia muito bem. Ela estava tremendo e plida, e parecia ter problemas em se
concentrar em ns. "Quando R... quando ele chamou Sekhmet pela primeira vez para
punir os humanos por eles estarem se rebelando contra ele... Ela saiu do controle."
"Difcil de imaginar," eu sussurrei, enquanto Sekhmet rasgava pelos destroos em
chamas de nosso barco.
"Ela comeou a matar todos," Zia disse, "no apenas os perversos. Nenhum dos outros
deuses conseguia par-la. Ela simplesmente matava o dia todo at que estivesse
empanturrada de sangue. Ento ela ia embora at o dia seguinte. Ento o povo implorou
aos magos para bolarem um plano, e-"
"Vocs se atrevem a esconder-se?" Chamas rugiram enquanto Sekhmet destrua pilha
aps pilha de pimenta desidratada. "Eu os torrarei vivos!"
"Corra agora," Eu decidi. "Conversas depois."
Sadie e eu puxamos Zia entre ns. Ns conseguimos sair do armazm momentos antes
do lugar implodir pelo calor, levantando uma nuvem quente e apimentada em formato
de cogumelo ao cu. Ns corremos por uma rea de estacionamentos lotada com
caminhes e nos escondemos atrs de um bitrem.
Eu espiei, esperando ver Sekhmet sair andando das chamas do armazm. Ao invs, ela
pulou de l na forma de um leo gigante. Seus olhos brilharam, e flutuando sobre sua
cabea estava um disco de fogo como um sol em miniatura.
"O smbolo de R," Zia sussurrou.
Sekhmet rugiu: "Onde esto vocs, minhas fatias deliciosas?" Ela abriu sua mandbula e
soprou uma exploso de ar quente atravs do estacionamento. Onde quer que seu sopro
tocasse, o asfalto derretia, carros desintegravam em areia, e o estacionamento se
transformou em um deserto estril.
"Como ela fez aquilo?" Sadie sibilou.
"Seu hlito cria os desertos," Zia disse. "Essa  a lenda."
"Cada vez melhor." Medo estava fechando minha garganta, mas eu sabia que no
podamos nos esconder por muito tempo mais. Eu conjurei minha espada. "Eu vou
distra-la. Vocs duas correm-"
"No," Zia insistiu. "H outro modo." Ela apontou para uma fileira de reservatrios de
cereais do outro lado do estacionamento. Cada um tinha trs andares de altura e talvez
sete metros de dimetro, com uma pimenta chili gigante pintada de um lado.
"Tanques de petrleo?" Sadie perguntou.
"No," eu disse. "Deve ser salsa, certo?"
Sadie olhou para mim inexpressivamente. "Isso no  um tipo de msica?"
" um molho picante," eu disse. "Isso  o que eles fazem aqui."
Sekhmet soprou em nossa direo, e os trs caminhes prximos a ns derreteram em
areia. Ns escapulimos de lado e pulamos atrs de uma parede de blocos de concreto.
"Escute," Zia arfou, sua face perolada de suor. "Quando o povo precisou parar Sekhmet,
eles pegaram cubas gigantescas de cerveja e as coloriram de vermelho brilhante com
suco de rom."
", eu me lembro agora," eu interrompi. "Eles disseram  Sekhmet que era sangue, e ela
bebeu at desmaiar. Ento R foi capaz de revog-la aos cus. Eles a transformaram em
algo mais gentil. Uma deusa vaca ou algo assim."
"Hathor," Zia disse. "Essa  a outra forma de Sekhmet. O outro lado de sua
personalidade."
Sadie sacudiu sua cabea em descrena. "Ento voc est dizendo que ofereamos
comprar algumas cervejas para Sekhmet, e ela virar uma vaca."
"No exatamente," Zia disse. "Mas salsa  vermelho, no ?"
Ns marginamos os terrenos da fbrica enquanto Sekhmet mastigava caminhes e
explodia grandes faixas do estacionamento em areia.
"Eu odeio esse plano," Sadie resmungou.
"S a mantenha ocupada por alguns segundos," Eu disse. "E no morra."
", essa  a parte difcil, no ?"
"Um..." Eu contei. "Dois... Trs!"
Sadie atirou-se ao espao aberto e usou seu feitio favorito: "Ha-di!"
Os hieroglifos brilharam sob a cabea de Sekhmet:




E tudo a sua volta explodiu. Caminhes desfizeram-se em pedaos. O ar tremeluziu com
energia. O cho elevou-se, criando uma cratera de cinquenta ps de profundidade na
qual a leoa caiu violentamente.
Foi bem impressionante, mas eu no tive tempo para admirar o trabalho de Sadie. Eu
me transformei em um falco e me lancei para os tanques de molho.
"RRAAAARR!" Sekhmet pulou da cratera e soprou vento desrtico na direo de
Sadie, mas Sadie j havia sado a tempos. Ela correu para o lado, agachando-se atrs de
trailers e soltando alguns metros de corda mgica enquanto fugia. As cordas
chicotearam no ar e tentaram amarrar-se em volta da boca da leoa. Elas falharam, 
claro, mas elas conseguiram irritar a Destruidora.
"Mostre-se!" Sekhmet berrou. "Eu banquetearei sua carne!"
Empoleirado em um depsito, eu concentrei todo meu poder e mudei direto de falco
para avatar. Minha forma brilhante era to pesada, que seus ps afundaram no topo do
tanque.
"Sekhmet!" Eu gritei.
A leoa rodopiou e rosnou, tentando localizar minha voz.
"Aqui em cima, gatinha!" Eu chamei.
Ela me viu e suas orelhas foram para trs. "Horus?"
"A no ser que voc conhea outro cara com cabea de falco."
Ela andou para frente e para trs incerta, ento rosnou em desafio. "Porque falas comigo
quando estou em minha forma colrica? Voc sabe que tenho que destruir tudo em meu
caminho, mesmo voc!"
"Se voc tiver," eu disse. "Mas primeiro, voc pode gostar de banquetear o sangue de
seus inimigos!"
Eu dirigi minha espada ao tanque e salsa jorrou em uma grossa cachoeira vermelha. Eu
pulei ao prximo tanque e o cortei. E novamente, e novamente, at que seis tanques de
Molho Mgico estavam vomitando no estacionamento.
"Ha, h!" Sekhmet estava adorando isso. Ela pulou na torrente de molho vermelho,
rolando nela, regozijando-se com aquilo. "Sangue. Sangue adorvel!"
, aparentemente lees no so muito inteligentes, ou suas papilas gustativas no so
muito desenvolvidas, pois Sekhmet no parou at que sua barriga estivesse inchada, e
sua boca literalmente comeou a sair fumaa.
"Picante," ela disse, tropeando e piscando. "Mas meus olhos doem. Que tipo de sangue
 esse? Nbio? Persa?"
"Jalapeo," eu disse. "Experimente um pouco mais. Fica melhor."
Suas orelhas tambm estavam esfumaando agora enquanto ela tentava beber mais.
Seus olhos encheram d'gua, e ela comeou a cambalear.
"Eu..." Vapor ondulou de sua boca. "Quente... boca quente..."
"Leite  bom para isso," eu sugeri. "Talvez se voc fosse uma vaca."
"Truque," Sekhmet roncou. "Voc... voc enganou..."
Mas seus olhos estavam muito pesados. Ela virou em um crculo e desmoronou,
enrolando-se em uma bola. Sua silhueta se contraiu e tremeluziu enquanto sua armadura
vermelha derreteu-se em pontos em sua pele dourada, at que eu estava olhando para
uma enorme vaca adormecida.
Eu desci do tanque e pisei com cautela ao redor da deusa que dormia. Ela estava
fazendo uns sons de vaca dormindo, como "Mu-zzz, mu-zzz." Eu balancei minha mo
na frente de seu rosto, e quando eu estava convencido de que ela estava apagada,
dissipei meu avatar. Sadie e Zia emergiram de trs de um trailer.
"Bem," disse Sadie, "isso foi diferente."
"Eu nunca comerei salsa novamente," eu decidi.
"Vocs dois foram maravilhosos," Zia disse. "Mas seu barco est queimado. Como ns
chegaremos em Phoenix?"
"Ns?" Sadie disse. "Eu no me lembro de te convidar."
O rosto de Zia ficou vermelho como salsa. "Com certeza voc no continua achando
que eu os levei para uma armadilha?"
"Eu no sei," Sadie disse. "Voc fez isso?"
Eu no acreditava que estava ouvindo isso.
"Sadie." Minha voz soou perigosamente irritada, mesmo para mim. "Pare com isso. Zia
conjurou aquela coisa de pilar-de-fogo. Ela sacrificou sua magia para salvar-nos. E ela
ensinou como derrotar a leoa. Ns precisamos dela."
Sadie olhou para mim. Ela olhou para frente e para trs entre Zia e eu, provavelmente
tentando julgar quo longe ela poderia ir.
"timo." Ela cruzou os braos e fez beicinho. "Mas ns temos que encontrar Amos
primeiro."
"No!" Zia disse. "Essa seria uma ideia pssima!"
"Oh, ento ns podemos confiar em voc, mas no em Amos?"
Zia hesitou. Eu tive um sentimento de que isso foi exatamente o que ela quis dizer, mas
ela decidiu tentar uma abordagem diferente. "Amos no gostaria que vocs esperassem.
Ele falou para continuar, no falou? Se ele sobreviveu  Sekhmet, ele nos encontrar na
estrada. Se no..."
Sadie xingou. "Ento como chegaremos em Phoenix? Andando?"
Eu olhei para o estacionamento, onde um bitrem ainda estava intacto. "Talvez no
precisemos." Eu tirei o casaco de linho que peguei emprestado no armrio de Amos.
"Zia, Amos tinha um modo de animar seu casaco para que pudesse pilotar seu barco.
Voc conhece o feitio?"
Ela assentiu. " bem simples com os ingredientes corretos. Eu poderia fazer se eu
tivesse minha magica."
"Voc pode me ensinar?"
Ela franziu os lbios. "A parte mais difcil  a estatueta. Na primeira vez que voc
encanta a roupa, voc precisa esmagar um shabti no tecido e dizer um encantamento
para fundi-los. Isso iria requirir uma estatueta de argila ou cera que j tenha sido
imbuda com um esprito."
Sadie e eu nos olhamos, e dissemos simultaneamente, "Doughboy!"
                                 TRINTA E QUATRO

                      DOUGHBOY NOS D UM RUMO

EU CONVOQUEI A CAIXA DE FERRAMENTAS MGICA DO MEU PAI para fora
do Duat e agarrei nosso pequeno amigo sem pernas.
"Doughboy, ns precisamos conversar."
Doughboy abriu seus olhos de cera. "Finalmente! Voc percebe o quanto  abafado l?
Enfim voc lembrou que precisa de minha brilhante orientao."
"Na verdade precisamos que se torne um casaco. S por um instante."
A boca minscula dele abriu. "Eu pareo um artigo de roupa? Eu sou o lorde de todo o
conhecimento! O poderoso--"
Eu o esmaguei na minha jaqueta, o bati, joguei no pavimento e pisei em cima. "Zia,
qual  aquela mgica?"
Ela me disse as palavras, e eu repeti a cano. O casaco inflou e pairou na minha frente.
Ele se limpou e franziu o colarinho. Se casacos pudessem olhar indignados, este estava.
Sadie olhou de modo suspeito. "Isso pode dirigir um caminho sem ps para o pedais?"
"No deve ser um problema," Zia disse. " um longo casaco."
Eu suspirei com alvio. Por um momento, imaginei-me tendo que animar minhas calas,
tambm. Aquilo poderia ter sido desagradvel.
"Leve-nos at Phoenix," falei ao casaco.
O casaco fez um gesto rude para mim--ou ento, teria sido rude se ele tivesse mos.
Ento ele flutuou no banco do motorista.
O txi era maior do que eu pensava. Atrs do banco tinha uma rea de cortinas com uma
cama full-size, que Sadie afirmou imediatamente.
"Eu vou deixar voc e Zia terem algum tempo de qualidade," ela me disse. "Somente
vocs e o seu casaco."
Ela abaixou-se atrs das cortinas antes que eu pudesse bater nela.
O casaco nos dirigiu a oeste na I-10 quando um banco de nuvens negras engolia as
estrelas. O ar cheirava como chuva.
Depois de um longo tempo, Zia pigarreou. "Carter, me desculpe por... digo, eu queria
que as circunstncias fossem melhores."
"," eu disse. "Eu acho que vai ter muitos problemas com a Casa."
"Eu vou ser afastada," ela disse. "Meu basto quebrou. Meu nome vai ser tirado do
livro. Eu vou ser mantida num asilo, isso se no me matarem antes."
Pensei sobre o pequeno santurio de Zia no Primeiro Nome--todas aquelas fotos da vila
dela e a sua famlia que no lembrava. Enquanto ela falava sobre ser exilada, ela tinha a
mesma expresso que tinha usado: sem desapontamento ou tristeza, mais como
confuso, como se ela no pudesse imaginar porque ela estava revoltando-se, ou o que o
Primeiro Nome foi para ela. Ela tinha dito que Iskandar era como sua nica famlia.
Agora ela no tinha ningum.
"Voc poderia vir conosco," eu disse.
Nos estvamos sentados juntos, e eu estava muito atento ao seu ombro pressionando o
meu. Mesmo com o fedor de pimentas queimadas em ns dois, eu podia sentir seu
perfume egpcio. Ela tinha uma pimenta seca presa no seu cabelo, e de alguma forma
aquilo a fez parecer mais bonita.
Sadie diz que meu crebro era podre. [ srio, Sadie, eu no te interrompo tanto quando
voc est contando a histria.]
De qualquer jeito, Zia olhou para mim triste. "Onde iramos, Carter? Mesmo se voc
derrotasse Set e salvasse esse continente, o que voc far? A Casa vai lhe caar. Os
deuses vo tornar sua vida miservel."
"Ns vamos descobrir," prometi. "Estou acostumado a viajar. Eu sou bom em
improvisar, e Sadie no  to mau."
"Eu ouvi isso!" A voz abafada de Sadie veio das cortinas.
"E com voc," eu continuei, "quero dizer, voc sabe, com sua magia, as coisas podem
ser mais fceis.
Zia apertou minha mo, que causou um formigamento no meu brao. "Voc  gentil,
Carter. Mas voc no me conhece. No mesmo. Eu acho que Iskandar viu isso
acontecer.
"O que voc quer dizer com isso?"
Zia pegou sua mo de volta, o que me chateou um pouco. "Quando Desjardins e eu
voltamos do Museu Britnico, Iskandar me disse em particupar. Ele falou que eu estava
em perigo. Ele disse que acharia um lugar seguro para mim e..." Suas sobrancelhas se
uniram. "Que estranho. Eu no lembro."
Uma sensao fria comeou a me atormentar. "Espere, ele achou algum lugar seguro?"
"Eu...eu acho que sim." Ela sacudiu a cabea. "No, ele no poderia, obviamente. Eu
ainda estou aqui. Talvez ele no teve tempo. Ele me mandou para lhe achar em Nova
York quase que imediatamente."
L fora, uma leve chuva comeou a cair. O casaco ligou os limpadores de vidro.
Eu no entendi o que Zia me disse. Talvez Iskandar percebesse uma mudana em
Desjardins, e tentou proteger seu estudante favorito. Mas algo mais sobre aquela
histria me incomodou--algo que no podia meter o dedo.
Zia estava olhando para a tempestade como se visse algo estranho l fora.
"Estamos correndo contra o tempo," ela disse. "Ele est voltando."
"Quem est voltando?"
Ela olhou para mim urgentemente. "O que eu precisava te contar--o que voc precisa. 
o nome secreto de Set."
A tempestade aumentou. Um trovo ribombou e o caminho tremeu no vento.
"E-esquea," eu gaguejei. "Como voc sabe o nome de Set? Como voc descobriu que
precisvamos disso?"
"Voc roubou o livro de Desjardins. Desjardins nos contou sobre isso. Ele disse que no
importava. Ele disse que voc no poderia fazer o feitio sem o nome secreto de Set, o
que  impossvel de conseguir."
"Ento como voc sabe? Thoth disse que s poderia vir de Set, ou da pessoa..." Minha
voz morreu quando um terrvel pensamento me ocorreu. "Ou da pessoa mais prxima
dele."
Zia fechou os olhos como se doesse. "Eu--eu no posso explicar, Carter. Eu tenho essa
voz me contando o nome--"
"A quinta deusa," eu disse, "Nftis. Voc estava l tambm no Museu Britnico."
Zia ficou atordoada. "No.  impossvel."
"Iskandar disse que voc estava em perigo. Ele quis encontrar para voc algum lugar
seguro.  o que ele quis dizer. Voc  uma deusa menor."
Ela sacudiu a cabea abstinadamente. "Mas ele no me levou. Eu estou bem aqui. Se eu
estivesse hospedando um deus, os outros magos da Casa j teriam descoberto dias atrs.
Eles me conhecem muito bem. Eles perceberiam as mudanas na minha magia.
Desjardins teria me destrudo."
Ela tinha um ponto--mas a outro pensamento horrvel me ocorreu. "A no ser que Set
esteja controlando ele," eu disse.
"Carter, voc  mesmo to cego? Desjardins no  Set."
"Porque voc acha que  Amos," eu disse. "Amos que arriscou sua vida para nos salvar,
quem nos disse para ir sem ele. Alm disso, Set no precisa de uma forma humana. Ele
est usando a pirmide.
"Que voc sabe por que...?"
Eu hesitei. "Amos nos contou."
"Isso no nos leva a lugar nenhum," Zia disse. "Eu sei o nome secreto de Set, e eu posso
te contar. Mas voc precisa prometer que voc no vai dizer a Amos.
"Ah, vamos l! Alm disso, se voc sabe o nome, por que voc mesma no usa?
Ela balanou a cabea, parecendo frustrada. "Eu no sei o por qu...eu s sei que esse
no sou eu quem deve fazer isso. Precisa ser voc ou Sadie--sangue dos faras. Se voc
no--"
O caminho diminuiu a velocidade abruptamente. Atrs do para-brisa frontal, a cerca de
vinte metros de distncia, um homem com um casaco azul estava na direo dos nosso
faris. Suas roupas estavam esfarrapadas como se tivesse sido pulverizado com uma
espingarda, mas por outro lado, ele parecia bem. Antes do caminho parar por
completo, eu pulei para fora do txi e corri para encontr-lo.
"Amos!" Eu chorei. "O que aconteceu?"
"Eu distra Sekhmet," ele disse, colocando o dedo em um dos buracos do casaco. "Por
onze segundos. Estou feliz por ver que voc sobreviveu."
"Havia um fbrica de salsa," eu comecei a explicar, mas Amos levantou sua mo.
"Hora para explicaes depois," ele disse. "Agora precisamos continuar andando."
Ele apontou para o noroeste, e eu vi o que ele queria. A tempestade foi a pior na
frente. Muito pior. Uma parede preta apagou o cu, as montanhas, a estrada, como se
fosse engolir todo o mundo.
"A tempestade de Set est se recolhendo," Amos disse com um brilho nos olhos.
"Vamos dirigir para ele?"
                                  TRINTA E CINCO

      HOMENS PEDEM INFORMAES (E OUTROS SINAIS DO
                      APOCALYPSE)

EU NO SEI COMO EU CONSEGUI com Carter e Zia tagarelando, mas eu dormi um
pouco nos fundos do caminho. Mesmo depois do entusiasmo de ver Amos vivo, assim
que voltamos  estrada eu voltei ao beliche e apaguei. Suponho que um bom feitio ha-
di pode realmente te exaurir.
Naturalmente, meu ba tomou isso como uma oportunidade para viajar. O cu probe que
eu descanse em paz.
Eu me encontrei de volta em Londres, s margens do Thames. A Agulha de Clepatra
surgiu  minha frente. Era um dia cinza, frio e calmo, e at o cheiro da sujeira que
aparecia com a baixa do rio (low-tide muck. No encontrei traduo "pequena" para
isso) me causou nostalgia.
sis ficou ao meu lado usando um vestido branco como nuvem, seus cabelos negros
tranados com diamantes. Suas asas multicoloridas apareciam e desapareciam atrs dela
como a Aurora Boreal.
"Seus pais tiveram a ideia certa," ela disse. "Bast estava falhando."
"Ela era minha amiga," eu disse.
"Sim. Uma serva boa e leal. Mas o caos no pode ser contido para sempre. Ele cresce.
Se infiltra nas rachaduras da civilizao, quebra-lhe as bordas. Ele no pode ser mantido
em balano. Essa  simplesmente sua natureza."
O obelisco estrondou, brilhando fracamente.
"Hoje  o continente americano," sis devaneou. "Mas a no ser que os deuses se unam,
a no ser que alcancemos nossa fora total, o caos logo ir destruir todo o mundo
humano."
"Ns estamos dando nosso melhor," insisti. "Derrotaremos Set."
Isis olhou para mim com tristeza. "Voc sabe que no  isso o que quero dizer. Set 
apenas o comeo."
A imagem mudou, e eu vi Londres em runas. Eu havia visto algumas fotos horrveis da
Blitz (ataque relmpago que a Alemanha executou sobre o Reino Unido) na
Segunda Guerra Mundial, mas no era nada comparado a isso. A cidade estava
nivelada: pedregulhos e poeira por milhas, o Thames engasgado com destroos. A nica
coisa em p era o obelisco, e enquanto eu olhava ele comeou a rachar, todos os quatro
lados descamando como uma flor sinistra desabrochando.
"No me mostre isso," supliquei.
"Isso acontecer cedo o bastante," sis disse, "como sua me previu. Mas se voc no
consegue aguentar isso..."
A cena mudou novamente. Ns estvamos na sala do trono de um palcio  o mesmo
que eu vi antes, onde Set prendeu Osris em sua tumba. Os deuses estavam reunindo,
materializando como feixes de luz que atiravam-se pela sala do trono, enrolavam ao
redor dos pilares, e adquiriam forma humana. Um se tornou Toth com seu jaleco
manchado, seus culos de aro de metal, e seus cabelos arrepiados por toda a cabea.
Outro tornou-se Horus, o jovem guerreiro orgulhoso com olhos prateados e dourados.
Sobek, o deus crocodilo, agarrou seu basto aquoso e rosnou para mim. Uma multido
de escorpies foram sorrateiramente para trs de uma coluna e emergiram do outro lado
como Serqet, a deusa aracndea de vestes marrons. Ento meu corao deu um salto,
pois notei um garoto de preto em p atrs do trono: Anbis, seus olhos escuros me
estudando com pesar.
Ele apontou ao trono, e eu vi que estava vazio. O palcio estava sem seu corao. A sala
estava fria e escura, e era impossvel acreditar que este havia sido antes um local de
celebrao.
sis virou para mim. "Ns precisamos de um governante. Horus deve se tornar fara.
Ns devemos unir os deuses e a Casa da Vida.  o nico modo."
"Voc no pode estar se referindo ao Carter," eu disse. "Meu irmo atrapalhado  fara?
Voc est brincando?"
"Ns temos que ajud-lo. Voc e eu."
A ideia era to ridcula que eu teria gargalhado se os deuses no estivessem me olhando
de modo to sombrio.
"Ajud-lo?" Eu disse. "Porque ele no me ajuda a me tornar fara?"
"Houve fortes mulheres faras," sis admitiu. "Hatshepsut governou bem por vrios
anos. O poder de Nefertiti era equivalente ao de seu marido. Mas voc possui um
caminho diferente, Sadie. Seu poder no vir de sentar em um trono. Eu acho que voc
sabe disso."
Eu olhei para o trono, e percebi que sis tinha razo. A ideia de sentar ali com uma
coroa na minha cabea, tentando comandar esse monte de deuses mal humorados, no
me atraia nem um pouco. Mas mesmo assim... Carter?
"Voc ficou forte, Sadie," sis disse. "Eu no creio que voc tenha percebido quo forte.
Logo ns iremos encarar o teste juntas. Ns prevaleceremos, se voc mantiver sua
coragem e f."
"Coragem e f," eu disse. "No so meus fortes."
"Seu momento chega," sis disse. "Ns dependemos de voc."
Os deuses reuniram-se ao redor, me encarando com expectativa. Eles comearam a
amontoar, comprimindo to prximo que eu no podia respirar, agarrando meus braos,
me sacudindo...
Eu acordei para encontrar Zia cutucando meu ombro. "Sadie, ns paramos."
Eu instintivamente alcancei minha varinha. "O que? Onde?"
Zia afastou a cortina da beliche e curvou-se sobre mim do assento da frente,
irritantemente como um abutre (acho que boiei nessa parte). "Amos e Carter esto no
posto de gasolina. Voc tem que estar preparada para ir."
"Porque?" Eu me sentei e olhei pelo para-brisas, diretamente para uma tempestade de
areia. "Oh..."
O cu estava negro, ento era impossvel dizer se era dia ou noite. Atravs do temporal
de vento e areia, eu podia ver que estvamos estacionados na frente de um posto de
gasolina iluminado.
"Estamos em Phoenix," Zia disse, "mas a maior parte da cidade est fechada. As
pessoas esto evacuando."
"Horas?"
"Quatro e meia da manh," Zia disse. "Magia no est funcionando muito bem. Quanto
mais nos aproximamos da montanha, pior fica. E o sistema GPS do caminho est
parado. Amos e Carter entraram para pedir informaes."
Aquilo no soou promissor. Se dois magos homens estavam desesperados o suficiente
para parar e pedir informaes, estvamos em uma situao complicada.
A cabine do caminho sacudiu com o vento urrante. Depois de tudo que passamos, eu
me senti estpida por ter medo de uma tempestade, mas eu escalei o assento e me sentei
ao lado de Zia para ter alguma companhia.
"H quanto tempo eles esto a?" perguntei.
"No muito," Zia disse. "Eu quis conversar com voc antes deles chegarem."
Eu levantei uma sobrancelha. "Sobre Carter? Bem, se voc se pergunta se ele gosta de
voc, o modo que ele gagueja pode ser uma indicao."
Zia franziu o cenho. "No, eu estou-"
"Perguntando se eu me importo? Muito atencioso. Eu devo dizer que antes eu tinha
minhas dvidas, como voc ameaando nos matar e tudo, mas eu decidi que voc no 
um tipo ruim, e Carter  louco por voc, ento -"
"No  sobre o Carter."
Eu enruguei meu nariz. "Ops. Voc poderia esquecer o que eu disse ento?"
" sobre Set."
"Meu Deus," eu suspirei. "Isso novamente no. Ainda suspeita de Amos?"
"Voc  cega para no ver," Zia disse. "Set adora fraudes e armadilhas.  seu modo
favorito de matar."
Parte de mim sabia que ela tinha razo. Sem dvidas voc pensar que eu era uma tola
por no escutar. Mas voc j ficou sentado enquanto algum falava mal de um membro
da sua famlia? Mesmo que no seja seu parente favorito, a reao natural  defend-los
 pelo menos foi para mim, possivelmente porque, para comear, eu no tinha tanta
famlia. "Olhe, Zia, eu no acredito que Amos iria-"
"Amos no," Zia concordou. "Mas Set pode dobrar a mente e controlar o corpo. Eu no
sou especialista em possesso, mas esse era um problema muito comum nos tempos
antigos. Demnios menores so difceis o suficiente para expulsar. Um deus maior-"
"Ele no est possudo. Ele no pode estar." Eu estremeci. Uma dor afiada estava
queimando a palma da minha mo, no ponto em que eu segurei a Pena da Verdade pela
ltima vez. Mas eu no estava dizendo uma mentira! Eu realmente acreditava que Amos
era inocente. No acreditava?
Zia estudou minha expresso. "Voc precisa de Amos para ficar bem. Ele  seu tio.
Voc perdeu muitos membros da sua famlia. Eu intendo isso."
Eu quis retrucar que ela no intendia nada, mas seu tom me fez desconfiar que ela
conhecera o pesar  possivelmente mais do que eu.
"Ns no temos escolha," eu disse. "Tem o qu, trs horas at o nascer do sol? Amos
conhece o melhor caminho para a montanha. Armadilha ou no, ns temos que ir at l
e tentar parar o Set."
Eu quase podia ver as engrenagens girando em sua cabea enquanto ela procurava um
modo, qualquer modo de me convencer.
"Tudo bem," ela disse afinal. "Eu quis contar algo para o Carter mas nunca tive a
oportunidade. Eu te contarei, ao invs. A ltima coisa que vocs precisam para parar
Set-"
"Voc no poderia saber o nome secreto dele."
Zia segurou meu olhar. Talvez fosse a Pena da Verdade, mas eu tinha certeza de que ela
no estava blefando. Ela realmente tinha o nome de Set. Ou pelo menos, ela acreditava
nisso.
E honestamente, eu entreouvi partes de sua conversa com Carter enquanto eu estava nos
fundos da cabine. Eu no quis me meter, mas foi difcil no faz-lo. Eu olhei para Zia, e
tentei acreditar que ela estava hospedando Nftis, mas no fez nenhum sentido. Eu
conversei com Nftis. Ela me disse que estava longe em um tipo de hospedeiro
adormecido. E Zia estava bem aqui na minha frente.
"Ir funcionar," Zia insistiu. "Mas eu no posso fazer isso. Deve ser voc."
"Porque no usar voc mesma?" Eu exigi. "Porque voc gastou toda sua magia?"
Ela afastou a pergunta. "S prometa que voc usar agora, no Amos, antes de
chegarmos  montanha. Pode ser sua nica chance."
"E se voc estiver errada, ns gastaremos a nica chance que temos. O livro desaparece
depois de usado, certo?"
Zia assentiu de m vontade. "Uma vez lido, o livro dissolver e reaparecer em algum
outro lugar do mundo. Mas se voc esperar mais, estamos condenados. Se Set atra-los
para a base de seu poder, vocs nunca tero a fora para confront-lo. Sadie, por favor-"
"Diga-me o nome," eu disse. "Eu prometo que o usarei na hora certa."
"Agora  a hora certa."
Eu hesitei, esperando que sis fosse deixar algumas palavras de sabedoria, mas a deusa
estava em silncio. Eu no sei se eu teria abrandado. Talvez as coisas seriam diferentes
se eu houvesse concordado com o plano de Zia. Mas antes que eu pudesse fazer essa
escolha, a porta do caminho abriu, e Amos e Carter subiram com uma rajada de areia.
"Estamos prximos." Amos sorriu como se fossem boas notcias. "Muito, muito
prximos."
                                   TRINTA E SEIS

                     NOSSA FAMLIA  VAPORIZADA

MENOS DE UM QUILMETRO DA Montanha Camelback, ns entramos
abruptamente em um crculo de perfeita calma.
"Olho da tempestade," Carter sups.
Era estranho. Por toda a montanha um cilindro de nuvens negras rodopiava. Traos de
fumaa se espalhavam de todos os lados do pico da Camelback para as bordas do
redemoinho como os raios de uma roda, mas diretamente acima de ns, o cu estava
limpo e estrelado, comeando a se tornar cinza. O nascer do sol no estava muito longe.
As ruas estavam vazias. Manses e hotis estavam aglomerados ao redor da base da
montanha, completamente escuros, mas a montanha brilhava por ela mesma. Voc j
colocou sua mo sobre a luz de uma lamparina (desculpe, uma lanterna para vocs
americanos) e viu a sua mo brilhar vermelha? Era assim que a montanha parecia: algo
muito brilhante e quente estava tentando queimar para fora da rocha.
"Nada se movendo nas ruas," disse Zia. "Se ns tentarmos dirigir para a montanha-"
"Ns seremos vistos," eu disse.
"E aquele feitio?" Carter olhou para Zia. "Voc sabe... o que voc usou no Primeiro
Nome."
"Que feitio?" eu perguntei.
Zia balanou a cabea. "Carter est se referindo a um feitio de invisibilidade. Mas eu
no tenho magia. E a menos que voc tenha os ingredientes prprios, no pode ser feito
por capricho."
"Amos?" eu perguntei.
Ele ponderou no assunto. "Sem invisibilidade, eu temo. Mas eu tenho outra idia."
Eu pensei que nos transformar em pssaros era ruim, at que Amos nos tornou em
nuvens de tempestade.
Ele nos explicou o que ia fazer antecipadamente, mas isso no me fez nem um pouco
menos nervosa.
"Ningum vai notar alguns punhados de nuvens negras no meio de uma tempestade,"
ele argumentou.
"Mas isso  impossvel," disse Zia. "Isso  magia da tempestade, magia do caos. Ns
no devamos-"
Amos levantou sua varinha, e Zia se desintegrou.
"No!" gritou Carter, mas ento ele tambm se fora, substitudo por uma espiral de
poeira negra.
Amos se virou para mim.
"Oh, no," eu disse. "Obrigada, mas-"
Poof. Eu era uma nuvem de tempestade. Agora, isso pode soar incrvel pra voc, mas
imagine suas mos e ps desaparecendo, se transformando em punhados de vento.
Imagine seu corpo substitudo por poeira e vapor, e tendo um formigamento no
estmago sem nem mesmo ter um estmago. Imagine ter que se concentrar apenas para
no se dispersar at o nada.
Eu fiquei com muita raiva, e um claro de relmpago crepitou dentro de mim.
"No fique assim," Amos repreendeu. " apenas por alguns minutos. Sigam-me."
Ele se dissolveu em um pedao de tempestade mais pesado e negro e correu em direo
 montanha. Segui-lo no era fcil. Primeiramente eu s conseguia flutuar. Qualquer
vento ameaava levar uma parte de mim. Eu tentei rodopiar e descobri que isso me
ajudava a manter minhas partculas juntas. Ento eu me imaginei recheada de hlio, e de
repente eu tinha ido.
Eu no tinha certeza se Carter e Zia estavam seguindo ou no. Quando voc  uma
tempestade, sua viso no  humana. Eu podia vagamente sentir o que estava  minha
volta, mas o que eu "via" era disperso e difuso, como se fosse sob muita esttica.
Eu me dirigi  montanha, que era um farol quase irresistvel para o meu ser tempestade.
Reluzia com calor, presso, e turbulncia - tudo que um pequeno demnio de poeira
como eu poderia querer.
Eu segui Amos at uma cordilheira do lado da montanha, mas eu voltei  forma humana
um pouco cedo demais. Eu tombei do cu e derrubei Carter no cho.
"Ouch," ele grunhiu.
"Desculpe," eu respondi, apesar de estar me concentrando mais em no passar mal. Meu
estmago ainda se comportava como uma nuvem de tempestade.
Zia e Amos estavam ao nosso lado, espreitando uma fenda entre duas grandes pedras de
arenito. Luz vermelha passava por ela e fazia com que seus rostos parecessem
demonacos.
Zia virou-se para ns. Julgando por sua expresso, o que ela vira no era bom. "Falta
apenas o piramidion."
"O o qu?" eu olhei pela fenda, e a vista era quase to desorientadora quanto ser uma
nuvem de tempestade. A montanha inteira estava escavada, exatamente como Carter
tinha dito. O cho da caverna estava a seiscentos metros abaixo de ns. Fogo ardia em
todo lugar, banhando as paredes de pedra com uma luz cor de sangue. Uma pirmide
carmesim gigante dominava a caverna, e em sua base, multides de demnios
vagueavam como a platia de um concerto de rock esperando o show comear. Bem
acima deles, no nosso nvel de viso, duas barcas mgicas tripuladas por hordas de
demnios flutuavam lenta, cerimoniosamente em direo  pirmide. Suspensa por uma
rede de cordas entre os barcos estava a nica parte da pirmide ainda no instalada -
uma pequena pirmide dourada para encimar a estrutura.
"Eles sabem que venceram," Carter conjecturou. "Esto fazendo disso um show."
"Sim," disse Amos.
"Bem, vamos explodir os barcos ou algo do tipo!" eu disse.
Amos olhou para mim. " essa a sua estratgia, honestamente?"
Seu tom fez com que eu me sentisse completamente estpida. Olhando para o exrcito
de demnios, a pirmide enorme... em que eu estava pensando? Eu no podia enfrentar
isso. Eu era uma garota com s doze anos.
"Ns temos que tentar," disse Carter. "Papai est l."
Aquilo me tirou da minha pena de mim mesma. Se ns iramos morrer, pelo menos
faramos isso tentando resgatar meu pai (oh, e a Amrica do Norte, tambm, eu acho).
"Certo," eu disse. "Ns voaremos at esses barcos. Ns impediremos que coloquem a
pequena pirmide-"
"Piramidion," Zia corrigiu.
"Tanto faz. Ento voaremos para dentro da pirmide e encontraremos Papai."
"E se Set tentar te parar?" Amos perguntou.
Eu olhei para Zia, que estava silenciosamente me avisando para no dizer mais nada.
"Coisas mais importantes primeiro," eu disse. "Como ns vamos voar at os barcos?"
"Como uma tempestade," Amos sugeriu.
"No!" o resto de ns respondeu.
"Eu no farei parte de mais magia do caos," Zia insistiu. "No  natural."
Amos acenou para o espetculo abaixo de ns. "Me diga se isso  natural. Voc tem
outro plano?"
"Pssaros," eu disse, me odiando por apenas considerar a idia. "Eu vou me tornar uma
pipa. Carter pode ser um falco."
"Sadie," Carter avisou," e se-"
"Eu tenho que tentar." Eu desviei o olhar antes que pudesse perder a resoluo. "Zia, faz
quase dez horas desde seu pilar de fogo, no ? Ainda sem mgica?"
Zia estendeu a mo e se concentrou. Primeiramente, nada aconteceu. E ento luz
vermelha chicoteou levemente por seus dedos, e seu basto apareceu em sua mo, ainda
fumegando.
"Bom timing," disse Carter.
"E tambm um timing ruim," Amos observou. "Isso significa que Desjardins no est
mais sendo perseguido pelo pilar de fogo. Ele logo estar aqui, e eu tenho certeza que
trar reforos. Mais inimigos para ns."
"Minha mgica ainda est fraca," Zia avisou. "Eu no vou ser de muita ajuda em uma
luta, mas eu posso dar um jeito de convocar uma carona." Ela mostrou o pingente de
abutre que ela usara em Luxor.
"O que me alivia," disse Amos. "Sem preocupaes nesse sentido. Vamos para o barco
esquerdo. Ns vamos tir-lo, e ento tratar do da direita. E vamos esperar por surpresa."
Eu no estava no estado de esprito de deixar Amos traar nossos planos, mas eu no
consegui achar nenhum defeito em sua lgica. "Certo. Ns temos que acabar com os
barcos rapidamente, e ento ir para a pirmide. Talvez possamos vedar a entrada ou algo
assim."
Carter concordou com a cabea. "Pronto."
Primeiramente, o plano pareceu correr bem. Me transformar em uma pipa no foi
problema, e para minha surpresa, uma vez que eu alcancei a proa da embarcao,
consegui me tornar em humana novamente na primeira tentativa, com meu basto e
varinha prontos. A nica pessoa mais surpresa era o demnio bem  minha frente, cuja
cabea de canivete levantou-se em alarme.
Antes que ele pudesse me fatiar ou mesmo gritar, eu convoquei vento do meu basto e o
atirei do lado do barco. Dois de seus irmos investiram, mas Carter apareceu atrs deles,
espada desembainhada, e os cortou em pilhas de areia.
Infelizmente, Zia foi um pouco menos furtiva. Um abutre gigante com uma garota
pendurada em suas patas tende a atrair ateno. Enquanto ela voava em direo do
barco, demnios abaixo dela apontavam e gritavam. Alguns atiraram lanas que caram
no longe deles.
A grande entrada de Zia conseguiu distrair os dois demnios remanescentes em nosso
barco, de qualquer forma, o que permitiu que Amos aparecesse atrs deles. Ele tomara a
forma de um morcego, o que me trouxe ms lembranas; mas ele rapidamente tomou a
forma humana e empurrou os demnios, lanando-os no ar.
"Segurem firme!" ele nos disse. Zia aterrissou bem a tempo de pegar a cana do leme.
Carter e eu agarramos os lados do barco. Eu no tenho idia do que Amos estava
planejando, mas depois da minha ltima viagem de barco voador, eu no estava me
arriscando. Amos comeou a entoar um cntico, apontando seu basto para o outro
barco, onde os demnios estavam apenas comeando a gritar e apontar para ns.
Um deles era alto e muito magro, com olhos pretos e um rosto nojento, como msculo
com a pele descamada.
"Aquele  o tenente de Set," Carter informou. "Face do Horror."
"Voc!" o demnio gritou. "Pegue eles!"
Amos terminou o feitio. "Fumaa," ele entoou.
Instantaneamente, o segundo barco evaporou-se em nvoa cinza. Os demnios caram
gritando. A pequena pirmide dourada despencou at que as linhas que a ligavam a ns
se tornaram tensas, e nosso barco quase virou. Inclinado para o lado, ns comeamos a
afundar em direo ao cho da caverna.
"Carter, corte as linhas!" eu gritei.
Ele as cortou com sua espada, e o barco nivelou, subindo vrios metros em um instante
e deixando meu estmago para trs.
O piramidion atingiu o cho da caverna com muito moer e esmagar. Eu tive a sensao
de que ns tnhamos feito uma tima pilha de panquecas de demnios.
"At agora tudo timo," Carter observou, mas como sempre, ele falou cedo demais.
Zia apontou para baixo. "Olhem."
Todos os demnios que tinham asas - uma porcentagem pequena, mas ainda assim uns
bons quarenta ou cinqenta - tinham decolado em nossa direo, enchendo o ar como
um enxame de vespas furiosas.
"Voem para a pirmide," disse Amos. "Eu vou distrair esses demnios."
A entrada da pirmide, uma simples passagem entre duas colunas na base da estrutura,
no estava longe de ns. Era guardada por alguns demnios, mas a maioria das foras
de Set estava correndo para o barco, gritando e atirando rochas (que tendiam a cair de
volta e atingi-los, mas ningum disse que demnios eram brilhantes).
"Eles so muitos," eu argumentei. "Amos, eles vo mat-lo."
"No se preocupe comigo," ele disse severamente. "Selem a entrada atrs de vocs."
Ele me empurrou pelo lado, no me dando outra escolha alm de me transformar em
uma pipa. Carter em sua forma de falco j estava voando em espirais em direo 
entrada, e eu podia ouvir o abutre de Zia batendo suas enormes asas atrs de ns.
Eu ouvi Amos gritar, "Para o Brooklyn!"
Era um grito de guerra estranho. Eu olhei para trs, e o barco irrompeu em chamas.
Comeou a flutuar para longe da pirmide e para baixo em direo ao exrcito de
monstros. Bolas de fogo foram atiradas do barco em todas as direes enquanto pedaos
do casco se fragmentavam. Eu no tive tempo de admirar a magia de Amos ou me
preocupar com o que tinha acontecido com ele. Ele distraiu vrios demnios com suas
pirotecnias, mas alguns nos notaram.
Carter e eu aterrissamos dentro da entrada da pirmide e retornamos  forma humana.
Zia caiu perto de ns e transformou seu abutre em um amuleto novamente. Os demnios
estavam apenas alguns passos atrs - uma dzia de sujeitos compactos com cabeas de
insetos, drages, e diversos acessrios de canivetes suos,
Carter impeliu sua mo. Uma mo gigante e trmula apareceu e imitou seus
movimentos - empurrando bem no meio de Zia e eu e fechando as portas. Carter fechou
seus olhos em concentrao, e um smbolo dourado ardente gravou as portas como um
selo: o Olho de Horus. As linhas reluziram fracamente enquanto demnios atingiam a
barreira, tentando entrar.
"Isso no vai segur-los por muito tempo," Carter disse.
Eu estava devidamente impressionada, apesar de obviamente no ter dito isso. Olhando
para as portas seladas, tudo em que pude pensar foi Amos, l fora em um barco em
chamas, rodeado por um exrcito do mal.
"Amos sabia o que estava fazendo," Carter disse, apesar de ele no ter soado muito
convincente. "Ele provavelmente est bem."
"Venham," Zia nos apressou. "No h tempo pra adivinhaes."
O tnel era estreito, vermelho, e mido, ento eu me senti como se estivesse rastejando
pela artria de alguma besta enorme. Ns fizemos o caminho em fila indiana, at que o
tnel se inclinou at cerca de quarenta graus - o que teria feito um adorvel tobog mas
no era muito bom para se andar cuidadosamente. As paredes estavam decoradas com
gravuras complicadas, como a maioria das paredes egpcias que ns tnhamos visto, mas
Carter obviamente no gostou delas. Ele ficava parando, franzindo as sobrancelhas para
as figuras.
"O qu?" eu perguntei, depois da quinta ou sexta vez.
"Esses no so desenhos normais de tumbas," ele disse. "Sem figuras da vida aps a
morte, sem figuras dos deuses."
Zia concordou. "Essa pirmide no  uma tumba.  uma plataforma, um corpo para
conter o poder de Set. Todas essas figuras so para reforar o caos, e faz-lo reinar para
sempre."
Enquanto andvamos, eu prestei mais ateno s gravuras, e vi o que Zia quis dizer. As
figuras mostravam monstros horrveis, cenas de guerra, cidades como Paris e Londres
em chamas, retratos coloridos de Set e seu animal despedaando exrcitos modernos -
cenas to terrveis, que nenhum egpcio jamais poderia colocar sobre a pedra. Quanto
mais andvamos, mais estranhas e realistas as figuras se tornavam, e mais enjoada eu
me sentia.
Finalmente ns chegamos ao corao da pirmide.
Onde deveria estar a cmara morturia em uma pirmide normal, Set havia designado
uma sala do trono para si mesmo. Era do mais ou menos do tamanho de uma quadra de
tnis, mas nas bordas, o cho caa em uma vala profunda como um fosso. Longe, bem
longe, lquido vermelho borbulhava. Sangue? Lava? Ketchup do Mal? Nenhuma das
possibilidades era boa.
A vala parecia fcil de pular, mas eu no estava ansiosa para isso porque dentro do
cmodo, o cho inteiro estava gravado com hierglifos vermelhos - todos feitios
invocando o poder de Isfet, caos. Bem acima no centro do teto, um buraco em forma de
quadrado deixava luz vermelha como sangue entrar. Alm disso, no parecia haver
outras sadas. Ao longo de cada parede estavam agachadas quatro esttuas de obsidiana
do animal de Set, suas faces viradas para ns com dentes de prola descobertos e
reluzentes olhos de esmeralda.
Mas a pior parte era o trono por si prprio. Era uma horrvel coisa disforme, como uma
estalagmite vermelha que tivesse crescido atropeladamente por sculos de pingos de
sedimentos. E ela havia se formado ao redor de um caixo dourado - o caixo de Papai -
que estava enterrado na base do trono, com apenas o suficiente exposto para formar uma
espcie de apoio para ps.
"Como ns tiramos ele de l?" eu disse, minha voz tremendo.
Perto de mim, Carter segurou a respirao. "Amos?"
Eu segui seu olhar para a abertura reluzindo em vermelho no meio do teto. Um par de
pernas balanava-se da abertura. E ento Amos caiu de l, abrindo seu manto como um
pra-quedas fazendo com que ele flutuasse at o cho. Suas roupas ainda fumegavam,
seu cabelo sujo com cinzas. Ele apontou o basto para o teto e disse um comando. A
haste que ele segurava ribombou, derrubando poeira e destroos, e a luz foi
abruptamente interrompida.
Amos espanou suas roupas e sorriu para ns. "Isso deve segur-los por algum tempo."
"Como voc fez aquilo?" eu perguntei.
Ele acenou para que nos juntssemos a ele na sala.
Carter pulou a vala sem hesitao. Eu no gostei, mas eu no ia deix-lo ir sem mim,
ento eu saltei a vala tambm. Imediatamente eu me senti ainda mais enjoada do que
antes, como se a sala estivesse se inclinando, jogando meus sentidos para fora do
equilbrio.
Zia veio por ltimo, observando Amos cuidadosamente.
"Voc no devia estar vivo," ela disse.
Amos riu alto. "Oh, eu j ouvi essa antes. Agora, vamos aos negcios."
"Sim," eu olhei para o trono. "Como ns tiramos o caixo?"
"Cortando?" Carter desembainhou sua espada, mas Amos segurou sua mo.
"No, crianas. Esse no  o negcio de que eu estava falando. Eu me certifiquei de que
ningum v nos interromper. Agora  hora de que conversamos."
Um arrepio gelado percorreu minha espinha. "Conversamos?"
De repente Amos caiu sobre seus joelhos e comeou a convulsionar. Eu corri em sua
direo, mas ele olhou para mim, seu rosto atormentado pela dor. Seus olhos fundidos
em vermelho.
"Corra!" ele grunhiu.
Ele caiu, e vapor vermelho brotou de seu corpo.
"Ns temos que ir!" Zia agarrou meu brao. "Agora!"
Mas eu assisti, congelada pelo horror, o vapor se levantar da forma inconsciente de
Amos e se espalhar em direo ao trono, lentamente tomando a forma de um homem
sentado - um guerreiro vermelho em uma armadura ardente, com um basto de ferro em
sua mo e a cabea de um monstro canino.
"Oh, querida," Set gargalhou. "Eu suponho que Zia v dizer `Eu te avisei.'"
                                   TRINTA E SETE

                   LEROY CONSEGUE SUA VINGANA
TALVEZ EU SEJA UM APRENDIZ LENTO, OK?
Porque no foi ainda naquele momento, fitando o deus Set no meio da sala do trono, no
corao de uma pirmide maldita, com um exrcito de demnios do lado de fora e o
mundo prestes a explodir, que eu pensei, Vir aqui foi realmente uma m ideia.
Set levantou-se do trono. Ele estava com pele vermelha e musculosa, com armadura
ardente e um basto de ferro obscuro. Sua cabea se alterava de besta a humana. Um
momento ele teve o olhar faminto e as mandbulas babadas do meu antigo amigo Leroy,
o monstro do aeroporto de D.C. Depois ele estava com cabelo arenoso e uma cara
bonita porm severa, com olhos inteligentes que brilhavam com humor e um cruel e
torto sorriso. Ele empurrou nosso tio do caminho e Amos gemeu, que pelo menos
significava que ele estava vivo.
Apertei minha espada mais firme, a lmina tremulou.
"Zia estava certa," eu disse. "Voc possuiu Amos."
Set estendeu os braos, tentando parecer modesto. "Bem, voc sabe... No foi uma
posse completa. Deuses podem existir em vrios lugares de vez, Carter. Hrus poderia
contar para voc se ele estivesse sendo honesto. Tenho certeza de que Hrus est
querendo algum monumento de guerra bonito para ocupar, ou uma academia militar em
algum lugar -- qualquer coisa sem ser aquela sua pequena forma magricela. A maioria
do meu ser se transferiu para essa maravilhosa estrutura."
Ele estendeu os braos orgulhosamente em torno da sala do trono. "Mas uma lasca da
minha alma foi o suficiente para controlar Amos Kane."
Ele estendeu seu rosado, e uma concentrao de fumaa vermelho serpenteou para
Amos, afundando nas suas roupas. Amos segurou as costas como se tivesse sido
atingido por um raio.
"Pare!" Gritei.
Corri at Amos, mas a nvoa vermelha j havia se dissipado. O corpo do nosso tio ficou
sem fora.
Set desceu o brao como se estivesse chateado com o ataque. "No resta muito, estou
com medo. Amos lutou bem. Ele foi muito divertido, demandando muito mais da minha
energia do que esperei. Essa magia do caos -- foi ideia dele. Ele deu o melhor para te
avisar, para tornar bvio que eu estava controlando-o. A coisa engraada , eu forcei-o a
usar a prpria reserva de magia para ceder aqueles feitios. Ele quase queimou a alma
tentando lhe mandar aquelas labaredas de aviso. Transform-lo em neve? Por favor.
Quem mais faz isso?"
"Voc  uma besta!" Sadie gritou.
Set arfou em falsa surpresa. "Srio? Eu?"
Ento ele rugiu com um riso enquanto Sadie tentava arrastar Amos para fora dos danos.
"Amos estava em Londres essa noite," eu disse, esperando que ele mantesse a ateno
em mim. "Deve ter seguido-nos ao Museu Britnico, e voc tem estado controlando-o
desde ento. Desjardins nunca foi seu hospedeiro."
"Ah, aquele plebeu? Por favor," Set zombou. "Sempre preferimos sangue dos faras,
como tenho certeza que voc ouviu. Mas amei enganar voc. Pensei que o bon soir foi
um toque especialmente agradvel."
"Voc sabia que meu ba estava ali, assistindo. Voc forou Amos a sabotar a prpria
casa ento seus monstros poderiam entrar. Voc o fez ir para uma emboscada. Por que
no disse apenas para sequestrar-nos?"
Set esticou as mos. "Como disse, Amos comportou uma boa luta. Houve algumas
certas coisas que no pude mand-lo fazer sem destrui-lo por completo, e eu no queria
destruir minha marionete to cedo."
Raiva queimou dentro de mim. O comportamento estranho de Amos finalmente fez
sentido. Sim, ele foi controlado por Set, mas ele esteve lutando por todo esse tempo. O
conflito que eu senti nele havia sido suas tentativas de nos alertar. Ele quase se destruiu
tentando salvar-nos, e Set tinha jogado-o de lado como um brinquedo quebrado.
Me d o controle, Hrus rugiu. Vamos ving-lo.
Eu consigo essa, eu disse.
No! Hrus disse. Voc precisa me deixar. Voc no est pronto.
Set riu como se pudesse sentir nossa luta. "Ah, pobre Hrus. Seu hospedeiro precisa de
rodinhas. Voc realmente espera me desafiar com isso?"
Pela primeira vez, Hrus e eu tivemos a mesma sensao no mesmo exato momento:
ira.
Sem pensar, levantamos nossa mo, alargando nossa energia em direo a Set. Um
punho brilhante lanou-se contra ele, e o Deus Vermelho voou para trs com grande
fora, ele quebrou uma coluna, que abateu-se sobre ele.
Por um batimento cardaco, o nico barulho foi o derrubamento de poeira e destroos.
Ento fora das pedras veio um uivo de risos. Set levantou-se das runas, jogando de lado
um grande destroo de pedra.
"Brilhante!" ele berrou. "Completamente ineficaz, mas brilhante! Vou me sentir
honrado em lhe fatiar em pedaos, Hrus, como fiz com seu pai antes de voc. Vou lhe
sepultar nessa sala para reforar minha tempestade -- todos os quatro dos meus
preciosos irmos, e a tempestade ser grande o bastante para envolver o mundo!"
Pisquei os olhos, momentaneamento perdendo meu foco. "Quatro?"
"Ah, sim." Os olhos de Set pousaram em Zia, que tinha ligeiramente recuado a um lado
da sala. "Eu no lhe esqueci, minha querida."
Zia olhou para mim em desespero. "Carter, no se preocupe comigo. Ele est tentando
lhe distrair."
"Deusa adorvel," Set ronronou. "A forma no lhe faz justia, mas suas escolhas era
limitadas, no eram?"
Set andou at ela, o basto comeando a brilhar.
"No!" eu gritei. Avancei, mas Set era to bom em magia de empurro quanto eu. Ele
apontou para mim, e bati contra a parede, preso como se um time inteiro de futebol
americano estivesse me contendo.
"Carter!" Sadie gritou. "Ela  Nftis. Ela pode cuidar de si mesma!"
"No." Todos os meus instintos me disseram que Zia no poderia ser Nftis.
Primeiramente eu pensei que sim, porm mais que eu acreditasse, mais parecia errado.
No senti nenhuma magia divina dela, e algo me disse que eu sentiria se ela realmente
estivesse hospendando uma deusa.
Set a esmagaria a menos que eu ajudasse. Mas se Set estava tentando me distrair, estava
funcionando. Enquanto ele andava at Zia, lutei contra sua magia, mas no pude me
livrar. Por mais que eu tentasse combinar meu poder e o de Hrus, do jeito que tinha
feito antes, mais do meu medo e pnico entravam em cena.
Voc precisa ceder a mim! Hrus insistiu, e ns dois brigamos pelo controle da minha
mente, que me deu uma violenta dor de cabea.
Set deu outro passo em direo a Zia.
"Ah, Nftis," ele lamentou. "No comeo dos tempos, voc foi minha irm traidora. Em
outra encarnao, em outra era, voc foi minha esposa traidora. Agora, acho que voc
ser um delicioso aperitivo. Verdade, voc  a mais fraca de todos ns, mas voc ainda
 uma dos cinco, e h poder em colecionar o conjunto completo." (Nota: "conjunto" em
ingls  "set")
Ele parou, ento sorriu largamente. "O Set completo!  engraado! Agora vamos gastar
sua energia e sepultar sua alma, ok?"
Zia apertou a varinha. Uma esfera vermelha de energia defensiva brilhou em torno dela,
mas antes que eu pudesse dizer algo, era fraca. Set atirou uma exploso de areia do
basto e a esfera ruiu. Zia caiu para trs, a areia rompendo as roupas e o cabelo. Lutei
para me mover, mas Zia gritou, "Carter, no sou importante! Continue focado! No
resista!"
Ela levantou seu basto e gritou, "A Casa da Vida!"
Ela lanou uma flecha de foto em Set -- um ataque que deve ter custado toda a sua
energia restante. Set bateu as chamas para o lado, direto a Sadie, que tinha de levantar a
varinha rapidamente para se proteger e Amos serem fritos. Set puxou o ar como se
puxasse uma corda invisvel, e Zia voou em direo a ele como uma boneca de pano,
em linha reta  sua mo.
No resista. Como Zia poderia dizer aquilo? Resisti como louco, mas isso no me fez
nenhum bem. Tudo que eu pude fazer foi olhar inutilmente enquanto Set abaixava o
rosto para o de Zia e examinava-a.
A princpio Set pareceu triunfante, contente, mas sua expresso rapidamente ficou
confusa. Ele franziu a testa com os olhos arregalados.
"Que truque  esse?" ele rosnou. "Onde voc a escondeu?"
"Voc no ir possu-la," Zia dirigiu, sua respirao sufocada pelo aperto.
"Onde ela est?" Ele jogou Zia para o lado.
Ela bateu contra a parede e teria deslizado para o fosso, mas Sadie gritou "Vento!" e
uma rajada de ar suspendeu o corpo de Zia o suficiente para ela tombar no cho.
Sadie passou correndo e arrastou-a para longe da vala brilhante.
Set rugiu, "Essa  sua trapaa, sis?" Ele mandou outra tempestade de areia contra eles,
mas Sadie levantou a varinha. A tempestade encontrou um escudo de fora que desviou
o ar ao redor -- a areia cavou as paredes atrs de Sadie, fazendo uma cicatriz em forma
de anel na pedra.
No entendi do que Set estava to nervoso, mas no pude concordar com ele em ferir
Sadie.
Vendo-a sozinha, protegendo Zia da ira de um deus, algo dentro de mim estalou, como
um motor de carro funcionando na ltima marcha. Meu pensamento subitamente
tornou-se mais rpido e limpo. A raiva e o medo no partiram, mas percebi que eles no
eram importantes. Eles no iriam me ajudar a salvar minha irm.
No resista, Zia havia me dito.
Ela no quis dizer para eu resistir a Set. Ela queria dizer a Hrus. O deus-falco e eu
estivemos brigando com ns mesmos por dias enquanto ele tentava tomar controle do
meu corpo.
Mas nenhum de ns poderia ficar em controle. Essa era a resposta. Tnhamos de agir em
harmonia, confiando um no outro completamente, ou iramos ambos morrer.
Sim, Hrus pensou, e ele parou de empurrar. Parei de resistir, deixando nossas mentes
flurem juntas.
Conheci seus poderes, suas memrias, e seus medos. Vi todos os hospedeiros que ele j
havia usado em milhes de vidas. E ele viu minha mente -- tudo, at as coisas que no
me orgulhava.
 difcil descrever a sensao. E eu sabia da memria de Hrus que esse tipo de unio
era muito rara -- como na vez que a moeda no cai em cara nem coroa, ela fica de lado
em equilbrio perfeito. Ele no me controlou. Eu no o seu por fora. Agimos como um
s.
Nossas vozes falaram em harmonia: "Agora."
E os elos mgicos que nos segurava quebrou-se.
O meu avatar de combate se formou ao meu redor, erguendo-me do cho e me
revestindo com energia dourada. Dei um passo para a frente e levantei minha espada. O
guerreiro-falco imitou o movimento, perfeitamente harmonizado aos meus desejos.
Set virou e fitou-me com os olhos frios.
"Ento, Hrus," ele disse. "Voc conseguiu achar os pedais da sua pequena bicicleta,
no ? Mas isso no significava que voc pode montar."
"Eu sou Carter Kane," eu disse. "Sangue dos Faras, Olho de Hrus. E agora, Set --
irmo, tio, traidor -- vou te esmagar como um mosquito."
                                   TRINTA E OITO

                            A CASA EST NA CASA

FOI UMA LUTA AT A MORTE, e me senti incrvel.
Cada movimento era perfeito. Cada golpe era to engraado que eu queria dar
gargalhadas. Set cresceu em tamanho at que estivesse maior que eu, e seu cajado de
ferro do tamanho de um mastro de barco. Sua face tremularia, s vezes humana, s
vezes a mandbula feroz do animal de Set.
Ns confrontamos espada contra cajado e fascas voaram. Ele tirou meu equilbrio, e eu
esmaguei uma das suas esttuas de animal, que tombou no cho e quebrou-se.
Recuperei o equilbrio e carreguei, minha lmina atingindo uma fissura na defesa de
Set. Ele uivou quando sangue negro gotejou do ferimento.
Ele balanou o cajado, e eu rolei antes que o golpe pudesse partir minha cabea. Seu
cajado acertou o cho em vez disso.
Ns lutamos para frente e para trs, quebrando pilares e paredes, com blocos do teto
caindo ao nosso redor, at eu perceberque Sadie estava gritando para chamar minha
ateno.
No canto do meu olho, eu a vi tentando proteger Zia e Amos da destruio. Ela havia
desenhado um rpido crculo de proteo no cho, e suas defesas estavam desviando as
runas que caiam, mas eu entendi porque ela estava preocupada: muito mais disso, e
toda a sala do trono iria desmoronar, esmagando todos ns. Duvidei que iria machucar
Set muito. Ele estava provavelmente contando com isso. Ele queria nos sepultar aqui.
Eu tinha que lev-lo para um lugar aberto. Talvez se eu desse tempo para Sadie, ela
poderia libertar o caixo do papai daquele trono.
Ento me lembrei como Bast havia descrevido sua luta com Apophis: lutando com o
inimigo pela eternidade.
Sim, Hrus concordou.
Levantei meu punho e direcionei uma exploso de energia em direo ao respiradouro
acima de ns, abrindo-o at que luz vermelha mais uma vez fluiu por ali. Ento eu soltei
minha espada e lancei-me para Set. Eu agarrei os ombros dele com minhas mos nuas,
tentando mant-lo numa posse de lutador. Ele tentou me socar, mas seu cajado estava
intil  queima-roupa. Ele rosnou e soltou a arma, depois agarrou meus braos. Ele era
muito mais forte do que eu era, mas Hrus sabia alguns bons movimentos. Eu girei e fui
para trs de Set, meu antebrao deslizando sob o seu brao e apanhando seu pescoo
num tornilho. Ns tropeamos  frente, quase caindo nas defesas protetoras de Sadie.
Agora pegamos ele, pensei. O que fazemos com ele?
Ironicamente, foi Amos que me deu a resposta. Eu me lembrei como ele me
transformou numa tempestade, superando meu sentido de si prprio por fora mental
completa. Nossas mentes tiveram uma batalha breve, mas ele tinha imposto sua vontade
com absoluta confiana, imaginando-me como uma nuvem de tempestade, e era isso
que eu me tornaria.
Voc  um morcego, falei pra Set.
No! Sua mente gritou, mas eu surpreendera ele. Eu pude sentir sua confuso, e usei-a
contra ele. Foi fcil imagin-lo como um morcego, desde que vi Amos virar um quando
ele estava possudo por Set. Vi meu inimigo contraindo-se, crescendo asas de couro e
uma lisa cara feia. Eu contrai-me tambm, at que fosse um falco com um morcego nas
minhas garras. Sem tempo a gastar; lancei-me ao respiradouro, lutando com o morcego
enquanto girvamos em crculos no ar, cortando e mordendo-nos. Finalmente
explodimos ao ar livre, revertendo-nos para as nossas formas de guerreiro do lado da
pirmide vermelha.
Eu estava contransgedoramente inclinado. Meu avatar cintilava danificado no brao
direito, e meu prprio brao estava cortado e sangrando no mesmo lugar. Set levantou-
se, secando sangue negro da boca.
Ele riu para mim, e sua face tremeluziu com o rosnado de um predador. "Voc pode
morrer sabendo que fez um bom esforo, Hrus. Mas  tarde demais. Olhe."
Eu olhei para a caverna, e meu corao foi para a garganta. O exrcito de demnios
haviam encontrando um novo inimigo na batalha. Magos -- dzias deles -- haviam
aparecido num crculo folgado ao redor da pirmide e estavam lutando, tentando
avanarem. A Casa da Vida deve ter reunido todas as suas foras disponveis, mas elas
eram pateticamente pequenas em relao s legies de Set.Cada mago ficava dentro de
um crculo protetor mvel, como feixes de holofote, passando com dificuldades pelo
inimigo com bastes e varinhas brilhando.
Chamas, relmpagos, e tornados rasgaram atravs do hospedeiro do demnio. Eu
reconheci todos os times de bestas reunidas -- lees, serpentes, esfinges, e at alguns
hipoptamos carregando contra o inimigo feito tanques.
Aqui e ali, hierglifos brilhavam no ar, causando exploses e terremotos que destruam
as foras de Set. Porm mais demnios simplesmente continuavam vindo, arrodeando
os magos em nveis mais e mais profundos. Eu observei enquanto um mago estava
completamente estupefato, seu crculo quebrado num brilho de luz verde, e ele afundava
na onda de inimigos.
"Esse  o fim da Casa," Set disse com satisfao. "Eles no podem vencer enquanto
minha pirmide continuar em p."
Os magos pareciam saber disso. Conforme chegavam perto, eles mandavam cometas
ardentes e flechas de raio na pirmide; mas cada golpe dissipava-se inocentemente nas
suas inclinaes de pedra, consumidos no nevoeiro vermelho do poder de Set.
Ento eu localizei a pedra superior dourada. Quatro gigantes com cabea de cobra
haviam salvado ela e estavam carregando-a lentamente mas firmemente atravs da luta.
O tenente de Set, Face do Horror, gritava ordens para eles, chicoteando-os para mant-
los andando. Eles apressavam-se e progrediam at que chegaram  base da pirmide e
comearam a subir.
Carreguei-me contra eles, mas Set interviu num instante, colocando-se no meu caminho.
"Eu acho que no, Hrus," ele riu. "Voc no vai arruinar essa festa."
Ambos convocamos nossas armas para as nossas mos e lutamos com ferocidade
renovada, cortando e esquivando-nos.
Abaixei minha espada numa curva fatal, mas Set mergulhou de lado e minha lmina
acertou pedra, enviando uma onda de choque pelo meu corpo inteiro. Antes que eu
pudesse me recuperar, Set falou uma palavra: "Ha-wi!"
Strike.
Os hierglifos explodiram no meu rosto e me mandou desmoronando no lado da
pirmide.
Quando minha viso se clareou, eu vi Face do Horror os gigantes com cabea de cobra
distantes acima de mim, puxando a sua carga dourada pelo lado do monumento, apenas
alguns passos do topo.
"No," eu murmurei. Tentei levantar-me, mas a forma do meu avatar estava ociosa.
Ento do nada um mago catapultou-se no meio dos demnios e desatou uma ventania.
Demnios voaram, derrubando a pedra superior, e o mago golpeou-a com o cajado,
parando-o de deslizar. O mago era Desjardins. Sua barba bifurcada e tnica e a capa de
pele de leopardo estavam marcados com fogo, e seus olhos estavam cheios de raiva. Ele
pressionou o cajado contra a pedra superior, e sua forma dourada comeou a brilhar;
mas antes que Desjardins pudesse destrui-la, Set foi para atrs dele e balanou sua
varinha de ferro como um basto de beisebol.
Desjardins caiu, ferido e inconsciente, todo o caminho para baixo da pirmide,
desaparecendo no aglomerado de demnios. Meu corao girou. Eu nunca gostei de
Desjardins, mas ningum merecia um destino como aquele.
"Chato," Set disse. "Mas no eficaz. Isso  o que a Casa da Vida se reduziu, er, Hrus?"
Carreguei contra ele, e novamente nossas armas retiniram juntas. Lutamos de um lado
ao outro enquanto luz cinza comeava a sair das fendas na montanha acima de ns.
Os sentidos apurados de Hrus diziam-me que tnhamos aproximadamente dois minutos
at o nascer do sol, talvez menos.
A energia de Hrus continuava ondeando atravs de mim. Meu avatar estava somente
levemente ferido, meus ataques ainda rpidos e fortes. Mas no era o suficiente para
derrotar Set, e Set sabia. Ele no tinha pressa. A cada minuto, outro mago afundava no
campo de batalha, e caos aproximava-se da vitria.
Pacincia, Hrus encoranjou. Ns lutamos com ele por sete anos na primeira vez.
Mas eu sabia que no tnhamos sete minutos, muito menos sete anos. Queria que Sadie
estivesse aqui, mas eu s podia esperar que ela conseguisse libertar o papai e manter Zia
e Amos seguros.
Esse pensamento me distraiu. Set impulsionou seu cajado nos meus ps, e ao invs de
pular, eu tentei me apoiar.
O golpe bateu no meu tornozelo direito, tirando meu equilbrio e mandando-me em
cambalhotas para o lado da pirmide.
Set riu. "Tenha uma boa viagem!" Ento ele levantou a pedra superior.
Me levantei, gemendo, mas meus ps pareciam chumbo. Subi a inclinao, mas antes de
alcanar at a metade da distncia, Set colocou a pedra superior e completou a estrutura.
Luz vermelha escorreu pelos lados da pirmide com um som como o maior baixo
eltrico, balanando toda a montanha e fazendo meu corpo paralisar-se.
"Trinta segundos para o nascer do sol!" Set gritou em alegria. "E essa terra ser minha
para sempre. Voc no pode me deter sozinho, Hrus -- especialmente no no deserto,
a fonte do meu poder!"
"Voc est certo," disse uma voz prxima.
Espiei e vi Sadie levantando-se do respiradouro -- radiante com luz multicolorida, seu
basto e varinha brilhando.
"Exceto que Hrus no est sozinho," ela disse. "E no vamos lutar com voc no
deserto."
Ela bateu seu basto contra a pirmide e gritou um nome: as ltimas palavras que eu
esperava que ela dissesse como um grito de guerra.
                                  TRINTA E NOVE

                       ZIA ME CONTA UM SEGREDO

VIVA, CARTER, POR ME FAZER PARECER dramtica e isso tudo.
A verdade foi um pouco menos encantadora.
Devemos voltar? Quando meu irmo, o guerreiro-galinha louco, se transformou num
falco e subiu  chamin da pirmide com seu novo amigo, o morcego, ele me deixou
brincando de enfermeira com duas pessoas muito feridas -- que no apreciava, e que
no era particularmente boa.
As feridas do pobre Amos pareciam mais mgicas do que fsicas. Ele no tinha uma
marca sequer, mas os olhos estavam girando na cabea, e ele estava apenas respirando.
Vapor saiu de sua pele quando toquei sua testa, ento decidi deix-lo por enquanto.
Zia era outra histria. O seu rosto estava mortalmente plido, e ela estava sangrando de
vrios cortes sujos na perna. Um dos seus braos estava torcido num mau ngulo. O
som de sua respirao parecia como areia molhada.
"Segure firme." Rasguei um pedao de tecido da bainha da minha cala e tentei cobrir
sua perna. "Talvez haja alguma magia de cura ou --"
"Sadie." Ela apertou meu pulso fracamente. "Sem tempo. Oua."
"Se pudermos parar o sangramento --"
"O nome dele. Voc precisa do nome dele."
"Mas voc no  Nftis! Set disse que no."
Ela balanou a cabea. "Uma mensagem... Eu falo com a voz dela. O nome -- Dia
Maligno. Set nasceu, e esse foi um Dia Maligno."
Com certeza, eu pensei, mas poderia ser esse realmente o nome secreto de Set? O que
Zia estava falando, no sendo Nftis mas falando na voz dela -- no fez sentido. Ento
me lembrei da voz no rio. Nftis disse que mandaria uma mensagem. E Anubis me fez
prometer que ouviria Nftis.
Me movi, inconfortvel. "Olhe, Zia --"
Ento a verdade me veio na cara. Algumas coisas que Iskandar disse, algumas coisas
que Thoth disse -- tudo ligou-se. Iskandar queria proteger Zia. Ele me contou que se ele
percebesse que Carter e eu ramos deuses pequenos, ele poderia ter protegido-nos assim
como... algum. Assim como Zia. Agora eu entendia como ele tentou proteg-la.
"Ah, deus." Olhei para ela. " isso, no ?"
Ela pareceu entender, e assentiu. Seu rosto se contorceu em dor, mas os olhos
permaneceram ferozes e insistentes como sempre. "Use o nome. Submeta Set  sua
vontade. Faa-o ajudar."
"Ajudar? Ele acabou de tentar matar voc, Zia. Ele no  o tipo de ajuda."
"V." Ela tentou me afastar. Chamas crepitaram fracamente dos seus dedos. "Carter
precisa de voc."
Essa deve ter sido uma coisa que ela disse para me estimular. Carter estava em apuros.
"Eu vou voltar, ento," prometi. "No... h, saia daqui."
Levantei-me e olhei para o buraco no teto, temendo a ideia de virar um milhano
novamente. Ento meus olhos se fixaram no caixo do papai, enterrado no trono
vermelho. O sarcfago estava brilhando como algo radioativo, dirigindo-se  fuso. Se
eu pudesse no mnimo quebrar o trono...
Set deve ter cuidado disso primeiro, sis alertou.
Mas se eu puder livrar papai... andei para o trono.
No, sis alertou. O que voc pode ver  muito perigoso.
Sobre o que voc est falando? Pensei, irritada. Coloquei minha mo no caixo
dourado. Instantaneamente fui puxada do salo do trono e entrei numa viso.
Eu havia voltado na Terra da Morte, na Sala de Julgamento. Os monumentos em runas
de um novo cemitrio em Nova Orleans tremulou ao meu redor. Espritos da morte
mexiam-se inquietamente na nvoa. Na base das escalas quebradas, um fino monstro
dormia -- Ammit, o Devorador. Ele abriu um dos brilhantes olhos amarelos para me
estudar, e depois voltou a dormir.
Anubis saiu das sombras. Ele estava vestido com um terno preto de seda com a sua
gravata sem n, como se ele tivesse acabado de voltar de um funeral ou possivelmente
uma conveno para deslumbrantes empresrios.
"Sadie, voc no deveria estar aqui."
"Me conte sobre isso," eu disse, mas eu estava to feliz em v-lo, eu quis soluar em
alvio.
Ele pegou minha mo e me levou para o trono negro e vazio. "Perdemos todo o
equilbrio. O trono no pode ficar vazio. A restaurao de Ma'at precisa comear aqui,
nesta sala."
Ele soava triste, como se estivesse me pedindo para aceitar algo terrvel. No entendi,
mas uma profunda sensao de perda me arrepiou.
"No  justo," eu disse.
"No, no ." Ele apertou minha mo. "Eu vou ficar aqui, esperando. Desculpe, Sadie.
Eu realmente estou..."
Ele comeou a enfraquecer.
"Espere!" Tentei segurar sua mo, mas ele derreteu em nvoa pelo cemitrio.
Achei-me de volta na sala do trono dos deuses, exceto que ela parecia que foi
abandonada por sculos. O teto havia rudo, como metade das colunas. Os braseiros
estavam frios e enferrujados. O bonito piso de mrmore estava rachado como o fundo
de um lago seco.
Bast estava em p diante do trono vazio de siris. Ela me deu um sorriso malicioso,
mas v-la novamente era quase doloroso segurar.
"Oh, no fique triste," ela queixou. "Gatos no se arrependem."
"Mas voc no est -- voc no est morta?"
"Isso tudo depende." Ela gesticulou ao redor. "O Duat est em agitao. Os deuses
ficaram muito tempo sem um rei. Se Set no assumir o controle, algum mais precisa. O
inimigo est vindo. No me deixe morrer em vo."
"Mas voc vai voltar?" perguntei, minha voz falhando. "Por favor, eu nunca nem
consegui lhe dizer adeus. No posso --"
"Boa sorte, Sadie. Mantenha suas garras afiadas." Bast desapareceu, e o cenrio
desapareceu novamente.
Eu estava no Hall of Ages, em Primeiro Nome -- outro trono vazio -- e Iskandar
sentado nos seus ps, esperando por um fara que no existia a dois mil anos.
"Um lder, minha cara," ele disse. "Ma'at exige um lder."
" muito," eu disse. "Muitos tronos. Voc no pode esperar que Carter --"
"No sozinho," Iskandar concordou. "Mas esse  o destino da sua famlia. Vocs
comearam o processo. Os Kane iro nos curar ou nos destruir.
"Voc no sabe o que est dizendo!"
Iskandar abriu a mo, e num claro, a cena mudou mais uma vez.
Eu tinha voltado ao Thames. Devia ser na calada da noite, trs da manh, pois o Aterro
estava vazio. Nvoa obscurecia as luzes da cidade, e o ar estava frio.
Duas pessoas, um homem e uma mulher, estavam abraados para espantar o frio, de
mos dadas na frente da Agulha de Clepatra. De primeira achei que era um casal
qualquer num primeiro encontro. Ento, com um choque, percebi que eu estava olhando
para os meus pais.
Meu pai levantou o rosto e franziu a testa, olhando para o obelisco. No brilho turvo das
luzes dos postes, seus traos pareciam mrmore esculpido -- como as esttuas de fara
que ele amava estudar. Ele tinha um rosto de rei, pensei -- orgulhoso e bonito.
"Voc tem certeza?" ele perguntou para a minha me. "Absoluta certeza?"
Mame tirou o seu cabelo louro do rosto. Ela at estava mais bonito ainda do que nas
fotos, mas ela parecia preocupada -- sobrancelhas franzidas, os lbios pressionados.
Como eu quando estava chateado, quando me olhava no espelho e tentava me convencer
que as coisas no estava to mal. Queria cham-la, deix-la saber que eu estava ali, mas
minha voz no funcionaria.
"Ela me disse que esse  o lugar por onde comea," minha me disse. Ela se cobriu com
o casaco, e pude ver seu colar -- o amuleto de sis, meu amuleto. Olhei para ele,
atordoada, mas depois ela puxou o colar, e o amuleto desapareceu. "Se quisermos
derrotar o inimigo, precisamos comear com o obelisco. Precisamos descobrir a
verdade."
Meu pai franziu a testa desconfortavelmente. Ele havia desenhado um crculo protetor
ao redor deles -- linhas de giz azuis na calada. Quando ele tocou a base do obelisco, o
crculo comeou a brilhar.
"Eu no gosto disso," ele disse. "Voc no vai pedir a ajuda dela?"
"No," minha me insistiu. "Eu sei meus limites, Julius. Se eu tentasse novamente..."
Meu corao pulou uma batida. As palavras de Iskandar voltaram para mim: Ela viu
coisas que a fez procurar conselhos de lugares no convencionais. Reconheci o olhar
nos olhos da minha me, e eu soube: minha me era interligada com sis.
Por que voc no me contou? Eu quis gritar.
Meu pai convocou o seu cajado e varinha. "Ruby, se falharmos --"
"No podemos falar," ela insistiu. "O mundo depende disso."
Ele se beijaram numa ltima vez, como se sentissem que estavam dizendo adeus. Ento
levantaram os cajados e varinhas e comearam a cantar. A Agulha de Clepatra brilhou
com poder.
Eu arranquei minha mo do sarcfago. Meus olhos ardiam em lgrimas.
Voc conhecia minha me, gritei para sis. Voc encorajou-a a abrir aquele obelisco.
Voc a matou!
Esperei-a responder. Em vez disso, uma imagem espectral apareceu na minha frente --
uma projeo do meu pai, tremeluzindo na luz do caixo dourado.
"Sadie." Ele sorriu. Sua voz parecia metlica e oca, o jeito que eu havia me acostumado
quando ele me ligava de longe -- do Egito ou Austrlia ou deus sabe onde. "No culpe
sis pelo destino de sua me. Nenhum de ns entendia exatamente o que iria acontecer.
At mesmo sua me s podia ver pedaos do futuro. Mas quando a hora veio, sua me
aceitou sua funo. Foi a sua deciso."
"Morrer?" exigi. "sis deveria t-la ajudado. Voc devia ter ajudado-a. Eu te odeio!"
Assim que disse isso, algo se quebrou em mim. Comecei a chorar. Percebi que eu queria
dizer isso ao meu pai a anos. Acusei-o pela morte da mame, culpei-o por me deixar.
Mas agora que eu disse isso, toda a raiva drenou-se de mim, deixando nada exceto
culpa.
"Me desculpe," eu falei rapidamente. "Eu no --"
"No se desculpe, minha brava garota. Voc tem todo o direito de sentir isso. Voc
tinha que soltar isso. O que voc est prestes a fazer -- voc tem que acreditar que 
para motivos certos, no porque voc me ressente."
"No sei o que voc quer dizer."
Ele estendeu a mo para limpar uma lgrima do meu rosto, mas sua mo era s luz.
"Sua me foi a primeira em sculos a ligar-se com sis. Era perigoso, contra os
ensinamentos da Casa, mas sua me era uma adivinha. Ela tinha a premonio que o
caos est se erguendo. A Casa estava falhando. Precisvamos dos deuses. sis no pde
atravessar o Duat. Ela podia apenas mandar um sussurro, mas ela nos contou o que
podia sobre a priso deles. Ela aconselhou Ruby no que precisava ser feito. Os deuses
poderiam erguerem-se novamente, ela disse, mas precisaria de duros sacrifcios.
Pensamos que o obelisco libertaria todos os deuses, mas aquele era s o comeo."
"sis poderia ter dado mais fora para mame. Ou pelo menos Bast! Bast props --"
"No, Sadie. Sua me sabia os limites dela. Se ela tentasse hospedar um deus, utilizar
plenamente o poder divino, ela seria consumida ou pior. Ela libertou Bast, e usou sua
prpria fora para selar a violao. Com sua vida, ela lhe deu algum tempo."
"Eu? Mas..."
"Voc e seu irmo tm o sangue mais forte de qualquer Kane em trs mil anos. Sua me
estudou a linhagem dos faras -- ela sabia disso para ser verdade. Vocs tm a melhor
chance de reaprender as formas antigas, e curar a separao entre magos e deuses. Sua
me comeou a agitao. Eu soltei os deuses da Pedra de Roseta. Mas ser seu trabalho
restaurar Ma'at."
"Voc pode ajudar," eu insisti. "Quando lhe soltar."
"Sadie," ele disse sem esperana, "quando voc se tornar uma me, voc precisa
entender isso. Um dos meus mais difceis trabalhos como um pai, um dos meus maiores
deveres, foi perceber que meus prprios sonhos, meus prprios objetivos e desejos, so
secundrios aos dos meus filhos. Sua me e eu estabelecemos a etapa. Mas essa  sua
etapa. Essa pirmide  designada para abastecer caos. Ela consume o poder dos outros
deuses e faz Set mais forte.
"Eu sei. Se eu quebrar o trono, talvez abrir o caixo..."
"Voc poderia me salvar," papai admitiu. "Mas o poder de siris, o poder dentro de
mim, seria consumido pela pirmide. S iria apressar a destruio e fazer Set mais forte.
A pirmide precisa ser destruda, tudo disso. E voc sabe como isso precisa ser feito."
Eu estava prestes a protestar que no sabia, mas a pena da verdade me manteu honesta.
O jeito estava dentro de mim -- eu o vi nos pensamentos de sis. Eu sabia o que viria
desde que Anubis me fez aquela pergunta impossvel: "Para salvar o mundo, voc
sacrificaria seu pai?"
"Eu no quero," eu disse. "Por favor."
"siris precisar chegar ao trono dele," meu pai disse. "Atravs da morte, da vida.  o
nico caminho. Ma'at pode lhe guiar, Sadie. Eu te amo."
E com isso, a imagem se dissipou.
Algum estava gritando meu nome.
Olhei para trs e vi Zia tentando se levantar, apertando fracamente sua varinha. "Sadie,
o que voc est fazendo?"
Em torno de ns, a sala estava se agitando. Rachaduras enchiam as paredes, como se um
gigante estivesse usando a pirmide como um saco de pancadas.
Quanto tempo fiquei em transe? No tinha certeza, mas eu estava fora do tempo.
Fechei meus olhos e me concentrei. A voz de sis falou quase imediatamente: Pode ver
agora? Entende porque no pude falar mais?
Raiva cresceu dentro de mim, mas me segurei. Vamos falar sobre isso depois. Agora,
temos um deus para derrubar.
Imaginei-me andando  frente, emergindo com a alma da deusa.
J havia dividido poderes com sis antes, mas isso era diferente. Minha resoluo,
minha ira, at minha dor me deram confiana. Olhei para sis direto nos olhos
(espiritualmente falando), e entendemos uma a outra.
Vi sua histria inteira -- seus primeiros dias arfando por poder, usando truques e
esquemas para encontrar o nome de Ra. Eu a vi casando-se com siris, suas esperanas
e sonhos para um novo imprio.
Ento eu vi aqueles sonhos destrudos por Set. Senti sua fria e amargura, seu orgulho
feroz e proteo ao seu jovem filho, Hrus. E eu vi o padro da vida dela repetindo mais
e mais atravs das eras, pelos milhes de diferentes hospedeiros.
Deuses tm grande poder, Iskandar disse. Mas s os humanos tm criatividade, o poder
de mudar a histria.
Eu tambm senti os pensamentos da minha me, como uma marca na memria da
deusa: os momentos finais de Ruby e a escolha que ela fez. Ela deu sua vida para
comear uma corrente de eventos. E o prximo momento era meu.
"Sadie!" Zia gritou novamente, sua voz enfraquecendo.
"Estou bem," eu disse. "Eu estou indo agora."
Zia estudou minha cara, e obviamente no gostou do que viu. "Voc no est bem. Voc
foi duramente mexida. Lutar com Set na sua condio seria suicdio."
"No se preocupe," eu disse. "Ns temos um plano."
Com isso, me transformei num milhano e voei em direo ao topo da pirmide.
                                    QUARENTA

           EU ARRUINO UM FEITIO SUPER IMPORTANTE

DESCOBRI QUE AS COISAS NO ESTAVAM INDO BEM L EM CIMA.
Carter era um guerreiro amontoado de galinhas na inclinao da pirmide. Set j havia
colocado o espigo e estava gritando, "Trinta segundos para o nascer do sol!" Na
caverna abaixo, magos da Casa da Vida se estufavam entre um exrcito de demnios,
lutando numa batalha desesperada.
A cena teria sido assustadora o bastante, mas agora eu vi como sis fez. Como um
crocodilo com olhos no nvel da gua -- vendo embaixo e acima da superfcie -- eu vi
o Duat entrelaado com o mundo regular. Os demnios tinham almas de fogo no Duat
que faziam eles parecerem um exrcito de velas de aniversrio. Onde Carter estava no
mundo mortal, um guerreiro-falco ficou no Duat -- no um avatar, mas a coisa real,
com a cabea alada, o bico pontudo com manchas de sangue, e cintilando olhos negros.
A sua espada ondulava com luz dourada. Como para Set -- imagine uma montanha de
areia, molhada com gasolina, em chamas, girando no maior liquidificador do mundo.
Era o que ele parecia no Duat -- uma coluna de fora destruidora to poderosa que as
pedras nos seus ps borbulhavam e enchiam de bolhas.
Eu no tenho certeza do que eu parecia, mas me senti poderoso. A fora de Ma'at
percorria meu corpo; os Mundos Divinos estavam no meu comando. Eu era Sadie Kane,
sangue dos faras. E eu era sis, deusa da magia, dona dos nomes secretos.
Enquanto Carter esforava-se para subir at o topo da pirmide, Set gritou: "Voc no
pode me deter sozinho, Hrus -- especialmente no no deserto, a fonte da minha
fora!"
"Voc est certo!" Eu gritei.
Set virou, e o olhar na sua face era impagvel. Levantei meu cajado e varinha, reunindo
minha magia.
"Exceto que Hrus no est sozinho," eu disse. "E no vamos lutar com voc no
deserto."
Eu bati com fora meu cajado nas pedras e gritei, "Washington, Capital!"
A pirmide balanou. Por um momento, nada aconteceu.
Set pareceu perceber o que eu estava fazendo. Ele deixou escapar um riso nervoso.
"Magia um-a-um, Sadie Kane. Voc no pode abrir um portal durante o Dia dos
Demnios!"
"Um mortal no pode," concordei. "Mas uma deusa de magia pode."
Sobre ns, o ar crepitou com raios. O topo da caverna se dissolveu num redemoinho
agitado de areia maior que a pirmide.
Demnios pararam de lutar e olharam para cima em horror. Magos balbuciaram feitios
com as faces relaxadas com o pavor.
O redemoinho era to poderoso que removeu violentamente os blocos da pirmide e
sugou-os at a areia.
E ento, como uma gigantesca tampa, o portal comeou a descer.
"No!" Set rugiu. Ele destruiu o portal com chamas, ento virou para mim e atirou
pedras e raios, mas era tarde demais. O portal engoliu-nos todos.
O mundo pareceu sacudir de cima pra baixo. Por um batimento cardaco, eu me espantei
se tivesse feito um erro de clculo -- se a pirmide de Set fosse explodir no portal, e se
eu gastaria a eternidade flutuando no Duat como um bilho de pequenas partculas da
areia de Sadie. Ento, com um alto estrondo, aparecemos no ar da manh fria com um
cu azul brilhante acima de ns. Espalhados abaixo de ns estavam os campos cobertos
de neve no Mercado Nacional em Washington, D.C.
A Pirmide Vermelha estava quase intacta, mas buracos haviam aparecido na superfcie.
O espigo dourado brilhava, tentando manter a sua magia, mas no estvamos em
Phoenix mais. A pirmide havia sido tirada da sua fonte de poder, o deserto, e em frente
a ns surgiu o porto principal  Amrica do Norte, o alto e branco obelisco que era o
maior ponto focal poderoso de Ma'at no continente: o Monumento de Washington.
Set gritou para mim algo em Egpcio Antigo. Eu estava seguramente certa que no era
um elogio.
"Eu vou arrancar seus membros dos buracos!" ele gritou. "Eu vou --"
"Morrer?" Carter sugeriu. Ele surgiu atrs de Set e balanou sua espada.
A lmina cortou a armadura de Set nas costelas -- no um golpe mortal, mas o bastante
para fazer o Deus Vermelho perder o equilbrio e mand-lo caindo num lado da sua
pirmide. Carter pulou depois dele, e no Duat eu pude ver arcos de energia clara
palpitando do Monumento de Washington para o avatar de Hrus, carregando-o com
novo poder.
"O livro, Sadie!" Carter gritou enquanto corria. "Faa agora!"
Eu devia estar estupefata de convocar o portal, porque Set entendeu o que Carter estava
dizendo muito mais rpido do que eu.
"No!" o Deus Vermelho gritou. Ele carregou em minha direo, mas Carter o
interceptou no meio do caminho na inclinao.
Ele agarrou-se com Set, detendo-o. As pedras da pirmide racharam e desintegraram-se
sob o peso das formas divinas deles. Em todo o redor da base da pirmide, demnios e
magos que tinham sido puxados pelo portal e bateram-se inconscientemente estavam
voltando a se mexer.
O livro, Sadie... s vezes  til ter algum alm de voc na sua cabea, pois uma pode
dar uma tapa na outra. D, o livro!
Eu liberei minhas mos e convoquei o pequeno e azul volume que tnhamos roubado de
Paris: O Livro de Superao de Set. Eu desdobrei o papiro; os hierglifos eram to
claros quanto um berrio num livro elementar escolar. Eu chamei pela pena da
verdade, e instantaneamente ela apareceu, brilhando sobre as pginas.
Comecei o feitio, dizendo as Palavras Divinas, e meu corpo levantou no ar, pairando
poucos centmetros acima da pirmide. Eu cantei a histria de criao: a primeira
montanha erguendo-se acima das guas do caos, o nascimento dos deuses Ra, Geb, e
Nut, a ascenso de Ma'at, e o primeiro grande imprio dos homens, Egito.
O Monumento de Washington comeou a brilhar quando hierglifos aparecem ao longo
dos seus lados. O espigo cintilou na cor prata.
Set tentou bater em mim, mas Carter o impediu. E a pirmide vermelha comeou a se
quebrar em pedaos.
Pensei em Amos e Zia, presos embaixo de toneladas de pedras, e eu quase vacilei, mas a
voz da minha me falou na minha mente: Foco, minha querida. Preste ateno no
inimigo.
Sim, sis disse. Destrua-o!
Mas de algum modo eu sabia que no era o que minha me quis dizer. Ela estava me
dizendo para prestar ateno. Algo importante estava para acontecer.
Atravs do Duat, eu vi magia se formando ao meu redor, elaborando um brilho branco
acima do mundo, reforando Ma'at e expelindo caos. Carter e Set brigaram de um lado
para     o    outro    enquanto     grandes     pedaos   da    pirmide    desabavam
A pena da verdade brilhou, brilhante como um holofote no Deus Vermelho. Assim que
me aproximava do fim do feitio, minhas palavras comearam a dilacerar Set em
fragmentos.
No Duat, o seu furaco ardente estava se desfazendo, revelando uma coisa de pele negra
e viscosa como um animal enfraquecido de Set -- a essncia da maldade do deus. Mas
no mundo mortal, ocupando o mesmo espao, estava um guerreiro orgulhoso com uma
armadura vermelha, ardendo em poder e determinado a lutar at a morte.
 "Eu lhe nomeio, Set," eu cantei. "Eu lhe nomeio com'O Dia do Mal."
Com um grunhido tenebroso, a pirmide implodiu. Set caiu nas runas. Ele tentou
levantar, mas Carter agitou a espada. Set apenas teve tempo de erguer seu basto. As
suas armas se cruzaram, e Hrus lentamente forou Set a um joelho.
"Agora, Sadie!" Carter gritou.
"Voc  o meu inimigo," eu cantei, "e uma maldio sobre a terra."
Uma linha de luz branca derrubou a extenso do Monumento de Washington. Estendeu-
se numa fissura -- uma entrada entre esse mundo e o brilhante e branco abismo que
prenderia Set para sempre, pegando sua fora de vida. Talvez no para sempre, mas por
um longo, longo tempo.
Para completar o feitio, eu s teria que dizer mais uma linha: "Sem merecer nenhuma
clemncia, um inimigo de Ma'at, voc est exilado de alm da terra."
A linha tinha de ser dita com absoluta convico. A pena da verdade requeria isso. E por
que eu no deveria acreditar naquilo? Era a verdade. Set no merecia clemncia. Ele era
um inimigo de Ma'at.
Mas                                       eu                                     hesitei.
 "Preste ateno no seu inimigo," minha me havia tido.
Eu olhei em direo ao topo do monumento, e no Duat eu vi rochas da pirmide voando
 direo ao cu e as almas dos demnios decolando como fogos de artifcio. Enquanto
a magia de caos do Set se dispersava, toda a fora que tinha estado carregado, pronta
para destruir um continente, estava sendo sugada pelas nuvens. E ao longo de que eu
assistia, o caos tentava formar uma figura. Era como um reflexo vermelho do Potomac
-- um enorme rio vermelho com pelo menos uma milha de comprimento e uns cem
metros de largura. Ela se retorceu no ar, tentando se tornar slida, e senti sua raiva e sua
severidade. No era o que eu queria. No havia poder ou caos o bastante para o seu
propsito. Para se formar corretamente, precisava da morte de milhes, a devastao de
um continente inteiro.
No era um rio. Era uma cobra.
"Sadie!" Carter clamou. "O que voc est esperando?"
Ele no podia ver, eu percebi. Ningum pode ver a no ser eu.
Set estava sobre os seus joelhos, torcendo-se e amaldioando enquanto energia clara
circulava-o, puxando-o at a abertura.
"Perdeu seu estmago, bruxa?" ele berrou. Ento ele encarou Carter.
"V, Hrus? sis sempre foi uma covarde. Ela nunca poderia completar o feitio!"
Carter olhou para mim, e por um momento eu vi a dvida no seu rosto. Hrus estaria
impulsionando-o para uma vingana sangrenta. Eu estava hesitando. Isso era o que
havia feito sis e Hrus virarem um contra o outro antigamente. Eu no podia deixar
isso acontecer agora.
Porm, mais do que aquilo, na expresso precavida de Carter eu vi o jeito que ele usou
para olhar para mim nos nossos dias de visita -- quando ramos praticamente estranhos,
forados a passar um tempo juntos, fingindo que ramos uma famlia feliz j que papai
esperava isso de ns. Eu no quis voltar quilo. Eu no estava mais fingindo. ramos
uma famlia, e tnhamos que trabalhar juntos.
"Carter, olhe." Eu joguei a pena da verdade no cu, quebrando o feitio.
"No!" Carter exclamou.
Mas a pena explodiu em p prateado que grudou na forma da serpente, obrigando ela a
ficar visvel por um instante.
Carter boquiabriu-se quando a serpente se torceu no ar acima de Washington,
lentamente perdendo fora.
Perto de mim, uma voz gritou: "Deuses ordinrios!"
Eu virei-me para ver Set, Face de Horror, com os dentes descobertos e sua face grotesca
a poucos metros da minha, uma faca entalhada erguia-se sobre minha cabea. S tive
tempo de pensar: estou morta, antes que um lampejo de metal aparecesse no canto do
meu olho. Houve um enjoativo golpe, e o demnio congelou.
Carter havia lanado sua espada com preciso fatal. O demnio deixou cair sua faca,
ficou de joelhos, e olhou para a lmina que estava agora embainhada num dos seus
lados. Ele virou s costas, dissipando-se com um silvo zangado. Os olhos negros dele
fixaram nos meus, e ele falou numa voz completamente diferente -- um spero e seco
som, como uma salincia de rptil sendo esmagado na areia. "No acabou, pequena
deusa. Tudo isso que eu tenho trabalhado com um fio da minha voz, um mero
fragmento de minha essncia se ziguezagueando da minha priso enfraquecida. Imagine
o que eu farei quando me formar por completo."
Ele me deu um sorriso plido, ento seu rosto se afrouxou. Uma linha fina de nvoa
vermelha torceu-se da sua boca -- como uma minhoca ou uma cobra incubada -- e se
distorceu para cima at o cu para se juntar  sua origem.
O corpo do demnio se desintegrou em areia.
Eu olhei mais uma vez para a gigante serpente vermelha lentamente se dissolvendo no
cu. Ento eu convoquei uma rajada de vento e dispersei-a por completo.
O Monumento de Washington parou de brilhar. A fenda fechou, e o pequeno livro de
feitios desapareceu das minhas mos.
Andei em direo a Set, que ainda estava preso em cordas de energia branca.
Eu havia tido o seu nome verdadeiro. Ele no iria a lugar nenhum ainda.
 "Vocs viram a serpente nas nuvens," eu disse. "Apep."
 Carter confirmou com a cabea, atordoado. "Ele estava tentando entrar no mundo
 mortal, usando a Pirmide Vermelha como um porto. Se o seu poder tivesse sido
 desencadeado..." Ele olhou para baixo em repugnncia na pilha de areia que outrora
 era um demnio. "O tenente de Set -- Face do Horror -- ele estava possudo por Apep
 em todo o tempo, usando Set para conseguir o que queria."
 "Ridculo!" Set me encarou e lutou contra a corda. "A cobra nas nuvens era um dos
 seus truques, sis. Uma iluso."
 "Voc sabe que no era," eu falei. "Eu poderia ter mandado-o para o abismo, Set, mas
 voc viu o inimigo real. Apep estava tentando fugir da sua priso no Duat. A sua voz
 possua a Face do Horror. Ele estava se aproveitando de voc."
 "Ningum se aproveita de mim!"
 Carter deixou seu lado guerreiro de disperso. Ele flutuou para o cho e convocou a
 sua espada de volta  sua mo. "Apep queria sua exploso para nutrir seu poder, Set.
 Assim que ele viesse pelo Duat e achasse-nos mortos, acredito que voc seria a
 primeira refeio. O caos teria ganhado."
 "Eu sou o caos!" Set insistiu.
 "Parcialmente," falei. "Mas voc ainda  um dos deuses. Verdade, voc  o mal, a
 infidelidade, a crueldade, a mesqui..."
 "Voc me deixa corado, irm."
 "Mas voc tambm  o deus mais forte. Nos tempos antigos, voc era o tenente fiel de
 Ra, defendendo o navio dele contra Apep. Ra no poderia ter se defendido da Serpente
 sem voc."
 "Eu sou timo," Set admitiu. "Mas Ra se foi para sempre, graas a vocs."
 "Talvez no para sempre," falei. "Apep est se erguendo, o que significa que
 precisaremos de todos os deuses para batalhar com ele. At voc."
 Set testou as suas cordas de energia branca. Quando descobriu que no conseguiria
 cort-las, ele me deu um sorriso de crocodilo. "Voc sugere uma aliana? Voc
 confiaria em mim?"
 Carter riu. "Voc s pode estar brincando. Mas ns temos seu nmero, agora. Seu
 nome secreto. Certo, Sadie?"
 Fechei meus dedos, e as cordas apertaram-se em Set. Ele gritou de dor. Tomou uma
 grande quantidade de energia, e eu sabia que no poderia prend-lo assim por muito
 tempo, mas no havia como contar isso a Set.
 "A Casa da Vida tentou banir os deuses," eu falei. "No funcionou. Se prendermos
 voc, no seremos melhor do que eles so. No resolveria nada."
 "Eu no poderia concordar mais," Set gemeu. "Se voc pelo menos afrouxasse essas
 cordas..."
"Voc ainda  um pedao de escria desprezvel," eu disse. "Mas voc ainda tem um
papel a encenar, e voc precisar controlar. Eu concordarei em libert-lo -- se voc
jurar se comportar, retornar ao Duat, e no causar problemas at que chamemos voc.
E ento voc far problema s para ns, lutando contra Apep."
"Ou eu poderia cortar sua cabea," Carter sugeriu. "O que provavelmente exilaria voc
por um bom tempo."
Set balanou de trs para frente entre ns. "Fazer problemas para voc, hein?  minha
especialidade."
"Jure pelo seu prprio nome e o trono de Ra," disse. "Voc partir agora e no
reaparecer at ser chamado."
"Ah, eu juro," ele disse, rapidamente. "Pelo meu nome e o trono de Ra e os cotovelos
estrelados de nossa me."
"Caso voc traia-nos," eu alertei. "Eu tenho seu nome. No vou lhe oferecer piedade
por nenhum segundo."
"Voc sempre foi minha irm favorita."
Eu lhe dei um ltimo choque, s para lembr-lo do meu poder, e depois dissolvi as
faixas.
Set levantou-se e flexionou os braos. Ele parecia um soldado com armadura vermelha
e pele vermelha, um preto, com barba bifurcada, e cintilantes olhos cruis; mas no
Duat, eu vi seu outro lado, um inferno feroz abertamente relaxado, esperando ser
desatado e queimando tudo em seu caminho. Ele piscou para Hrus, ento pretendia
me atirar com uma arma. "Ah, isso ser bom. Teremos alguma diverso."
"V, Dia do Mal," eu disse.
Ele virou uma coluna de sal e dissolveu-se.

A neve no Mercado Nacional derreteu num quadrado perfeito, o tamanho exato da
pirmide de Set.
Nas bordas, uma dzia de magos ainda estavam desmaiados. Os pobres coitados
estavam comeando a levantar quando nosso portal fechou, mas a exploso da
pirmide tinha derrubado todos novamente. Outros mortais na rea tambm tinham
sido afetados. Um corredor de manh estava deitado na calada. Nas estradas
prximas, carros estagnavam enquanto os motoristas que cochilavam sobre o volante.
Nem todos estavam adormecidos, de qualquer forma. Sirenes de polcia tocavam em
distncia, e vendo como nos teleportamos praticamente no quintal do presidente, eu
sabia que no demoraria muito para chegar uma grande quantidade de companhia
pesadamente armada.
Carter e eu corremos para o centro do quadrado derretido, onde Amos e Zia dormiam
machucados no capim.
No havia sinal do trono de Set ou o caixo dourado, mas eu tentei tirar aqueles
pensamentos da minha cabea.
Amos gemeu. "O qu..." Com os olhos cobertos de terror.
"Set... ele... ele..."
"Descanse." Coloquei minha mo na sua testa. Ele estava queimando de febre. A dor
na mente dele era to aguada, que me cortou como uma navalha. Lembrei-me de um
feitio que sis me ensinou no Novo Mxico.
"Quieto," eu sussurrei. "Hah-ri."
Hierglifos fracos brilharam sobre sua face:




Amos flutuou de volta para dormir, mas eu sabia que era s temporrio.
Zia estava pior ainda. Carter colocou a cabea dela nos braos e falou
tranquilizadoramente que ela estaria bem, mas ela parecia mal.
A sua pele estava estranhamente avermelha, seca e frgil, como se tivesse sofrido uma
terrvel queimadura. Na grama ao seu redor, hierglifos estavam enfraquecendo -- as
sobras de um crculo protetor -- e achei que entendia o que tinha acontecido. Ela havia
usado sua ltima partcula de energia para cobri-la e Amos quando a pirmide
implodiu.
"Set?" ela perguntou fracamente. "Ele se foi?"
"Sim." Carter olhou fixamente para mim, e eu soube que estaramos guardando os
segredos para ns mesmos. "Est tudo bem. O nome secreto funcionou."
Ela concordou, satisfeita, e os olhos comearam a fechar.
"Ei." a voz de Carter tremulou. "Fique acordada. Voc no me deixar sozinho com
Sadie, vai? Ela  uma pssima companhia."
Zia tentou sorrir, mas o esforo a estremeceu. "Eu nunca... estive aqui, Carter. S uma
mensagem -- um espao reservado."
"Vamos. No. No tem jeito de falar."
"Ach-la, voc ir?" Zia disse. Uma lgrima caiu at ficar sob o seu nariz. "Ela iria...
gostar disso... uma data no shopping." Os seus olhos abandonaram os dele e fitaram
vagamente o cu.
"Zia!" Carter apertou sua mo. "Pare com isso. Voc no pode... voc no pode
simplesmente..."
Ajoelhei-me perto dele e toquei o rosto de Zia. Estava fria como pedra. E mesmo que
tivesse entendido o que aconteceu, no pude pensar em nada a dizer, ou algum jeito de
consolar meu irmo.
Ele fechou os olhos apertados e abaixou a cabea.
Ento aconteceu. Ao longo do percurso da lgrima de Zia, do canto do olho at o meio
do nariz, sua face rachou. Pequenas fraturas apareceram, tecendo sua pele. Seu corpo
secou, endurecendo... virando argila.
"Carter," eu disse.
"O qu?" ele disse miseravelmente.
Ele olhou para cima justo quando uma pequena luz azul saiu da boca de Zia e subiu ao
cu. Carter abaixou-se em choque. "O qu -- o que voc fez?"
"Nada," falei. "Ela  uma shabti. Ela disse que no estavam realmente aqui. Ela era
apenas um espao."
Carter pareceu confuso. Mas ento uma pequena luz comeou a acender nos seus olhos
-- uma pequena esperana.
"Ento... a Zia verdadeira est viva?"
"Iskandar estava protegendo ela," eu disse. "Quando o esprito de Nftis se juntos com
a Zia real em Londres, Iskandar soube que ela estava em perigo. Iskandar escondeu-a e
recolocou-a como uma shabti. Lembra o que Thoth disse: `Shabti faz excelentes
acrobacias duplas?'  o que ela era. E Nftis me contou que ela estava protegida em
algum lugar, dentro de um hospedeiro adormecido."
"Mas onde..."
"Eu no sei," eu disse. E no presente estado de Carter, fiquei com medo de erguer a
pergunta mais importante: Se Zia era uma shabti por todo esse tempo, ns conhecemos
ela completamente? A verdadeira Zia no tinha nem chegado perto de ns. Ela nunca
tinha descoberto a incrivelmente impressionante pessoa que eu era. Deus me livre, ela
no poderia nem ter gostado de Carter.
Carter tocou a sua face e ela virou p. Ele pegou sua varinha, que permanecia marfim
slido, mas ele segurou-a cuidadosamente como se tivesse medo que se dissolvesse
tambm.
"Aquela luz azul," ele comeou a falar, "eu vi Zia liberar uma em Primeiro Nome,
tambm. Como o shabti em Memphis -- eles mandaram seus pensamentos de volta a
Thoth. Ento Zia devia estar em contato com o seu shabti.  isso que a luz era. Eles
deviam estar, bem, compartilhando memrias, certo? Ela deve saber onde o shabti est
e o que est pensando. Se a Zia verdadeira est viva em algum lugar, ela pode estar
presa ou em algum tipo de magia para dormir ou -- Ns temos que ach-la!"
Eu no tinha certeza se seria to simples, mas no quis argumentar. El podia ver o
desespero na sua cara.
Ento uma voz familiar lanou um frio arrepio nas minhas costas. "O que vocs
fizeram?"
Desjardins estava literalmente defumando. Suas vestes esfarrapadas ainda queimadas
da batalha. (Carter diz que eu no deveria mencionar que seu bermudo rosa estava
aparecendo, mas estava!) Seu cajado estava inflamado, e os pelos da sua barba
entraram em combusto. Atrs deles estavam trs magos igualmente esgotados, que
pareciam como se tivessem voltado de recuperar a conscincia.
"Ah, bom," eu murmurei. "Vocs esto vivos."
"Vocs negociaram com Set?" Desjardins demandou. "Vocs o deixaram ir?"
"No vamos lhe responder," Carter rosnou. Ele se adiantou, com a mo na espada, mas
eu coloquei minha mo para det-lo.
"Desjardins," eu disse do modo mais calmo que pude, "Apep est se erguendo, no caso
de que voc perdeu essa parte. Precisamos dos deuses. A Casa da Vida precisa rever os
seus antigos mtodos."
"Os antigos mtodos nos destruram!" ele gritou.
Uma semana atrs, o seu olhar faria-me estremecer. Ele brilhava com bastante raiva, e
hierglifos queimaram ao seu redor. Ele era o Leitor Chefe, e eu havia acabado de
desfazer tudo que a Casa vinha trabalhando desde a queda do Egito. Desjardins era um
batimento cardaco de me transformar em inseto, e o pensamento me aterrorizou.
Ao invs disso, eu olhei para ele nos olhos. Agora, eu era mais poderosa do que ele.
Muito mais poderosa.
E eu deixei-o saber disso.
"O orgulho destruiu voc," eu disse. "Ganncia e egosmo e tudo mais.  difcil seguir
o caminho dos deuses. Mas isso  parte da magia. Voc no pode simplesmente ignorar
isso."
"Voc est bbada de poder," ele rosnou. "Os deuses lhe possuram, como eles sempre
fazem. Em breve voc vai esquecer at mesmo que  humana. Ns lutaremos e
destruiremos voc." Ento ele encarou Carter. "E voc -- eu sei o que Hrus exigiria.
Voc nunca ir reclamar o trono. Com meu ltimo suspiro --"
"Salve," eu disse. Depois olhei para o meu irmo. "Voc sabe o que temos de fazer?"
A compreenso passou entre ns. Surpreendi-me com qual facilidade eu pude l-la.
Pensei que poderia ser a influncia dos deuses, mas ento percebi que era porque
somos Kane, irmo e irm.
E Carter, deus me ajude, tambm era meu amigo.
"Voc tem certeza?" ele perguntou. "Estamos deixando-nos abertos." Ele encarou
Desjardins. "S mais uma pancada com a espada?"
"Eu tenho certeza, Carter."
Fechei meus olhes e foquei-me.
Considere com cuidado, sis disse. O que fizemos at agora e s o comeo do poder
que podemos exercer em conjunto.
 o problema, eu disse. No estou pronta para isso. Tenho que chegar no meu prprio e
difcil caminho.
Voc  sbia para uma mortal, sis disse. Muito bem.
Imagine recusar uma fortuna. Imagine jogar fora o mais lindo colar de diamantes do
mundo. Separar-me de sis era mais duro que isso, muito mais duro.
Mas no era impossvel. Eu sei meus limites, minha me havia dito, e agora entendi a
quo sbia ela foi.
Senti o esprito da deusa me deixar. Parte dela foi ao meu colar, mas a maioria fluiu ao
Monumento de Washington, de volta ao Duat, aonde sis iria... a algum lugar. Outro
hospedeiro? No sei.
Quando abri meus olhos, Carter estava perto de mim olhando aflito, segurando o Olho
de Hrus.
Desjardins estava to atordoado que esqueceu como falar ingls. "Iso nos  possvel.
Vocs non pod'riam --"
"Sim, poderamos," eu disse. "Ns abandonamos os deuses por nossa prpria vontade.
E voc tem muito a aprender sobre o que  possvel."
Carter abaixou a espada. "Desjardins, eu no estou acerca do trono. Muito menos peg-
lo para mim, e isso levaria muito tempo. Vamos descobrir o caminho dos deuses. Ns
vamos ensinar outros. Voc pode gastar tempo tentando destruir-nos, ou pode nos
ajudar."
As sirenes estavam muito mais prximas agora. Pude ver as luzes das ambulncias
vindo de diversas direes. Lentamente contornando o Mercado Nacional. Tnhamos
poucos minutos antes de sermos cercados.
Desjardins olhou para os magos atrs dele, provavelmente estimando quanta ajuda ele
poderia reunir.
Os magos olharam com admirao. Um at comeou a se curvar a mim, ento ficou
ereto novamente.
Sozinho, Desjardins poderia destruir-nos. ramos s magos agora -- magos muito
cansados, sem nenhum treino formal.
As narinas de Desjardins se alargaram. Ento ele me surpreendeu abaixando o seu
cajado. "J tivemos muita destruio hoje. Mas o caminho dos deuses continuar
fechado. Se voc cruzar a Casa da Vida novamente..."
Ele deixou a ameaa no ar. Ele baixou o cajado, e numa ltima exploso de energia, os
quatro magos se dissolveram em ar e partiram.
De repente me senti exausta. O terror que eu acabei de passar comeou a afundar. Ns
sobrevivemos, mas esse era um pequeno consolo. Perdi meus pais. Os perdi
terrivelmente.
Eu no era mais uma deusa.
Eu era apenas uma simples garota agora, sozinha com o seu irmo.
Ento Amos gemeu e comeou a se sentar.
Carros de polcia e estranhas vans pretas frearam ao nosso redor. Sirenes tocavam. Um
helicptero cortou o ar acima do Potomac, fechando rpido.
S Deus sabia o que os mortais pensavam que havia acontecido no Monumento de
Washington, mas eu no queria ter minha cara estampada nos telejornais noturnos.
"Carter, precisamos sair daqui," eu falei. "Voc pode convocar magia o bastante para
transformar Amos em algo pequeno -- um rato, talvez? Podemos voar com ele."
Ele concordou ainda aturdido. "Mas Papai... ns no..."
Ele olhou ao redor perdidamente. Eu sabia como ele se sentia. A pirmide, o trono, o
caixo dourado -- tudo aquilo se foi. Fomos to longe para resgatar nosso pai, s para
perd-lo.
E a primeira namorada de Carter estava aos seus ps numa pilha de cacos de cermica.
Aquilo provavelmente no ajudou muito. (Carter protesta que ela no era realmente a
sua namorada. Ah, por favor!)
Eu no podia me debruar sobre ele. Eu tinha de ser forte por ns dois ou acabaramos
na priso.
"Antes de tudo," eu disse. "Precisamos achar algum lugar seguro para Amos.
"Onde?" Carter perguntou.
S havia um lugar em que podia pensar.
                                  QUARENTA E UM

            NS PARAMOS A GRAVAO, POR ENQUANTO
EU NO ACREDITO QUE SADIE VAI ME DEIXAR ter a ltima palavra. Nossa
experincia juntos deve ter ensinado algo a ela. Ai, ela acabou de me bater. Esquece.
De todo jeito, estou feliz por ela ter falada a ltima parte. Acho que ela entendeu melhor
que eu. E toda aquela coisa de Zia no ser Zia e papai no ser resgatado... aquilo foi
bem difcil de lidar.
Se algum se sentiu pior que eu, foi Amos. Eu tinha energia apenas para me transformar
em falco e ele em hamster (ei, eu estava com presa!), mas a algumas milhas do
National Mall, ele comeou a lutar para voltar. Sadie e eu fomos obrigados a pousar do
lado de fora de uma estao de trem, onde Amos voltou a forma humana e se fechou
em uma bola tremula. Ns tentamos falar com ele, mas ele mal podia terminar uma
frase.
Finalmente ns entramos com ele na estao. Deixamo-lo dormir num banco enquanto
Sadie e eu aquecamos e vamos as notcias.
De acordo com o Canal 5, toda a cidade de Washington estava cercada. Havia relatos de
exploses e estranhas luzes no Monumento Washington, mas tudo que as cmeras
conseguiram mostrar foi uma grande praa de neve derretida, o que ficou mais para
vdeo tedioso. Especialistas apareceram e falaram sobre terrorismo, mas depois se
percebeu que no houve danos permanentes--- s um punhado de luzes assustadoras.
Depois de um tempo, a mdia comeou a especular sobre uma atividade chuvosa
estranha ou uma rara apario da Aurora Boreal. Com uma hora, as autoridades abriram
a cidade.
Desejei que tivssemos Bast conosco, porque Amos no estava em condies de ser
nossa dama de honra; mas ns tratamos de comprar tickets para nosso tio "doente" e ns
para bem longe de Nova York.
Eu dormi no caminho, o amuleto de Horus seguro na minha mo.
Ns chegamos de volta ao Brooklin no pr-do-sol.
Achamos a manso em cinzas, como esperado, mas no tnhamos para onde ir mais. Eu
soube que fizemos a escolha certa quando guiamos Amos pela porta e escutamos um
familiar, "Agh! Agh!"
"Khufu!" Sadie chorou.
O babuno a pegou num abrao e subiu por seus ombros. Ele procurou pelo cabelo dela,
vendo se ela trouxe algum inseto bom para ele comer. Ento ele pulou fora e agarrou
uma bola de basquete meio derretida. Ele grunhiu para mim insistentemente, apontando
para uma cesta feita com algumas vigas queimadas e uma cesta de lavanderia. Era um
gesto de perdo, percebi. Ele estava me perdoando por estragar com seu jogo favorito e
estava oferecendo aulas. Olhando em volta, notei que ele havia tentado limpar do seu
jeito babuno, tambm. Ele limpou o nico sof que sobrou, estocou as caixas de
Cheerios na lareira, e at mesmo colocou um prato de gua e comida frescas para
Muffin, que estava curvada dormindo num pequeno travesseiro. Na parte mais clara da
sala de estar, sob uma seo intacta de telhado, Khufu fez trs montes separados de
travesseiros e cobertores--- lugares de dormir para ns.
Um caroo apareceu na minha garganta. Vendo o cuidado que ele tomou se preparando
para ns, no pude imaginar melhor presente de boas vindas.
"Khufu" eu disse "voc  um babuno incrvel."
"Agh!" disse ele, apontando a bola de basquete."
"Voc quer me ensinar?" eu disse. "Sim, eu mereo. S nos d um segundo para..."
Meu sorriso derreteu quando eu vi Amos.
Ele se arrastou at a esttua arruinada de Thoth. A cabea de bis rachada do deus aos
seus ps. Suas mos haviam quebrado e sua prancheta e a agulha partidas no cho.
Amos olhou para o deus sem cabea--- o patrono dos magos--- e eu pude adivinhar o
que ele estava pensando. Um mau pressgio para a chegada.
"T tudo bem." Eu disse a ele. "Ns vamos concert-la."
Se Amos me ouviu, ele no demonstrou. Ele escorregou para o sof e desabou, pondo as
mos na cabea.
Sadie me encarou desconfortavelmente. Ento ela olhou ao redor para as paredes
enegrecidas, as linhas caindo, os restos dos mveis queimados.
"Bem," ela disse, tentando soar descontrada. "Que tal eu jogar basquete com Khufu, e
voc pode limpar a casa?"
Mesmo com mgica, ns levamos semanas para pr a casa em ordem novamente. Isso
s para torn-la habitvel. Foi difcil sem Isis e Horus ajudando, mas ns ainda
podamos fazer mgicas. S tomou mais concentrao e tempo. Todo dia, eu ia dormir
sentindo como se tivesse feito doze horas de trabalho braal; mas depois ns tivemos
paredes e rejuntes reparado, e limpamos os restos at nossa casa no ter mais cheiro de
fumaa. Ns at mesmo conseguimos ajeitar a varanda e a piscina. Trouxemos Amos
para fora para assistir quando ns soltamos a esttua de cera de um crocodilo na gua, e
Felipe da Macednia saltou para a vida.
Amos quase sorriu quando viu isso. Ento ele se afundou numa cadeira no terrao e
ficou olhando desoladamente para os arranhas cus de Manhattan.
Comecei a pensar se ele seria o mesmo, algum dia. Ele havia perdido muito peso. Sua
face parecia abatida. Na maioria dos dias ele estava de robe de banho e nem mesmo se
importava em pentear o cabelo.
"Ele foi levado por Set." Sadie me disse uma manh, quando mencionei o quo
preocupado estava. "Voc tem alguma idia do quanto isso  violador? A vontade dele
foi partida. Ele duvida dele mesmo e... bom, isso pode durar por um tempo..."
Ns tentamos nos perder em trabalho. Reparamos a esttua de Thoth, e consertamos o
shabti na biblioteca. Eu era melhor no trabalho pesado--- movendo blocos de pedra ou
colocando vigas do teto no lugar. Sadie era melhor em pequenos detalhes, como reparar
hierglifos gravados nas portas. Uma vez, ela realmente me surpreendeu imaginando
seu quarto como tinha sido antes e falando o feitio, hi-nehm. Pedaos de fuligem
flutuaram juntos para fora dos detritos e, boom! : reparo instantneo. Claro, Sadie
dormiu doze horas depois disso, mesmo assim... muito legal. Lentamente, mas com
certeza, a manso comeou a parecer com nosso lar.
A noite eu dormia com a minha cabea numa almofada encantada, que impediu meu ba
de escapar; mas algumas vezes eu ainda tive estranhas vises--- a pirmide vermelha, a
serpente no cu, ou o rosto do meu pai como se ele estivesse preso no caixo de Set.
Uma vez pensei ter ouvido a voz de Zia tentando me contar alguma coisa de longe, mas
eu no pude entender as palavras.
Sadie e eu mantivemos nossos amuletos trancados em uma caixa na biblioteca. Toda
manh eu dava uma espiada para conferir se eles estavam l ainda. Eu os acharia
brilhando, quentes como tochas, e eu ficaria tentado--- muito tentado--- a colocar o
Olho de Horus. Mas eu sabia que no podia. O poder era muito viciante, muito
perigoso. Eu havia alcanado um balano com Horus uma vez, sob circunstncias
extremas, mas eu sabia que seria muito fcil ser oprimido se eu tentasse de novo. Eu
tinha que treinar antes, tornar-me um mago mais poderoso, antes de conseguir manusear
tanto poder.
Uma noite, no jantar, tivemos um visitante.
Amos havia ido pra cama cedo, como ele costumava fazer. Khufu estava dentro vendo
ESPN com Muffin no seu colo. Sadie e eu sentamos exaustos no deck olhando para o
rio. Felipe da Macednia flutuava silenciosamente na sua piscina. Exceto pelos sons da
cidade, a noite estava quieta.
No tenho certeza de como aconteceu, mas em um minuto estvamos sozinhos e no
outro, havia um cara parado na grade. Ele era magro e alto, com cabelo assanhado e
pele plida, e suas roupas eram toda preta, como se ele tivesse assaltado um sacerdote
ou coisa assim. Ele tinha aproximadamente sessenta, e mesmo que eu nunca o tivesse
visto antes, tinha a estranha sensao de que o conhecia.
Sadie levantou to rpido que bateu na sopa de ervilha--- que era grossa o suficiente na
bacia, mas correndo pela mesa? Yuck.
"Anbis!" ela disse.
Anbis? Achei que ela estivesse brincando, porque esse cara no se parecia em nada
com o deus escravo cabea de chacal que eu havia visto na Terra dos Mortos. Ele deu
um passo a frente e minha mo foi para o meu basto.
"Sadie," ele disse. "Carter. Viriam comigo, por favor?"
"Claro" Sadie disse com uma voz um pouco esganiada.
"Espera ai," falei. "Aonde ns vamos?"
Anbis gesticulou atrs dele e uma porta abriu no ar--- um puro retngulo negro.
"Algum quer v-los."
Sadie pegou a mo dele e foi atravs da escurido, o que me deixou sem escolha a no
ser segui-la.
O Saguo do Julgamento havia passado por reformas. A balana dourada ainda
dominava a sala, mas ela havia sido reparada. Os pilares negros continuavam at a
penumbra nos quatro lados. Mas agora eu podia ver o revestimento--- o estranho
holograma do mundo real--- e no era mais um cemitrio, como Sadie havia dito. Era
uma sala branca com limites altos e enormes janelas. Portas duplas levavam para um
terrao com vista para o oceano.
Eu estava sem palavras. Olhei para Sadie e a julgar pelo choque no rosto dela, adivinhei
que ela reconheceu o lugar tambm: nossa casa em Los Angeles, no morro, com vista
para o Pacfico--- o ltimo lugar que vivemos como famlia.
"O Saguo do Julgamento  intuitivo," disse uma voz familiar. "Ele responde a
memrias fortes."
S ento percebi que o trono no estava mais vazio. Sentado l, com Ammit o
Devorador deitado aos seus ps, estava nosso pai.
Eu quase corri at ele, mas alguma coisa me segurou. Ele parecia o mesmo de vrias
maneiras--- o cassaco longo marrom, o terno amarrotado e botas empoeiradas, sua
cabea recentemente raspada e sua barba aparada. Seus olhos brilhavam do jeito que
faziam quando eu o deixava orgulhoso.
Mas sua forma brilhava com uma luz estranha. Como o quarto mesmo, notei, ele existia
em dois mundos. Concentrei-me mais e meus olhos abriram para um nvel mais fundo
no Duat.
 Papai continuava l, mas mais alto e forte vestido nas roupas e com as jias de um
fara Egpcio. A pele dele estava de um azul escuro parecido com o oceano profundo.
Anbis andou at parar do lado dele, mas Sadie e eu fomos um pouco mais cuidadosos.
"Bem, vamos l," papai falou. "Eu no vou morder."
Ammit o Devorador grunhiu enquanto nos aproximamos, mas papai acariciou sua
cabea de crocodilo e o silenciou. "Eles so minhas crianas, Ammit. Comporte-se."
"P-pai?" eu gaguejei.
Agora eu quero ser claro: mesmo semanas tendo se passado desde a batalha com Set, e
mesmo depois de eu estar ocupado reconstruindo a manso, o tempo todo eu no parei
de pensar em nosso pai por um minuto. Toda vez que eu via uma foto na biblioteca, eu
pensava nas histrias que ele costumava me contar. Eu guardei minhas roupas numa
mala no armrio do meu quarto, porque no podia suportar a idia de que nossa vida de
viagens juntos havia acabado. A despeito disso tudo, e toda emoo borbulhando dentro
de mim, tudo que pude pensar para dizer foi: "Voc t azul."
A risada do meu pai foi to normal, to ele, que quebrou toda a tenso. O som ecoou
atravs do salo, e at mesmo Anbis arriscou um sorriso.
"Veio com o territrio," papai disse. "Desculpe no t-los trazido aqui antes, mas as
coisas andaram meio..." ele olhou para Anbis pela palavra certa.
"Complicadas," Anbis sugeriu.
"Complicadas. Minha inteno  dizer a vocs o quanto estou orgulhoso, o quanto os
deuses esto em dvida com voc---"
"Espera ai." Disse Sadie. Ela andou at a frente do trono. Ammit grunhiu para ela, mas
Sadie grunhiu de volta, o que confundiu o monstro em silncio.
"O que  voc?" ela falou. "Meu pai? Osris? Voc est vivo pelo menos?"
Papai olhou para Anbis. "O que eu te disse sobre ela? Mais feroz que Ammit, eu
disse."
"Voc no precisa me dizer." O rosto de Anbis estava grave. "Aprendi a temer essa
lngua ferina."
Sadie parecia ultrajada. "Como ?"
"Para responder a sua pergunta," papai falou, "Eu sou os dois, Osris e Julius Kane.
Estou vivo e morto, mas reciclado seja o termo mais prximo da verdade, suponho.
Osris  o deus da morte, e o deus da nova vida. Para ele retornar a seu trono---"
"Voc teve que morrer," eu disse. "Voc sabia que isso ia acabar assim. Voc abrigou
Osris intencionalmente sabendo que voc morreria."
Eu estava tremendo com raiva. No havia percebido o quo bravo eu estava com relao
a isso, mas no podia acreditar no que meu pai havia feito. "Isso  o que voc queria
dizer com `fazer as coisas se acertarem'?"
A expresso do meu pai no mudou. Ele continuava olhando para mim com orgulho e
sincero gozo, como se tudo que eu tivesse dito o deleitasse-- at mesmo meus gritos.
Era irritante.
"Senti sua falta, Carter," ele disse. "No posso dizer o quanto. Mas ns fizemos a
escolha certa. Todos ns fizemos. Se voc tivesse me salvado no mundo acima, ns
teramos perdido tudo. Pela primeira vez em milnios, ns temos a chance de renascer, e
a chance de para o caos por causa de voc."
"Tinha que haver outro jeito," falei. "Voc podia ter lutado como um mortal, sem...
sem---"
"Carter, quando Osris estava vivo, ele era um grande deus. Mas quando morreu---"
"Tornou-se milhares de vezes mais poderoso." eu disse, relembrando da histria que
papai costumava contar para mim.
Meu pai concordou. "O Duat  o fundamento para o mundo real. Se h caos aqui, isso
reflete no mundo superior. Ajudar Osris para seu trono foi um primeiro passo, milhes
de vezes mais importante que qualquer coisa que eu podia ter feito no mundo acima---
exceto ser seu pai. E eu ainda o sou."
Meus olhos arderam. Eu acho que entendi o que ele quis dizer, mas no gostei. Sadie
parecia ainda mais enfurecida que eu, mas ela estava discutindo com Anbis.
"Lngua ferina?" ela gritou.
Papai limpou a garganta. "Crianas, h outro motivo para eu ter feito minha escolha,
como voc provavelmente podem adivinhar." Ele estendeu a mo e uma mulher num
vestido negro apareceu prxima a ela. Ela tinha cabelos dourados, olhos azuis
inteligente, e um rosto que parecia familiar. Ela parecia com Sadie.
"Mame" eu disse.
Ela olhou para Sadie e para mim em espanto, como se ns fossemos os fantasmas.
"Julius me disse o quando voc tinha crescido, mas no pude acreditar. Carter, aposto
que voc est se barbeando---"
"Me."
"---e namorando garotas---"
"Me!" Vocs j perceberam o quanto os pai podem ir das pessoas mais lindas do
mundo para totalmente embaraosas em trs segundos?
Ela sorriu para mim e eu tive que lutar com uns vinte sentimentos diferentes de uma
vez. Passei anos sonhando em estar de volta com meus pais, juntos, para nossa casa em
L.A. Mas no como isso: no com a casa como uma miragem, e minha me um esprito,
e meu pai... reciclado. Eu sentia como se o mundo estivesse derretendo sob meus ps,
transformando em areia.
"Ns no podemos voltar, Carter." Mame disse como se lendo minha mente. "Mas
nada est perdido, mesmo na morte. Voc se lembra da lei da conservao?"
J faziam seis anos desde que nos sentamos juntos no salo--- este salo, e ela leu para
mim as leis da fsica do jeito que a maioria dos pais lem histrias de ninar. Mas eu
ainda me lembrava. "Energia e matria no podem ser criadas ou destrudas."
"Apenas mudadas," minha me concordou. "E alguma vezes mudado para a melhor."
Ela pegou a mo de papai e eu tive que admitir--- azul e fantasmagrico ou no--- eles
pareciam felizes.
"Me," Sadie engoliu. Pela primeira vez, sua ateno no estava em Anbis. "Voc
realmente... aquilo era---"
"Sim, minha brava garota. Meus pensamentos se juntaram aos seus. Estou to orgulhosa
de voc. E graas a Isis, senti como se conhecesse voc." Ela se inclinou para frente e
sorriu conspiradoramente. "Eu gosto de chocolate e caramelos, tambm, mesmo sua av
no aprovando manter doces no flat."
Sadie abriu um sorriso aliviado. "E sei! Ela  impossvel!"
Eu tive o pressentimento de que elas iam conversar por horas, mas justo ai o Saguo do
Julgamento tremeu. Papai conferiu o relgio, o que me fez pensar qual o fuso horrio na
Terra dos Mortos.
"Ns temos que arrumar as coisas," ele disse. "Os outros esto nos esperando."
"Outros?" perguntei.
"Um presente antes de vocs irem." Papai acenou para mame.
Ela se aproximou e me entregou um pacote do tamanho da palma, de linho preto
dobrado. Sadie me ajudou a desenrol-lo e dentro havia um novo amuleto--- um que se
parecia com uma coluna ou um tronco de rvore ou...
"Isso  uma espinha?" Sadie falou.
" chamada de djed" papai disse. "Meu smbolo--- a espinha de Osris."
"Eca," Sadie murmurou.
Mame riu. " um pouco `eca', mas honestamente,  um smbolo poderoso. D
estabilidade, fora---"
"Espinha dorsal?" perguntei.
"Literalmente." Mame me deu um olhar de aprovao, e de novo tive a sensao
surreal de derretimento. No podia acreditar que estava parado aqui, batendo papo com
meus pais tipo mortos.
Mame fechou o amuleto em minhas mos. Seu toque era quente, como uma pessoa
viva. "Djed tambm d o poder de Osris--- vida renovada das cinzas da morte. Isso 
exatamente o que vocs vo precisar se esto para agitar o sangue dos faras em outros
e reconstruir a Casa da Vida."
"A Casa no vai gostar disse." Sadie o colocou.
"No." Mame disse alegremente. "Eles certamente no vo."
O Saguo do Julgamento tremeu novamente.
" hora." Papai disse. "Veremos-nos de novo, crianas. Mas at l, cuidem-se."
"Sejam atentos com seus inimigos." Mame adicionou.
"E digam a Amos..." a voz de papai parou em pensamento. "Relembrem o meu irmo
de que os Egpcios acreditam no poder no nascer do sol. Eles acreditam que cada manh
trs no s um novo dia, mas um novo mundo."
Antes que eu pudesse adivinhar o que aquilo significava, o Saguo do Julgamento
sumiu, e ns paramos com Anbis em um campo escuro.
"Eu mostrarei o caminho," Anbis disse. " meu trabalho."
Ele nos guiou para um espao na escurido que no parecia diferente de nenhum outro.
Mas quando ele nos puxou com sua me, uma porta se abriu. A entrada se encheu com a
luz do dia.
Anbis se curvou formalmente para mim. Ento ele olhou para Sadie com um ar de
mistrio nos olhos. "Tem sido... estimulante."
Sadie apontou para ele acusadoramente. "Ns no acabamos anda, mocinho. Eu espero
que voc cuide dos meus pais. E da prxima vez que eu estiver na Terra dos Mortos,
voc e eu teremos uma conversa."
Um sorriso atingiu o canto da boca dele. "Eu vou procurar por isso."
Ns passamos pelo portal e entramos no palcio dos deuses.
Era justamente como Sadie havia descrito das suas vises: colunas de pedra altas,
braseiros ardentes, um cho de mrmore polido, e no meio do salo, um trono vermelho
e dourado. Toda a nossa volta, deuses haviam se juntado. Muitos eram apenas flashes de
luz e fogo. Alguns eram imagens sombrias que mudavam de forma animal para humana.
Reconheci uns poucos: Thoth tremulou como um cara de cabelos selvagens em um
jaleco de cientista antes de se transformar em uma nuvem de grama verde; Hathor, o
deus cabea-de-vaca, deu-me um olhar enigmtico, como se ela vagamente se lembrasse
de mim do episdio da Salsa Mgica. Procurei por Bast, mas meu corao caiu. Ela no
parecia estar na populao. De fato, a maioria dos deuses eu no reconheci.
"O que ns comeamos?" Sadie murmurou.
Eu entendi o que ela quis dizer. A sala do trono estava cheia de milhares de deuses,
maiores e menores, todos perambulando pelo palcio, formando novas formas,
brilhando com poder. Um exrcito inteiro sobrenatural... e todos pareciam estar nos
encarando.
Ainda bem que dois velhos amigos estavam perto do trono. Horus estava com armadura
completa e uma espada do seu lado. Seus olhos co-alinhados--- um dourado, outro
prateado--- estavam to penetrantes quanto nunca. Ao seu lado estava Isis em um
vestido branco brilhante, com asas de luz.
"Bem vindos" Horus disse.
"Um, oi." Eu falei.
"Ele tem jeito com as palavras" Isis murmurou o que fez Sadie resfolegar.
Horus gesticulou para o trono. "Conheo seus pensamentos, Carter, ento acho que sei o
que voc vai dizer. Mas tenho que perguntar uma vez mais. Voc se juntar a mim? Ns
poderamos governar a terra e os cus. Ma'at exige um lder."
", foi o que eu ouvi."
"Eu seria forte com voc como meu hospedeiro. Voc apenas tocou a superfcie do que
Combate com Magia pode fazer. Ns poderamos realizar grandes coisas, e  o seu
destino liderar a Casa da Vida. Voc poderia ser o trono de dois reinos."
Eu olhei para Sadie, mas ela s deu de ombros. "No olhe pra mim. Eu achei a idia
horripilante."
Horus franziu para ela, mas a verdade era que eu concordava com Sadie. Todos esses
deuses esperando por direcionamento, todos esses magos que nos odiavam--- a idia de
tentar lider-los fez meus joelhos virarem gua.
"Talvez um dia," falei. "Bem mais tarde."
Horus suspirou. "Cinco milhes de ano e eu continuo no entendendo os mortais. Mas--
- muito bem."
Ele andou at o trono e olhou em volta para a assemblia dos deuses.
"Eu, Horus, Filho de Osris, reclamo o trono dos cus como meu direito por nascena!"
ele gritou. "O que foi meu uma vez deve ser meu novamente. Tem algum que queria
me desafiar?"
Os deuses vacilaram e brilharam. Uns poucos fizeram cara feia. Um murmurou algo que
soou como "Queijo" embora possa ter sido minha imaginao. Eu tive um vislumbre de
Sobek, ou possivelmente outro deu cabea de crocodilo, roncando nas sombras. Mas
ningum levantou um desafio.
Horus tomou seu lugar no trono. Isis trouxe para ele crook e flail--- os cetros gmeos
dos faras. Ele os cruzou por sobre o peito e todos os deuses se curvarem perante ele.
Quando eles se levantaram de novo, Isis foi para nossa frente. "Carter e Sadie Jane,
vocs fizeram muito para restaurar Ma'at. Os deuses uniram suas foras e vocs nos
deram tempo, mesmo ns no sabendo quando. Apophis no vai ficar trancado para
sempre."
"Eu o selei por uns milhares de anos." Disse Sadie.
Isis sorriu. "Seja como for, hoje vocs so heris. Os deuses devem a vocs uma dvida,
e ns levamos as dvidas a srio."
Horus levantou-se do trono. Com uma piscada pra mim, ele ajoelhou-se perante ns. Os
outros deuses olharam inconfortveis, mas ento seguiram seu exemplo. Mesmo os
deuses em forma de fogo diminuram suas chamas.
Eu provavelmente parecia petrificado, porque quando Horus se levantou de novo ele riu.
"Voc est parecendo como daquela vez em que Zia disse a voc---"
", podemos pular essa parte?" Eu disse rapidamente. Deixar um deus entrar na sua
cabea tem srias desvantagens.
"Vo em paz, Carter e Sadie." Horus disse. "Vocs acharo nosso presente pela
manh."
"Presente?" perguntei nervoso, porque se eu tivesse mais um amuleto mgico, eu
comearia a suar frio.
"Vocs vero." Isis prometeu. "Ns vamos ficar assistindo e esperando."
"Isso  o que me preocupa." Sadie disse.
Isis moveu a mo, e de repente ns estvamos de volta ao terrao da manso como se
nada tivesse acontecido.
Sadie virou para mim saudosamente. "Estimulante."
Eu estendi minha mo. O amuleto djed estava brilhante e aquecido no seu envoltrio de
linho. "Alguma idia do que essa coisa faz?"
Ela piscou. "Hmm? Ah, no se importe. Como Anbis se pareceu para voc?"
"Como ele... se pareceu com um cara. E da?"
"Um cara boa pinta ou um vagabundo com cabea-de-cachorro?"
"Acho que... no o cabea-de-cachorro."
"Sabia!" Sadie apontou para mim como se ela tivesse ganhado um argumento. "Boa
pinta. Sabia!"
E com um sorriso largo ridculo, ela girou e entrou na casa.
Minha irm, como eu devo ter mencionado,  um pouco estranha.
No dia seguinte, ns recebemos o presente dos deuses.
Ns acordamos para descobrir que a manso foi completamente reparada at o menor
detalhe. Tudo que ns no tnhamos terminado ainda--- provavelmente outros meses de
trabalho pesado--- estava feito.
A primeira coisa que eu achei foram roupas novas no meu guarda-roupa, e depois de
alguns momentos de hesitao, as coloquei. Eu desci as escadas e achei Khufu e Sadie
danando pela Sala de Estar consertada. Khufu tinha uma nova camisa dos Lakers e
uma bola de basquete. As vassouras e esfreges mgicos estavam ocupados fazendo sua
rotineira faxina. Sadie olhou pra mim com um sorriso--- e ento sua expresso mudou
para choque.
"Carter, o qu--- o qu voc est vestindo?"
Eu desci as escadas, sentindo-me ainda mais constrangido. O guarda-roupa me ofereceu
vrias escolhas esta manh, no apenas meu robe de linho. Minhas roupas antigas
estavam l, limpas--- uma camisa e boto, short cqui, tnis. Mas parecia haver tambm
uma terceira escolha, e eu a escolhi: Reeboks, jeans azul, camiseta e um capuz.
", hmm, tudo algodo," eu falei. "Okay para a magia. Papai provavelmente me acharia
parecido com um gangster..."
Eu pensei com certeza que Sadie ia tirar sarro por causa disso, e eu estava tentando me
antecipar ao soco. Ela examinou cada detalhe da minha aparncia.
Ento ela riu com absoluto deleite. " brilhante, Carter. Voc quase se parece com um
adolescente comum! E papai pensaria..." Ela ps o capuz sobre minha cabea. "Papai
acharia que voc se parece como um mago impecvel, porque  isso que voc . Agora,
vamos. O caf est esperando no ptio."
Ns estvamos atacando a comida quando Amos saiu e sua mudana de roupas foi
ainda mais surpreendente que a minha. Ele estava com um novo terno cor de chocolate
com um casaco combinando. Seus sapatos estavam lustrados, seus culos redondos
polidos, seu cabelo penteado com gostas de mbar. Sadie e eu olhamos para ele.
"O que?" ele demandou.
"Nada." Dissemos em unssono. Sadie olhou para mim e pronunciou O-M-G, ento
voltou para seu bacon com ovos. Eu ataquei minhas panquecas. Felipe boiou
alegremente na sua piscina de nadar.
Amos juntou-se a ns na mesa. Ele estralou os dedos e caf magicamente encheu o
copo. Eu levantei minhas sobrancelhas. Ele no tinha usado magia desde os Dias do
Demnio.
"Acho que vou sair um pouco," ele anunciou. "Para a Primeira Nome."
Sadie e eu lanamos olhares.
"Tem certeza que  uma boa idia?" perguntei.
Amos deu um pequeno gole no seu caf. Olhou atravs do East River como se ele
pudesse ver todo o caminho at Washington, D.C. "Eles tm os melhores curandeiros
mgicos l. Eles no vo recusar algum que se oferece pra ajudar--- mesmo eu. Eu
acho... acho que devia tentar."
Sua voz estava frgil, como se fosse quebrar a qualquer momento. Mesmo assim, era o
mximo que ele falava em semanas.
"Eu acho isso brilhante," Sadie respondeu. "Ns vamos tomar conta do lugar, no
vamos, Carter?"
"Sim," falei. "Com certeza."
"Eu devo ficar fora por um tempo," Amos disse. "Tratem-na como se fosse seu lar. 
seu lar." Ele hesitou como se estivesse escolhendo bem as prximas palavras. "E eu
acho, talvez, vocs devessem comear a recrutar. Existem muitas crianas pelo mundo
com sangue dos faras. A maioria no sabe o que so. O que vocs dois disseram em
Washington--- sobre descobrir o caminho dos deuses--- pode ser nossa nica chance."
Sadie ficou de p e beijou Amos na testa. "Deixa com a gente, tio. Eu tenho um plano."
"Isso," eu falei. "Soa como pssimas notcias."
Amos direcionou um sorriso. Ele apertou as mos de Sadie, ento ficou de p e
bagunou meu cabelo enquanto ia para dentro.
Eu peguei outro pedao da minha panqueca e fiquei pensando por que--- em uma manh
to boa--- eu ainda me sentia triste e um pouco incompleto. Eu supus que com tantas
coisas ficando melhores de repente, as coisas que ainda faltavam doam ainda mais.
Sadie pegou seus ovos mexidos. "Acho que seria egosmo pedir mais."
Eu a encarei, e percebi que estvamos pensando a mesma coisa. Quando os deuses
disseram presente... bem, voc pode esperar por coisas, mas como Sadie disse, acho que
voc no pode ser ganancioso.
"Vai ser difcil viajar se precisamos recrutar." Eu disse cautelosamente. "Dois menores
sem companhia."
Sadie concordou. "Sem Amos. Sem adultos responsveis. No acho que Khufu conte."
E foi quando os deuses completaram seu presente.
Uma voz vinda da porta falou, "Parece que vocs tm uma vaga de trabalho."
Voltei-me e senti toneladas de preocupao caindo dos meus ombros. Encostada contra
a porta em um traje de leopardo pintado estava uma mulher de cabelos negros com
olhos dourados e duas facas grandes.
"Bast!" Sadie chorou.
A deusa gata nos deu um sorriso divertido, como se ela tivesse todo tipo de problemas
na cabea. "Algum pediu por uma dama de honra?"
Alguns dias depois, Sadie teve uma longa conversa com Vov e Vov Faust em
Londres. Eles no pediram pra falar comigo, e eu no escutei. Quando Sadie voltou a
sala de estar, ela tinha um olhar distante no rosto. Eu estava com medo--- muito medo---
que ela estivesse sentindo falta de Londres.
"Ento?..." eu perguntei relutantemente.
"Eu disse a eles que estamos bem," ela falou. "Eles disseram que a polcia parou de
importun-los sobra  exploso no Museu Britnico. Aparentemente a Pedra de Rosetta
reapareceu intocada."
"Como mgica." Falei.
Sadie sorriu tristemente. "A polcia decidiu que deve ter sido uma exploso de gs,
algum tipo de acidente. Papai est fora do gancho, e ns tambm. Eu poderia voltar para
Londres, eles disseram. O semestre de Primavera comea em algumas semanas. Minhas
amigas Liz e Emma estiveram perguntando por mim."
O nico som era o estalar do fogo na lareira. A sala de estar de repente parecia maior
pra mim, mais vazia.
Por fim eu disse. "O que voc disse para eles?"
Sadie levantou uma sobrancelha. "Deus, voc  tapado algumas vezes. O que voc
acha?!"
"Ah," minha boca parecia como lixa. "Eu acho que vai ser bom ver seus amigos e voltar
para seu antigo quarto, e---"
Sadie deu um soco no meu brao. "Carter! Eu disse que no podia ir para casa, porque
eu j estava em casa. Aqui  onde eu perteno. Graas ao Duat posso ver meus amigos
quando quiser. E alm do mais, voc estaria perdido sem mim."
Eu devia estar sorrindo como um idiota, porque Sadie me disse para limpar o jeito bobo
da cara--- mas ela parecia satisfeita com isso. Suponho que ela estava certa, uma vez. Eu
estaria perdido sem ela. [E no, Sadie, eu no posso acreditar que disse isso, tambm.]
S quando as coisas comearam a se acertarem em uma rotina legal, Sadie e eu
embarcamos em nossa nova misso. Nosso destino era uma escola que Sadie havia visto
em um sonho. Eu no vou contar qual escola, mas Bast dirigiu por um longo caminho
at l. Ns gravamos esta fita a caminho. Inmeras vezes as foras do caos tentaram nos
parar. Inmeras vezes ouvimos rumores que nossos inimigos comearam a caar outros
descendentes dos faras, tentando frustrar nossos planos.
Ns chegamos a escola no dia antes de o semestre de Primavera comear. Os corredores
estavam vazios, e foi fcil escorregar para dentro. Sadie e eu escolhemos um armrio
aleatoriamente e ela me disse para colocar a combinao. Eu invoquei um pouco de
mgica e mexi nos nmeros: 13/32/33. Ei, pra que mexer com uma boa frmula?
Sadie disse um feitio e o armrio comeou a brilhar. Ento ela colocou o pacote dentro
e fechou a porta.
"Voc tem certeza disso?" perguntei.
Ela concordou. "O armrio est parcialmente no Duat. Vai guardar o amuleto at que a
pessoa certa o abra."
"Mas se o djed cair em mos erradas---"
"No vai," ela prometeu. "O sangue dos faras  forte. As crianas certas vo achar o
amuleto. Se eles descobrirem como us-lo, seus poderes devem despertar. Ns temos
que confiar que os deuses os guiaro para o Brooklin."
"Ns no saberemos como ensin-los," eu argumentei. "Ningum estudou o caminho
dos deuses por dois mil anos."
"Ns descobriremos," Sadie falou. "Temos que faz-lo."
"A menos que Apophis nos pegue primeiro," eu disse. "Ou Desjardins e a Casa da Vida.
Ou a menos que Set quebre sua palavra. Ou um milho de outras coisas d errado."
"Sim," Sadie falou com um sorriso. "Divirta-se, certo?"
Trancamos o armrio e fomos andando.
Agora estvamos de volta ao Nmero Vinte e um no Brooklin.
Vamos enviar esta fita para algumas pessoas cuidadosamente selecionadas e ver se
conseguimos publicao. Sadie acredita em destino. Se a histria cair em suas mos,
provavelmente tem uma razo. Procure pelo Djed. No vai demorar muito para
despertar seu poder. Ento o truque  aprender a usar o poder sem morrer.
Como eu disse no comeo: a histria toda ainda no aconteceu. Nossos pais prometeram
nos ver novamente, ento eu sei que vamos ter que voltar a Terra dos Mortos
eventualmente, o que eu acho que est bem para Sadie, desde que Anbis esteja l.
Zia est em algum lugar por ai--- a Zia verdadeira. Eu pretendo ach-la.
Acima de tudo, o caos est se erguendo. Apophis est ganhando foras. O que significa
que temos que ficar fortes tambm--- deuses e homens, unidos como nos velhos tempos.
 o nico jeito de o mundo no ser destrudo.
Ento a Famlia Kane tem muito trabalho a fazer. E voc tambm.
Talvez voc queira seguir os passos de Horus ou Isis, Thoth ou Anbis, ou at mesmo
Bast. No sei. Mas o que voc decidir, A Casa da Vida precisa de sangue novo se voc
vai sobreviver.
Ento aqui  Carter e Sadie Kane desligando.
Venham ao Brooklin. Vamos ficar esperando.
                                   NOTA DO AUTOR
Muito dessa histria  baseada em acontecimentos, o que me faz pensar que at os dois
narradores, Sadie e Carter, fizeram um grande trabalho de pesquisa... ou eles esto
contando a verdade.
A Casa da Vida existiu, e foi uma parte importante na sociedade Egpcia por vrios
milnios. Se sim ou no existe hoje--- isso  algo que no posso responder. Mas,
inegavelmente, os magos Egpcios estavam famosos por todo o mundo antigo, e muitos
dos feitios que eles supostamente podiam lanar so exatamente como descritos nesta
histria.
A maneira com que os narradores descrevem a mgica Egpcia  tambm sustentada por
evidncias arqueolgicas. Shabti, varinhas curvadas, e caixas mgicas, sobreviveram e
podem ser vistas em muitos museus. Todos os artefatos e monumentos que Sadie e
Carter mencionaram realmente existem--- com a possvel exceo da pirmide
vermelha. Existe uma "pirmide vermelha" no Gis, mas s  chamada assim porque
sua cobertura de pedras brancas foi varrida, revelando o granito rosa por debaixo. De
fato, o dono da Pirmide, Senefru, estaria horrorizado em saber que sua pirmide estava
agora vermelha, a cor de Set. Para a pirmide vermelha mgica, mencionada na histria,
s resta esperar que ela tenha sido destruda.
Caso mais registros caiam em minhas mos, eu vou relatar a informao. At l,
podemos apenas torcer para que Carter e Sadie estejam errados em sua previso quanto
ao caos se erguendo...
                  Sabe aquele LIVRO que voc t louco pra ler?
Aquele BEST SELLER que todo mundo t lendo e voc ta doidinho por ele??
Ou aquele CLSSICO que voc precisa pra ESCOLA?
Ou ento aquela POESIA pra sua namorada chata que no se contenta com pouca
coisa...
Quer entender FILOSOFIA?
Quer entender MATEMTICA? CINCIA? MITOLOGIA?
Ou prefere aquele ROMANCE POLICIAL da Agatha Christie?
Ou talvez aquele ROMANCE  estilo Dirio da Nossa Paixo?
Ou aquele DRAMA  Espera de Um Milagre?
Mas tem tambm aquela FICO com VAMPIROS E LOBISOMENS que todo
ser racional adora!
Quer viajar pra OUTRO MUNDO?  s embarcar nas Fronteiras do Universo!
Ou talvez nas Crnicas de Nrnia!
Com um toque de MAGIA de Harry Potter e um pouco do PICO Senhor dos
Anis, ou talvez Eragon.
Ou voc prefere a TECNOLOGIA de Eu, Rob?
Que tal aprender uma NOVA LINGUA na seo de IDIOMAS?
Ou delirar nas CONSPIRAES de Dan Brown e companhia?
Um pouco de FOFOCA? Acesse o blog! Gossip Girl!
Quer mais um pouco do Rei do TERROR? Aqui tem um pouco e muito mais!
Ou talvez TEATRO? O ROMNTICO E TRGICO Romeu e Julieta? Pode ser
TAMBM Otelo. Oh, pobre Desdmona...
Ou A COMDIA dos Erros lhe agrada mais?
Mas se voc  CRENTE FERVOROSO que s anda com a BBLIA debaixo do
brao, agora voc poder dizer tambm que a tem no computador!
Mas que os MUULMANOS no fiquem com CIMES, pois tambm temos
ALCORO!

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           2010
